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A verdadeira resistência

Os 70 milhões de pessoas que votaram em Trump estão se revoltando contra as novas elites

Então Joe Biden obteve a mais alta votação na História dos Estados Unidos, cerca de 73 milhões de pessoas votaram nele. Bateu o recorde de Barack Obama, que chegou ao poder naquela famosa onda de “esperança” com 69,5 milhões de votos em 2008. Mas a questão é: o mesmo aconteceu com Donald Trump. O republicano pode estar atrás de Biden no voto popular de 2020, mas também ultrapassou o recorde de Obama. Até o momento — dado que continuam as confusões das recontagens —, registra 69,7 milhões de votos. Então ele obteve a segunda maior votação na História da república norte-americana. Isso é notável. Muito mais notável que o resultado muito impressionante de Biden.

Por quê? Por uma simples razão. Trump é o homem que todos devemos odiar. Ele foi alvo da fúria incessante das elites culturais nos últimos quatro anos. Foi raro que qualquer veículo da mídia norte-americana o apoiasse em 2020. Instituições globais o detestam. A academia, as elites de mídia, as oligarquias de mídia social, as celebridades e outros setores altamente influentes o tacharam de Hitler do século 21 e insistiram que apenas um “supremacista branco” aceitaria votar nele. Ele é o objeto de todas as piadas desdenhosas da Costa Leste e o alvo de todas as intensas manifestações de rua. Ele é a pior coisa que já aconteceu na política ocidental em décadas, é o que nos dizem as pessoas inteligentes, constantemente.

E, no entanto, quase 70 milhões de norte-americanos votaram nele. O segundo maior bloco eleitoral na história dos Estados Unidos colocou seu X ao lado do nome que, nos últimos quatro anos, foi transformado pela clerezia política na incorporação do mal.

É isso que torna o voto em Trump tão surpreendente e tão importante. Porque isso mostra a existência de vasto número de pessoas que estão fora da esfera das elites culturais. Pessoas que desenvolveram algum tipo de imunidade à supremacia cultural da visão de mundo “woke” tão intensamente popularizada pelos grupos políticos e de mídia em anos recentes. Pessoas que ficam mais do que contentes em desafiar os ditames das supostas elites sensatas e depositar suas cédulas da forma que consideram melhor corresponder a seus interesses políticos, sociais e de classe. Pessoas que, sem dúvida em diferentes graus, são pelo menos céticas em relação às narrativas de identitarismo, catastrofismo racial e histeria sobre mudança climática e toda a bobagem dos pronomes que se tornaram dominantes entre influenciadores políticos e culturais, e que são essencialmente a nova ideologia da classe dominante.

Hillary Clinton notoriamente se referiu a muitos apoiadores de Trump como “os deploráveis”. Mas um termo muito melhor para eles seria “os inconquistáveis”. São mentes e corações não colonizados pelas novas ortodoxias. Setenta milhões de pessoas em um estado pacífico de revolta contra um novo establishment e suas ideologias excêntricas e autoritárias. Essa é a história mais importante da eleição norte-americana e merece atenção.

Um abismo moral e político entre os guardiões do politicamente correto e os milhões de pessoas comuns

A fúria das elites na esteira das eleições dos Estados Unidos é palpável e, às vezes, visceral. Ainda que seu candidato muito provavelmente tenha vencido, elas estão possessas. Já existe uma cólera contra o racismo estrutural e a “supremacia branca” da turba. Já existe uma aversão neorracista pelos  latinos e negros que, em número maior que em 2016, votaram em Trump. “Estamos cercados por racistas”, disse o colunista do The New York Times Charles M. Blow, registrando uma sensação de cerco por parte da clerezia “woke”. Essa raiva das elites contra as massas, apesar da vitória do candidato preferido pelo primeiro grupo, sugere que elas instintivamente reconhecem seu fracasso em controlar parcelas significativas das multidões. Essas elites disparam termos como “racista” e “supremacista branco” como reprimendas contra os milhões que se recusaram a se render a suas políticas de medo, de identidade e de cancelamento e controle.

