Quando é que a covardia vira cumplicidade? Pensei nisso no domingo de manhã, quando meu passeio de bicicleta pelo Woodcock Park, em Harrow, foi interrompido por uma longa fita de isolamento policial. Foi chocante ver esse recanto arborizado, com seu riacho manso, transformado em cena de crime. Logo deduzi duas coisas: primeiro, que o alvo teria sido a sinagoga na beira do parque; e segundo, que a reação da turma falante diante dessa mais recente selvageria contra os judeus da Inglaterra teria sido tão branda e serena quanto o parque costuma ser.
Acertei nos dois casos. Uma busca rápida no Google confirmou: durante a noite, a Sinagoga Kenton United foi alvo de um ataque incendiário. Um tipo de coquetel molotov foi arremessado pela janela de uma sinagoga em Londres, no último fim de semana. Por misericórdia, o instrumento caseiro de terror fascista não pegou fogo como se pretendia, e a sinagoga foi tomada apenas por fumaça. Iniciou-se, então, mais um ato funesto — e previsível — no espetáculo antissemita, contra nossos compatriotas judeus: o silêncio boçal e covarde dos “virtuosos”.
Sejamos claros: os judeus da Inglaterra estão sendo aterrorizados, e a esquerda está calada. Estão sofrendo uma campanha de ódio nos moldes do fascismo, mas os supostos antifascistas não dão um pio. O racismo mais antigo do mundo ressurgiu sangrento, e os influenciadores “antirracistas” ou não notaram, ou não ligam, ou se divertem. Como explicar o silêncio covarde diante dessa violência racista? “Nós teríamos escondido judeus no sótão”, adoram dizer esses moralistas “progressistas” cheios de si, quando as únicas coisas que escondem em seus sótãos são bandeiras da Palestina, keffiyehs e cartazes dizendo “Sionismo é câncer”.
A situação não poderia ser mais grave. A tentativa de queimar a Sinagoga Kenton United foi o terceiro ataque violento a uma instituição judaica em Londres em uma semana. Houve também a tentativa de incendiar a Sinagoga Finchley Reform na quarta-feira. No meio da noite, dois encapuzados atiraram garrafas cheias de gasolina. Felizmente, o dano foi mínimo. Na sexta, um cara deixou uma bolsa com três garrafas de líquido inflamável do lado de fora das antigas instalações da Jewish Futures, em Hendon, uma instituição de caridade judaica que trabalha com educação. Elas não chegaram a pegar fogo. No mês passado, quatro ambulâncias de instituições judaicas foram incendiadas e destruídas em Golders Green num ato de ódio racial. No ano passado, dois judeus foram mortos no Yom Kippur no atentado executado por islamistas na Sinagoga Heaton Park, em Manchester.

Essas três tentativas de incineração na semana passada não deixam dúvida: está em curso uma campanha de terror contra os judeus da Grã-Bretanha. A mensagem desses piromaníacos nazistas é clara e doentia: vocês não estão seguros aqui. Seja em seus bairros, nas instituições educacionais, nos lugares de culto, ou onde quer que estejam, encontraremos vocês. É uma cruzada violenta para roubar dos nossos cidadãos judeus o que todo britânico deveria ter — a sensação de pertencimento, de segurança. Esses canalhas armados com gasolina querem tornar insuportável a vida dos judeus no Reino Unido.
Pior: há suspeitas de que a República Islâmica esteja envolvida nesse renascimento violento da perseguição aos judeus. Um grupo chamado Harakat Ashab al-Yamin al-Islamia assumiu a responsabilidade por alguns desses incêndios no Reino Unido e outros ataques a judeus na Europa. Acredita-se que seja um proxy ou pelo menos um “fã-clube” da tirania em Teerã. Depois da tentativa fracassada de queimar a sinagoga em Kenton no último fim de semana, a polícia disse que está “atenta” à “ameaça de agressões pelo Estado iraniano no Reino Unido”.

