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Ex-presidente Dilma Rousseff | Foto: Montagem Revista Oeste/Shutterstock/Flickr/PR
Edição 322

A década perdida de Dilma Rousseff

Dez anos depois do impeachment, o Brasil ainda digere a herança maldita de um governo que tratou a economia como experiência de laboratório. E escolheu os piores reagentes

“O trem-bala ligando Campinas ao Rio de Janeiro ficará pronto para a Copa do Mundo de Futebol de 2014”, declarou Dilma Rousseff poucos dias antes de ser eleita presidente da República. Dezessete anos depois, o Brasil não viu nenhum trem, muito menos bala, no trajeto prometido. Ainda assim, foi criada uma empresa estatal, contratados 168 funcionários generosamente remunerados. Custo para os pagadores de impostos: mais de R$ 1 bilhão. O caso do trem-bala que nunca existiu é um emblema do governo Dilma. Dinheiro desperdiçado, projetos inacabados e inchaço da máquina estatal.

Há dez anos, no dia 12 de maio de 2016, o Senado afastou a então presidente da República. Uma década depois, o Brasil continua a quitar, em prestações longas e juros compostos, uma fatura dolorida. A do período mais desastroso da economia brasileira em tempos de paz. “Eu vou ser a mãe do povo brasileiro”, disse Dilma em seu primeiro discurso de posse. Acabou sendo a madrasta incompetente da pior crise enfrentada pelo país em um século. Relembrada sem saudade alguma, Dilma foi condenada a algo pior do que o ostracismo: o desprezo público.

Apesar disso, vale o exercício desconfortável de abrir seu prontuário. Não pela crueldade do retrospecto, mas quase por dever cívico. O Brasil tem o vício de esquecer rápido demais os desastres e devagar demais as lições. É preciso relembrar a agonia daqueles anos. A conta do experimento petista continua sendo apresentada à população na forma de endividamento público elevado, alta carga tributária, juros exorbitantes, produtividade baixa, Estado obeso e PIB per capita que insiste em não crescer.

Legado devastador

Quando Dilma assumiu a Presidência, em janeiro de 2011, o Brasil vivia um momento de crescimento razoável, com inflação sob relativo controle, reservas internacionais robustas e uma popularidade presidencial que ela mesma não havia construído. Era a herdeira de Lula, não a autora do milagre. Recebeu um acervo considerável e devolveu um saldo negativo digno de um balanço de empresa fantasma.

A presidente-economista tinha uma teoria: a “Nova Matriz Econômica”. Ela combinava: gastança financiada por dívida pública, subsídios bilionários do BNDES, controle artificial de preços, intervenção em setores estratégicos, hostilidade aberta ao investimento privado. A ideia era simples: o Estado saberia alocar recursos melhor que o mercado, os juros baixos forçados na marra gerariam crescimento, e os preços represados enganariam a inflação até o momento conveniente. Algo que, coincidentemente, aconteceu logo depois das eleições de 2014.

“Eu quero adentrar pela questão da inflação e dizer a vocês que a inflação foi uma conquista desses dez últimos anos do governo do presidente Lula e do meu governo”, sacramentou Dilma em 2015. Tinha razão: a inflação na época foi um desastre. O dragão, que havia sido entupido de sonífero para não rugir no ano eleitoral, acordou com fome olímpica em 2015. O IPCA fechou aquele ano em 10,67%. Para o brasileiro que pagava conta de luz, supermercado e aluguel, tratava-se de um número bastante concreto, por mais que o governo insistisse em enquadrá-lo como fenômeno conjuntural e inevitável.

O episódio sintetiza, com precisão matemática acidental, o método Dilma de governar. Havia uma soma que não fechava: a do superávit que virou déficit, a da inflação que devia ser 4,5% e chegou a quase 11%, a da Selic que foi forçada a 7,25% em 2012 — mínima histórica — e teve de subir a 14,25% quando o dragão acordou. “A soma de ‘aqui’ com ‘ali’ passa de 40%”, chegou a dizer Dilma ao comentar relatório da CGU. Sem saber, evidentemente, do que estava falando.

A gastança desenfreada e os subsídios bilionários provam que a teimosia econômica de Dilma Rousseff serviu para sabotar o investimento privado e endividar brutalmente o Brasil | Foto: Pedro Kirilos/Estadão Conteúdo

A complacência com a disparada dos preços forçou o Banco Central a aumentar a taxa de juros. Traduzido do economês: o remédio que ela havia proibido precisou ser aplicado em dose dupla quando o paciente piorou.

