A entrevista com a franco-iraniana Maneli Mirkhan, especialista em Irã e fundadora da ONG Dorna, voltada para a transição democrática naquele país, descortina uma realidade bem diferente daquela mostrada pelo noticiário internacional. Sob um aparente clima de rendição à opressão do regime e à pressão da guerra, ela aponta um cenário oposto: há em campo uma coalizão de forças que aguarda o momento certo para voltar às ruas e derrubar o regime islâmico.
Maneli também explica, nesta entrevista, por que acredita haver pouco risco de que o país entre em colapso no momento da transição do regime, a exemplo do que aconteceu a vários de seus vizinhos no Oriente Médio. “O Irã não é a Síria ou a Líbia”, resume a especialista em uma frase. “A narrativa do separatismo foi criada pelos aiatolás e não reflete a realidade dentro da sociedade iraniana.”

De fato, o Irã — uma nação milenar, de base civilizacional, herdeira do Império Persa — percorreu um caminho distinto. Diferentemente de países como Iraque e Síria, formados no século 20 após o desastrado Tratado de Sykes-Picot, o país preserva uma estrutura histórica mais coesa e irradia uma identidade única.
O horizonte de Maneli é otimista, bem-informado e solidamente fundamentado. Vale a pena conhecê-lo.
Como você avalia o efeito dos ataques da coalizão Israel-EUA que objetivam o enfraquecimento das Forças de Segurança do regime?
O resultado é visível: seus soldados estão desorientados e sem comando. Suas centrais de comando estão sendo destruídas a cada dia, e eles começaram a usar instalações civis como bases: tomaram para si escolas, ginásios de esportes etc. Também seus meios de transporte estão sendo destruídos, e os vemos utilizando, por exemplo, as caminhonetes pertencentes a órgãos de serviço público. A eliminação de oficiais de alto escalão, e também de policiais e soldados, continua fortemente, e nessa semana os israelenses eliminaram dois líderes importantes: o comandante das forças Basij, Gholamreza Soleimani, e o chefe de Segurança do regime, Ali Larijani. Isso é, acredito, um divisor de águas. Tal nível de enfraquecimento, no entanto, carrega consigo o perigo de essas forças tornarem-se ainda mais perigosas nos próximos dias: quando não há um cérebro, tudo se torna irracional. Se antes poderia haver qualquer lógica por trás de suas ações, ela já não existe, o que pode resultar em mais violência, dentro e fora do Irã.
Você acredita que veremos o colapso das forças repressivas?
Já o estamos assistindo em tempo real, com uma onda crescente de deserções. Há relatos de policiais da força Basij que estão jogando fora seus telefones para que seus comandantes deduzam que estão mortos. Suas famílias estão temerosas, implorando para que permaneçam em casa. Centenas de soldados são feridos e mortos todos os dias — em um único ataque nesta semana, por exemplo, Israel eliminou 300 soldados Basij. [Israel passou recentemente a utilizar drones para realizar ataques cirúrgicos dentro das cidades.]
É realmente possível desmantelar uma estrutura de segurança de tamanho porte?
Acredito que sim, inclusive porque existe um fator psicológico. Os agressores estão experimentando um estado de fadiga moral, porque sabem que estão perdendo sua capacidade opressiva. A única coisa que os alimenta um pouco de energia é a propaganda do regime — e por isso é importante cortar os serviços de televisão e rádio. A realidade que é mostrada para eles não é real. A TV estatal já foi atingida, embora não completamente. [A televisão deverá ser um dos meios pelos quais a oposição organizará a população no momento adequado.] Há outros canais que também serão destruídos. Precisamos atingir uma massa crítica de pressão e, quando isso acontecer, a mudança será rápida.
Por que a população ainda não retomou as ruas?
Sob a República Islâmica, aprendemos que os grandes eventos precisam acontecer repentinamente, de surpresa. Do contrário, a repressão dissolve qualquer movimento antes mesmo de ele ganhar corpo. Há um forte movimento underground organizado, mas o mundo só o verá no momento em que os iranianos perceberem que é viável retomar as ruas. Veja: foram eles que pediram ajuda. Imploraram por esse ataque. Estão dispostos a assumir riscos. Neste momento, os organizadores dessa transição, o exército israelense e até mesmo Donald Trump estão pedindo que ninguém saia de casa, pois estar nas ruas sob bombardeios aumentaria o número de mortes e criaria dificuldades para os ataques aéreos. A questão mais importante, eu diria, é identificar o momento em que alcançaremos essa massa crítica, tanto de ataques e golpes contra as forças de repressão quanto de deserções, para que a população possa sair e retomar as ruas.
A sociedade iraniana é formada por diferentes minorias. Elas estão dispostas a atuar em conjunto?
Sim, o projeto de oposição é coletivo. Está sendo construída uma forte coalizão operacional entre todos os grupos — e ela garantirá eficiência na hora da transição. Estamos trabalhando duro nesse sentido.
O mundo lembra do que aconteceu na Síria, com a queda de Bashar al-Assad, ou no Iraque, desde o fim do regime de Saddam Hussein, e se pergunta se esse pode ser o destino do Irã após a queda do aiatolá.
A narrativa de separatismo foi criada pelo regime e não reflete a realidade dentro da sociedade iraniana. Ele a criou justamente para fomentar o medo da mudança e reforçar a ideia do regime como uma força estabilizadora. Temos entre nós três minorias numerosas: curdos, balúchis e azeris. Trabalho com todos e afirmo sem medo: nenhum deles tem agenda ou narrativa separatista. Claro que, como acontece em qualquer país, existem pequenos grupos que defendem essa causa. No entanto, há entre nós uma forte identidade iraniana, e por isso buscamos, em primeiro lugar, a liberdade do Irã. Caso haja, no futuro, algum grau de separação ou até federalização, isso ocorrerá dentro de um processo democrático, com um referendo popular. Mas são processos que só virão depois da transição. Entre nós, está muito claro: todos estão coordenados para empurrar para fora o regime.

