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O senador Flávio Bolsonaro em Brasília | Foto: Reuters/Adriano Machado
Edição 322

A primeira crise de Flávio

Mensagens trocadas com Vorcaro submetem o herdeiro político de Bolsonaro ao primeiro grande teste eleitoral

Daniel Vorcaro ainda circulava com desenvoltura entre empresários, políticos e investidores quando o nome dele começou a aparecer nas conversas internas do bolsonarismo sobre um projeto considerado estratégico para 2026. O plano era produzir um longa-metragem sobre Jair Bolsonaro, com padrão internacional, distribuição ampla e ambição de transformar a trajetória política do ex-presidente numa narrativa épica para o público conservador. O título já estava definido: Dark Horse, ou O Azarão, em tradução livre.

Naquele momento, em dezembro de 2024, o Banco Master ainda tentava preservar a imagem de instituição ousada, inovadora e em expansão. Vorcaro, que já havia patrocinado filmes sobre Lula e Michel Temer, era apresentado nos bastidores de Brasília como um banqueiro de trânsito fácil, próximo de empresários influentes e disposto a financiar projetos de alto impacto midiático. Meses depois, acabaria preso sob suspeita de corrupção e participação em fraudes bilionárias envolvendo carteiras de crédito da instituição.

Foi nesse intervalo, entre a ascensão pública do banqueiro e a derrocada do Master, que a relação entre Vorcaro e Flávio Bolsonaro se consolidou.

O roteiro por trás da crise

A história veio à tona na última quarta-feira, 13, quando o site Intercept Brasil publicou mensagens, áudios e documentos atribuídos ao senador fluminense. O material mostra que Flávio teria negociado diretamente com Vorcaro o financiamento de Dark Horse. O contrato previa o pagamento de cerca de US$ 25 milhões, aproximadamente R$ 135 milhões na cotação atual. Desse total, em torno de R$ 60 milhões já haviam sido pagos. A jornalista Malu Gaspar e a CNN, contudo, mencionaram a cifra de R$ 2,3 milhões.

A aproximação começou no fim de 2024. Segundo o Intercept Brasil, a primeira conversa documentada sobre o acordo ocorreu em 8 de dezembro daquele ano. Naquela noite, o empresário Thiago Miranda, proprietário do Portal Leo Dias e um dos articuladores da captação de recursos para Dark Horse, enviou mensagens a Vorcaro para organizar um encontro com Flávio em Brasília.

A reunião ocorreria às 17h30, na residência do banqueiro. Nas trocas de mensagens, Miranda trata o encontro como o início das negociações para viabilizar financeiramente o filme. O Master ainda não havia entrado em colapso nem se tornado alvo do escândalo que mais tarde levaria à prisão de Vorcaro.

Conversa entre Flavio Bolsonaro e Daniel Vorcaro | Foto: Reprodução/Intercept

As tratativas evoluíram rapidamente. O que começou como uma aproximação articulada por intermediários se transformou em contato direto entre Flávio e Vorcaro. O senador passou a discutir valores, cronogramas de pagamento e dificuldades operacionais da remessa internacional ligada ao projeto cinematográfico. Em um dos diálogos, datado de 16 de novembro de 2025, Flávio escreveu ao banqueiro: “Estou e estarei contigo sempre”. Vorcaro acabaria preso um dia depois.

Conversa entre Flavio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro | Foto: Reprodução/Intercept

A verba destinada ao filme não seria enviada diretamente para uma produtora brasileira. De acordo com as informações reveladas pelo Intercept Brasil, o destino dos recursos era o Havengate Development Fund LP, fundo registrado no Texas, nos Estados Unidos, ligado à estrutura internacional montada para viabilizar Dark Horse. O fundo tinha como representante jurídico o escritório Law Offices of Paulo Calixto PLLC, do advogado Paulo Calixto, conhecido por atuar em causas ligadas ao ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro nos EUA. Em nota, a produtora do filme, Go Up Entertainment, negou ter recebido qualquer valor de Vorcaro ou de empresas associadas ao banqueiro.

Os diálogos surpreenderam parte do eleitorado conservador, pois Flávio sempre negou ser próximo a Vorcaro. Na manhã da última quarta-feira, por exemplo, em coletiva de imprensa realizada nos arredores do Supremo Tribunal Federal (STF), o repórter Thalys Alcântara indagou o senador sobre as negociações com o banqueiro para financiar Dark Horse. Naquele momento, a reportagem ainda não havia sido publicada. “De onde você tirou essa informação? É mentira”, respondeu Flávio, antes de encerrar a entrevista.

