“O trem-bala ligando Campinas ao Rio de Janeiro ficará pronto para a Copa do Mundo de Futebol de 2014”, declarou Dilma Rousseff poucos dias antes de ser eleita presidente da República. Dezessete anos depois, o Brasil não viu nenhum trem, muito menos bala, no trajeto prometido. Ainda assim, foi criada uma empresa estatal, contratados 168 funcionários generosamente remunerados. Custo para os pagadores de impostos: mais de R$ 1 bilhão. O caso do trem-bala que nunca existiu é um emblema do governo Dilma. Dinheiro desperdiçado, projetos inacabados e inchaço da máquina estatal.
Há dez anos, no dia 12 de maio de 2016, o Senado afastou a então presidente da República. Uma década depois, o Brasil continua a quitar, em prestações longas e juros compostos, uma fatura dolorida. A do período mais desastroso da economia brasileira em tempos de paz. “Eu vou ser a mãe do povo brasileiro”, disse Dilma em seu primeiro discurso de posse. Acabou sendo a madrasta incompetente da pior crise enfrentada pelo país em um século. Relembrada sem saudade alguma, Dilma foi condenada a algo pior do que o ostracismo: o desprezo público.
Apesar disso, vale o exercício desconfortável de abrir seu prontuário. Não pela crueldade do retrospecto, mas quase por dever cívico. O Brasil tem o vício de esquecer rápido demais os desastres e devagar demais as lições. É preciso relembrar a agonia daqueles anos. A conta do experimento petista continua sendo apresentada à população na forma de endividamento público elevado, alta carga tributária, juros exorbitantes, produtividade baixa, Estado obeso e PIB per capita que insiste em não crescer.
Legado devastador
Quando Dilma assumiu a Presidência, em janeiro de 2011, o Brasil vivia um momento de crescimento razoável, com inflação sob relativo controle, reservas internacionais robustas e uma popularidade presidencial que ela mesma não havia construído. Era a herdeira de Lula, não a autora do milagre. Recebeu um acervo considerável e devolveu um saldo negativo digno de um balanço de empresa fantasma.
A presidente-economista tinha uma teoria: a “Nova Matriz Econômica”. Ela combinava: gastança financiada por dívida pública, subsídios bilionários do BNDES, controle artificial de preços, intervenção em setores estratégicos, hostilidade aberta ao investimento privado. A ideia era simples: o Estado saberia alocar recursos melhor que o mercado, os juros baixos forçados na marra gerariam crescimento, e os preços represados enganariam a inflação até o momento conveniente. Algo que, coincidentemente, aconteceu logo depois das eleições de 2014.
“Eu quero adentrar pela questão da inflação e dizer a vocês que a inflação foi uma conquista desses dez últimos anos do governo do presidente Lula e do meu governo”, sacramentou Dilma em 2015. Tinha razão: a inflação na época foi um desastre. O dragão, que havia sido entupido de sonífero para não rugir no ano eleitoral, acordou com fome olímpica em 2015. O IPCA fechou aquele ano em 10,67%. Para o brasileiro que pagava conta de luz, supermercado e aluguel, tratava-se de um número bastante concreto, por mais que o governo insistisse em enquadrá-lo como fenômeno conjuntural e inevitável.
O episódio sintetiza, com precisão matemática acidental, o método Dilma de governar. Havia uma soma que não fechava: a do superávit que virou déficit, a da inflação que devia ser 4,5% e chegou a quase 11%, a da Selic que foi forçada a 7,25% em 2012 — mínima histórica — e teve de subir a 14,25% quando o dragão acordou. “A soma de ‘aqui’ com ‘ali’ passa de 40%”, chegou a dizer Dilma ao comentar relatório da CGU. Sem saber, evidentemente, do que estava falando.

A complacência com a disparada dos preços forçou o Banco Central a aumentar a taxa de juros. Traduzido do economês: o remédio que ela havia proibido precisou ser aplicado em dose dupla quando o paciente piorou.
