publicidade
André Esteves, principal acionista e chairman do BTG Pactual e o presidente Lula | Foto: Júlia Xavier/Montagem Revista Oeste
Edição 328

Por que ainda o medo?

Se denunciar o governo ou os poderosos de plantão das Cortes de Brasília causa receios na maioria da classe empresarial, não é numa democracia que estamos vivendo

Confira o resumo que a OESTE.IA, a IA da Revista Oeste, fez pra você

Em julho de 2014, o Brasil enfrentava uma crise econômica e política sob a presidência de Dilma Rousseff, marcada por corrupção e recessão. Sinara Polycarpo Figueiredo, do Santander, alertou sobre os riscos da reeleição de Dilma, mas foi demitida após pressão de Lula, que desdenhou de sua competência. Em contraste, em 2026, o governo Lula acumula déficits e uma carga tributária recorde, enquanto o empresariado teme represálias estatais em razão de críticas ao Executivo, resultando em um ambiente de medo e censura.

Em julho de 2014, tal como agora, o Brasil vivia a expectativa de uma eleição presidencial. Tal como agora, a economia passava por um de seus piores momentos com uma crise fiscal prestes a explodir. A mistura de pedaladas com um ambiente institucional deteriorado pelo compadrio dos círculos do poder de Brasília traria ainda o que, à época, foi considerado o maior caso de corrupção na história brasileira, o Petrolão. Dilma Rousseff era presidente, um governo trágico, inflação em alta, perda de credibilidade e a gestação de uma recessão que derrubaria o governo. Mas uma diferença nos afasta de 2014: lá, havia plena liberdade para criticar e o Congresso ainda não havia sucumbido ao cabresto do STF. A separação de Poderes vigia. Nos moldes brasileiros, mas ainda era um preceito constitucional vigente, tal como a liberdade de expressão. Com a certeza de um país livre e, ainda mais fundamental, a certeza de que ninguém seria punido por exercer o sagrado direito de se manifestar, uma mulher — e não me refiro a Dilma — moldou um capítulo daquele momento histórico.

Sinara Polycarpo Figueiredo era superintendente de investimentos do Santander no Brasil. A área que ela chefiava fazia relatórios sobre o cenário político e econômico do país para clientes do banco. Numa carta enviada aos clientes do segmento de alta renda, exatamente no mês de julho de 2014, um ano de eleições presidenciais como o de 2026, sentiu-se livre para alertar sobre os riscos econômicos caso Dilma fosse reeleita. Lula, que naquele momento era cabo eleitoral de sua afilhada política e hoje incrivelmente ainda conta com a maioria do voto feminino, reclamou e pediu publicamente a demissão de Sinara, uma mulher, ao então presidente mundial do Santander, o espanhol Emílio Botín. Foi atendido no caso mais vergonhoso e público de concessão de uma empresa privada por pressão política. E, trazendo para os tempos atuais, de misoginia e preconceito contra a mulher em cargos de direção. Vale lembrar exatamente o que Lula disse aos marmanjos sindicalistas sobre Sinara, quando pediu sua demissão: “Essa moça não entende porra nenhuma de Brasil e de governo Dilma. Manter uma mulher dessa num cargo de chefia, sinceramente… Pode mandar ela (sic) embora e dá o bônus dela para mim”. O linguajar e o machismo visceral não deixam dúvidas. Era Lula em seu estado mais natural e absolutamente grotesco. E estava errado. Sinara estava certa. Dilma foi reeleita e o Brasil viveu, em 2015 e 2016, a pior recessão de nossa história, levando o país a um buraco que nem a pandemia, um evento de crise mundial sem precedentes, conseguiria ser pior.

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, durante uma entrevista coletiva | Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Exatos 12 anos depois, o Brasil já não vive a liberdade de antes. Mas o modus operandi do PT persiste. Hoje, o Brasil de Lula acumula três anos de déficits consecutivos, dívida bruta recorde de R$ 10,4 trilhões e deve fechar o mandato com mais de 80% da relação dívida/PIB, depois de receber o país com 71,7% e superávit primário de R$ 54 bilhões, em 2022, último ano de Bolsonaro. A degradação das contas públicas é evidente. Mas não só. Com a economia sob o comando de seu pupilo, Fernando Haddad, que pretende concorrer ao governo de São Paulo, a carga tributária atingiu o recorde de 34%. Em três anos, o governo Lula aumentou ou criou novos impostos mais de 30 vezes.

