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A relação entre Lula e Jaques Wagner, que começou na década de 1970, se tornou uma preocupação para o governo devido à investigação sobre o Banco Master, que envolve Wagner em suspeitas de corrupção. O senador, com uma longa trajetória no PT e acesso direto a Lula, foi acusado de atuar em favor de interesses do banco durante sua gestão na Bahia. A Operação Compliance Zero trouxe à tona evidências de sua proximidade com empresários do setor financeiro, levando à sua saída da liderança do governo no Senado nesta semana.
O primeiro aperto de mãos entre Lula e Jaques Wagner aconteceu quando ambos ainda eram apenas líderes sindicais. Apresentados por amigos em comum, reuniram-se em um congresso nacional de trabalhadores, no fim da década de 1970. Ali, o metalúrgico do ABC paulista e o dirigente do Polo Petroquímico de Camaçari iniciaram uma parceria política que sobreviveria à fundação do Partido dos Trabalhadores (PT), atravessaria sucessivas crises políticas e ajudaria a moldar a história da legenda. Quase cinquenta anos depois, é justamente essa relação que faz da investigação sobre o Banco Master uma ameaça não apenas ao senador baiano, mas também ao núcleo político do presidente.
Para entender por que a apuração preocupa tanto o Palácio do Planalto, é preciso saber o lugar que Wagner ocupa na história do partido. Poucos petistas acumulam uma trajetória semelhante. Integrante da fundação do PT, em 1980, Wagner presidiu o partido na Bahia (BA), comandou a Central Única dos Trabalhadores no Estado, exerceu três mandatos de deputado federal, governou a BA por oito anos, foi ministro de Lula e Dilma Rousseff e liderou o governo no Senado. Ao longo desse percurso, tornou-se um dos poucos dirigentes com acesso direto ao presidente e liberdade para discordar dele, mesmo nos momentos de maior tensão.

Nascido na capital fluminense, em 1951, Wagner iniciou a militância no movimento estudantil da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Abandonou o curso de Engenharia e mudou-se para a BA na década de 1970 por suposta perseguição do regime militar, em virtude de ser filiado ao Partido Comunista do Brasil. No Polo Petroquímico de Camaçari, assumiu cargos de liderança no Sindiquímica e passou a frequentar congressos sindicais que reuniam lideranças de todo o país. Foi nesse contexto que conheceu Lula. A afinidade construída ali resistiu ao tempo e transformou o sindicalista baiano em um dos homens mais influentes no entorno do presidente. A amizade superou até mesmo as divergências que existem entre Wagner e a primeira-dama Janja.
Estrategista hábil
A proximidade entre Lula e Wagner se refletiu diretamente em sua carreira política. Em 2006, o presidente deu ao amigo de longa data uma das missões mais importantes do projeto nacional do PT: derrotar o grupo político liderado por Antônio Carlos Magalhães na Bahia. Contra as previsões iniciais, Wagner venceu Paulo Souto e encerrou décadas de hegemonia carlista no Estado. A vitória transformou a BA em um dos principais redutos eleitorais do petismo e consolidou o senador como a principal liderança do partido no Nordeste.
Seu legado ultrapassou os dois mandatos exercidos entre 2007 e 2014. Foi Wagner quem patrocinou a ascensão de Rui Costa ao governo estadual nos anos seguintes e, posteriormente, a candidatura de Jerônimo Rodrigues, atual governador. Os três nomes formaram a espinha dorsal do projeto político que mantém o PT no comando da Bahia há quase duas décadas. É consenso que Wagner é o principal responsável pela construção da máquina política no Estado.
Ao longo desse período, Wagner construiu fama de negociador habilidoso e conciliador. Mesmo adversários reconhecem sua capacidade de diálogo e sua disposição para construir acordos. Essas características ajudaram a transformá-lo em uma espécie de bombeiro político do PT, frequentemente acionado em momentos de grande tensão.
A confiança de Lula em Wagner não se limita à amizade construída ao longo dos anos. Depois da passagem pelo governo baiano, o petista retornou ao Executivo federal durante a gestão Dilma. Ocupou os ministérios da Defesa e da Casa Civil justamente quando o governo enfrentava a crise que culminaria no impeachment da presidente, em 2016. Embora não tenha conseguido impedir a queda de Dilma, ampliou seu prestígio interno no PT ao se manter firme ao lado dela e de Lula, que seria preso dali a dois anos.
