A poucos metros do trânsito caótico da Avenida Faria Lima, perto do cruzamento com a Avenida Rebouças, existe um oásis adornado por árvores frondosas e fontes de águas claras. Quem caminha pelo térreo — onde o silêncio da natureza abafa o ruído da megalópole — nem desconfia que, nove andares acima, está em andamento o jogo do poder no Brasil. Ali vive Gilberto Kassab — um dos mais habilidosos articuladores políticos do país.
Vereador, deputado estadual, deputado federal, vice-prefeito, prefeito, secretário municipal, secretário de Estado, além de ministro das Cidades, da Ciência e Tecnologia e das Comunicações, Kassab acompanha com aguda atenção todos os movimentos no tabuleiro eleitoral. Seu apartamento é ponto de encontro de políticos interessados na disputa que se aproxima. Quando a reportagem de Oeste chegou para entrevistá-lo, Kassab estava numa dessas reuniões. Cerca de uma hora depois, o interfone tocou: outro visitante acabara de chegar. Já eram quase 19h.
Fundador do PSD, Kassab lançou o nome de Ronaldo Caiado, ex-governador de Goiás, para disputar a Presidência com Lula e Flávio Bolsonaro. Para vencer os dois primeiros colocados nas pesquisas de intenção de voto, aposta no cansaço da população com a polarização política. “O Caiado é de direita, mas não de uma direita de marketing radical”, afirma. “Ele representa uma direita moderada, de resultados.” Para Kassab, cabe ao eleitor recolocar o país — e os Três Poderes — nos trilhos. “O Brasil precisa de uma concertação.”

Confira os principais trechos da entrevista.
Quando o PSD foi fundado, ficou famosa a frase segundo a qual o partido não seria nem de direita, nem de esquerda, nem de centro. Em 2026, essa definição ainda faz sentido?
Aquela frase foi uma montagem. Ela foi dita num momento em que o partido ainda não tinha registro nem programa. A frase completa era: “Não é nem de esquerda, nem de direita, nem de centro, porque estamos construindo um programa, um estatuto, sob a coordenação do Guilherme Afif Domingos. Estão vindo lideranças mais à esquerda, outras mais à direita”. E completei: “Se depender de mim, será um partido de centro”, como efetivamente é. Pegaram aquele trecho e transformaram nessa frase, que, na verdade, não é depreciativa. Hoje, muitas lideranças se apresentam dessa maneira. A questão não é ser de direita, de esquerda ou de centro, mas de eficiência, transparência e honestidade. Mas, objetivamente, o PSD é um partido de centro.
A polarização continuará forte nesta eleição?
Hoje existem dois candidatos herdeiros de um país polarizado: Lula, representando o PT, e Flávio Bolsonaro, representando o bolsonarismo. Mas a rejeição aos dois é alta. Há espaço para algo diferente. Essa polarização já está sendo questionada pela sociedade. As pesquisas indicam rejeição elevada ao Flávio, em torno de 40%. A do Lula é ainda maior. São índices muito altos. Não me surpreenderia se nenhum dos dois ganhasse a eleição.
Como o senhor pretende aumentar a competitividade de Ronaldo Caiado na disputa presidencial?
Três meses atrás, o Caiado nem era candidato. A escolha do partido pelo nome dele aconteceu há cerca de dez dias. Ou seja: em menos de duas semanas de campanha, ele já se consolidou em terceiro lugar. E ainda vai crescer, porque é um candidato que tem nome, boa imagem, propostas e realizações para mostrar.
Existe a possibilidade de o senhor ser vice numa chapa com Caiado?
Isso é boato. A ideia é buscar uma aliança. A convenção é só em julho; temos praticamente três meses até lá. Se o Caiado crescer um pouco, há grande chance de algum partido resolver se juntar a nós. Aí o cenário muda.
Por que o senhor aposta em Caiado como alternativa?
Sou adepto do diálogo. Não acho que o PT seja o modelo que o Brasil quer. E Jair Bolsonaro, embora tenha um perfil mais próximo do meu, deixou muito a desejar como presidente. O Caiado é de direita, mas não de uma direita de marketing radical. Ele representa uma direita moderada, de resultados.
Como o senhor definiria o estilo de governar de Caiado? Seria um Javier Milei (presidente da Argentina) mais moderado?
Javier Milei encontrou terra arrasada na Argentina. O Brasil ainda não é terra arrasada, mas pode ficar. Com o Caiado, nós nos afastaríamos dessa perspectiva. Eu não o compararia ao Milei. Acho que ele se parece mais com Margaret Thatcher: alguém corajosa, firme, sem preocupação com popularidade, que governa com base no que precisa ser feito.
Qual será a grande bandeira desta eleição?
