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Ministro do Supremo Tribunal Federal, Flávio Dino | Foto: Montagem Revista Oeste/Shutterstock/Flickr/STF
Edição 314

A toga como trincheira

Na cultura política marxista o Estado é um campo de disputa permanente

A recente decisão de Flávio Dino de abolir a aposentadoria compulsória para magistrados tem dado o que falar. Mas, no geral, o que se diz sobre o assunto tem sido inteiramente despolitizado ou apenas superficialmente politizado. No entanto, para se compreender o real significado desse seu movimento no tabuleiro do presente xadrez político, há que se proceder a uma compreensão política mais aguçada. Isso porque esse significado não se encontra na esfera do Direito Disciplinar ou na justificativa formal adotada, e sim na lógica de poder que o informa.

A primeira premissa da qual precisamos partir para compreender toda e qualquer ação do referido magistrado é essa: Flávio Dino é um comunista, um quadro treinado e disciplinado dentro da cultura política marxista-leninista. Ele é um comunista antes de tudo — ou seja, a sua identidade político-partidária precede os cargos e funções nominais que ele tenha ocupado, ocupe atualmente ou venha a ocupar no futuro. A lealdade de um comunista — esteja ele na estrutura partidária formal ou não — será sempre, em primeiro lugar, à causa comunista e ao projeto de poder do seu grupo político-partidário. Até porque um comunista é treinado desde cedo para desprezar como alienação o valor intrínseco das instituições e limitações formais do Estado e da sociedade burgueses.

Partindo dessa premissa, e para compreender o que um comunista enxerga quando olha para uma organização como a Suprema Corte de um Estado liberal moderno, teoricamente constitucional e limitado, convém recorrer a uma obra que, embora escrita no contexto da primeira metade do século 20, continua desconcertantemente atual: A Arma Organizacional: um estudo das táticas e estratégias dos bolcheviques, de Philip Selznick, professor de Direito e Sociologia da Universidade da Califórnia.

Selznick parte de uma constatação decisiva: mais que um corpo de ideias ou um movimento político, o leninismo é uma técnica de organização. Sua força não reside tanto no conteúdo doutrinário, mas na forma institucional que cria — uma forma capaz de operar em ambientes hostis, infiltrar-se em estruturas existentes e, sobretudo, transformá-las a partir de dentro.

A força do leninismo ignora o mero debate de ideias e opera como uma máquina implacável de infiltração para dominar as instituições por dentro | Foto: Wikimedia Commons

O conceito central da obra — a “arma organizacional” — descreve precisamente isso: a construção de instituições que não são apenas meios administrativos, mas instrumentos estratégicos de poder. Diferentemente das organizações liberais clássicas, que tendem a separar função administrativa e finalidade política, a organização leninista funde ambas num só movimento.

Aqui, a administração torna-se meio para a guerra política. Para tanto, a “arma organizacional” desenvolve algumas características essenciais. Primeiro, a disciplina interna: uma cadeia de comando clara, capaz de orientar comportamentos sem necessidade de coerção permanente. Segundo, a flexibilidade tática: a capacidade de adaptar o discurso e os meios às circunstâncias, sem abandonar o objetivo estratégico. Terceiro — e talvez mais importante —, a penetração institucional: a habilidade de ocupar posições-chave em estruturas existentes e, a partir delas, reconfigurar o funcionamento do todo.

Selznick mostra que esse processo não ocorre por meio de rupturas bruscas, mas por um processo lento e gradual de transformação. Em lugar de destruir de maneira visível o sistema que ocupa, a organização o utiliza, adapta e, pouco a pouco, o redefine em sua substância mesma. As regras e os cargos subsistem nominalmente, mas seus sentidos e funções se alteram. A linguagem formal é preservada, mas o conteúdo é deslocado.

Para a saúde do organismo social brasileiro, é urgente compreender Flávio Dino como produto dessa tradição política específica, e é perturbador constatar que, até mesmo na autoproclamada direita, há quem se deixe levar pela superfície dos acontecimentos. Sua formação — marcada por uma longa trajetória em ambientes intelectuais e partidários influenciados pela cultura marxista-leninista — não é um detalhe biográfico irrelevante. Ao contrário, ela é o fator explicativo número 1.

Na cultura política marxista — especialmente em sua vertente leninista —, o Estado não é um árbitro neutro, mas um campo de disputa permanente. Aliás, a mera ideia de que o Estado moderno pudesse se comportar com a racionalidade que lhe atribuiu Max Weber seria objeto do escárnio comunista. Da perspectiva organizacional leninista, as instituições não são fins em si mesmas, mas meios, os quais devem ser conquistados a todo custo — mediante os mais lindos pretextos e as mais comoventes declarações de lealdade às regras do jogo — e imediatamente postos a serviço da aniquilação do inimigo.

Vista sob essa luz, a atuação de Dino no Supremo deixa de parecer uma simples iniciativa de “aperfeiçoamento institucional” e menos ainda de “moralização” do Judiciário — uma palavra que arranca risos do comunista em seu travesseiro. Ela passa, então, a revelar uma lógica mais coerente com o modelo descrito por Selznick.