A farra fiscal

Mas o prato mais generoso, e envenenado, da herança Dilma está nas contas públicas. Antes de 2014, o Brasil acumulava 16 anos consecutivos de superávits primários. Ou seja, fechava as contas no azul. Uma economia necessária para pagar os juros da dívida. Em 2014, o orçamento passou no vermelho. O rombo foi de mais de R$ 17 bilhões. Em 2015, quase R$ 15 bilhões. Em 2016, pouco inferior a R$ 156 bilhões, um recorde. Desde então, o governo só voltou ao azul num único ano: o último do mandato de Paulo Guedes. O legado maldito de Dilma persiste ainda hoje.

A dívida pública bruta, que era quase 52% do PIB quando ela assumiu, chegou a mais de 68% quando saiu, em valores correntes superiores a R$ 4 trilhões. Algumas projeções indicavam que chegaria a 90% ainda na mesma década. “Nós não vamos colocar uma meta, nós vamos deixar uma meta aberta. Quando a gente atingir a meta, nós dobramos a meta”, anunciou Dilma em 2015. Ninguém entendeu se era uma promessa ou uma ameaça.

Lula entregou para a Dilma um Brasil com as contas em dia. Em poucos anos, ela conseguiu transformar o país no mais endividado dos emergentes, a caminho de um pódio que ninguém deveria ambicionar. O pagamento de juros da dívida pública chegou a consumir cerca de 9% do PIB em janeiro de 2016. Mais do que o gasto em saúde ou em educação. O Brasil, dizia o governo, estava crescendo. Quem crescia mesmo, no Brasil, era a dívida.

Sem contar o impacto das “pedaladas fiscais”, eufemismo gentil para o que o Tribunal de Contas da União classificou como irregularidades contábeis. Ou seja, atrasar repasses a bancos públicos para maquiar o resultado fiscal e apresentar contas menos desastrosas do que eram. Era a versão presidencial de adiar o extrato do cartão de crédito para parecer mais rico no fim do mês. A diferença é que, quando a fatura chegou, quem pagou foi o contribuinte.

Resposta da Dilma: “Qual o rombo? Eu vou dizer para vocês qual o rombo. Eu quero saber o que há. Eu não sei o que há. Não sei. Vocês sabem o que há? Vou fazer só um raciocínio: Como vocês sempre fazem isso primeiro do que eu, porque está vindo através dos jornalistas, como eu não sei o que há.” Delírio em estado clínico.

Dilma Rousseff
O discurso confuso de Dilma Rousseff ao tentar justificar as pedaladas fiscais evidencia a total desconexão com a realidade de uma gestão que tentou mascarar a falência do país | Foto: Wilson Dias/Agência Brasil

“Dilma recebeu de Lula um país crescendo de forma considerável graças ao aumento do preço das commodities. Lula surfou nesse boom das commodites, gastou sem freio e mesmo assim continuou poupando recursos. Quando Dilma assumiu o boom das commodites estava em sua fase final. Ela quis gastar ainda mais para tentar sustentar o crescimento econômico. Teve o azar de governar em um momento de cotações internacionais despencando, contexto político interno mais difícil e escândalos de corrupção explodindo. A tempestade perfeita”, explica Tony Volpon, ex-diretor do Banco Central, em entrevista à Oeste.

A recessão histórica

O crescimento médio do PIB no governo Dilma foi de 0,94% ao ano. A segunda pior média desde a redemocratização, superando apenas o governo Collor, que pelo menos fez a cortesia de renunciar mais rapidamente. “Juntos, garantiremos o melhor 2015, 2016, 2017 e 2018 da nossa história”, prometeu Dilma durante a campanha eleitoral de 2014. Ocorreu exatamente o oposto. Em 2015, o PIB caiu 3,5%. Em 2016, mais 3,3%. No total, a economia brasileira encolheu mais de 7% em dois anos. A pior crise da história. Até mais aguda do que a Grande Depressão americana nos anos 1930, segundo alguns economistas que fizeram a comparação e depois precisaram tomar um calmante.

O emprego pagou a conta da macroeconomia em papel-moeda humano. Em 2015, foram destruídas 1,54 milhão de vagas formais. Somente entre o fim de 2014 e meados de 2016, sumiram mais 2 milhões de empregos com carteira assinada. Em julho de 2016, 11,6 milhões de brasileiros estavam desempregados. Em 2017, o pico: cerca de 14 milhões de pessoas sem trabalho, taxa de desemprego de quase 14%. Os jovens, sempre os primeiros a pagar pelo desajuste dos adultos no poder, chegaram a registrar desemprego de 44,5% na faixa de 14 a 17 anos.