A farra fiscal
Mas o prato mais generoso, e envenenado, da herança Dilma está nas contas públicas. Antes de 2014, o Brasil acumulava 16 anos consecutivos de superávits primários. Ou seja, fechava as contas no azul. Uma economia necessária para pagar os juros da dívida. Em 2014, o orçamento passou no vermelho. O rombo foi de mais de R$ 17 bilhões. Em 2015, quase R$ 15 bilhões. Em 2016, pouco inferior a R$ 156 bilhões, um recorde. Desde então, o governo só voltou ao azul num único ano: o último do mandato de Paulo Guedes. O legado maldito de Dilma persiste ainda hoje.
A dívida pública bruta, que era quase 52% do PIB quando ela assumiu, chegou a mais de 68% quando saiu, em valores correntes superiores a R$ 4 trilhões. Algumas projeções indicavam que chegaria a 90% ainda na mesma década. “Nós não vamos colocar uma meta, nós vamos deixar uma meta aberta. Quando a gente atingir a meta, nós dobramos a meta”, anunciou Dilma em 2015. Ninguém entendeu se era uma promessa ou uma ameaça.
Lula entregou para a Dilma um Brasil com as contas em dia. Em poucos anos, ela conseguiu transformar o país no mais endividado dos emergentes, a caminho de um pódio que ninguém deveria ambicionar. O pagamento de juros da dívida pública chegou a consumir cerca de 9% do PIB em janeiro de 2016. Mais do que o gasto em saúde ou em educação. O Brasil, dizia o governo, estava crescendo. Quem crescia mesmo, no Brasil, era a dívida.
Sem contar o impacto das “pedaladas fiscais”, eufemismo gentil para o que o Tribunal de Contas da União classificou como irregularidades contábeis. Ou seja, atrasar repasses a bancos públicos para maquiar o resultado fiscal e apresentar contas menos desastrosas do que eram. Era a versão presidencial de adiar o extrato do cartão de crédito para parecer mais rico no fim do mês. A diferença é que, quando a fatura chegou, quem pagou foi o contribuinte.
Resposta da Dilma: “Qual o rombo? Eu vou dizer para vocês qual o rombo. Eu quero saber o que há. Eu não sei o que há. Não sei. Vocês sabem o que há? Vou fazer só um raciocínio: Como vocês sempre fazem isso primeiro do que eu, porque está vindo através dos jornalistas, como eu não sei o que há.” Delírio em estado clínico.

“Dilma recebeu de Lula um país crescendo de forma considerável graças ao aumento do preço das commodities. Lula surfou nesse boom das commodites, gastou sem freio e mesmo assim continuou poupando recursos. Quando Dilma assumiu o boom das commodites estava em sua fase final. Ela quis gastar ainda mais para tentar sustentar o crescimento econômico. Teve o azar de governar em um momento de cotações internacionais despencando, contexto político interno mais difícil e escândalos de corrupção explodindo. A tempestade perfeita”, explica Tony Volpon, ex-diretor do Banco Central, em entrevista à Oeste.
A recessão histórica
O crescimento médio do PIB no governo Dilma foi de 0,94% ao ano. A segunda pior média desde a redemocratização, superando apenas o governo Collor, que pelo menos fez a cortesia de renunciar mais rapidamente. “Juntos, garantiremos o melhor 2015, 2016, 2017 e 2018 da nossa história”, prometeu Dilma durante a campanha eleitoral de 2014. Ocorreu exatamente o oposto. Em 2015, o PIB caiu 3,5%. Em 2016, mais 3,3%. No total, a economia brasileira encolheu mais de 7% em dois anos. A pior crise da história. Até mais aguda do que a Grande Depressão americana nos anos 1930, segundo alguns economistas que fizeram a comparação e depois precisaram tomar um calmante.
O emprego pagou a conta da macroeconomia em papel-moeda humano. Em 2015, foram destruídas 1,54 milhão de vagas formais. Somente entre o fim de 2014 e meados de 2016, sumiram mais 2 milhões de empregos com carteira assinada. Em julho de 2016, 11,6 milhões de brasileiros estavam desempregados. Em 2017, o pico: cerca de 14 milhões de pessoas sem trabalho, taxa de desemprego de quase 14%. Os jovens, sempre os primeiros a pagar pelo desajuste dos adultos no poder, chegaram a registrar desemprego de 44,5% na faixa de 14 a 17 anos.
