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Tomada da Bastilha e prisão do governador M. de Launay, 14 de julho de 1789. Pintura de autor anônimo adquirida em 1900, na coleção do Museu da História da França | Foto: Wikimedia Commons
Edição 331

A ilusão revolucionária 

Poucos acontecimentos históricos foram tão bem-sucedidos na construção de sua própria mitologia do que a queda da Bastilha

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No dia 14 de julho, a França celebra a queda da Bastilha, símbolo da luta contra o absolutismo e dos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade. A Revolução Francesa, embora vista como um marco emancipador, também gerou violência e radicalização, especialmente durante o período do Terror, quando a guilhotina e a perseguição a opositores tornaram-se comuns. Em contraste, a Revolução Americana buscou preservar direitos inalienáveis e limitar o poder estatal.

Todos os anos, no dia 14 de julho, a França celebra a queda da Bastilha, episódio que se tornou um dos símbolos políticos mais poderosos da modernidade. A imagem de uma multidão avançando sobre a antiga fortaleza-prisão de Paris atravessou mais de dois séculos associada à derrota do absolutismo e ao nascimento de uma nova era, fundada sobre os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade. Poucos acontecimentos históricos foram tão bem-sucedidos na construção de sua própria mitologia. A Bastilha deixou de ser apenas um lugar e tornou-se um símbolo universal da rebelião contra a opressão.

No Brasil, essa interpretação adquiriu uma força particular. Gerações inteiras passaram pelos bancos escolares aprendendo a enxergar a Revolução Francesa quase exclusivamente como o grande momento emancipador da história moderna, aquele em que um povo finalmente se levantou contra os privilégios de uma aristocracia decadente e abriu caminho para a cidadania, para os direitos e para uma nova concepção de igualdade. Especialmente nos ambientes intelectuais de esquerda, a Revolução Francesa conquistou um lugar quase sagrado no imaginário político, como se dela partisse uma linha histórica contínua em direção ao progresso e à libertação humana.

Há, evidentemente, razões para que 1789 ocupe um lugar central na história do Ocidente. A França do Antigo Regime carregava desigualdades profundas, privilégios difíceis de justificar, uma estrutura fiscal disfuncional e um sistema político incapaz de responder adequadamente às pressões acumuladas ao longo de décadas. A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão consagrou princípios que exerceriam enorme influência sobre a história política moderna. 

Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (1789), pintura de Jean-Jacques-François Le Barbier (1738-1826). Óleo sobre madeira. Paris, Museu Carnavalet | Foto: Wikimedia Commons

O problema começa quando essa importância histórica é transformada em absolvição moral e quando o Terror passa a ser apresentado como um desvio acidental, quase uma nota de rodapé desagradável dentro de uma história essencialmente luminosa. A guilhotina, as perseguições religiosas, os tribunais revolucionários, a execução sistemática de adversários, a destruição de símbolos cristãos e a transformação da violência política em instrumento de regeneração social não foram episódios exteriores à Revolução. Eles surgiram de dentro dela e, por isso, precisam ser examinados não apenas como excessos praticados por indivíduos violentos, mas também à luz da concepção de poder que se desenvolveu em sua fase mais radical.

É justamente nesse ponto que a comparação com a Revolução Americana se torna tão reveladora. Apenas 13 anos separam a Declaração de Independência dos Estados Unidos, de 1776, da queda da Bastilha, em 1789. As duas revoluções foram influenciadas pelo ambiente intelectual do Iluminismo, desafiaram autoridades consideradas injustas e recorreram à linguagem dos direitos e da liberdade. Ainda assim, produziram experiências políticas profundamente distintas, em grande medida porque partiram de compreensões diferentes sobre a natureza do homem, a origem dos direitos e a função do poder.