A combinação de gastança sem limites e elevação da carga tributária para bancar um governo irresponsável e ineficiente gera inflação, aumento dos juros e encarece o crédito. Não por acaso, as recuperações judiciais cresceram em todos os três anos deste terceiro mandato de Lula. Em 2025, o agronegócio registrou o recorde de 1990 empresas que recorreram à Justiça para tentarem se recuperar, um aumento de 56% em relação a 2024, que já tinha sido ruim. Enquanto as estatais voltaram a ser cabides de emprego e acumulam rombos, empresas privadas estão se mudando para o Paraguai em busca de carga tributária mais justa e um ambiente mais saudável para os negócios, com segurança jurídica, disponibilidade de crédito e mão de obra acessível.

Imagina se a analista do Santander ainda estivesse empregada, fazendo as análises sérias e certeiras que fez em 2014, o que ela diria? Para explicar o Brasil de hoje, do medo que alguns têm de dizer a verdade ou do conluio de outros com o governo, recorro a André Esteves, o influente dono do banco BTG e amigo do poder de Brasília. Em 23 de maio, durante um painel de discussões no Fórum Esfera, na capital federal, ele disse: “Quem quer que seja eleito, vai pegar um país arrumadinho, fácil de resolver… não é de corte de gastos, fim de programas sociais, não precisa de nada disso. Tem três, quatro medidas simples de contenção do crescimento do gasto”. Arrumadinho? Impossível não defender mais mulheres como Sinara à frente dos negócios e, sobretudo, das análises de bancos.

Por que um sujeito com o poder de André Esteves se sujeita a dizer algo que não guarda o mínimo de lógica diante dos fatos da economia real? Medo ou relações com o poder? Depende do caso, mas o empresariado brasileiro e o mercado financeiro foram empurrados para fora do debate real sobre política e economia. Debate se faz com verdades. Quantos podem dizê-las hoje sem medo de punição? Esteves é um caso à parte. A desenvoltura com que circula entre os poderosos de Brasília, sobretudo ministros do Supremo, é espantosa. Os negócios vão bem, o BTG cresce e marca presença em praticamente todas as mais importantes rodas de negócios do país — e isso também demonstra a inequívoca expertise técnica da equipe do banco. Mas a se levar em conta a inteligência do dono e seu propalado histórico de concurseiro que passava em tudo, sempre nos primeiros lugares, é impossível imaginar que ele acredite piamente que o país esteja “arrumadinho”. As razões de publicamente não fazer a crítica necessária, só ele pode contar.

O fundador do BTG Pactual, André Esteves, durante o Fórum Econômico Mundial de 2025 | Foto: Divulgação/Fórum Econômico Mundial

Mas e sobre a imensa maioria do setor empresarial? O que se passa? Por que não reagem à altura do que acontece com a economia do país e com seus próprios negócios? É aí que o caso de Sinara, a analista do Santander que foi demitida a pedido de um Lula virulento, não se trata de algo isolado. Nos governos do PT, há receio confesso dos empresários de perseguição estatal por órgãos aparelhados por militantes do partido. E a ascensão do STF como um superpoder e aliado em consórcio com o governo Lula só piorou esse sentimento. O medo passou a tomar conta não apenas dos empresários, mas do país inteiro. Medo de ser calado, desmonetizado e perder acesso às próprias contas bancárias. Medo de ser preso sem direito a se defender. Medo da perseguição da mão pesada de um Estado autoritário.