Há três meses eu diria segurança pública. Hoje, as grandes pautas são segurança e corrupção. Mas o candidato que não tiver um bom plano para saúde e educação quebrará a cara, porque 70% da população brasileira não têm plano de saúde privado e dependem do SUS. Se for candidato à reeleição, terá de mostrar o que fez. Se for um nome novo, terá de apresentar uma boa proposta. Quem não tiver isso, ou não souber comunicar, perde.
O PSD tem ministros no governo federal. O partido aprova o terceiro mandato de Lula?
Não é o partido que está no governo federal. São pessoas filiadas ao partido.
Mas como o senhor avalia o governo Lula?
É um governo que deixa a desejar. Por isso digo que o Caiado tem chance. Bolsonaro não deu respostas para os grandes problemas do Brasil. Tanto é que o Lula voltou. Mas o Lula também não deu. Nenhum dos dois acabou com a corrupção, melhorou a segurança ou aumentou a transparência.
O que um presidente poderia fazer nessa área?
Se quiser, o governo federal publica um decreto dizendo: “A partir de agora, só vamos assinar convênio com município ou Estado que adotar esse programa de transparência”. Se eu fosse presidente, faria isso. Daria à imprensa e à sociedade a oportunidade de me ajudar a fiscalizar. Não precisaria requisitar documento, acionar Ministério Público. Estaria tudo exposto.
Caiado faria isso?
É uma boa pergunta para fazer a ele. Eu gostaria que fizesse. Essa é uma bandeira do partido, assim como o voto distrital, que considero fundamental. As pessoas votam melhor, conhecem o candidato de perto, fiscalizam mais. Hoje o eleitor vota e, uma semana depois, nem lembra em quem votou.
Mas isso depende também do Congresso. O senhor acha que os parlamentares têm interesse nisso?
Hoje, sim. Celebridades, youtubers, atletas — alguns com vocação política, mas a maioria não — estão tomando conta do Congresso. Daqui a pouco serão maioria. Isso já incomoda quem faz política com seriedade. O voto distrital reduz esse fenômeno. Obriga o candidato a se apresentar, a pedir voto na padaria, no cartório, na farmácia, a debater no jornal local. Isso mudaria bastante o cenário político.
Muita gente diz que o senhor faz política 24 horas por dia, inclusive aos fins de semana. É assim mesmo?
Estou há 40 anos na vida pública e tenho muitos amigos nela. Então, muitas vezes, no fim de semana, acabo me encontrando com essas pessoas e falando de política. É como em qualquer profissão. Meu pai era médico, visitava os amigos médicos e falava de medicina. É natural. Eu gosto de trabalhar, gosto do que faço. A vida pública me atrai. Mas, em geral, aos fins de semana eu maneiro bastante. Tenho uma rotina quase diária no Clube Pinheiros, faço caminhada, academia, atividades esportivas. Só não jogo mais futebol porque o joelho está prejudicado. Também tenho uma relação muito próxima com a minha família.
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, está fazendo um bom governo?
Sim. Merece a reeleição. Inclusive, eu defendia o nome dele para a Presidência. Diziam que eu fazia isso porque queria ser candidato a governador, mas não é verdade.

O senhor gostaria de ser vice-governador numa chapa com Tarcísio?
Vice é quem ele quiser. Fizeram uma avaliação errada. Quando o nome do Felicio Ramuth (atual vice-governador) começou a circular como candidato a vice ou a governador, eu disse que aquilo não era uma indicação partidária, mas uma decisão pessoal. Sugeri que ele procurasse outra legenda, e ele procurou, sem nenhum estresse. Foi apenas uma questão de postura.
Quantos senadores o PSD espera eleger em outubro?
Há nomes competitivos em vários Estados. Somando tudo, entre mudanças partidárias e acomodações entre a eleição e a posse, acredito que o PSD ficará com algo entre 10 e 14 senadores.
O próximo Senado será mais conservador?
Acredito que sim. Se esse campo eleger, em média, um senador por Estado, os conservadores podem chegar a 37, contando com os que já estão lá — e estou jogando esse número para baixo. Para formar maioria, são necessários 41. Há, portanto, uma chance real de o Senado se tornar majoritariamente conservador. Mas isso não significa, automaticamente, conquistar a presidência da Casa.
Um impeachment de ministro do Supremo ainda é uma hipótese distante?
Acho que o Brasil precisa de uma concertação. É preciso tomar muito cuidado para não entrar numa guerra fratricida. Agora, evidentemente, não dá para as coisas continuarem como estão.
Como resolver a situação atual?
As instituições precisam funcionar melhor. O Senado precisa ser mais presente, exercer mais o poder de fiscalização. Hoje, exerce mais um papel de parceria. Sou democrata. Acredito nas instituições e na harmonia entre os Poderes. A ideia do confronto não me seduz.

O Supremo avançou além dos limites institucionais?
