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Sessão Deliberativa Extraordinária Presencial no Plenário da Câmara dos Deputados (27/05/2026) | Foto: Bruno Spada/Câmara dos Deputados
Edição 324

Populismo trabalhista

Enquanto o Congresso debate mais uma camada de proteção ao modelo CLT, o trabalhador, que tem de pagar as contas no fim do mês, já chegou à própria conclusão

Existe um tipo especial de ilusionismo político que consiste em chamar de direito aquilo que é, na prática, um custo. A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que propõe o fim da escala 6×1 é um exemplar perfeito do gênero. Vem embalada em linguagem de conquista social, tem o apoio de quem vive de salário público e será paga, como sempre, por quem trabalha. A proposta de Erika Hilton parte de um pressuposto que a esquerda brasileira nunca conseguiu abandonar: a ideia de que o Estado concede direitos ao trabalhador. De que é o Congresso que decide se você vai trabalhar cinco dias e descansar dois, ou seis e descansar um. De que a escala é uma dádiva regulável por decreto. Mas isso é ilusão. Funciona bem no palanque das redes sociais em ano eleitoral. Mas não na realidade. 

Até seria interessante se Erika Hilton estivesse certa: bastaria os deputados “concederem direitos” e, abracadabra!, os trabalhadores de repente ganhariam melhores condições de trabalho. Mas a realidade, infelizmente, é mais cruel. Cada novo encargo adicionado à folha de pagamento é um centavo a menos no salário-base do trabalhador. O empregador não tem dinheiro sobrando esperando uma PEC para redistribuí-lo. Quando o custo de contratar aumenta, o salário cai, a jornada encolhe ou a vaga some. Às vezes, as três coisas ao mesmo tempo. 

Erika Hilton (Psol-SP) em Sessão Deliberativa Extraordinária na Câmara Federal (27/5/2026) | Foto: Bruno Spada/Câmara dos Deputados

Enquanto o Congresso debate mais uma camada de proteção ao modelo CLT, o trabalhador brasileiro, com a inteligência prática de quem paga as contas no fim do mês, já chegou à sua própria conclusão. Os números deixam claro. Praticamente um em cada cinco trabalhadores formalmente ocupados no Brasil atuava como microempreendedor individual em 2021, segundo o IBGE — e essa proporção só cresceu desde então. Não são pessoas empurradas para a informalidade contra a vontade. São pessoas que escolheram um modelo mais simples, mais direto, com menos intermediários entre o seu trabalho e o seu dinheiro.

O mesmo raciocínio aparece com força entre os trabalhadores por aplicativo. Seis em cada dez motoristas não gostariam de ser empregados pelo modelo CLT. Entre os que têm opinião formada, a rejeição chega a sete em cada dez — e 66% dos motoristas descartam mudar para a CLT ainda que ganhando o mesmo valor líquido, segundo o Datafolha. Nem pelo mesmo dinheiro, pois a autonomia vale mais. Esse dado deveria causar constrangimento profundo nos defensores da PEC. Se o trabalhador rejeita a carteira assinada mesmo quando a conta fecha igual, é porque a CLT cobra algo que não aparece no contracheque: a liberdade de organizar a própria vida.

Entregador de comida via aplicativo de celular, no Rio de Janeiro, Brasil (03/06/2024) | Foto: Shutterstock

Sei que as pesquisas de opinião mostram que a maioria dos brasileiros é favorável ao fim da escala 6×1. Mas é preciso ter cuidado com o que esses números dizem de verdade. O economista Paul Samuelson cunhou a distinção entre preferências declaradas e preferências reveladas: o que as pessoas dizem querer numa pesquisa raramente é a mesma coisa que elas escolhem quando o dinheiro é real e a decisão tem consequências. Pergunte a qualquer brasileiro se quer trabalhar menos e a resposta será, obviamente, sim. Quem não quer trabalhar menos? Essa é a única resposta racional para uma pergunta hipotética sem custo. Mas observe o que esse mesmo trabalhador faz quando tem escolha de verdade: abre uma MEI, vira motorista de aplicativo após o trabalho formal, negocia por conta própria. Ele escolhe autonomia e renda, não escala reduzida com salário menor. A preferência revelada contradiz a declarada. 

