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Uma grande bandeira americana voa orgulhosamente em uma casa de estilo colonial em Key West, Flórida | Foto: Shutterstock
Edição 330

Patriotismo também se ensina 

Faço parte de uma geração que cresceu chegando cedo ao colégio para participar do hasteamento da bandeira brasileira e cantar o Hino Nacional

Confira o resumo que a OESTE.IA, a IA da Revista Oeste, fez pra você

Durante a Copa do Mundo, torcedores americanos cantaram espontaneamente "Take Me Home, Country Roads", de John Denver, uma música que, embora não tenha relação com símbolos nacionais, expressa um profundo sentimento de pertencimento. Essa cena se destacou em um país onde o futebol é secundário em relação a outros esportes. O patriotismo nos EUA se manifesta no cotidiano, independentemente de governos, e é cultivado desde a infância, com um forte vínculo histórico.

A Copa do Mundo está chegando ao fim e, curiosamente, uma das imagens mais marcantes deste torneio talvez não tenha ocorrido dentro de campo. Enquanto os olhares do mundo acompanhavam gols, decisões e grandes atuações, havia algo acontecendo nas arquibancadas que dizia muito mais sobre os Estados Unidos do que sobre o próprio futebol. 

Em diferentes partidas, dezenas de milhares de americanos começaram a cantar, quase espontaneamente, Take Me Home, Country Roads, de John Denver. A música, lançada em 1971, não faz qualquer referência à independência americana, às instituições do país ou aos seus símbolos nacionais. Fala apenas de estradas, montanhas e da saudade de voltar para casa. Ainda assim, bastaram alguns acordes para que ela se transformasse, mais uma vez, em uma espécie de hino não oficial daquela Copa e, talvez, em uma das expressões mais bonitas do sentimento de pertencimento que marca a sociedade americana.

Quem conhece minimamente a cultura americana sabe que essa não é uma música qualquer. Ao longo de mais de cinco décadas, “Country Roads” atravessou gerações, embalou viagens em família, encontros entre amigos, formaturas universitárias, celebrações comunitárias e incontáveis momentos da vida cotidiana. Ela fala de um lugar específico, as montanhas da Virgínia Ocidental, mas desperta uma sensação universal: a alegria de saber que existe um lugar ao qual se pertence. Talvez seja justamente por isso que tenha sido adotada de maneira tão espontânea pelos torcedores. Em um torneio que reuniu pessoas de todas as partes do planeta, os americanos acabaram encontrando naquela canção uma forma simples, quase poética, de expressar um vínculo profundo com a própria terra.

As cenas chamavam atenção justamente porque aconteciam em um país que jamais construiu sua identidade em torno do futebol. Durante décadas, o esporte foi visto como uma modalidade secundária pelos americanos, muito atrás do futebol americano, do beisebol e do basquete. Ainda assim, as arquibancadas estavam tomadas por famílias inteiras vestindo as cores nacionais, bandeiras tremulavam em praticamente todos os setores dos estádios e uma multidão cantava, com uma naturalidade impressionante, uma música que acabou se tornando muito mais do que uma simples homenagem ao Estado da Virgínia Ocidental. O que se via ali não era apenas entusiasmo por uma competição esportiva. Era um sentimento de identificação com o próprio país, algo que atravessava gerações e que parecia unir pessoas de origens completamente diferentes.

A coincidência do calendário tornou essas imagens ainda mais interessantes. Poucos dias antes, os Estados Unidos haviam celebrado mais um 4 de Julho, justamente no ano em que o país continua recordando os 250 anos de sua independência. Como acontece todos os anos, cidades grandes e pequenas foram tomadas por bandeiras, desfiles comunitários, fogos de artifício, churrascos nos quintais, concertos ao ar livre e encontros organizados pelos próprios moradores. Quem observa tudo isso de longe pode imaginar que se trata de uma grande mobilização oficial promovida pelo governo federal. Na realidade, acontece exatamente o contrário. O governo reconhece a data, mas a celebração pertence às pessoas. São elas que enfeitam as ruas, organizam os eventos, ensinam às crianças o significado daquele dia e fazem questão de reunir a família para celebrar um acontecimento ocorrido há quase dois séculos e meio.

