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Pintura entitulada "Kerb", de Pedro Weingärtner (1892), que retrata a tradicional festa do Kerb, celebração religiosa e comunitária dos imigrantes alemães | Foto: Reprodução/Wikimedia Commons
Edição 332

O agro também fala alemão

São 202 anos de contribuição à agricultura, à indústria e à economia nacional

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O Dia da Imigração Alemã no Brasil é comemorado em 25 de julho, marcando a chegada de imigrantes alemães em 1824, incentivados por Dom Pedro I e Major Georg Anton Schäffer, com o objetivo de povoar o Sul e diversificar a agricultura. Estima-se que haja entre 5 a 10 milhões de descendentes de alemães no Brasil, que contribuíram significativamente para a agricultura, indústria e economia.

O Dia da Imigração Alemã no Brasil é festejado em 25 de julho. Nessa data, em 1824, dois anos apenas após a Independência, os imigrantes alemães chegaram ao país por incentivo do imperador Dom Pedro I e do Major Georg Anton Schäffer. O objetivo era contribuir para o povoamento do Sul e implantar, por meio de pequenas propriedades rurais, outro modelo de agricultura. Hoje, estima-se em cerca de 5 a 10 milhões de descendentes de alemães no país. São 202 anos de contribuições originais ao desenvolvimento da agricultura, da indústria e da economia nacional.

A primeira leva com 39 imigrantes alemães foi dirigida ao local da então desativada Real Feitoria do Linho Cânhamo, localizada na margem esquerda do rio dos Sinos. Eles deram início à Colônia e à cidade de São Leopoldo, no Rio Grande do Sul. Além de recrutar colonos, o major Schäffer buscou contratar pessoas de diversas profissões, artesãos qualificados como alfaiates, ferreiros, marceneiros e relojoeiros para dar uma base econômica e social à nova comunidade. Em quatro anos, de 1824 a 1828, o major Schäffer conseguiu trazer para o Brasil mais de seis mil pessoas.

Alemães na Hospedaria de Imigrantes do Brás, em São Paulo | Foto: Reprodução/Museu da Imigração

Na realidade, em termos cronológicos, em 3 de maio de 1824, um grupo de cerca de 450 colonos alemães chegou a Nova Friburgo, no Rio de Janeiro. Lá, assumiram diretamente as terras, as benfeitorias e as casas numeradas, deixadas vazias por antecessores imigrantes suíços. Esse contingente alemão era composto por uma mescla de agricultores, soldados estrangeiros dispensados e artesãos. Como os suíços, esses pioneiros enfrentaram os mesmos problemas de infertilidade do solo e enfermidades tropicais. Repetiram o êxodo dos suíços. Terminaram por migrar e se dispersar em regiões vizinhas e nos sertões de Macaé. Por essa razão, a chegada ao Rio Grande do Sul foi consagrada como marco fundador da imigração alemã.

Após essa primeira fase de imigração alemã, promovida por D. Pedro I, ocorreu uma segunda, a partir de meados do século 19. Na década de 1850, D. Pedro II promoveu uma nova onda migratória dirigida às regiões Sul e Sudeste. Em São Paulo, parte desses imigrantes substituiu como assalariados a mão de obra escrava nas lavouras de café. Em razão de conflitos políticos, perseguições raciais e das duas Grandes Guerras, um outro diversificado contingente de alemães imigrou constantemente para o Brasil ao longo da primeira metade do século 20. Entre os séculos 19 e 20, cerca de 300 mil alemães migraram para o Brasil.