Ministro Flávio Dino em sessão da Primeira Turma do STF (18/3/2025) | Foto: Gustavo Moreno/STF
A atuação de Flávio Dino no Supremo expõe a falsa narrativa de moralização e revela a verdadeira tática comunista de aparelhar o Judiciário por dentro | Foto: Gustavo Moreno/STF

A aposentadoria compulsória, com todas as suas limitações, representava um mecanismo relativamente impessoal de disciplina. Imperfeito, sem dúvida — mas previsível, e restrito à esfera administrativa. Sua aplicação seguia padrões relativamente estáveis, limitando a margem de intervenção direta das instâncias superiores sobre a magistratura.

Ao questionar esse mecanismo em nome da moralidade, abre-se espaço para algo distinto: a substituição de um instrumento automático por formas mais flexíveis — e, portanto, mais controláveis — de sanção. Afinal, segundo a proposta desenhada por Dino, a perda do cargo dependerá, em última instância, de ação judicial a ser julgada no próprio STF. Vendida como aperfeiçoamento técnico, portanto, a medida funciona, na prática, como uma reconfiguração estratégica de controle institucional por parte do Supremo — como se, hoje, o poder do partido-corte já não fosse teratológico o bastante.

A mudança proposta pelo comunista-de-toga é crucial. Selznick enfatiza que a força da “arma organizacional” reside justamente na capacidade de transformar regras fixas em instrumentos maleáveis. Quanto maior a discricionariedade do centro, maior sua capacidade de coordenar o comportamento da periferia. Nesse cenário, já não é necessário emitir ordens explícitas. Basta que os agentes saibam que essas ordens são possíveis.

É assim que se produz o que Selznick chama de “controle por internalização”. Juízes, conscientes de que estão sujeitos a sanções mais severas e menos previsíveis, passam a ajustar seu comportamento preventivamente. A obediência não precisa ser imposta; ela se torna uma expectativa. E o resultado é um sistema em que a autonomia formal subsiste, mas a independência efetiva se estreita.

Esse tipo de transformação dificilmente se apresenta como tal. Ele vem sempre acompanhado de uma linguagem legitimadora. No caso em questão, a moralização do Judiciário cumpre exatamente essa função. Trata-se de uma bandeira incontestável, capaz de neutralizar resistências (sobretudo dos mais inocentes) e conferir legitimidade a mudanças estruturais. Selznick insiste neste ponto: a “arma organizacional” não opera por meio de gestos espetaculares, mas por acumulação. Cada mudança, isoladamente, pode parecer justificável. É o conjunto que revela a direção.

A análise de Selznick destrói a farsa da moralização ao provar que a autonomia do Judiciário vira pó quando a obediência pelo medo se torna a regra | Foto: Wikimedia Commons

A crítica à aposentadoria compulsória, portanto, não é falsa. Ela é incompleta. Ela identifica um problema real, mas o utiliza como ponto de apoio para uma mudança cujo alcance vai além da questão inicial. Porque o que está em jogo não é apenas a severidade das punições aplicadas a magistrados, mas o equilíbrio entre previsibilidade institucional e controle discricionário.

Flávio Dino atua para desequilibrar essa balança em favor da máxima concentração de poder discricionário nas mãos do STF. Mas a coisa funciona porque, no contexto presente, ele não precisa agir como um ideólogo militante ostensivo. Basta que atue como operador competente de uma lógica que lhe é familiar: a lógica da organização como instrumento de poder.

Selznick nos ensina que compreender o poder exige olhar além das justificativas imediatas e examinar a lenta deformação das organizações. É ali — e não na superfície das declarações — que se decide o destino das instituições. Como sempre ocorre nesses casos, quando o desenho final se torna visível, a estrutura já está, em grande medida, consolidada. E, ao fim, o comunista agradece pela desatenção…

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4 comentários
  1. Marcelo DANTON Silva
    Marcelo DANTON Silva

    Kkkk TRINCHEIRAS antes eram vistas, estereotipadas… com HOMENS de queixo quadrados, feições duras, corpos tinindo para o bom combate…tudo com fardamentos que potencializavam, mais ainda, a imagem de homens implacáveis!
    Foi se 40 anos e hoje assistimos impávidos, INCRÉDULOS, verdadeiros maricas, despreparados e desprezíveis corruptos de toga, FACCIONADOS, esbofeteando esses outrora…Homens em que depositávamos nossa fé …num alardeado …BRASiL do futuro!
    O BOSTIL til til til é esmo intankável em povo Covarde!! Sujos! FALSOS….A nódoas da PERFÍDIA jamais será removida das FFAA com esses comandos….JAMAIS!!

  2. Carlos Gomes Monteiro
    Carlos Gomes Monteiro

    Nossa sociedade de desatenciosos segue sendo submetida, cada vez mais, à exceção do regime. Hoje mesmo, dia 26, Flavio Dino votou contra a prorrogação da CPMI do INSS, para que, entre outras razões, ela não se torne um instrumento de investigação sem limite, com possibilidade de realização de pesca probatória. Disse isso seriamente, mas com o cinismo peculiar do comunista que sabe que a sociedade identifica a suprema incoerência presente no fato real de ele pertencer à corte que mantém eternamente prorrogável o “Inquérito do Fim do Mundo”.

  3. Daniel BG
    Daniel BG

    É claro que qualquer religião seja abominada pelos comunistas. Enfraquece a concentração do poder e deixa o ser humano ter esperança.
    Se Dino não se arrepende de ser quem se tornou, um monstro, mesmo assim, a vida é dele e a esquizofrenia também.

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