Foto: Shutterstock

Talvez esse seja um dos aspectos mais fascinantes da experiência americana. O patriotismo não aparece apenas em cerimônias de Estado, nem surge exclusivamente em momentos de crise ou de guerra. Ele está presente na vida cotidiana. Está na bandeira hasteada na varanda de uma casa simples do interior, no pequeno comércio que exibe discretamente as cores nacionais, nas escolas que ensinam às crianças a história da fundação do país e até em uma música popular que consegue transformar estádios inteiros em um enorme coro. Trata-se de um sentimento que não depende da presença do governo, porque nasceu muito antes dele. É um vínculo construído entre um povo e a história que esse povo aprendeu a conhecer, admirar e transmitir às gerações seguintes.

Essa é uma diferença importante e frequentemente ignorada. O patriotismo americano não depende da perfeição de seus governantes nem da ausência de problemas. Os Estados Unidos vivem profundas divisões políticas, enfrentam crises econômicas, disputas culturais e debates que ocupam diariamente o noticiário. Ainda assim, a maior parte da população consegue distinguir o país de seus governos. Presidentes passam. Congressos mudam. Partidos se alternam no poder. A nação permanece. O amor à pátria não está condicionado à simpatia por quem ocupa a Casa Branca, mas à convicção de que existe um legado histórico, político e cultural que merece ser preservado independentemente das disputas do momento.

Ao longo de vinte anos vivendo nos Estados Unidos, perdi a conta de quantas vezes observei esse fenômeno acontecer diante dos meus olhos. É impossível não perceber a naturalidade com que os americanos demonstram orgulho de seu país. A bandeira não é tratada como um objeto reservado para datas específicas nem como um símbolo apropriado por um determinado grupo político. Ela faz parte da paisagem. Está presente durante todo o ano e atravessa governos, disputas eleitorais e mudanças de humor da opinião pública. Mais curioso ainda é perceber que esse sentimento acaba alcançando também milhões de imigrantes que escolheram construir aqui uma nova vida.

Esse talvez seja um dos aspectos mais difíceis de explicar para quem nunca viveu nos Estados Unidos. Não existe qualquer constrangimento em demonstrar amor pelo país. Pelo contrário. É comum ver crianças aprendendo desde muito cedo a respeitar os símbolos nacionais, veteranos sendo homenageados antes de eventos esportivos, escolas organizando atividades relacionadas à independência e famílias inteiras reunidas para celebrar datas históricas. Nada disso costuma ser visto como exagero ou como uma manifestação de nacionalismo agressivo. Faz parte da vida cotidiana, da mesma forma que acontece em tantas outras nações que preservam uma forte consciência de sua própria história.

Participantes do Desfile de 4 de Julho de Alameda, um dos maiores e mais longos desfiles do Dia da Independência do país, em Alameda, Califórnia, EUA (04/07/2025) | Foto: Shutterstock

Pessoas que nasceram em países completamente diferentes passam, com o tempo, a participar dos desfiles do 4 de Julho, a decorar suas casas, a cantar o hino nacional americano e a ensinar aos filhos o significado daquela independência como se, de alguma forma, ela também tivesse passado a fazer parte de sua própria história. É evidente que ninguém abandona suas origens, sua língua ou suas tradições familiares. No entanto, muitos imigrantes desenvolvem uma sincera gratidão pelo país que os acolheu e incorporam seus símbolos sem que isso represente qualquer renúncia às próprias raízes. Talvez porque percebam que a identidade americana nunca esteve baseada em uma origem étnica comum, mas na adesão a determinados princípios e à história construída em torno deles.

Sempre que observo essas cenas, minha memória volta imediatamente à infância. Faço parte de uma geração que cresceu chegando cedo ao colégio para participar do hasteamento da bandeira brasileira e cantar o Hino Nacional. Para muitos brasileiros da minha idade, essa era uma rotina tão natural que sequer percebíamos sua importância. Cantávamos sem imaginar que, naquele gesto simples, estávamos aprendendo a reconhecer que existia algo maior do que nós mesmos. Um exercício silencioso de pertencimento. Aquelas manhãs ajudaram a despertar em mim um orgulho profundo pelas cores do meu país e alimentaram um sonho que me acompanhou durante muitos anos: um dia vestir a camisa do Brasil em uma Olimpíada. 