Acho que o Legislativo e o Judiciário têm errado. Ambos vêm invadindo competências e deixando de exercer as suas. Harmonia não significa concordância. A convivência entre os Poderes é fundamental, mas justamente por serem três, um precisa fiscalizar o outro. O Legislativo fiscaliza o Executivo e o Judiciário; o Judiciário julga; o Executivo governa. Falta uma orquestração entre eles. O Brasil merece ver seus Poderes voltarem à plenitude de suas funções.
O Legislativo também falhou?
Sim. Hoje há uma preocupação excessiva com emendas. Falta discussão séria e profunda sobre políticas públicas. Não quero generalizar, mas, em grande parte do tempo, muitos parlamentares estão mais voltados a questões paroquiais do que ao papel institucional que deveriam cumprir.
O escândalo do Banco Master pode ter impacto eleitoral?
Acho que os escândalos do Banco Master e do INSS são explosivos e precisam ser cuidadosamente investigados, porque envolvem muitas pessoas. Mas é preciso apurar com cuidado para que não haja, em nenhuma hipótese, injustiças. Porque as injustiças depois deturpam a conclusão final.
O Brasil vive hoje uma democracia plena?
A gente vive uma democracia. Está um pouquinho doente.
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Kassab é o que tem de pior na politica. So joguinhos por interesse, nada pelo país
Kassab representa a contribuição e a manutenção de tudo o que o país está vivendo.
Pratica a mesma política de Sarney e outras raposas da vida pública.
Um país com sua Constituilção Federal estuprada por quem deveria guardá-la e protegê-la e ele foi capaz de dizer que vivemos numa “democracia” um pouco doente?
Kassab, de tonto, nem o jeito de andar …
Sempre foi um gângster !
É bom lembrar que foi esse chefe do Centrão que tirou Lula da cadeia, apenas por rejeitar a administração austera de Bolsonaro. Mesmo considerando Caiado um bom candidato, jamais votarei num candidato do Centrão, prefiro que o país desabe com o descondenado. O Centrão representa toda cleptocracia que o Brasil precisa expurgar, é um parasita do Estado brasileiro, um câncer em nossa história.
Esse Kassab é pior do que cocô de cabra e esse Caiado vem caiando há tempo, duas desgraças. Esse Kassab quando assumiu o governo de São Paulo no lugar de Covas, meteu a mão em um bilhão e meio, a justiça confiscou depois devolveu. Desde o tempo de Sarney que a gente só vê roubo dos cofres públicos e ninguém fica preso porque eles dão a parte da justiça
As respostas de Kassab são evasivas, portanto não confiáveis. Elas reforçam tudo que muitos já sabem sobre ele.
Em algumas colocações está correto em outras não. Acho que ele vive sobre um grande muro
Branca e Cristyan, creio que faltou perguntar o que KASSAB achou da farsa do 8 de janeiro e o comportamento dos seus atuais senadores que tudo fazem para votar com o governo Lula.
As coisas precisam mudar um pouco, para continuarem como estão. A frase de Tancredi na obra Il Gatopardo mostra a proposição dele. Mudar um pouco, para ficar tudo como está.
Kassab tem cheiro de naftalina.
Parabéns pela entrevista que ajuda compor a figura.
Só lembrabdo quando Rodrigo Pacheco era presidente do Senado ele segurou dezena de pedidos de impeachment de Ministros do STF, na ocasião o Senador era do PSD. Kassab é a velha política.
O partido do Kassab é responsável por travar as votações das CPI do INSS e do Banco Master, também da CPI do covid, não participam de nenhum avanço prático para o Brasil. Fazem parte da turma de “deixa disso”. Jamais vão pautar ou votar a favor de impeachment de ministros do supremo. É um partido de esquerda disfarçado de direita, são petistas e psolistas disfarçados.
Sempre em cima do Muro , sou totalmente contra partidos de centro , sempre navegam no barco de quem esta no poder , para ganhar um ministério aqui , uma verba diferente ali …. então não me representa nunca .
Aliás Ja começou errado , dizendo que o “Lula deixou a desejar” e “que ainda não somos terra arrasada” … Como é que é ??? Mafia do Inss e Vorcaro para ficar no começo
Kassab continua o mesmo. Pelo visto vive em um patamar financeiro acima de muitos. Dois pontos a comentar :Jair Bolsonaro conseguiu entregar ao seu sucessor não um País arrasado apesar da Covid,e Flávio Bolsonaro está acima nas pesquisas pois demonstra equilíbrio e bom-senso para levantar a terra arrasada de roubos e corrupção do atual governo.
Nada de novo. Platitudes sem consistência, arrazoados impertinentes e a prudente distancia de temas que merecem posições firmes. É o bagre ensaboado de sempre. Estamos mal.
Concordo com vc Vicente em gênero, número e grau.