Na noite anterior à sabatina de Jorge Messias na Comissão de Constituição e Justiça do Senado, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), promoveu um jantar em sua casa de Brasília. Publicamente, o magistrado afirmou que o encontro servia apenas para homenagear o “velho amigo” Mário Sarrubbo, ex-secretário Nacional de Justiça. Nos bastidores, porém, o regabofe, que reuniu entre os principais convidados o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), ministros da Corte, parlamentares e autoridades da República, teve como prato principal a cabeça do advogado-geral da União (AGU).
Durante a festa, Alcolumbre aproveitou as conversas reservadas para consolidar o placar que, horas depois, transformaria Messias no primeiro indicado rejeitado pelo Senado para o Supremo desde 1894. O resultado, humilhante para o Palácio do Planalto, registrou 42 votos contrários e somente 34 a favor — eram necessários, no mínimo, 41.
Via Crucis
A derrota histórica e o convescote de Moraes foram apenas os últimos capítulos de uma articulação política que começou no dia em que Lula oficializou o nome de Messias, em novembro de 2025, pouco mais de um mês depois da aposentadoria antecipada de Luís Roberto Barroso. A partir daí, o AGU passou a enfrentar resistências simultâneas no Senado e, principalmente, entre ministros do STF. Parte relevante da insatisfação nasceu da frustração do centrão e de setores do establishment político da capital federal, que trabalhavam por Rodrigo Pacheco (PSD-MG). Sob a gestão de Pacheco no Parlamento, comissões estratégicas da Casa ficaram com legendas de centro e emendas milionárias nunca deixaram de abastecer os cofres dos parlamentares. Ele também ficou conhecido por honrar os acordos políticos.

Paralelamente, Pacheco se aproximou do decano do STF, Gilmar Mendes (assíduo frequentador do gabinete do congressista), e criou um escudo em torno de ministros como Moraes. Nenhuma medida que propusesse reduzir o poder do tribunal ou pedido de impeachment contra integrantes da Corte prosperou nesse período, mesmo depois da apresentação de uma petição popular com mais de três milhões de assinaturas exigindo a destituição de Moraes. Pacheco aceitou ainda, sem titubear, a decisão do STF de autorizar a abertura da Comissão Parlamentar de Inquérito da covid-19, que desgastou o governo Bolsonaro.
Embora mantivesse boa relação com alguns integrantes do STF, Messias jamais conseguiu construir pontes sólidas com os ministros mais influentes da Corte. O AGU tinha interlocução frequente com André Mendonça, que o aproximou de Luiz Fux e Nunes Marques. Do outro lado do tribunal, no entanto, enfrentava resistências silenciosas e antigas. Com Moraes, a relação nunca passou da formalidade institucional. Já com Gilmar, apesar da convivência protocolar, faltava proximidade política. O cenário era ainda pior em relação a Flávio Dino. Nos bastidores de Brasília, parlamentares lembravam que Messias atuara contra a indicação do então ministro da Justiça ao STF, articulando resistências dentro do governo e tentando se cacifar para a vaga aberta com a saída de Rosa Weber. Dino nunca esqueceu o movimento do colega.
O clima fechou mais quando o caso Master ganhou maiores dimensões. O avanço das investigações ampliou a desconfiança de Moraes em relação ao governo Lula, sobretudo pela percepção de que o Executivo adotava postura hesitante diante de apurações da Polícia Federal. Nesse contexto, Mendonça ganhou muito protagonismo ao assumir a relatoria de dois processos relevantes: um ligado ao banco, após Dias Toffoli sair do caso em virtude de sua relação de proximidade com o ex-dono da instituição, Daniel Vorcaro; e outro relacionado às investigações sobre fraudes bilionárias no Instituto Nacional do Seguro Social, o INSS.
O fortalecimento de Mendonça alterou o equilíbrio interno do STF. Velho aliado de Messias desde os tempos da AGU, Mendonça se transformou rapidamente no principal fiador de sua candidatura dentro da Corte. Entre quatro paredes, o ministro acertou aliança nas pautas de costumes, mesmo ouvindo de Messias que ele teria de apoiar o governo em pautas de interesse de Lula na economia. Mendonça, então, passou a telefonar para senadores com a ajuda de Nunes Marques, atuou nos bastidores da sabatina e tentou reduzir resistências até mesmo na oposição ao nome escolhido por Lula. A movimentação, todavia, produziu efeito colateral. À medida que Mendonça acumulava espaço político e processos sensíveis, Messias passou a ser identificado, dentro do Senado e da ala de Moraes no STF, como do grupo de influência de Mendonça. Na reta final, a muito custo, Messias conseguiu a ajuda de Gilmar, que fez declarações públicas de endosso à candidatura, e de Cristiano Zanin, que quis acalmar Moraes.