Quando esse momento finalmente chegou, o sentimento foi muito maior do que qualquer conquista esportiva. Carregar a bandeira brasileira no uniforme e representar meu país diante do mundo produzia um orgulho que parecia não caber no peito. Hoje, olhando para trás, percebo que aquele amor pelo Brasil não surgiu por acaso. Ele começou a ser cultivado muito antes, ainda na escola, por pequenos gestos que ajudavam uma criança a compreender que fazia parte de uma história, de uma nação e de uma herança que valia a pena amar. 

Infelizmente, muitos desses costumes foram desaparecendo ao longo das últimas décadas. Em nome de uma falsa ideia de neutralidade, deixamos de transmitir às novas gerações símbolos e referências que, longe de dividir, ajudavam justamente a construir um sentimento de unidade nacional. Recuperar esse vínculo não significa voltar ao passado por nostalgia, mas compreender que nenhuma sociedade forma cidadãos comprometidos com o futuro se antes não lhes ensina a amar a história, os símbolos e a identidade do país que receberam como herança.

Foto: Shutterstock

A diferença entre Brasil e Estados Unidos não está na capacidade de um povo amar sua terra. Quem conhece minimamente a história brasileira sabe que nosso país também produziu exemplos extraordinários de coragem, solidariedade e espírito de pertencimento. Basta lembrar da mobilização nacional durante as grandes tragédias, do orgulho que tantas comunidades sentem por suas cidades ou da maneira como o brasileiro é capaz de representar seu país quando vive no exterior. O problema não é a ausência de afeto pelo Brasil. O problema é que esse sentimento raramente encontra uma memória histórica sólida sobre a qual possa se apoiar.

Nenhum povo ama aquilo que não conhece. Da mesma forma, nenhuma sociedade consegue transmitir às novas gerações um sentimento de pertencimento quando deixa de contar, com convicção, a própria história. O patriotismo não nasce espontaneamente. Ele é cultivado ao longo do tempo, alimentado por exemplos, personagens, símbolos, datas comemorativas e narrativas compartilhadas. Antes de ser uma emoção, ele é uma herança cultural.

Os americanos compreenderam isso muito cedo. Desde os primeiros anos de escola, as crianças aprendem quem foi George Washington, por que Thomas Jefferson redigiu a Declaração de Independência, quais ideias inspiraram os chamados Founding Fathers e por que a Constituição continua sendo tratada como um dos pilares da vida nacional. Esses personagens não são apresentados como figuras perfeitas, tampouco como homens acima das críticas. São estudados porque desempenharam um papel decisivo na construção do país e porque conhecer sua trajetória ajuda a compreender os princípios que deram origem à república americana.

Essa preocupação vai muito além da sala de aula. Famílias visitam a Filadélfia para conhecer o Independence Hall, onde a Declaração de Independência e a Constituição foram debatidas. Crianças percorrem os campos de batalha da Guerra de Independência. Museus recebem milhões de visitantes todos os anos. Monumentos são preservados com enorme cuidado. Memoriais dedicados aos soldados mortos em diferentes guerras permanecem entre os locais mais visitados do país. Não se trata apenas de turismo histórico, mas uma cultura que ensina continuamente que a liberdade, as instituições e a própria existência da nação foram construídas por pessoas reais, que fizeram escolhas difíceis e assumiram responsabilidades que ultrapassavam suas próprias vidas.

O histórico Independence Hall em um dia ensolarado, Filadélfia, Pensilvânia, EUA | Foto: Shutterstock

Talvez seja justamente por isso que as comemorações do 4 de Julho aconteçam de maneira tão natural. Para um americano, celebrar a independência não significa apenas recordar um acontecimento ocorrido em 1776. Significa agradecer pelo legado recebido e reconhecer que ele precisa ser preservado. A festa não acontece porque o calendário determina um feriado. Ela acontece porque milhões de pessoas enxergam naquela data parte da própria identidade.

No Brasil, infelizmente, seguimos um caminho bastante diferente.

Nossa independência faz parte dos livros escolares, mas raramente ocupa espaço na imaginação popular. O brasileiro médio sabe que o 7 de Setembro é um feriado nacional, mas poucos conseguiriam explicar com alguma segurança por que aquela data continua sendo importante duzentos anos depois. Menos pessoas ainda saberiam identificar os principais personagens envolvidos, compreender o contexto internacional em que a independência ocorreu ou explicar como aquele processo influenciou a formação do Estado brasileiro.