A Revolução Americana nasceu fundamentalmente como uma revolta contra um poder que os colonos consideravam ter ultrapassado seus limites legítimos. Quando Thomas Jefferson escreveu que todos os homens são criados iguais e dotados por seu Criador de certos direitos inalienáveis, estabeleceu uma premissa que permaneceria no centro da tradição política americana: os direitos fundamentais não são uma concessão do Estado. Eles existem antes dele e, justamente por essa razão, funcionam como uma barreira moral diante da autoridade governamental.

Essa ideia produz consequências políticas profundas. Se o Estado não é a fonte dos direitos, também não pode reivindicar autoridade ilimitada sobre eles. O governo existe para proteger uma esfera de liberdade que lhe é anterior, e a legitimidade do poder depende de sua capacidade de respeitar esses limites. A pergunta que acompanhou os fundadores americanos, portanto, não foi simplesmente como conquistar o poder depois da independência, mas como impedir que o novo poder se transformasse naquilo contra o qual eles haviam acabado de lutar.

Thomas Jefferson, John Adams e Benjamin Franklin reúnem-se para revisar uma minuta da Declaração de Independência em 1776. Cartão-postal publicado pela The Foundation Press, Inc., 1932 | Foto: Domínio Público

A Revolução Francesa seguiu por uma trajetória diferente. Embora tenha começado também como reação a injustiças reais e tenha produzido importantes afirmações de direitos, sua radicalização abriu espaço para uma ambição política muito mais abrangente: não apenas reformar instituições ou limitar o poder, mas reconstruir a sociedade sobre novas bases. Em determinados momentos, a revolução deixou de se contentar com a derrubada de uma ordem política e passou a desejar uma ruptura mais profunda com a história, com a tradição e até mesmo com a herança religiosa da França.

O filósofo, escritor e parlamentar anglo-irlandês Edmund Burke, considerado um dos principais precursores do pensamento conservador moderno, percebeu essa diferença muito antes de a guilhotina alcançar o auge de sua atividade. 

Em sua célebre obra Reflexões sobre a Revolução na França, publicada em 1790, quando boa parte da intelectualidade europeia ainda observava com entusiasmo os acontecimentos de Paris, Burke criticou a ideia de que sociedades complexas poderiam ser desmontadas e reconstruídas a partir de abstrações políticas. Sua posição não significava uma defesa automática do passado: Burke havia apoiado a causa dos colonos americanos e criticado a condução da Coroa britânica.

Para ele, a diferença estava na natureza das duas revoluções. Os americanos reivindicavam direitos e liberdades que consideravam violados, sem pretender apagar sua herança civilizacional. Na França, Burke enxergava uma disposição mais radical de romper com o passado e substituir instituições construídas ao longo de gerações. Sua crítica permanece atual diante da tentação de tratar a sociedade como matéria-prima a ser reorganizada, transformando tradições, religião e instituições em obstáculos à realização de um projeto político.

Capa do livro Reflexões sobre a Revolução na França, de Edmund Burke | Foto: Divulgação

O problema não está na mudança, que é inevitável e muitas vezes necessária. O problema surge quando a ruptura adquire valor moral por si mesma e quando destruir a ordem existente passa a ser considerado um ato de virtude independentemente daquilo que surgirá em seu lugar. Nesse ambiente, a política deixa de ser apenas a difícil arte de governar sociedades imperfeitas e começa a se apresentar como instrumento de redenção.

É aí que a Revolução Francesa oferece uma de suas lições mais sombrias.

Durante o período do Terror, especialmente entre 1793 e 1794, a violência revolucionária deixou de ser apenas consequência da instabilidade e adquiriu uma justificativa ideológica. Diante de uma república supostamente ameaçada por inimigos externos e internos, qualquer opositor poderia ser transformado em obstáculo à missão histórica da revolução. Quando um movimento político se convence de que representa o futuro inevitável, o progresso da humanidade ou a causa moralmente justa, aqueles que resistem deixam de ser cidadãos que precisam ser persuadidos ou derrotados politicamente, e a própria violência passa a ser considerada justificável.