Messias tinha outro fator que pesava contra si: a falta de construção de pontes políticas com o Congresso. Diferentemente de nomes tradicionalmente cotados para o Supremo, o AGU nunca cultivou relação orgânica com o Senado nem desenvolveu uma rede sólida de interlocução entre líderes partidários, caciques do centrão e presidentes de comissão. Sua atuação concentrava-se majoritariamente no Planalto, tribunais superiores e no núcleo jurídico do governo federal.
O desgaste entre Alcolumbre e o governo Lula agravou ainda mais o cenário. O congressista acumulava insatisfações com Lula por causa da falta de distribuição de cargos em estatais, liberação de emendas e controle de ministérios poderosos, como os da Educação e da Saúde. A crise ganhou tração depois da saída de Fabiano dos Santos da presidência dos Correios. Nos bastidores, Alcolumbre esperava influenciar diretamente a escolha do sucessor como gesto político de reaproximação do governo. O espaço acabou ocupado sem contemplar as suas exigências ao PT.
Entrada da oposição
A resistência a Messias ganhou musculatura definitiva quando Alcolumbre começou a abrir canais diretos com lideranças da oposição. Inicialmente, bolsonaristas enxergavam com desconfiança a articulação conduzida pelo presidente do Congresso, historicamente associado a ministros do STF e a pautas de interesse do governo Lula. O cenário mudou à medida que o parlamentar passou a oferecer dividendos políticos concretos em troca de apoio contra o AGU. Nos bastidores, Alcolumbre sinalizou a senadores conservadores que trabalharia pela derrubada dos vetos de Lula ao Projeto de Lei da Dosimetria, proposta considerada prioritária pela direita por rever punições relacionadas ao 8 de janeiro. O gesto funcionou como ponto de convergência entre o centrão e os conservadores, especialmente porque o tema mobilizava fortemente a base.

A aproximação ganhou tração principalmente com os senadores Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e Rogério Marinho (PL-RN), que passaram a atuar como interlocutores da resistência ao nome de Messias dentro da oposição. O cálculo era pragmático para ambos os lados. Enquanto a oposição enxergava a oportunidade de impor ao governo Lula uma derrota histórica e colher dividendos políticos junto ao eleitorado conservador, Alcolumbre consolidava-se como fiador de uma nova maioria informal no Senado, capaz de unir centrão, setores independentes e até parcela da direita.
Em conversas reservadas, o presidente do Congresso também passou a transmitir outra mensagem que ajudou a consolidar apoios: a de que a vaga aberta no Supremo talvez não fosse preenchida ainda em 2026. A sinalização alimentou, entre líderes partidários e setores da oposição, a expectativa de que o próximo presidente da República pudesse herdar a indicação para a Corte.
Golpe final
Na manhã da sabatina de Messias, o governo Lula ainda operava sob clima de relativa tranquilidade, sobretudo depois de ter liberado cerca de R$ 20 bilhões em emendas ao Parlamento, para assegurar a vitória do indicado, e ter sido informado pelo líder do Senado, Jaques Wagner (PT-BA), que estava tudo dentro da normalidade. Em gesto público de prestígio, Lula enviou o ministro da Defesa, José Mucio, ao Senado, e o decano do STF mandou Guiomar Mendes, sua ex-mulher, à Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), para apoiar Messias. Apesar da resistência conhecida, ministros palacianos e do STF acreditavam que o AGU seria aprovado, mas bem apertado.
Enquanto Messias se submetia à pressão dos senadores na sabatina, nos corredores, Moraes endereçava recados a congressistas com processos no STF. Dino também atuava longe dos holofotes. Ex-senador e profundo conhecedor das engrenagens políticas da Casa, o ministro do STF telefonou para parlamentares maranhenses a fim de virar votos tanto na sabatina quanto no plenário do Senado. Anestesiado, o governo só percebeu a gravidade da situação nos momentos finais, quando o microfone de Alcolumbre vazou a seguinte declaração a Wagner, que sorria ao lado do presidente: “Acho que vai perder por oito”.
A derrota de Messias carregou, para muitos em Brasília, contornos quase bíblicos, principalmente pelo fato de o AGU ser evangélico. Após três anos ajudando o governo Lula a sustentar a narrativa segundo a qual o 8 de janeiro representou uma tentativa de golpe de Estado, Messias acabou ele próprio vítima de uma rasteira do establishment brasiliense. Cercado por aliados de ocasião, bajulado em público e exaltado nos salões do poder, o AGU terminou traído justamente à mesa daqueles que sugeriam que iriam sustentá-lo. Como numa versão tropical da Santa Ceia, o “Messias” da República descobriu tarde demais que, em Brasília, até os mais próximos podem agir como Judas.

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Mesmo com a rejeição do office boy a política continua um circo com os personagens dos três poderes no picadeiro e o povo brasileiro sendo lateralmente vilipendiado roubado por essa corja de ladrão comunista terrorista narcotraficante assassinos vigaristas imundos podres
Belíssimo texto , o qual só consegui terminar de ler tapando o nariz.
E o supremo traidor foi o Alcolumbre, que pagou o apoio da direta com uma moeda podre, a quebra do veto da Lei da Dosimetria, que apenas uma semana após a quebra foi suspensa prlo ministro Alexandre de Morais. A reação de Alcolumbre desvendará se foi jogada combinada para consecução dos seus objetivos sem aplicação pratica da Dosimetria! A ver!
Na minha época de comunicador a expressão mais utilizada era de a traição era o combustível da política, desde Judas e Brutus.
Incrivel como o ministro Alexandre de Moraes organiza encontros com politicos….
Essa situação de indicação política do presidente da República somente será resolvida quando os ministros vierem da Magistratura.