No terceiro mandato de Lula, foi escolhido para liderar o governo no Senado. A função costuma ser reservada a parlamentares que desfrutam de elevada confiança do presidente e possuem trânsito entre diferentes grupos políticos. A escolha refletiu não apenas a experiência acumulada por Wagner, mas também sua capacidade de interlocução em um Congresso cada vez mais fragmentado.

Em meio ao auge de sua influência política, Wagner enfrenta hoje a maior crise de sua trajetória. Acostumado a atuar nos bastidores das principais decisões do PT e escolhido por Lula para uma das funções mais estratégicas do governo, o senador viu seu nome voltar ao centro das investigações policiais. O escudeiro do presidente transformou-se, de uma hora para outra, em um fator de desgaste para o próprio Palácio do Planalto.
A crise
Não é a primeira vez que Wagner enfrenta suspeitas de corrupção. Mas nunca uma investigação aproximou tanto um escândalo financeiro do núcleo histórico do PT quanto a Operação Compliance Zero. Durante a Lava Jato, executivos da Odebrecht denunciaram o petista por atuar em favor de interesses da empreiteira quando governava a Bahia. Nas planilhas do chamado Departamento de Operações Estruturadas — setor responsável por pagar propinas — Wagner aparecia sob o codinome “Polo”. Delatores relataram repasses de US$ 12 milhões para suas campanhas, além de benefícios relacionados a incentivos fiscais concedidos à companhia. Anos depois, o Supremo Tribunal Federal (STF) invalidou provas contra Wagner.
Agora, o parlamentar voltou ao centro do noticiário em razão da investigação que apura a fraude bilionária envolvendo o Master, a Credcesta e empresários ligados ao setor financeiro. A Credcesta funciona como um cartão de crédito consignado voltado principalmente a servidores públicos e aposentados. Com bandeiras Visa e Mastercard, permite compras e saques com desconto automático na folha de pagamento. Criado na Bahia e utilizado por cerca de 400 mil pessoas, o programa tornou-se um dos principais elos entre o grupo empresarial investigado e o universo político baiano. Segundo a Polícia Federal (PF), a aproximação entre Wagner e o empresário Augusto Lima — ex-sócio de Daniel Vorcaro no Master — remonta ao período em que o petista ocupava a Secretaria de Desenvolvimento Econômico da Bahia, entre janeiro de 2017 e abril de 2018. Na época, Lima assumiu ativos ligados à antiga Empresa Baiana de Alimentos e passou a controlar a operação da Credcesta, posteriormente expandida nacionalmente em parceria com o Master.
As apurações apontam que Wagner atuou em favor de interesses do grupo em discussões realizadas no Congresso Nacional. A PF sustenta que o senador apresentou ou apoiou iniciativas legislativas consideradas benéficas ao banco, além de manter interlocução frequente com integrantes do grupo em temas estratégicos para a instituição financeira. Em uma das mensagens obtidas pelos investigadores, Lima afirma a Wagner: “Você, mais do que ninguém, sabe da minha história e faz parte disso”, frase interpretada pela corporação como evidência da proximidade entre ambos.
De acordo com a decisão do ministro André Mendonça, que autorizou as buscas, Wagner aparece como o principal beneficiário de uma série de vantagens econômicas ligadas ao Master. Entre elas estão tratativas para a aquisição de um apartamento de luxo em Salvador avaliado em R$ 2,45 milhões, viagens em aeronaves particulares, ingressos para apresentações da cantora Taylor Swift — incluindo um camarote em Los Angeles — e repasses financeiros destinados a pessoas ligadas ao seu círculo familiar. Entre os elementos reunidos pelos investigadores estão mensagens extraídas de celulares apreendidos, registros de viagens, negociações relacionadas ao imóvel e uma transferência de R$ 3,5 milhões para a BN Financeira, empresa ligada ao enteado de Wagner.
A PF ressalta que os recursos não foram destinados diretamente ao senador. Ainda assim, os investigadores sustentam que ele atuava como interlocutor relevante do grupo em pautas de interesse do Master. Durante a operação, também foram apreendidos US$ 49 mil em espécie em um endereço utilizado pelo parlamentar em Brasília, além de 33,5 mil euros e US$ 6,1 mil em Salvador. Wagner afirma que os valores têm origem lícita e declarou não ter recebido dinheiro nem atuado em favor do banco.