A família Werlich, de origem alemã, chegou ao Brasil em 1852. Na imagem: Johann Gottlib Friedmann Werlich, sua esposa Justine Caroline Lea Werlich e seus filhos | Foto: Reprodução/Associação da Memória dos Imigrantes Alemães de Entrada (AMIAE-BR)

A distribuição da população teuto-brasileira concentra-se fortemente no Sul e no Sudeste. No Rio Grande do Sul, principal polo inicial da imigração, o Vale dos Sinos (São Leopoldo e Novo Hamburgo), a Serra Gaúcha e a região de Santa Cruz do Sul reúnem as maiores concentrações. Santa Catarina recebeu, no total, o maior fluxo de alemães. Destacam-se no Vale do Itajaí (Blumenau, Brusque e Joinville) e no interior, em Pomerode, a cidade mais “alemã” do Brasil. Colonizada por imigrantes da Pomerânia em 1863, ela tem a maior concentração de casas no estilo enxaimel fora da Europa. Pesquisas do Instituto de Investigação e Desenvolvimento em Política Linguística apontam a predominância do Hochdeutsch (alemão padrão) e do dialeto pomerano Plattdeutsch em cerca de 80% da população. O Paraná recebeu parte desse fluxo migratório, nos arredores de Curitiba e em regiões próximas à divisa com Santa Catarina, como a cidade de Rio Negro. O Espírito Santo recebeu imigrantes germânicos, a partir de 1850, na região de Santa Leopoldina, Domingos Martins e Santa Maria de Jetibá. Em São Paulo, a presença alemã é marcante na capital e interior (Campinas, Limeira e Ribeirão Preto), integrados inicialmente como trabalhadores livres nas fazendas e artesãos. Participaram ativamente da industrialização paulista, sobretudo no ramo da metalurgia.

No agro, essa imigração transformou o Brasil. Implantou, em larga escala, a agricultura familiar, voltada ao próprio sustento, baseada em minifúndio, trabalho livre e policultura. Rompeu com o modelo de monoculturas voltadas à exportação (cana, café, tabaco) dos latifúndios escravocratas.

Devido ao seu alto índice de alfabetização e aos conhecimentos técnicos trazidos da Europa, os imigrantes alemães e seus descendentes impulsionaram a diversificação na produção de alimentos (batata, trigo, arroz, centeio, milho, criação de suínos…). Os excedentes eram vendidos no mercado interno e fortaleceram o desenvolvimento das economias locais. Os alemães criaram muitas escolas comunitárias, reduziram o analfabetismo e elevaram os índices educacionais e cívicos locais.

Escola particular Badenfurt em Blumenau, Santa Catarina, 1866 | Foto: Reprodução/Arquivo Nacional

Para superar o isolamento e os altos custos de maquinários e insumos, os alemães criaram as primeiras associações e cooperativas de crédito e produção. Esse modelo associativista sustenta boa parte do agronegócio sulista e predomina na produção de suínos. Ao implantar ferrarias, marcenarias e manufaturas, aceleraram o desenvolvimento das primeiras indústrias no Sul e Sudeste e fortaleceram os processos de urbanização.

Lançaram as bases das primeiras grandes potências agroindustriais do Brasil. Já na década de 1930, com eficiência produtiva notável, mesmo ocupando menos de 0,5% da superfície cultivável do país, as comunidades teuto-brasileiras geravam cerca de 8% da produção agrícola nacional.

Primeira colheitadeira automotriz da empresa SLC Agrícola, inspirada em uma máquina da John Deere, por volta dos anos 1950 | Foto: Divulgação/SLC

No agronegócio brasileiro, muitas famílias de origem alemã se destacaram. A família Logemann começou suas atividades no Rio Grande do Sul e fundou o Grupo SLC Agrícola. A empresa é uma das maiores produtoras de commodities (soja, milho e algodão) do mundo. Na agroindústria, as famílias Döhler, Hering e Karsten (uma das indústrias têxteis mais antigas do Brasil, fundada em 1882) construíram impérios no ramo têxtil cuja força empresarial nasceu das colônias rurais e se expandiu.