Dilma entregou a seu sucessor uma economia devastada, com déficit e dívida pública explodindo, recessão e inflação alta. Não foi um trabalho de amadores. Requereu muito profissionalismo. Profissionalismo que, convenhamos, não foi exatamente a marca registrada da gestão. A Petrobras, transformada em instrumento da “política industrial” dilmista, acumulou a maior dívida entre empresas do mundo no setor de energia. A estatal petrolífera serviu, simultane­amente, como caixa de propina sistematizada que a Operação Lava Jato revelaria em doses crescentes e cada vez mais nauseantes. “Nosso país precisa também de ter um compromisso com aqueles que desviam o dinheiro público”, declarou certa vez Dilma.

Investimentos absurdos, como a refinaria Abreu e Lima ou a de Pasadena, devastaram a capacidade operacional da Petrobras. O controle dos preços dos combustíveis, subsidiando a gasolina com dinheiro que não existia para manter a inflação maquiada, destruiu o caixa da empresa e comprometeu investimentos que o país aguarda até hoje.

A transformação da Petrobras em um verdadeiro caixa de propina e instrumento de manobras políticas resultou na maior dívida do setor de energia no mundo | Foto: Reprodução/X

“Houve um dano microeconômico tão grave que impactou o macroeconômico. Foram necessários dois governos reformistas, Temer e Bolsonaro, para colocar ordem na casa e permitir que o setor privado se reestruturasse. Infelizmente batemos na pandemia de Covid-19, e esse processo foi interrompido”, diz Volpon.

A longa crise de Dilma

O preço da irresponsabilidade institucionalizada não se paga em dois ou três anos. A baixa produtividade da economia brasileira, que já era um problema crônico, foi agravada por uma combinação de desinvestimento, destruição de capital humano pelo desemprego prolongado e pela incerteza que paralisa o empreendedor melhor do que qualquer regulação.

O investimento privado despencou mais de 24% desde o início da recessão. A Formação Bruta de Capital Fixo, que mede quanto o Brasil está construindo seu futuro, chegou a 15% do PIB em 2017, enquanto países asiáticos de renda similar investiam o dobro.

Os juros em dois dígitos, herança direta da necessidade de corrigir a bagunça monetária deixada pelo governo, funcionaram como imposto sobre o futuro: encarecem o crédito, inibem o investimento, transferem renda do trabalhador para o rentista e tornam a dívida pública uma bola de neve com motivação própria. O Brasil ainda convive, em 2026, com taxa de juro real entre as mais altas do mundo. Uma cicatriz que não fecha porque o ambiente fiscal nunca se normalizou completamente.

E o PIB per capita, a medida mais direta de quanto o brasileiro médio ficou mais rico ou mais pobre, demorou onze anos para voltar aos patamares de 2013. E mesmo assim, não em dólares.

Uma geração de jovens entrou no mercado de trabalho durante a crise, com salários mais baixos, perspectivas piores e a marca invisível do desalento que estatísticas de desemprego não capturam, mas o cotidiano das famílias sente com precisão.

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A pesada herança da irresponsabilidade fiscal perpetua juros altos e transforma a dívida pública em uma bola de neve que asfixia o crescimento econômico do país | Foto: Ricardo Stuckert/PR

Desastres em todos os setores

Outro símbolo da catástrofe Dilma foi o Fundo de Financiamento Estudantil (FIES). A dotação do fundo mais do que duplicou durante os cinco anos e meio de mandato, chegando a quase R$ 20 bilhões de empréstimos. O número de estudantes beneficiados chegou a mais de 700 mil por ano em 2014. Resultado prático sobre a educação brasileira: nenhum. Os diplomados são pouco qualificados, pouco produtivos e com salários muito baixos. E mal conseguem pagar as prestações dos empréstimos, mesmo que com juros mais baixos do que o mercado. Uma década depois, 6 em cada 10 contratos do FIES estão inadimplentes. Com uma dívida média de quase R$ 50 mil por ex-estudante beneficiado pelo fundo.

Outro exemplo são as concessões de infraestruturas, elaboradas com uma forte carga ideológica que acabou viciando a modelagem, impondo um “teto de rentabilidade” para as empresas que ganhassem os lotes, definido entre 5,5% e 7,5%. Uma bizarrice inexistente até mesmo em ditaduras comunistas. Na prática, o governo estava dizendo ao mercado que poderia investir bilhões em infraestrutura, assumir todos os riscos de construção, operação e inadimplência do poder público, e lucrar menos do que um fundo de renda fixa conservador.

