Em 5 de setembro de 1975, em Sacramento, Califórnia, Lynette Fromme, membro da seita Família Manson, parou a poucos metros do presidente Gerald Ford, apontou uma pistola para ele, tentou atirar, mas não conseguiu. Menos de três semanas depois, em São Francisco, a contadora Sara Jane Moore disparou contra Ford, mas errou o alvo e logo foi imobilizada por um transeunte.
Havia algum significado profundo por trás de ações tão violentas e potencialmente capazes de mudar o mundo? De acordo com seu biógrafo, Fromme “não tinha nada pessoal contra [Ford]… Ela acreditava que ele estava destruindo as sequoias [do Parque Nacional de Redwood]”. As motivações de Moore, que morreu no ano passado aos 95 anos, eram igualmente vagas e impessoais, ainda que um pouco mais políticas. O Washington Post observou em seu obituário que ela tinha o perfil uma “dona de casa suburbana e republicana”. Foi informante do FBI. Era “fascinada” pelos “ativistas radicais de São Francisco e sua retórica marxista”. O Post publicou um trecho do que Moore disse na audiência de sentença: “finalmente entendi e me juntei àqueles que só têm a destruição e a violência como meios de promover mudanças… e passei a entender que a violência às vezes pode ser construtiva”.
As duas tentativas de assassinar Gerald Ford — um dos presidentes menos atuantes, a favor ou contra a América — permanecem, no mínimo, intrigantes. Como diriam os fãs de teorias da conspiração, “Ford fez parte da Comissão Warren, então tinha culpa no cartório”. Ele foi nomeado vice-presidente por Richard Nixon e confirmado pelo Senado em dezembro de 1973, depois que Spiro Agnew renunciou devido a acusações de corrupção, mas muito antes de se tornar evidente que Nixon teria de abandonar o Salão Oval. Ford sofreu uma boa dose de ataques quando assumiu a presidência em agosto de 1974 e concedeu imediatamente a Nixon — na época a pessoa mais odiada do país — um “perdão total, livre e absoluto… por todas as ofensas contra os Estados Unidos que ele, Richard Nixon, cometeu ou possa ter cometido”.

No entanto, ninguém, nem mesmo seus supostos assassinos, demonstrava ódio ou aversão a Ford. Talvez as tentativas de assassinato digam menos sobre ele e seus algozes e mais sobre a época. Os anos 1970 foram, nas palavras do historiador Kevin Starr, “a década mais sem sentido do século para a Califórnia… por sua evidente e sinistra bizarrice”.
Desejamos que os acontecimentos do nosso tempo possam ter um sentido claro, não que sejam puramente bizarros e sinistros. Quando confrontados com atos monstruosos e aparentemente inexplicáveis, esperamos também que seus autores revelem o sentido por trás deles. Precisamos conhecer a origem da vilania e do mal. Mas os dois atentados contra Ford sugerem que muitas vezes não ficamos frustrados apenas com a História em si, mas com as pessoas que tentam mudar seu curso.
Parece o caso de Cole Tomas Allen, de 31 anos, o atirador no Jantar dos Correspondentes da Casa Branca na semana passada. Sua biografia e seu manifesto dão algumas pistas sobre suas ações e seu estado de espírito, mas muito pouco em termos de respostas que de fato expliquem a total insanidade do que ele tentou fazer.
Engenheiro formado em 2017 no prestigiado Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech), e titulado mestre em ciência da computação pela Cal State Dominguez Hills no ano passado, Allen travalhava como professor-tutor pouco antes cruzar o país de trem para matar o presidente. Descrito em reportagens como “extremamente inteligente, tímido, socialmente recluso” e “em certo tempo um cristão devoto”, é possível montar o esboço de um personagem frustrado por não cumprir o que prometia. Mas como alguém passa disso para tentar matar o presidente?

O manifesto de Allen é um documento esdrúxulo já desde sua abertura animada: “Olá a todos!”. Embora organizado e, em sua maior parte, moderado, há sinais de uma luta interna, profundamente enraizada, em trechos como este:
“Não estou mais disposto a permitir que um pedófilo, estuprador e traidor suje minhas mãos com seus crimes. (Bem, para ser totalmente honesto, eu já não estava disposto há muito tempo, mas esta é a primeira oportunidade real que tive de fazer algo a respeito.)”
Embora tenha cerca de mil palavras apenas, o documento divaga e alterna entre declarações básicas e uma série de “refutações a objeções”, nas quais ele faz perguntas (“Como cristão, você deveria oferecer a outra face?”) e depois as responde (“Oferecer a outra face quando outra pessoa é oprimida não é comportamento cristão; é cumplicidade nos crimes do opressor”). Tudo em um formato que indica (para mim, pelo menos) que ele pode ter usado uma IA ou algum outro recurso. Embora apresentado majoritariamente em uma linguagem branda e desprovida de emoção, o manifesto sugere uma mente perturbada, incapaz de manter o foco na importância da tarefa a ser cumprida. Uma das objeções que ele levanta, por exemplo, é: “Este não é um momento conveniente para você fazer isso”. Isso não evoca um revolucionário no auge de sua convicção ideológica, mas alguém lutando para se apegar à realidade básica. Talvez o mais estranho de tudo seja o conselho com o qual ele encerra, que parece totalmente desconexo: “Fiquem na escola, crianças”.
É improvável que qualquer outra informação sobre ele ajude a explicar seu comportamento ou sua motivação de um modo mais satisfatório do que nos casos de Lynette Fromme e Sara Jane Moore. A direita pode argumentar que a esquerda criou um “sistema de permissão” à violência política, especialmente em relação a Donald Trump, que é execrado como um ditador, um instrumento do autocrata russo Vladimir Putin e, conforme o manifesto de Allen, um molestador de crianças. A direita lembra o apoio contínuo ao suposto assassino do executivo do setor de saúde Brian Thompson vindo de jornalistas e apresentadores de podcast do tipo “esquerda caviar”, como Jia Tolentino e Hasan Piker. Diante desse cenário, quem pode se surpreender quando a violência explode?

Mas a linguagem hiperbólica que mais parece um chamado à ação por qualquer meio necessário também é evidente na direita, como quando o conselheiro presidencial Stephen Miller disse à Fox News que “o Partido Democrata não é um partido político. É uma organização extremista doméstica”. Mais importante ainda, como documentou Alex Nowrasteh, do Cato Institute, “a violência com motivação política é uma ameaça pequena” e que não mostra nenhum aumento substancial nos últimos anos. Em seu estudo sobre “assassinatos por ideologia” nos Estados Unidos entre 1975 e 2025, ele observa que o “islamismo” é de longe o maior motivador, mas conclui: “não há… um aumento estatisticamente significativo no número de vítimas ao longo do tempo, já que o período de três anos mais mortal foi 2014-2016, e o mais seguro foi 2005-2007”.
Cole Tomas Allen não apenas fracassou em seu delírio perverso de matar o presidente. Fracassou em dar uma explicação coerente. E é improvável que qualquer um de nós consiga fazer isso.
Nick Gillespie é editor-geral da Reason e apresentador do podcast The Reason Interview With Nick Gillespie. Ele está no X: @nickgillespie.
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