Então é assim que a tecnocracia termina, não com um nocaute, mas com a choradeira de um de seus principais defensores, que agora se esconde do julgamento do povo. Esta é a imagem que temos de Keir Starmer: sozinho, desmoralizado, esgueirando-se em seu bunker na Downing Street, a residência oficial do primeiro-ministro. É um finado, dizendo coisas sem sentido, falando em permanecer no caminho certo, ainda que o povo e boa parte de seu partido não concordem. “Ele é resoluto”, diz sua minguada tropa de defensores, mas para todo o resto, isso parece apenas vaidade patológica.
Agora vejam que eventos extraordinários. Após as eleições locais e regionais da semana passada — nas quais o Partido Trabalhista perdeu vastas porções de território para o Reform UK e outros partidos —, a pressão sobre Sir Keir aumentou. Como se já não fosse humilhante o bastante perder cadeiras em conselhos municipais por toda a Inglaterra, o controle do Senedd, o Parlamento do País de Gales, e quatro assentos no Parlamento escocês, pesquisas mostram que 70% dos britânicos veem Starmer de forma “desfavorável”. A situação do Partido Trabalhista é tão precária que levanta as questões: quem são os outros 30%? O que têm na cabeça?
As armas estão sendo preparadas. Dezenas de parlamentares trabalhistas exigiram que Starmer estabelecesse um cronograma para desocupar a cadeira de primeiro-ministro. Assessores do partido pediram demissão. Em um ato raríssimo, com ao menos uma aparência de ética política, Jess Phillips, ministra da Proteção Social, do Partido Trabalhista, renunciou. Até a ministra do Interior, Shabana Mahmood, acha que Sir Keir deve apresentar um plano para deixar o cargo. Ainda assim, isolado em seu gabinete, surdo às críticas, ele se agarra ao poder.

A justificativa dada por seus apoiadores menos convictos é que a última coisa de que a Grã-Bretanha precisa é o “caos” de uma eleição interna no Partido Trabalhista e a “desordem” de uma possível eleição geral. Sendo assim, ele está irredutível apenas para nos poupar do caos e da desordem. Há uma profunda veia antidemocrática nisso — como se ele encarnasse um Luís XV moderno, permanecendo no cargo para evitar a inevitável “catástrofe” resultante de sua partida. Escolher um novo líder partidário não é caos. Promover uma eleição geral antecipada não é desordem. É democracia. Se a única justificativa de Starmer para ficar é que o diabo que você conhece é melhor do que um processo democrático que você não pode prever, então ele realmente precisa cair fora.
Ele é a personificação da filosofia tecnocrática, cujo princípio é tirar a política do alcance das massas abjetas. É a mentalidade de bunker. É a persistência na farsa do gerencialismo estatal. A única coisa que pode salvar sua pele é a covardia moral do partido desgastado que ele lidera. A ação da incompetente ala pró-Starmer do Partido Trabalhista não passa de um exercício inglório de proteção da retaguarda — esses parlamentares sabem que eleitores da classe trabalhadora estão loucos para substituí-los por alguém do Reform UK. Juntam-se para proteger um primeiro-ministro extremamente impopular e evitar que ele tenha de encarar o povo. Preferem se abrigar sob a segurança da estagnação a enfrentar o horror da vontade do povo.
A gente não sabe se ri ou se chora ao ler sobre o possível confronto na reunião de gabinete, no último dia 12. Henry Zeffman, da BBC, diz que a mensagem de Starmer a seus ministros foi basicamente: “Se tiverem coragem, venham para a briga”. Na verdade, a mensagem foi “direcionada a uma pessoa” em particular, diz Zeffman — Wes Streeting, o ministro da Saúde, que supostamente está por trás de grande parte das articulações anti-Starmer. Consegue pensar em algo mais ridículo do que uma batalha pelo trono entre o João Bobo e o Zé Ninguém da tecnocracia?

Que final decepcionante para o típico inglês que, historicamente, adora uma boa intriga. O país que deu ao mundo regicídios, revoluções e disputas faccionais de real profundidade agora nos presenteia com Starmer versus Streeting. Um embate entre os dois homens mais frouxos da política britânica. É uma patifaria shakespeariana, mas completamente desprovida de caráter, poesia ou substância. É a prova de que os problemas do Partido Trabalhista vão muito além de Sir Keir. Um partido sem visão, sem vergonha e sem candidatos sérios. Colocar uma cara “nova” na Downing Street seria o equivalente político a dar pérolas aos porcos.
Alguns agora dizem que sentem pena de Starmer. “As críticas já foram longe demais, parem com isso”, dizem os puxa-sacos da mídia. Vocês têm razão. Vou guardar só para mim a preocupação com os aposentados que ele forçou a escolher entre se aquecer e comer, com as vítimas das gangues de estupro cujo sofrimento indescritível ele chamou de “exagero da extrema-direita”, com as jovens mulheres abusadas por imigrantes ilegais, sem que ele fizesse coisa alguma para impedir, e com as comunidades judaicas atormentadas pelo ódio sob sua administração. Vá embora, Sir Keir. Vá sentir pena de si mesmo fora do cargo, às suas próprias custas.
Brendan O’Neill é repórter-chefe de política da Spiked e apresentador do podcast The Brendan O’Neill Show, também da Spiked. Seu novo livro, After the Pogrom: 7 October, Israel and the Crisis of Civilisation, foi lançado em 2024. Brendan está no Instagram: @burntoakboy
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Esse tipo de doença tá se espalhando de forma assustadora mundo afora. Aqui no Brasil já tem vários espécimes desse tipo intoxicando e levando o país pro caos total.