Aliados entram em cena

Pouco depois da publicação da reportagem, auxiliares de Flávio começaram a monitorar redes sociais, grupos de WhatsApp e reações do mercado financeiro. Integrantes do Partido Liberal (PL) deixaram gabinetes para reuniões reservadas em Brasília. Havia temor de novos vazamentos.

Nos últimos meses, Flávio vinha tentando consolidar a imagem de conciliador. Dentro do núcleo bolsonarista, era tratado como o herdeiro político com maior capacidade de diálogo com empresários, investidores e setores do mercado financeiro. Auxiliares repetiam reservadamente que Flávio parecia mais presidenciável do que os irmãos porque demonstrava menos impulsividade e menos disposição para confrontos permanentes.

A crise atravessou Brasília rapidamente. Logo depois da divulgação da reportagem, Flávio se reuniu com Bolsonaro. O encontro ocorreu por volta das 14h30, segundo relatos obtidos por Oeste. O pai já conhecia o conteúdo da denúncia quando recebeu o filho. A avaliação no entorno do ex-presidente era de que a reação da campanha precisava ser imediata. Havia medo de que o silêncio inicial consolidasse a narrativa de proximidade indevida entre o senador e o banqueiro preso.

Bolsonaro orientou Flávio a sustentar publicamente sua versão dos fatos e a evitar qualquer gesto de recuo político. “Apenas fale a verdade”, aconselhou o ex-presidente. Essa conversa definiu a estratégia do núcleo bolsonarista para administrar a crise. Depois da reunião, Flávio passou a discutir com aliados a divulgação de uma nota oficial e de um vídeo nas redes sociais. O objetivo era enquadrar o caso como uma operação legítima de financiamento privado para uma produção audiovisual, sem uso de recursos públicos, sem participação estatal e sem contrapartida política.

Horas depois, o senador confirmou as conversas com Vorcaro, mas negou irregularidades. Em vídeo divulgado nas redes sociais, defendeu a instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar o Master. Segundo Flávio, a apuração serviria para separar culpados e inocentes e provar que o dinheiro não passou de patrocínio privado.

Nos bastidores do PL, lideranças passaram a traçar estratégias para conter os danos. Queriam impedir que o episódio contaminasse a pré-campanha presidencial. Havia receio crescente de impacto sobre a interlocução do bolsonarismo com setores do mercado financeiro, ambiente onde Flávio tentava costurar alianças.

Mesmo depois da divulgação da reportagem, Bolsonaro decidiu manter apoio integral ao filho. Auxiliares próximos do ex-presidente afirmam que, na avaliação do núcleo bolsonarista, recuar agora produziria um efeito político mais destrutivo do que enfrentar a crise.

Não se sabe exatamente quanto dinheiro chegou ao projeto. Embora o patrocínio, por si só, não configure ilegalidade — em 2009, por exemplo, o filme Lula, o Filho do Brasil recebeu apoio de 18 empresas, incluindo as empreiteiras Camargo Corrêa, OAS e Odebrecht, mais tarde envolvidas na Operação Lava Jato —, e Flávio não tenha oferecido nenhuma contrapartida em troca do financiamento, é importante esclarecer quem controlava as estruturas financeiras mencionadas nas trocas de mensagens. Também permanecem dúvidas sobre o papel de aliados de Eduardo citados na operação.

Foi essa sensação que tomou conta do PL na última quarta-feira. Não havia clima de ruptura nem discussão sobre retirada de candidatura. Mas o partido entrou em modo de crise. Assessores passaram a revisar entrevistas antigas de Flávio sobre o Master. Parlamentares monitoravam repercussões entre empresários. Auxiliares tentavam medir o impacto do episódio fora da bolha bolsonarista.

A preocupação agora é impedir que Vorcaro deixe de ser apenas o personagem de um escândalo bancário e se transforme num problema permanente da campanha presidencial de Flávio. Por ora, a corrida pelo Palácio do Planalto continua.

Leia também “A nova digital do PT no caso Master”

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6 comentários
  1. FLAVIO AUGUSTO ROSSI
    FLAVIO AUGUSTO ROSSI

    ESSE EDILSON É UM BAITA TRAÍRA !
    SÓ CRIA INTRIGAS !
    É BEM AGENTE DUPLO !
    SEUS COMENTÁRIOS SÃO ALTAMENTE QUESTINÁVEIS !