E isso, infelizmente, não é uma deficiência individual, mas uma escolha cultural que foi sendo construída ao longo de décadas.

Pouco a pouco, deixamos de contar nossa história como uma trajetória nacional digna de ser conhecida e passamos a apresentá-la quase exclusivamente como uma sucessão de injustiças, fracassos e opressões. É evidente que toda nação possui capítulos dolorosos e decisões equivocadas. Os próprios Estados Unidos vivem intensos debates sobre escravidão, segregação racial e tantos outros episódios que marcaram sua formação. A diferença está no fato de que esses erros passaram a coexistir com uma narrativa nacional mais ampla, capaz de reconhecer também os acertos, os avanços e os ideais que deram sentido à construção do país.

Leitura da Declaração de Independência por John Nixon, nas escadarias do Independence Hall, Filadélfia, EUA (08/07/1776). Desenho de E.A. Abbey, xilogravura, (1889) | Foto: Domínio Público

No Brasil, em muitos momentos, parece ter acontecido o inverso. Nossa história foi sendo gradualmente reduzida aos seus aspectos mais negativos, como se qualquer demonstração de orgulho nacional precisasse vir acompanhada de um pedido de desculpas. Em vez de despertar curiosidade sobre aqueles que construíram o país, muitas vezes ensinamos às novas gerações apenas as razões pelas quais elas deveriam desconfiar da própria herança histórica.

O resultado aparece diante dos nossos olhos.

Em 2022, o Brasil celebrou os duzentos anos de sua independência. Trata-se de uma data que, em qualquer nação, representaria uma oportunidade extraordinária para aproximar a população de sua própria história. Era a ocasião perfeita para que escolas, universidades, museus, meios de comunicação e famílias revisitassem os personagens, os acontecimentos e as ideias que moldaram o nascimento do país. Havia todas as condições para que o bicentenário se transformasse em um grande momento de reflexão nacional.

No entanto, passada a comemoração oficial, pouco permaneceu na memória coletiva. Houve solenidades, desfiles militares e eventos promovidos pelo poder público, mas faltou justamente aquilo que torna uma data histórica verdadeiramente viva: o desejo espontâneo das pessoas de celebrá-la. Poucos bairros organizaram festas por iniciativa própria. Poucas famílias aproveitaram a ocasião para conversar com seus filhos sobre o significado da independência. Raramente se viu a mobilização comunitária que, ano após ano, transforma o 4 de Julho em uma celebração que pertence muito mais ao povo americano do que ao governo dos Estados Unidos.

Desfile cívico-militar do 7 de Setembro, comemorando o Bicentenário (200 anos) da Independência do Brasil, em Brasília, DF (07/09/2022) | Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

Essa talvez seja a diferença mais profunda entre as duas experiências. Nos Estados Unidos, o patriotismo sustenta as comemorações nacionais. No Brasil, muitas vezes esperamos que as comemorações oficiais despertem um patriotismo que nunca foi suficientemente cultivado. A ordem dos fatores parece pequena, mas muda completamente o resultado.

Ao longo das últimas décadas, transformamos praticamente tudo em objeto de disputa política. Nossos símbolos nacionais foram sendo arrastados para o debate partidário, como se amar o próprio país significasse necessariamente concordar com este ou aquele governo. Perdemos, aos poucos, a capacidade de enxergar a bandeira brasileira como um patrimônio comum, pertencente a todos os brasileiros, independentemente de suas convicções políticas. Quando isso acontece, a própria ideia de nação começa a enfraquecer, porque desaparecem justamente os elementos capazes de unir pessoas que pensam de maneira diferente.

Não deixa de ser significativo que o momento em que o brasileiro mais espontaneamente demonstra orgulho de seu país continue sendo a Copa do Mundo. Durante algumas semanas, as ruas ganham bandeiras, as camisas da seleção reaparecem, vizinhos se reúnem para assistir aos jogos e milhões de pessoas voltam a cantar o Hino Nacional com emoção. Ainda existe, portanto, um sentimento de pertencimento esperando uma oportunidade para se manifestar. O problema é que, terminado o campeonato, quase tudo volta para dentro dos armários. A bandeira desaparece das janelas, as camisas retornam às gavetas e o orgulho nacional parece novamente restrito à lembrança de um torneio esportivo.