Foi nesse ambiente que a Revolução passou a devorar sucessivamente não apenas antigos representantes da monarquia, mas também muitos de seus próprios protagonistas. Luís XVI e Maria Antonieta foram enviados à guilhotina, mas revolucionários que haviam contribuído diretamente para a queda da antiga ordem encontrariam o mesmo destino. Danton e Desmoulins foram executados, e Robespierre acabaria diante da própria máquina política que ajudara a consolidar.

A Revolução não conseguia mais estabelecer uma fronteira estável entre os virtuosos e os suspeitos, pois uma política baseada na busca permanente por inimigos precisa constantemente ampliar a definição de ameaça.

Execução de Robespierre e seus apoiadores, em 28 de julho de 1794 (gravura anônima, 1794) | Foto: Domínio Público

A perseguição religiosa revela outro aspecto importante dessa transformação. Em sua fase mais radical, o processo revolucionário não se limitou a contestar a relação tradicional entre a Igreja e a monarquia. Igrejas foram fechadas ou profanadas, sacerdotes foram perseguidos e símbolos cristãos foram atacados. A própria maneira de organizar o tempo foi modificada com a criação do calendário revolucionário, numa tentativa simbólica de inaugurar uma nova era desligada das referências anteriores.

É nesse ponto que a diferença com a experiência americana ganha ainda mais significado. A Revolução Americana não eliminou a ambição humana, mas procurou construir instituições capazes de contê-la. A Revolução Francesa, em sua fase jacobina, depositou uma confiança muito maior naqueles que alegavam agir em nome da virtude revolucionária. 

No Brasil, a maneira como aprendemos a olhar para essas duas revoluções também diz algo sobre nossa própria cultura política. Conhecemos muito bem a Bastilha e a guilhotina costuma aparecer como um capítulo posterior. Admiramos a linguagem da ruptura e falamos pouco sobre a construção paciente das instituições. Celebramos a rebelião contra a autoridade, mas nem sempre dedicamos a mesma atenção à pergunta mais difícil que surge no dia seguinte a qualquer revolução: quem limitará aqueles que assumirem o poder?

Talvez essa seja uma das razões pelas quais a Revolução Francesa continua exercendo tanto fascínio sobre setores da esquerda. Existe nela uma promessa que ultrapassa a política comum e oferece algo muito mais grandioso: a possibilidade de refazer a sociedade. A política deixa de ser apenas administração de conflitos, proteção de direitos e preservação de uma ordem civil e passa a carregar uma missão quase redentora.

“Liberdade, Igualdade e Fraternidade” — o lema da Revolução Francesa | Foto: Richard A. McGuirk/Shutterstock

A prudência conservadora jamais possuirá o mesmo apelo emocional. Ela não promete um homem novo nem uma sociedade purificada das contradições humanas. Parte de uma visão mais sóbria, segundo a qual instituições imperfeitas podem e devem ser reformadas, mas mudanças profundas precisam considerar a experiência acumulada, as consequências não previstas e a fragilidade das estruturas que permitem a uma sociedade permanecer livre.

Seria um erro histórico traçar uma linha reta entre os jacobinos do século XVIII e os movimentos políticos radicais de nosso tempo. Mas também seria ingenuidade imaginar que a mentalidade revolucionária desapareceu com o fim do Terror. Algumas de suas sementes permanecem sempre que ressurge a convicção de que uma sociedade precisa romper radicalmente com o passado para se tornar moralmente aceitável.

Essa mentalidade está presente na tendência de enxergar a herança civilizacional do Ocidente não como um patrimônio complexo, marcado por grandezas e erros, mas como uma estrutura opressora que precisa ser desconstruída. A história deixa de ser uma experiência da qual recebemos instituições, conhecimentos e valores e passa a ser julgada por um presente convencido de sua própria superioridade moral.

É nesse ambiente que monumentos são derrubados, personagens históricos são reduzidos aos seus pecados e partes inteiras da herança ocidental passam a ser tratadas com constrangimento. O objetivo deixa de ser compreender a história em sua complexidade e passa a ser reorganizar a memória coletiva segundo os critérios ideológicos do presente.