  2. Antonio Carlos Neves
    Antonio Carlos Neves

    Edilson, aos 80 anos e já tendo sido tucano, hoje arrependido, e atualmente bolsonarista, não consigo entender as criticas de importantes jornalistas que se dizem da direita e atacam bolsonaristas como eu que ainda defendem Flávio Bolsonaro.
    Admiro e acompanho Rodrigo Constantino desde Jovem Pan e alguns de seus livros, mas realmente esta puro demais para fazer tantas criticas a Flavio e aos bolsonaristas que ainda o defendem.
    Vale lembrar que alguns fatos passados na Jovem Pan, Constantino criticou severamente o presidente Bolsonaro, quando em pleno inicio da pandemia da Covid, o estranho MORO sai do governo atacando Bolsonaro e quase comparando-o com Lula. Quando divulgada aquela reunião privada do governo com seus ministros, solicitada por Moro e intimada pelo Ministro Pavão do STF Celso de Mello, Constantino afirmou que a montanha pariu um rato.
    Em outro momento criticou o governo Bolsonaro quando substituiu o presidente da Petrobras economista Roberto Castelo Branco pelo general Joaquim Silva e Luna, que havia recuperado a ITAIPU BINACIONAL. Constantino em 20/02/2021 disse: “Bolsonaro acha adequado trocar o comando da Petrobras, tirando um liberal indicado por Paulo Guedes, para colocar um MILICO”.
    O general Luna fez excelente gestão na Petrobras continuando com a mesma politica de Roberto Castelo Branco.
    Continuo admirando a excelente articulação e conhecimento de Constantino, mas seria prudente que seus amigos jornalistas da centro direita o orientassem, que Bolsonaro recuperou a DIREITA neste pais e é importante que o bom jornalismo siga suas orientações para eliminarmos o atual SISTEMA DE PODER que esta acabando com nossa democracia.
    Ou vamos dividir a direita e perder a eleição presidencial e ao Senado Federal?

  3. Francisco de Assis Bonfati
    Francisco de Assis Bonfati

    Nem Bolsonaros nem L (De Ladrão), o Brasil precisa superar isto e caminhar para o futuro e progresso.

  4. Teresa Guzzo
    Teresa Guzzo

    Realmente entrou em modo de crise,os diálogos com Vorcaro não favorecem sua campanha. Se querem a verdade e transparência é melhor enfrentar de frente.Vorcaro é um estelionatario que há anos roubava muitos com falsas promessas.

  5. Adauto Levi Cardoso
    Adauto Levi Cardoso

    Como não tenho político de estimação e visto a zona que está no Brasil , com os de sempre gastando sem dó o dinheiro suado dos impostos ,Flávio precisa esclarecer muito bem a relação “me irmão estou com você para sempre “ . Aguardemos as cenas dos próximos capítulos .

  6. Lourival Nascimento
    Lourival Nascimento

    FARMACÊUTICA DO LULA PARA VORCARO
    É mesmo LULA? Seu Desgoverno está empapuçado de VORCARO. “Farmacêutica de Vorcaro inaugurada por Lula liga presidente ao banqueiro. A ligação de Daniel Vorcaro a Lula (PT) ainda está por ser investigada. Um dos fatos mais intrigantes é que o petista recebeu por quatro vezes, fora da agenda, o banqueiro preso; uma delas por uma hora e meia. Mas foi o ‘socorro’ a empresário em dificuldades, em Minas Gerais, que pode virar batom na cueca: tratava-se de Walfrido dos Mares Guia, duas vezes ministro de Lula. A saída era a farmacêutica Biomm, que precisava de um investidor e de um governo gastador, e seus problemas acabariam. ‘Salvador’ em ação. Após a posse de Lula, Vorcaro aparece, vira sócio e sacramenta tudo na inauguração da fábrica da Biomm em Nova Lima (MG), em abril de 2024. Felizes para sempre?
    Lula fez questão de ir e o amigo discursou agradecido, claro: restavam-lhe 8% da Biomm, um quarto da Cartago, de Vorcaro, mas estava feliz. Só podia gerar rombo O governo Lula enterrou na Biomm R$203 milhões da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e mais R$133 milhões do BNDES e BDMG. Exclusivo das tetas Logo a Biomm fecharia contratos milionários com o governo Lula. Os críticos dizem que nunca vendeu um só frasco de nada ao setor privado.

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