Talvez isso aconteça porque, durante muito tempo, o futebol ocupou um espaço que deveria ter sido preenchido também pela história. Aprendemos a decorar as escalações das grandes seleções brasileiras, lembramos com precisão de gols marcantes, discutimos técnicos, campeonatos e finais inesquecíveis, mas frequentemente sabemos muito pouco sobre os homens e mulheres que construíram o país em que vivemos. Sabemos identificar lances históricos de uma Copa do Mundo, mas muitos brasileiros jamais ouviram falar de José Bonifácio, desconhecem os debates que antecederam a Independência ou nunca tiveram a oportunidade de compreender por que o 7 de Setembro continua sendo uma das datas mais importantes da nossa história.

Rua tradicional decorada para a Copa do Mundo de Futebol, no Rio de Janeiro, Brasil (05/06/2026) | Foto: Shutterstock

Digo isso não apenas como ex-atleta olímpica ou jornalista, mas como alguém que está há  vinte anos vivendo fora do Brasil e que, mesmo aposentada das quadras, jamais deixará de defendê-lo. Sempre acreditei que o Brasil é muito maior do que seus problemas, muito mais rico do que seus indicadores econômicos e muito mais bonito do que os estereótipos que tantas vezes o acompanham no exterior. O amor que sinto pelo meu país nunca diminuiu por causa da distância ou pela cidadania americana. Se alguma coisa mudou ao longo desses anos, foi justamente a percepção de que amar uma nação também significa desejar que ela conheça melhor a si mesma.

Talvez seja por isso que cenas aparentemente simples, como milhares de americanos cantando “Country Roads” em um estádio de futebol, despertem tanta reflexão. Aquela música não fala sobre política. Não menciona partidos, eleições ou governos. Ela fala sobre voltar para casa. Sobre reconhecer um lugar como seu. Sobre sentir que existe uma terra à qual se pertence e cuja história merece ser lembrada.

No fundo, o patriotismo começa exatamente aí.

Ele não nasce da convicção de que um país seja perfeito. Nasce da gratidão por aquilo que recebemos das gerações anteriores e da responsabilidade de entregar essa herança um pouco melhor àqueles que virão depois de nós. Um povo verdadeiramente patriota não ignora os próprios problemas nem transforma seus erros em motivo de orgulho. Ao contrário. Justamente porque ama sua história, procura corrigir seus defeitos, preservar suas virtudes e fortalecer as instituições que permitem às futuras gerações viver em uma sociedade mais livre, mais próspera e mais justa.

A bordo da fragata União, o imperador Pedro I do Brasil (à direita) ordena ao oficial português Jorge Avilez (à esquerda) que retorne a Portugal após sua rebelião fracassada em 8 de fevereiro de 1822. José Bonifácio pode ser visto ao lado de Pedro I. Óleo sobre tela de Oscar Pereira da Silva (1922) | Foto: Domínio Público

Há quem considere tudo isso antiquado. Em determinados ambientes culturais, o patriotismo passou a ser tratado como um sentimento ingênuo, excessivamente romântico ou até incompatível com um mundo globalizado. A experiência americana mostra exatamente o oposto. Os Estados Unidos são uma das sociedades mais diversas do planeta, recebem milhões de imigrantes, exercem influência sobre praticamente todos os continentes e, ainda assim, preservam uma identidade nacional extraordinariamente forte. Talvez porque tenham compreendido que a abertura ao mundo não exige o abandono das próprias raízes. Uma nação só consegue acolher outras culturas quando sabe, antes de tudo, quem ela própria é.

Gostaria profundamente que um dia o Brasil também reencontrasse esse caminho. Não para copiar os Estados Unidos, pois cada povo possui sua própria história, seus próprios símbolos e sua própria vocação, mas para redescobrir a beleza daquilo que já nos pertence. Nosso país possui personagens extraordinários, episódios históricos fascinantes, tradições riquíssimas e uma herança cultural que merece muito mais do que algumas páginas nos livros didáticos. Merece ser conhecida, celebrada e transmitida com orgulho.