É possível que judeus britânicos estejam sendo aterrorizados por ordem de um regime estrangeiro. É possível que a teocracia islâmica do Irã esteja travando uma guerra de atrito contra judeus em Hendon, Kenton, Finchley. Se a ligação dos ataques com o Irã for confirmada, a resposta do governo deve ser o fechamento imediato da embaixada iraniana e a expulsão de todos os diplomatas iranianos. Não pode haver qualquer leniência com regimes que incentivam militantes racistas a pegar em armas contra judeus britânicos. A aliança doentia e suicida entre a esquerda e o islamismo, que vive dando desculpas ou aplaudindo abertamente a República Islâmica e seu “eixo de resistência”, agora é moralmente indistinguível de Oswald Mosley e sua turba, que faziam o serviço sujo do fascismo na Grã-Bretanha.
A elite pseudosocialista da Grã-Bretanha que defende Teerã vai dizer: “Foram só umas bombinhas de gasolina caseiras. E nem pegaram fogo”. Embora fracassados, os ataques tiraram a paz dos judeus em Londres. Qual sinagoga será a próxima? As futuras tentativas serão bem-sucedidas? Essa é a missão do terrorismo — aterrorizar. Além disso, a explosão de ódio antissemita na Austrália depois de 7 de outubro de 2023 também começou assim, com intimidações “leves”, incluindo bombas incendiárias atiradas contra sinagogas. Sabemos como as coisas terminaram por lá. É pela raiz que a ameaça islamo-fascista deve ser arrancada, antes que tenha consequências mais graves, e atinja mais que tijolos e argamassa.
Cheguei ao ponto em que o silêncio “progressista” depois desses ataques me perturba mais que o barulho da violência em si. É uma tragédia que a selvageria antissemita da República Islâmica e de seus bajuladores no Ocidente já seja esperada. O que causa, de fato, espanto e perturbação é a covardia da elite cultural. Uma semana inteira de terror contra judeus em Londres, e o governo solta só uns comentários protocolares enquanto a mídia elitista se solidariza por um breve instante antes de voltar a atenção para outro escândalo político. Cadê a revolta? Cadê a fúria justa daqueles liberais que diziam que tudo, de Brexit a Trump, era “como nos [terríveis] anos 1930”, mas que agora parecem tão desalmados e indiferentes a bombas incendiárias arremessadas contra sinagogas?
A pretensa oposição da esquerda ao racismo desceu pelo ralo. Foi exposta como uma mentira grotesca pela própria mudez passiva diante de sinagogas atingidas por fogo. A esquerda ficou mais indignada com a decisão da Suprema Corte afirmando que homem não é mulher do que com uma semana de atentados incendiários antissemitas em Londres. Eu não sei nem do que chamar uma classe de ativistas que demonstra mais interesse em defender o direito de homens usarem o banheiro que lhes der na telha do que o direito de judeus viverem em segurança. Só sei que não é de “antifascista”.
Os terroristas no nosso meio não estão mexendo só com os judeus da Inglaterra, mas com todos nós. Estão lançando não só bombas de gasolina, mas um desafio à Grã-Bretanha, para se vai defender seus judeus ou traí-los. Neste momento, estamos perdendo feio. A sociedade civil dorme. O governo está ocupado demais — salvando a própria pele — para salvar a comunidade judaica britânica. E os “progressistas” seguem com sua demonização cega e demente do Estado Judeu e de todos aqueles que o apoiam, pendurando um alvo no pescoço dos judeus da Grã-Bretanha. Há um momento em que o silêncio vira cumplicidade. É quando a indiferença moral ajuda a normalizar a selvageria. É quando nosso silêncio é visto pelo inimigo fascista como permissão para mais violência. Esse momento chegou.
Brendan O’Neill é repórter-chefe de política da Spiked e apresentador do podcast The Brendan O’Neill Show, também da Spiked. Seu novo livro, After the Pogrom: 7 October, Israel and the Crisis of Civilisation, foi lançado em 2024. Brendan está no Instagram: @burntoakboy
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Artigo perfeito. Parabenizo o autor por cada palavra, cada frase , com as quais concordo totalmente . Os que se consideram civilizados nao podem ficar indiferentes a tamanha ignominia.
Situação aterrorizante.