A mesma lógica pode ser percebida na relação contemporânea com a linguagem. A disputa política já não se limita a quais leis uma sociedade deve aprovar ou quais políticas públicas deve adotar. Existe uma tentativa crescente de redefinir palavras, estabelecer vocabulários moralmente aceitáveis e transformar determinadas formas de expressão em sinais de pertencimento ou transgressão. Não se trata apenas da evolução natural da língua, que sempre existiu, mas da crença de que alterar a linguagem pode ser um instrumento para transformar a própria percepção da realidade. Nesse sentido, a política avança sobre territórios que antes pertenciam à cultura, à família, à religião e às relações humanas mais elementares.

Foto: Shutterstock

Também permanece viva a tentação de dividir a sociedade entre aqueles que estão do lado correto da história e aqueles que precisam ser reeducados, silenciados ou excluídos do debate legítimo. Quando o adversário deixa de ser alguém que pode estar errado e passa a ser definido como alguém moralmente indigno de participar da discussão, alguma coisa essencial à liberdade começa a desaparecer. 

A política democrática exige a possibilidade de convivência entre pessoas que possuem concepções diferentes sobre o bem, desde que respeitem as regras fundamentais da ordem comum. A mentalidade revolucionária, ao contrário, tende a transformar divergências políticas em disputas entre virtude e vício, progresso e atraso, esclarecimento e ignorância. Uma vez estabelecida essa divisão, torna-se muito mais fácil justificar a exclusão de quem foi colocado no lado moralmente inferior.

A grande erva daninha deixada pela tradição revolucionária talvez seja a crença de que não existem limites para aquilo que a política pode corrigir. Aos poucos, o poder deixa de reconhecer fronteiras e passa a reivindicar autoridade não apenas sobre aquilo que fazemos, mas sobre a maneira como pensamos, falamos, educamos nossos filhos e compreendemos nossa própria história.

É justamente aí que a experiência americana volta a oferecer um contraste importante. A pergunta que orientou sua arquitetura constitucional não era quanto poder seria necessário para construir uma sociedade perfeita, mas quanto poder poderia ser concedido a um governo sem colocar em risco a liberdade de uma sociedade inevitavelmente imperfeita. 

A Constituição dos Estados Unidos foi concebida como um documento estrutural | Foto: Shutterstock

Talvez seja essa a grande lição da comparação entre 1776 e 1789: não importa apenas enfrentar um poder injusto, mas limitar aquele que surge depois da vitória. Uma revolução pode derrubar uma autoridade abusiva e abrir caminho para outra forma de tirania quando os vencedores passam a acreditar que sua causa os coloca acima dos limites que exigiam dos antigos governantes. Nenhum grupo se torna moralmente incorruptível apenas por acreditar que está do lado certo da história.

Mais de dois séculos depois, talvez essa seja a diferença que mais importa. A liberdade não depende apenas da derrota dos tiranos. Ela depende também da capacidade de desconfiar daqueles que prometem salvar a sociedade desde que lhes seja entregue poder suficiente para reconstruí-la. 

A liberdade não depende da ausência de autoridade, mas da existência de uma autoridade legítima, submetida à lei e limitada por instituições sólidas. 

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4 comentários
  1. fabio de souza arcas
    fabio de souza arcas

    Uma aula sobre a Revolução Francesa, e lembra ainda que a Revolução Americana foi a Revolução deu certo. Espetacular!

  2. JOSE TADEU MOURA SERRA
    JOSE TADEU MOURA SERRA

    BRILHANTE ,INTELIGENTE , minha COLUNISTA PREFERIDA

  3. MARIA DE LOURDES FERNANDES CAUDURO
    MARIA DE LOURDES FERNANDES CAUDURO

    Excelente artigo Ana . Abraços

  4. MARIA DE LOURDES FERNANDES CAUDURO
    MARIA DE LOURDES FERNANDES CAUDURO

    Excelente artigo, Ana Paula. Abraços

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