Para completar o modelo, as tarifas eram fixadas pelo governo abaixo do nível econômico, a revisão dos contratos foi engessada, e as cláusulas de reequilíbrio financeiro tornaram-se labirintos burocráticos que demoravam anos para serem percorridos. O resultado foi previsível para qualquer pessoa com acesso a uma calculadora: os leilões de rodovias de 2013 e 2014 atraíram candidatos rarefeitos, ou nenhum, como no caso do lote da BR-262. Dos aeroportos leiloados na segunda rodada, vários foram entregues com deságio sobre o lance mínimo, quando não devolvidos à União antes do prazo. Como os casos dos aeroportos de Viracopos (Campinas) e Galeão (Rio).

A narrativa da mártir

Dilma Rousseff não perdeu a capacidade de espantar depois do impeachment. Reapareceu, ao longo dos anos, como vítima de um golpe. Com a pertinácia dos que nunca erram porque nunca admitem ter errado, seguiu explicando que a crise não foi sua, que o impeachment foi uma conspiração, que a Nova Matriz Econômica era, no fundo, uma boa ideia mal compreendida por um mercado reacionário. A culpa é sempre da Faria Lima. “Eu quero explicar uma coisa do ajuste. Todo mundo acha que o ajuste tira. O ajuste não tira, o reajuste… O ajuste reajusta”, tentou explicar Dilma.

A herança maldita de Dilma Rousseff | Gráfico: Revista Oeste

Há uma certa grandiosidade involuntária nisso. É preciso uma confiança fora do comum para, depois de ter entregado um cenário de terra arrasada como esse, continuar se candidatando ao papel de economista incompreendida. É o tipo de argumento que funciona enquanto o interlocutor não tem acesso aos números. E o Brasil, infelizmente, tem uma tradição de memória econômica seletiva que serve muito bem a essa narrativa.

Em março de 2016, The Economist publicou uma matéria com o sugestivo título “Time to Go”, hora de ir. Dizia que a saída de Dilma “ofereceria ao Brasil a oportunidade de um novo começo”. O Brasil tentou vários começos desde então. A lição que ainda está sendo assimilada é que um novo começo requer, antes de tudo, um inventário honesto do que foi destruído, e coragem para não repetir o experimento.

Dez anos depois, o balanço é este: um país que perdeu entre seis e sete anos de crescimento potencial, uma geração que entrou no mercado de trabalho marcada pela crise, uma dívida que cresceu sem parar, uma produtividade que nunca decolou, e uma discussão econômica que, ainda em 2026, arrasta os vícios daquela era: o voluntarismo, a falta de confiança no mercado, a ilusão de que o Estado sabe gastar melhor do que quem produz. A década perdida de Dilma Rousseff continua sendo paga, parcela a parcela, em juro, em imposto, em oportunidade desperdiçada. A conta, como sempre, ficou com o Brasil.

O Brasil de 2026 está em uma condição muito parecida com o de 2016. “Estamos em um limbo. Algumas coisas foram melhoradas e depois sanadas. O momento global está melhor. Mas veio o governo Lula foi um novo retrocesso. Temos um problema de taxa real de juros que não consegue cair. E isso cria uma bomba relógio nas contas públicas. Nosso grande drama é como essa questão vai ser resolver no futuro, via ajuste ou via crise, como foi 2015 e 2016”, conclui Volpon.

“Não acho que quem ganhar ou quem perder, nem quem ganhar nem perder, vai ganhar ou perder. Vai todo mundo perder”, disse Dilma em uma ocasião. Tinha razão. O Brasil inteiro perdeu com ela no poder. Na política, o ridículo pode render memes. Na economia, rende décadas perdidas.

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3 comentários
  1. Vanessa Días da Silva
    Vanessa Días da Silva

    Excelente resumo. Tenho a percepção que mossa situação atual está ainda pior do que da era Dilma. Ao menos antes havia liberdade de expressão e comediantes podiam fazer piadas. Agora nos roubaram até o humor

  2. Luiz Fraga
    Luiz Fraga

    O ministro da economia no Lula 1 foi o Palocci. Sua gestão foi caracterizada pela responsabilidade fiscal herdada de FHC 1 e 2. Em Lula 2, porém, o ministro da Economia passou a ser o Guido Mantega (o mesmo de Dilma 1 e 2). Foi o Mantega que abandonou o a responsabilidade fiscal, o câmbio e a taxa Selic livres. Portanto, a crise econômica deixada por Dilma já começara a ser gestada, em realidade, em Lula 2.

  3. Gilberto Damasceno Morais
    Gilberto Damasceno Morais

    Cada povo tem o governo que merece, infelizmente.

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