O início do abuso judicial do Supremo começa no maldito Inquérito 4.781, aberto ilegalmente em 2019. A partir de lá. Tudo mudou. Aceito inicialmente e até apoiado por parte do país, incluindo muitos empresários, o tal Inquérito das Fake News já dura sete anos e se transformou na mais violenta ferramenta de censura e imposição estatal. Diante de um inquérito ilegal e abusivo, como acreditar no Direito e nos direitos? Os novos anos de chumbo protagonizados pela toga preta de ministros fora da lei da mais alta Corte de Justiça criaram um tipo de politburo soviético sabor jabuticaba.

Se fosse levado ao divã, esse Brasil que agora se junta aos que nunca deixaram de resistir ao arbítrio, tentaria resistir aos abusadores de Brasília. E diria que nos governos Fernando Henrique Cardoso, Michel Temer e Jair Bolsonaro, o debate era livre, não gerava perseguições e recorrer à Justiça era plausível. A partir do primeiro mandato de Lula, as coisas mudaram. Com discurso antimercado, anticapitalismo e contra qualquer coisa saudável ao país, o governo lulopetista só aceitava empresários que se prostrassem aos interesses do governo. Muita gente topou isso. Esqueça a separação de Estado e partido ou entre governo e economia privada. A ordem era a submissão ao poder recém-chegado ao Palácio do Planalto, com marketing de governo popular.

Uma submissão muito longe da tese comunista ou socialista clássica, do estatismo como dogma, que os acadêmicos da esquerda pregavam com deleite nas universidades. A esquerda latino-americana é apenas uma desavergonhada ambição de poder pelo poder. E muito dinheiro fazendo comunistas cada vez mais ricos. Mais ou menos o modelo russo de magnatas do petróleo: submissos ao Kremlin e a Putin, e bilionários na vida privada. É aí que entram as “campeãs nacionais” de Lula. O forte financiamento a juros baixos pelo BNDES criou empresas-monstros como a JBS, que arrebentou a concorrência local de frigoríficos e hoje atua em pelo menos oito setores da economia, de mineração, celulose e energia a serviços financeiros. Como concorrer com essa gente?

Joesley Batista, a face mais pública da holding J&F, que controla todos os negócios, tem atuado como emissário informal de Lula em assuntos diplomáticos, num caso de proximidade palaciana e troca de favores que mudam o jogo justo da concorrência. Ambos negam a atuação, mas a viagem à Venezuela, ainda sob a ditadura de Maduro, em novembro de 2025, ou a relação do grupo com advogados próximos de Donald Trump, são fatos conhecidos. Assim como a prisão de Lula e do próprio Joesley pela Lava Jato, em que os dois foram posteriormente beneficiados por decisões do atual STF. Neste grupo de empresários próximos do poder, não há medo. Há ganhos com a proteção de um Estado dominado por uma oligarquia partidária movida a interesses pessoais. A conta, bem, essa é pública, fica com os pagadores de impostos.

Joesley Batista, um dos dos donos da J&F, é o responsável pela Faculdade Germinare | Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Joesley Batista, um dos dos donos da J&F, é o responsável pela escola Germinare TECH | Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Fato é que o estrago institucional está posto e é bem maior, alastrou-se por vários ambientes. Em conluio com a mídia de influenciadores do tipo mais perverso, o do “pagou, levou”, e uma imprensa que denuncia primeiro e depois pergunta, basta uma denúncia de algum movimento associado à esquerda e o assassinato de reputações está consumado. Qualquer coisa serve, a verdade pouco importa. De uma infundada acusação de sonegação fiscal a uma denúncia mal-ajambrada de supostas condições precárias de trabalho, e o dano está feito. Com medo de perseguições em seus CPFs ou CNPJs, ícones da indústria e do mercado financeiro, outrora porta-vozes do necessário debate político-econômico, silenciaram. Mesmo associações e federações do setor produtivo, ou sindicatos patronais, todos recuaram de críticas à política econômica e ao governo, com medo de interferência do governo, apesar de evidentes sinais de deterioração das contas públicas, do populismo pernicioso e da tragédia ética.