As Lojas Renner nasceram em 1922, quando Antônio Jacob Renner, descendente de alemães, passou a comercializar, em Porto Alegre, produtos derivados da banha de porco fabricados pela família. A rede Havan, fundada em 1986 em Brusque (SC), tem em Luciano Hang um empresário de ascendência alemã e italiana, oriundo do tradicional polo têxtil do Vale do Itajaí. A família Gerdau inicialmente atuou no comércio e produção local no Rio Grande do Sul, antes de criar uma das maiores siderúrgicas das Américas, fornecedora essencial de aço para maquinários agrícolas.

Primeira loja da Havan, no Centro de Brusque | Foto: Divulgação/Havan

Antes da imigração alemã, o consumo de cerveja no Brasil era restrito a importações. Os alemães introduziram técnicas avançadas de fabricação e de cultivo do lúpulo. Os imigrantes trouxeram a tecnologia de baixa fermentação (tipo Pilsen) e as receitas tradicionais de cervejas. A Antarctica foi criada em 1885 em São Paulo, com forte presença de capital e mestres-cervejeiros de origem alemã. A Brahma foi fundada em 1888 no Rio de Janeiro pelo suíço-alemão Joseph Villiger. Serramalte e marcas regionais, como a Polar em Estrela (RS), foram fundadas por imigrantes alemães. Assim nasceu a consagrada cultura cervejeira nacional.

Fábrica da Antarctica, na Mooca, em São Paulo | Foto: Reprodução/Wikimedia Commons

A imigração alemã nos séculos 19 e 20 foi um pilar fundamental para a industrialização brasileira. Pioneiros na fundação de pequenas manufaturas, os imigrantes e seus descendentes criaram alguns dos maiores conglomerados multissetoriais, agroindustriais e impérios cervejeiros.

Dois séculos depois, a presença alemã continua decisiva. O legado germânico no agro nacional segue impulsionado por gigantes de máquinas e insumos como Bayer, BASF, Claas, Horsch, Amazone, DVA Agro e outras. O Brasil é um dos maiores mercados do mundo para essas marcas alemãs. Elas utilizam o país como base central para o agronegócio na América Latina. Ao liderar segmentos de sementes, defensivos, fertilizantes, biotecnologia, agricultura digital e máquinas agrícolas, mantêm vivo um intercâmbio tecnológico iniciado pelos primeiros colonos.

Símbolo dessa história de cultura, trabalho e fraternidade, a Câmara de Comércio e Indústria Brasil-Alemanha (AHK) atua como uma ponte estratégica entre as economias dos dois países. Ela promove o intercâmbio comercial, atrai investimentos, apoia a expansão de empresas no mercado externo e fortalece a cooperação empresarial e tecnológica.

Nem tudo são rosas — nem mesmo edelvais — no legado teuto-brasileiro catarinense. Neste ano, o Dia da Imigração Alemã ganhou significado adicional. Durante cerimônia oficial em Santa Catarina, o presidente Lula associou parte dos descendentes de alemães ao racismo, à supremacia branca e até ao nazismo, e fez menção direta ao ditador nazista: “Hitler tentou fazer isso e acabou do jeito que acabou”. Generalizações dessa natureza ignoram dois séculos de contribuição dos teuto-brasileiros à agricultura, à indústria, à educação e ao desenvolvimento nacional.

Dois séculos transcorreram desde a chegada daqueles primeiros colonos. O legado alemão vai muito além da arquitetura enxaimel, das festas típicas ou da tradição cervejeira. Ele está presente na agricultura familiar, no cooperativismo, na agroindústria, na mecanização do campo, na pesquisa, na tecnologia e na formação de milhares de comunidades rurais. Acima de discursos político-ideológicos anacrônicos, permanecem valores como trabalho, educação, organização comunitária e inovação. Poucos movimentos migratórios deixaram marcas tão profundas e duradouras na construção do agronegócio brasileiro.

Leia também “Abre-te, sésamo! A revolução do gergelim brasileiro”

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1 comentário
  1. Claudio Sehnem
    Claudio Sehnem

    Obrigado REvista Oeste!! vc fez meu dia com essa reportagem

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