Quando a próxima Copa do Mundo chegar, ou mesmo nos próximos Jogos Olímpicos de 2028, certamente voltaremos a vestir a camisa verde e amarela, a cantar o Hino Nacional e a transformar o esporte em uma grande festa popular. Espero apenas que, entre uma Copa e outra, também encontremos razões para celebrar o Brasil por aquilo que ele é, pela história que construiu e pelos valores que desejamos legar aos nossos filhos.

Quem sabe não descobrimos que o patriotismo não é um sentimento reservado às arquibancadas nem uma emoção que desperta apenas de quatro em quatro anos? Patriotismo é a consciência de que existe uma casa comum, construída por gerações que vieram antes de nós, e que cabe a cada uma delas preservá-la para aquelas que ainda virão.

Talvez seja por isso que “Country Roads” emocione tanta gente. Porque, muito antes de falar sobre uma estrada ou sobre um lugar específico, ela fala de uma das necessidades mais profundas da experiência humana: a de pertencer. E um povo que conhece sua história, honra sua memória e transmite esse legado aos seus filhos sempre encontrará o caminho de volta para casa.

Leia também “Há 250 anos, uma ideia mudou o Ocidente”

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7 comentários
  1. Joselaine moresco pirath
    Joselaine moresco pirath

    Muito boa a sua reflexao! Eu tbm cresci cantando o hino nacional no grupo escolar em que estudava, no RS. Esse sentimento fica na gente! Que nosso Deus tenha misericórdia do nosso pais e meus netos possam viver o patriotismo que eu vivi. Bj, Ana

  2. Carlos Gilberto Fraga
    Carlos Gilberto Fraga

    Nossa, Ana… emudeci. Que artigo enfático . Parabéns ! Vou repassá-lo aos meus netos, para que a chama do amor, da gratidão à Pátria permaneça viva dentro deles. E vou torcer demais para que as urnas deste ano nos encham o coração de esperança.

  3. Luiz Antônio Alves
    Luiz Antônio Alves

    Os petistas diriam que são fascistas. Teu texto é muito bom e mostra teu conhecimento sobre os EUA Aqui, modestamente, temos um sentimento de pertencimento, não só no 20 de setembro. Em muitos lugares e em datas diferentes carregamos a bandeira do RS. Existe uma tradição que também não foi imposta. Ela foi acolhida. Por acaso psotei hoje no face uma charge do jornal de Sorocaba (dia em que estive lá lançando um livrinho), 26-05-2004 naqual o Lula está assinando um “acordo” com o ditador chinês. Parece quelá naquela data o Lula já estava preparando terreno para entregar nossa soberania e nossas riquezas aos comunistas chineses. Postei para lembrar aos amigos de que esta história vem de longe…

  4. Wilson Carli
    Wilson Carli

    MARAVILHOSA ANA PAULA HENKEL! CHOREI COM SEU TEXTO. DEUS TE ABENÇOE.

  5. Adilson Maciel Dantas
    Adilson Maciel Dantas

    Que belíssimo artigo! Inspirador, apaixonado e apaixonante! Parabéns, Ana! Você faz com as letras as mesmas maravilhas que fazia nas quadras! Cheers!

  6. fabio de souza arcas
    fabio de souza arcas

    Cara Ana Paula seu artigo sobre Patriotismo vem muito ao encontro do nosso trabalho de formiguinha nas Escolas Cívico Militares aqui em SP. Com muita luta estamos ensinando Patriotismo, Civismo, Disciplina e Respeito aos nossos jovens. Estamos plantando uma semente de amor ao Brasil que espero não ficar restrito apenas ao futebol em Copa do Mundo ou Olimpíadas.
    Parabéns pelo seu maravilhoso artigo

  7. Renato Perim
    Renato Perim

    O brasil jamais será minimamente parecido com a América. Pra começo de conversa, o “descobrimento” do brasil é uma mentira deslavada. E o pouco de história que é lecionada no ensino fundamental é narrativa, quando não mentira também. Aliás eu não mudo de opinião: um dos maiores problemas do brasil é a qualidade dos professores. Um monte de besta quadrada que só faz repetir refrões mofados e sem sentido, sem se preocupar em realmente ensinar alunos a ter consciência crítica e independência intelectual.

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