Apontar o dedo para o ativismo judicial desmesurado, que tem atropelado a Constituição, nem pensar. A conta alta que a sociedade brasileira está pagando hoje é de um ativismo que não foi contido lá atrás e acabou por normalizar o STF como um poder moderador sem limites. A esperança vem justamente do que se excede, do desgaste do modelo abusivo, do cansaço com tudo e dos erros de quem se imaginava inatingível. Como diz o ditado, a soberba precede a queda. Se nem o abjeto roubo de aposentados conseguiu abalar de vez as estruturas do poder de Brasília, o escândalo do Banco Master, de Daniel Vorcaro, atinge Lula e o STF em cheio. E, tomara, seja uma lição a se aprender e um caminho de retorno à normalidade.

Foi a inocência empresarial que permitiu essa transformação do Estado em coisa particular de um partido e o aparelhamento acelerado de entidades empresariais, de fiscalização e de Justiça por militantes ou representantes dessa esquerda sectária que paga bem — com dinheiro dos outros — quem se ajoelha a ela. Começou lá em 2003, com a eleição de Lula. A benevolência com que foi tratado chama a atenção, afinal era o mesmo sujeito que tinha se negado a assinar a Constituição e orientado voto contrário ao mais bem-sucedido plano econômico da história brasileira, o Real. Nem democrático era porque pregava abertamente a ditadura do proletariado e defendia, como ainda o faz, regimes ditatoriais pelo mundo.

Um banho de marketing político e um cala-boca interno nos militantes mais verborrágicos, e o PT e Lula foram vendidos e comprados como moderados. No primeiro mandato, trouxeram empresários de sucesso e acadêmicos para o primeiro escalão que notoriamente não tinham votado no PT. O escândalo do Mensalão acabaria por afastar toda essa gente bem-intencionada. O PT nunca deixou de ser o PT. E agora não é diferente.

Paulo Skaf, presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo | Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

É por isso que é um alento ver que o país que trabalha e produz está tentando reencontrar seu futuro. A mudança de comando da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, agora novamente sob a gestão de Paulo Skaf, recuperou o protagonismo da entidade, depois de anos de omissão e complacência de Josué Gomes com o terceiro mandato de Lula. Gomes é filho de José Alencar, o vice de Lula em seus dois primeiros governos. Esgoelando contra o aumento de juros, tal como o PT fazia no governo FHC, nunca foi levado a sério. Afinal, era apenas para compor a roupagem de um PT democrático, que enganaria apenas os incautos. A gestão do filho Josué na Fiesp foi de quem se aliou ao Palácio do Planalto e deixou a indústria paulista e brasileira na rua.

Ao reassumir o comando da principal entidade industrial do país, Skaf já foi protagonista de uma reunião com Davi Alcolumbre, presidente do Senado, na qual defendeu uma rediscussão técnica do fim da escala 6 por 1. Exatamente o oposto à pressa petista em mudar a legislação para ganhos eleitorais no varejo da eleição de outubro. Falta agora colocar o pato gigante em frente à sede da Fiesp na Avenida Paulista. Em setembro de 2015, Skaf lançou o movimento “Não vou pagar o pato”, contra o aumento da carga tributária e uma possível volta da CPMF. Com cerca de 30 novos impostos ou elevação de tarifas e com uma das maiores cargas tributárias, além do descalabro governamental, não faltam motivos para que Lula, assim como Dilma foi, seja alvo de um novo “Chega de pagar o pato”.

Leia também “A realidade é que Lula só pensa nele”

Leia mais sobre:

2 comentários
  1. Mariza
    Mariza

    Que belo artigo, Piotto! Bravo! Na mosca! Parece que no Brasil atual é assim: ou se molha mãos poderosas ou empresários mintam em suas publicações/entrevistas sobre as verdades das situações economicas/éticas/politicas/sociais, etc e tal. que é outra forma de pagamento… que triste realidade vivemos com nossa “democracia relativa”!

    1. Adalberto Piotto
      Adalberto Piotto

      Obrigado, Mariza. Tempos estranhos, mas é preciso que eles reajam. O Brasil precisa de todos. Abraços!

      riza

Anterior:
O dever de quem elege
Próximo:
O orçamento paralelo de Lula
publicidade