Segundo Wagner, em entrevista à BandNews, Lula telefonou para manifestar “solidariedade” posterior à operação e reafirmar confiança no aliado. “A gente se conhece há 48 anos”, afirmou o senador ao relatar a conversa. “Ele sofreu o pior, foi preso e depois inocentado.” Nos bastidores, entretanto, o clima se tornou mais complexo, principalmente porque Lula não o autorizara a falar em seu nome. Embora alguns petistas tenham saído em defesa do líder do governo, integrantes da base governista passaram a discutir reservadamente sua permanência em um cargo tão estratégico enquanto a investigação permanecia aberta. A pressão cresceu nos dias seguintes e, depois de uma conversa com Lula, Wagner deixou a liderança do governo no Senado na quinta-feira, 25. Em seu lugar, o presidente escolheu a senadora pernambucana Teresa Leitão (PT), numa tentativa de conter o desgaste político provocado pelo caso Master e preservar a articulação do Planalto no Congresso.

O impacto da operação foi imediato dentro do PT. Aliados do núcleo jurídico do partido descreveram o ambiente que se instalou na sigla como de “desespero”. A avaliação era de que a investigação poderia comprometer a tentativa de reeleição de Lula e impulsionar o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) nas pesquisas para a Presidência. Paralelamente, juristas da legenda começaram a elaborar memorandos destinados a subsidiar a defesa de Wagner no STF, reunindo argumentos para rebater os fundamentos de Mendonça.
A apreensão no Executivo também tem outro motivo. Meses antes da operação, Lula havia se reunido, fora da agenda oficial, com Vorcaro. Relatos de pessoas ouvidas por Oeste, e que participaram das reuniões, revelam que o presidente aconselhou o então dono do Master a não vender o banco ao BTG Pactual, de André Esteves, afirmando que em breve haveria mudanças no Banco Central. Embora o encontro não integre a investigação da PF, o episódio dificulta ainda mais a narrativa segundo a qual Lula não sabia das ligações de Wagner com a instituição financeira.
O desconforto no governo rapidamente alcançou a área mais sensível para Lula: a comunicação. Um dos ministros que mais se opôs à permanência do petista no cargo foi Sidônio Palmeira, que comanda a Secretaria de Comunicação Social. Coordenador da campanha de Lula, Sidônio teve de rever a estratégia digital do PT voltada às redes sociais, que vinha associando Flávio ao Master desde a divulgação do áudio sobre o filme Dark Horse pelo site de esquerda Intercept Brasil. A operação contra Wagner forçou o ministro a redesenhar uma narrativa que havia recebido o aval do próprio presidente.
A substituição de Wagner não eliminou a preocupação do Planalto. O problema se torna ainda mais sensível porque o senador ocupa um espaço que poucos petistas conseguem preencher. Além da experiência parlamentar, ele reúne duas características raras dentro do partido: a confiança pessoal de Lula e a capacidade de dialogar com diferentes correntes políticas. Sua saída da liderança do governo enfraqueceu um dos principais canais de interlocução entre o presidente e o Senado. O desfecho da investigação ainda é incerto. Mas a crise já produziu um efeito político relevante. Pela primeira vez desde que ajudou a construir o PT, conquistou a Bahia para o lulismo e se tornou um dos homens mais influentes do partido, Wagner deixou de ser apenas o articulador encarregado de resolver problemas para se transformar em um problema que o próprio governo não sabe administrar.
A ironia é que, desde a divulgação sobre o Dark Horse, integrantes do PT e da máquina de comunicação do governo concentraram esforços para associar o caso Master a Flávio Bolsonaro. A estratégia buscava deslocar o desgaste para a oposição e manter Lula longe da crise. A operação da PF contra Wagner produziu o efeito contrário. Ao atingir um dos aliados mais antigos, leais e influentes do presidente, a investigação atravessou a última barreira de proteção política construída pelo Planalto. Se durante meses o PT atirou contra Flávio Bolsonaro em razão do Master, agora corre o risco de ter acertado a testa de Lula.

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