Dilma entregou a seu sucessor uma economia devastada, com déficit e dívida pública explodindo, recessão e inflação alta. Não foi um trabalho de amadores. Requereu muito profissionalismo. Profissionalismo que, convenhamos, não foi exatamente a marca registrada da gestão. A Petrobras, transformada em instrumento da “política industrial” dilmista, acumulou a maior dívida entre empresas do mundo no setor de energia. A estatal petrolífera serviu, simultaneamente, como caixa de propina sistematizada que a Operação Lava Jato revelaria em doses crescentes e cada vez mais nauseantes. “Nosso país precisa também de ter um compromisso com aqueles que desviam o dinheiro público”, declarou certa vez Dilma.
Investimentos absurdos, como a refinaria Abreu e Lima ou a de Pasadena, devastaram a capacidade operacional da Petrobras. O controle dos preços dos combustíveis, subsidiando a gasolina com dinheiro que não existia para manter a inflação maquiada, destruiu o caixa da empresa e comprometeu investimentos que o país aguarda até hoje.

“Houve um dano microeconômico tão grave que impactou o macroeconômico. Foram necessários dois governos reformistas, Temer e Bolsonaro, para colocar ordem na casa e permitir que o setor privado se reestruturasse. Infelizmente batemos na pandemia de Covid-19, e esse processo foi interrompido”, diz Volpon.
A longa crise de Dilma
O preço da irresponsabilidade institucionalizada não se paga em dois ou três anos. A baixa produtividade da economia brasileira, que já era um problema crônico, foi agravada por uma combinação de desinvestimento, destruição de capital humano pelo desemprego prolongado e pela incerteza que paralisa o empreendedor melhor do que qualquer regulação.
O investimento privado despencou mais de 24% desde o início da recessão. A Formação Bruta de Capital Fixo, que mede quanto o Brasil está construindo seu futuro, chegou a 15% do PIB em 2017, enquanto países asiáticos de renda similar investiam o dobro.
Os juros em dois dígitos, herança direta da necessidade de corrigir a bagunça monetária deixada pelo governo, funcionaram como imposto sobre o futuro: encarecem o crédito, inibem o investimento, transferem renda do trabalhador para o rentista e tornam a dívida pública uma bola de neve com motivação própria. O Brasil ainda convive, em 2026, com taxa de juro real entre as mais altas do mundo. Uma cicatriz que não fecha porque o ambiente fiscal nunca se normalizou completamente.
E o PIB per capita, a medida mais direta de quanto o brasileiro médio ficou mais rico ou mais pobre, demorou onze anos para voltar aos patamares de 2013. E mesmo assim, não em dólares.
Uma geração de jovens entrou no mercado de trabalho durante a crise, com salários mais baixos, perspectivas piores e a marca invisível do desalento que estatísticas de desemprego não capturam, mas o cotidiano das famílias sente com precisão.

Desastres em todos os setores
Outro símbolo da catástrofe Dilma foi o Fundo de Financiamento Estudantil (FIES). A dotação do fundo mais do que duplicou durante os cinco anos e meio de mandato, chegando a quase R$ 20 bilhões de empréstimos. O número de estudantes beneficiados chegou a mais de 700 mil por ano em 2014. Resultado prático sobre a educação brasileira: nenhum. Os diplomados são pouco qualificados, pouco produtivos e com salários muito baixos. E mal conseguem pagar as prestações dos empréstimos, mesmo que com juros mais baixos do que o mercado. Uma década depois, 6 em cada 10 contratos do FIES estão inadimplentes. Com uma dívida média de quase R$ 50 mil por ex-estudante beneficiado pelo fundo.
Outro exemplo são as concessões de infraestruturas, elaboradas com uma forte carga ideológica que acabou viciando a modelagem, impondo um “teto de rentabilidade” para as empresas que ganhassem os lotes, definido entre 5,5% e 7,5%. Uma bizarrice inexistente até mesmo em ditaduras comunistas. Na prática, o governo estava dizendo ao mercado que poderia investir bilhões em infraestrutura, assumir todos os riscos de construção, operação e inadimplência do poder público, e lucrar menos do que um fundo de renda fixa conservador.