Fala-se que os curdos iraquianos poderão juntar-se aos curdos iranianos e entrar no combate armado contra o regime. Isso não pode configurar uma tentativa de tomarem para si o poder?
Os curdos são reconhecidos no Irã por sua força combativa e vistos como uma força de libertação que serve a toda a nação. Eles são os melhores para essa ação, pois são combatentes experientes, possuem bases fora do Irã, onde podem ser treinados e abastecidos com armamentos. Seu avanço ajudaria os americanos a concluir a guerra e permitiria que os iranianos retomassem as ruas mais rapidamente. Nesse cenário, o Exército do Irã permitiria, no momento certo, a entrada de tropas curdas do Iraque e se juntaria a elas para libertar as cidades e avançar em direção a Teerã.
O Exército lutaria contra a Guarda Revolucionária do Irã (IRGC)?
Sim, pois a instituição é anterior à Revolução Iraniana. Muitos de seus comandantes foram substituídos por soldados da IRGC, mas não todos os soldados. A única questão é que ele só poderá agir quando o regime estiver à beira do colapso — caso contrário, a IRGC contra-atacaria, e isso levaria a uma guerra civil, algo que não queremos. É importante lembrar que a capacidade da IRGC é bem superior à do Exército do país, uma vez que todo o investimento dessas décadas de regime foi direcionado a ela. A atuação do nosso Exército foi relegada, nessas últimas décadas, à proteção de fronteiras.
Após a queda do regime, poderá surgir um cenário de crise humanitária?
Garantir a estabilidade é parte do nosso plano de oposição. Estamos preparados para manter a continuidade dos serviços públicos, uma vez que a oposição está presente em diferentes posições nas indústrias e nos ministérios. [Hoje, apenas 10% da população iraniana apoia o regime.] E essa continuidade ajudará a construir a confiança para que a população se empenhe na reconstrução do país, e também criará as condições que servirão como garantia aos fundos internacionais que nos ajudarão em nossa recuperação.
Os iranianos estão sendo avisados pelas Forças de Defesa de Israel (IDF) sobre os locais a serem atacados?
Sim. Recebem comunicação de acordo com a natureza da ofensiva — e a população já sabe que os ataques são precisos e não voltados aos civis. Quando se trata de uma instalação remota, não recebem instruções e seguem apenas o padrão: permanecer dentro de casa e longe de janelas, por causa do deslocamento de ar. Quando são áreas povoadas, há alertas recebidos pelas TVs por satélite e, quando possível, por telefone.
Você está a par do trabalho realizado pelos agentes do Mossad?
Aparentemente, eles estão fazendo um bom trabalho, uma vez que não temos conhecimento de suas atividades. No entanto, ao vermos o sucesso das operações, como aquela que resultou no assassinato do aiatolá Khamenei no primeiro dia do ataque israelense, entendemos que não se trata só de espiões, mas de deep information, big data, câmeras em locais estratégicos.
Como governos estrangeiros podem ajudar na transição do regime?
Eles devem forçar a mudança a partir de fora do país, enquanto o fazemos de dentro. Já deveriam, por exemplo, ter expulsado os diplomatas iranianos de seus países após os massacres — apenas dois países o fizeram. É preciso mais. É uma questão de massa crítica. A comunidade internacional tem um papel vital nesse movimento. Estamos unindo as duas oposições, a interna e a externa, e ganhando empoderamento com essa união. Também será fundamental que, quando chegar o momento, a comunidade internacional reconheça rapidamente a mudança de regime. Isso ajudará a acelerar o processo de transição e garantirá sua estabilidade.
Dezenas de milhares de pessoas foram e continuam sendo presas como opositoras políticas pelo regime. O que se sabe sobre elas?
Sabemos que uma pequena parte foi libertada como efeito da deserção de membros das forças de segurança. Além disso, ainda hoje continuam ocorrendo prisões em massa. Há muitas pessoas desaparecidas, as quais não constam em nenhuma lista. Nós as consideramos, neste momento, como “deslocadas”. Conhecemos a estratégia terrorista do regime e seu apreço por reféns — e isso nos deixa apreensivos. Já vimos como eles utilizam não apenas os civis, mas também as instalações civis, em seu benefício. Assim, não é impróprio temer que possam usar prisioneiros políticos como escudos humanos em áreas de alto risco. Precisamos trabalhar com essa hipótese.
Os iranianos apoiam essa guerra?
Veja: todos estão pagando um preço alto, e esse esforço precisa resultar em uma paz sustentável no Oriente Médio. Até mesmo os europeus, que têm sido conservadores em sua opinião sobre a transição de regime, hoje entendem que ela é necessária para a paz na região. Todos os iranianos dirão que são contra a guerra, mas que a guerra contra o regime é necessária. Queremos acabar logo com isso. Ninguém sabe exatamente quando ou como acontecerá, mas estamos mais confiantes hoje do que em janeiro. Não temos escolha: já fomos longe demais para voltar atrás.
Leia também “A fúria épica de Trump”




Excelente artigo Miriam Sanger, Irã merece ter um governo digno e democrático de fato. Fiquei muito feliz em saber que apenas dez por cento dos iranianos estão apoiando o governo dos Aiatolas. Muito sofrimento de um povo que alcançou um alto nível de conhecimento e instrução. Espero que possam viver em um país próspero e livre.