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Estátua de Marco Antônio (à esquerda), Abraham Lincoln (no meio) e Getúlio Vargas (à direita) | Foto: Montagem Revista Oeste/Reprodução
Edição 326

Três discursos exemplares

Marco Antônio, Abraham Lincoln e Getúlio Vargas fizeram pronunciamentos inesquecíveis pela brevidade e pelos resultados

Somos amantes da verborragia. O discurso laudatório é parte da nossa cultura. Não faltam pretextos para que alguém se valha da oportunidade para longas, cansativas e inconvenientes perorações. Lembro-me de solenidade de posse no Supremo Tribunal Federal. Tanto o presidente que se despedia, como aquele que era empossado, se derramaram em narrativas eruditas, mas de pouco interesse para o auditório que lá se encontrava por obrigação do cargo, de família, interesse ou amizade. A partir da terceira fila, a sonolência dominava os ouvintes. Homens e mulheres, idosos e de meia-idade, mal conseguiam disfarçar os olhos quase fechados.

Conheço três discursos inesquecíveis pela brevidade e pelos resultados. O primeiro, de Marco Antônio, diante do corpo inerte de Júlio César, assassinado por conspiradores liderados por Brutus. O segundo, de Abraham Lincoln na tarde de 19 de novembro de 1863, para honrar a memória dos soldados mortos na batalha de Gettysburg, onde se decidiu o resultado da Guerra da Secessão. Foram apenas 272 palavras, ditas em menos de três minutos. O terceiro, de Getúlio Vargas, escrito em 23 de agosto de 1954, horas antes do suicídio.

Júlio César, obra ímpar de William Shakespeare (1564-1616), foi popularizada pelo filme homônimo produzido em 1953, dirigido por Joseph Mankiewicz e estrelado por Marlon Brando, James Mason, John Gielgud. A breve oração de Marco Antônio se inicia com frase citada em todas as boas antologias: “Amigos, cidadãos de Roma, ouvi-me; venho enterrar César, mas não louvá-lo. O mal que o homem faz vive depois dele. O bem se enterra às vezes com os seus ossos. Com César, que seja assim”.

Discurso de Marco Antônio no funeral de César, por George Edward Robertson, 1864 | Foto: Reprodução

Abraham Lincoln (1809-1865) combateu a escravidão e pagou com a vida. A Guerra da Secessão opôs o norte industrializado ao sul escravocrata. A Batalha de Gettysburg durou três dias, envolvendo mais de 170 mil soldados, com cerca de 50 mil mortos e feridos. Quatro meses depois Lincoln compareceu ao local para a cerimônia de dedicação do campo de batalha à memória dos mortos e inauguração do Cemitério Nacional de Gettysburg. Foram suas primeiras palavras: “Há 87 anos, os nossos pais deram origem, neste continente, a uma nova Nação, concebida em Liberdade e consagrada ao princípio de que todos os homens nascem iguais”. Concluiu o imortal discurso dizendo: “… admitamos que estes homens não morreram em vão, que esta Nação, com a graça de Deus, renasça na liberdade, e que o governo do povo, pelo povo, e para o povo, jamais desapareça da face da terra”.

Cena do Discurso de Gettysburg, proferido por Abraham Lincoln em 1863; litografia publicada em 1905 pela Sherwood Lithograph Co., de Chicago | Foto: Reprodução

Getúlio Vargas (1882-1954) aliava a qualidade de político excepcional às virtudes de excelente orador. Escrevia e falava em perfeita língua portuguesa. São primorosos os discursos do 1º de Maio de 1951, 1952 e 1954, este último pronunciado no Palácio Rio Negro, quando, em tom profético, disse: “Não me perdoam os que me querem ver insensível diante dos fracos e injusto com os humildes. Continuo, entretanto, ao vosso lado. Mas a minha tarefa está terminando e a vossa apenas começa”.

A Carta Testamento poderia ter sido lida como discurso, da sacada do Palácio do Catete. Foi escrita com a emoção da despedida e selada com o tiro de revólver que extinguiu a vida do presidente Vargas.  

Réplica da Carta Testamento de Getúlio Vargas, localizada na Praça de Flores em Nova Petrópolis (RS) | Foto: Reprodução

O manto da corrupção, agravada pela mediocridade, baixou sobre o Brasil. Sou pessimista? Não. Limito-me a reconhecer a realidade. Vejam-se as mesas diretoras da Câmara dos Deputados e do Senado; a leitura enviesada que o Supremo Tribunal Federal faz da Constituição; a maré montante de demagogia populista que varre a Esplanada dos Ministérios e o Palácio do Planalto. Os escândalos do INSS, do Banco Master e de bilionárias emendas parlamentares.

Aproximam-se as eleições de outubro. Dezenas de mulheres e homens ocupam os horários gratuitos da televisão, insistindo nas mesmas falsas promessas de eleições passadas.

Escreveu Gustave Le Bon: “O caráter dos povos e não os governos é que determina seus destinos”. Sim. É verdade. Pelos governantes que escolhemos nas últimas décadas, somos um povo de caráter frágil e quebradiço.


Almir Pazzianoto é advogado, foi ministro do Trabalho e presidente do Tribunal Superior do Trabalho.

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6 comentários
  1. Enoch Bruder
    Enoch Bruder

    Dr Almir Pazzianoto, está no Podium das mais brilhantes personalidades públicas que o Brasil já teve! Com três discursos exemplares que os nossos verborrágicos e inúteis representantes. nos três níveis da república, não têm a humildade de assumir e apreender, porque são tão boçais e esquisofrênicos quanto os eleitores que os elegeram! É o retrato de uma nação que ainda está por se fazer um país sério, porque desperdiça de todo recurso amealhado com suor e lágrimas e às vezes com sangue, para suportar privilégios de poucos canalhas que enganam os incautos eleitores, com retórica sebosa e nojenta! Malditos escroques!

  2. Osmair Mendonça
    Osmair Mendonça

    Somo uma nação de caráter muito duvidoso e, por isso mesmo, os maiores mal caraterdentre o povo se destacam nas lideranças. Isso foi construído ao longo do tempo. Tidos achamos muit espertos !!!

  3. Paulo Roberto Taveira
    Paulo Roberto Taveira

    Tivemos a infelicidade de no alvorecer da nação e da nacionalidade , sermos tomados através do golpe de Deodoro, pela infeliz república e levados a este caminho q hoje percorremos

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