O trabalhador que sabe fazer contas já entendeu que a CLT é o melhor caminho para ter um salário fustigado por taxas, impostos e “direitos”. Os encargos sobre a folha funcionam como o imposto do cigarro. Tributar pesadamente o cigarro inibe o consumo de cigarro. Tributar pesadamente a contratação formal inibe a contratação formal. No Brasil, contratar com carteira assinada significa pagar, além do salário combinado, FGTS, INSS patronal, contribuição ao Sistema S, férias com um terço, décimo terceiro, aviso prévio e mais uma lista de obrigações que varia conforme o setor e o sindicato de plantão. O custo real de um empregado celetista pode chegar a quase o dobro do salário líquido que ele recebe. Quem arca com isso? Em geral, a parte mais “inelástica” — quem está mais desesperado atrás da relação de trabalho. Quase sempre, é o trabalhador — no salário que poderia ser maior se não houvesse tanto pedágio entre o que o empregador paga e o que o empregado recebe. A CLT não protege o trabalhador do mercado. Ela o protege do mercado formal.

Foto: Shutterstock

A Carteira Verde e Amarela 

Em vez de retrocessos como a PEC que engessa a escala de trabalho, deveríamos seguir o caminho oposto — que já existe, já foi desenhado. No começo do governo Bolsonaro, trabalhei no Ministério da Economia com Paulo Guedes e acompanhei de perto a construção da Carteira Verde e Amarela — uma proposta que a companheirada trabalhista fez o possível para enterrar. A ideia era simples demais para quem vive da complexidade: dois modelos coexistindo no mercado. O regime CLT, com todos os seus direitos e encargos, para quem o quiser. E um regime alternativo, sem imposto sindical, com capitalização individual, com jornada negociada livremente entre as partes. O trabalhador escolheria. 

Essa é a parte que a esquerda não consegue aceitar — a ideia de que o trabalhador é capaz de escolher, de comparar dois modelos, fazer as contas e decidir o que é melhor para a própria vida. Para quem acredita que o Estado deve conceder direitos, a autonomia do trabalhador é uma ameaça. Para quem acredita em liberdade, é o ponto de partida.

A Carteira Verde e Amarela travou no Congresso. Os mesmos que a enterraram são os que hoje defendem a PEC 6×1 com entusiasmo. 

Sessão Deliberativa Extraordinária na Câmara Federal (27/05/2026) | Foto: Bruno Spada/Câmara dos Deputados

O que o Brasil precisa não é de mais uma camada de rigidez sobre um mercado já engessado. É de regras que incentivem a formalização sem punir quem formaliza, de um modelo em que trabalhador e empregador possam negociar condições dentro de um quadro claro, sem precisar de sindicato como intérprete obrigatório, sem pagar pedágio a uma estrutura que existe para se perpetuar.

O trabalhador já entendeu isso. Está virando MEI, está dirigindo por aplicativo, está construindo sua trajetória fora do sistema que diz protegê-lo. O Congresso poderia aprender com ele. Mas parte do Congresso tem um problema diferente: não é de esquerda assumida, mas tampouco tem coragem de ser de direita de verdade. São deputados que constroem a imagem de oposição ao PT na hora do palanque e votam com o PT na hora do Plenário, sempre que a medida em pauta vier embrulhada em papel de presente popular. A PEC 6×1 foi um teste desses. Fácil de apoiar, difícil de explicar — porque explicar exigiria dizer ao eleitor que o presente tem um custo, que alguém vai pagar a conta, e que esse alguém, como de costume, é o próprio trabalhador que a medida promete proteger. Essa conversa exige coerência e coragem. E coragem, no Congresso brasileiro, continua sendo o recurso mais escasso.

Leia também “O ódio do PT a quem quer prosperar pelo trabalho”

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6 comentários
  1. Vanessa Días da Silva
    Vanessa Días da Silva

    Melhor artigo dessa edição . Sucinto e didático

  2. Maria Angela Marchi
    Maria Angela Marchi

    Muito bom! Muito bem escrito. Obrigada, equipe maravilhosa da Oeste. Sempre precisa e cirúrgica. 👏👏

  3. Francisco de Assis Bonfati
    Francisco de Assis Bonfati

    Marina Helena sempre precisa. Parabéns.

    1. Cícero Ruggiero
      Cícero Ruggiero

      Com certeza, Marina Helena é uma grande escritora e precisa nos seus comentários. Pena que só tem uma.

  4. Mariza
    Mariza

    Esse pessoal da esquerda faz qualquer negócio para ganhar votos dos leitores alienados e poderem continuar com as boquinhas grudadas na teta da vaca desnutrida. Triste situação desses “politicos” populistas.

  5. Marcio Cruz
    Marcio Cruz

    Nessa foto da sessao deliberativa, apontem uma que tenha criado um emprego na vida (ou que exercido emprego CLT)

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