Para completar o modelo, as tarifas eram fixadas pelo governo abaixo do nível econômico, a revisão dos contratos foi engessada, e as cláusulas de reequilíbrio financeiro tornaram-se labirintos burocráticos que demoravam anos para serem percorridos. O resultado foi previsível para qualquer pessoa com acesso a uma calculadora: os leilões de rodovias de 2013 e 2014 atraíram candidatos rarefeitos, ou nenhum, como no caso do lote da BR-262. Dos aeroportos leiloados na segunda rodada, vários foram entregues com deságio sobre o lance mínimo, quando não devolvidos à União antes do prazo. Como os casos dos aeroportos de Viracopos (Campinas) e Galeão (Rio).
A narrativa da mártir
Dilma Rousseff não perdeu a capacidade de espantar depois do impeachment. Reapareceu, ao longo dos anos, como vítima de um golpe. Com a pertinácia dos que nunca erram porque nunca admitem ter errado, seguiu explicando que a crise não foi sua, que o impeachment foi uma conspiração, que a Nova Matriz Econômica era, no fundo, uma boa ideia mal compreendida por um mercado reacionário. A culpa é sempre da Faria Lima. “Eu quero explicar uma coisa do ajuste. Todo mundo acha que o ajuste tira. O ajuste não tira, o reajuste… O ajuste reajusta”, tentou explicar Dilma.

Há uma certa grandiosidade involuntária nisso. É preciso uma confiança fora do comum para, depois de ter entregado um cenário de terra arrasada como esse, continuar se candidatando ao papel de economista incompreendida. É o tipo de argumento que funciona enquanto o interlocutor não tem acesso aos números. E o Brasil, infelizmente, tem uma tradição de memória econômica seletiva que serve muito bem a essa narrativa.
Em março de 2016, The Economist publicou uma matéria com o sugestivo título “Time to Go”, hora de ir. Dizia que a saída de Dilma “ofereceria ao Brasil a oportunidade de um novo começo”. O Brasil tentou vários começos desde então. A lição que ainda está sendo assimilada é que um novo começo requer, antes de tudo, um inventário honesto do que foi destruído, e coragem para não repetir o experimento.
Dez anos depois, o balanço é este: um país que perdeu entre seis e sete anos de crescimento potencial, uma geração que entrou no mercado de trabalho marcada pela crise, uma dívida que cresceu sem parar, uma produtividade que nunca decolou, e uma discussão econômica que, ainda em 2026, arrasta os vícios daquela era: o voluntarismo, a falta de confiança no mercado, a ilusão de que o Estado sabe gastar melhor do que quem produz. A década perdida de Dilma Rousseff continua sendo paga, parcela a parcela, em juro, em imposto, em oportunidade desperdiçada. A conta, como sempre, ficou com o Brasil.
O Brasil de 2026 está em uma condição muito parecida com o de 2016. “Estamos em um limbo. Algumas coisas foram melhoradas e depois sanadas. O momento global está melhor. Mas veio o governo Lula foi um novo retrocesso. Temos um problema de taxa real de juros que não consegue cair. E isso cria uma bomba relógio nas contas públicas. Nosso grande drama é como essa questão vai ser resolver no futuro, via ajuste ou via crise, como foi 2015 e 2016”, conclui Volpon.
“Não acho que quem ganhar ou quem perder, nem quem ganhar nem perder, vai ganhar ou perder. Vai todo mundo perder”, disse Dilma em uma ocasião. Tinha razão. O Brasil inteiro perdeu com ela no poder. Na política, o ridículo pode render memes. Na economia, rende décadas perdidas.
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Excelente resumo. Tenho a percepção que mossa situação atual está ainda pior do que da era Dilma. Ao menos antes havia liberdade de expressão e comediantes podiam fazer piadas. Agora nos roubaram até o humor
O ministro da economia no Lula 1 foi o Palocci. Sua gestão foi caracterizada pela responsabilidade fiscal herdada de FHC 1 e 2. Em Lula 2, porém, o ministro da Economia passou a ser o Guido Mantega (o mesmo de Dilma 1 e 2). Foi o Mantega que abandonou o a responsabilidade fiscal, o câmbio e a taxa Selic livres. Portanto, a crise econômica deixada por Dilma já começara a ser gestada, em realidade, em Lula 2.
Cada povo tem o governo que merece, infelizmente.