Apesar de provavelmente terem conseguido o que queriam com uma Presidência de Biden, as elites ficaram chateadas com essa eleição. Em primeiro lugar, porque erraram feio. As previsões de “onda azul” não se materializaram. As pesquisas e análises que insistiam em que o trumpismo seria derrotado por completo se revelaram catastroficamente incorretas. As matérias de uma virada de 10 pontos para Biden evaporaram-se diante do contato com a realidade. Até o momento, Trump aumentou sua votação em 7 milhões.

O erro dessa elite sobre as eleições é, em si, uma confirmação devastadora de seu fracasso em domesticar ideologicamente grandes quantidades de norte-americanos. Muitas dessas pessoas claramente escolheram não comunicar suas crenças nas pesquisas, uma parte fundamental da clerezia política, porque têm consciência de que as elites políticas as desprezam. Como um analista afirmou, por causa do “nível de ódio”, direcionado aos apoiadores de Trump “em quase toda a mídia”, temos uma situação em que “as pessoas não necessariamente queriam admitir para as pesquisas quem estavam apoiando”. Não só muitos norte-americanos se recusaram a abraçar as novas ortodoxias das elites culturais uniformemente anti-Trump, como também rejeitaram o envolvimento com as elites culturais. Eles sabem que é uma perda de tempo. Esse é o tamanho do abismo moral e político que existe agora entre os guardiões do politicamente correto e os milhões de pessoas comuns.

A segunda razão por que essa eleição incomodou os aparentes vitoriosos — o establishment pró-Biden — é quem votou em Trump. Houve mudanças significativas nos votos negro e latino em favor de Trump. De acordo com a AP VoteCast, 35% dos latinos parecem ter votado em Trump. Impressionantes 59% de havaianos nativos e 52% de indígenas norte-americanos e nativos do Alasca escolheram Trump. Aparentemente essas pessoas das Primeiras Nações não receberam os avisos do The New York Times e do Comitê Nacional Democrata de que Trump é um racista que odeia qualquer um que não seja branco.

Como podemos esperar dos neorracistas das elites identitárias, já existe uma intensa denúncia de minorias que votaram no republicano. Elas se venderam para a “supremacia branca”, afirmam os acadêmicos e colunistas “woke”. Blow escreveu no The New York Times que a virada de negros e latinos na direção de Trump é uma prova do “poder do patriarcado branco” e de sua influência nos grupos racializados e oprimidos: “Algumas pessoas que foram historicamente oprimidas ficam do lado do opressor”. Quantas palavras para dizer “Pai Tomás”. A raiva contra latinos e negros que votaram em Trump é motivada por uma imagem dessas pessoas como anomalias raciais, traidores da própria raça. Na rígida visão de mundo das elites identitárias, as pessoas não são indivíduos nem membros de uma classe econômica — são simples manifestações de raça e etnia e devem se enquadrar nesse papel. Que tantos eleitores tenham claramente se incomodado com tamanho fatalismo racial é uma reação muito positiva. As políticas identitárias sofreram um golpe nessa eleição, e as elites sabem disso.

Ainda mais impressionante é a diferença de formação em termos de quem votou em um e no outro. A maior parte das pessoas cujo nível de escolaridade não ultrapassa o ensino médio votou em Trump, enquanto uma maioria de pessoas que chegaram ao ensino superior votou em Biden. Entre os eleitores brancos, essa diferença é ainda mais extrema. Maiorias de homens brancos votaram em Trump, mas, entre os que não fizeram faculdade, 64% votaram no republicano, enquanto os que chegaram à graduação são apenas 52%. Enquanto isso, 60% das mulheres brancas que não fizeram faculdade votaram em Trump, ao passo que 59% das que chegaram ao ensino superior votaram em Biden.

A diferença de formação é reveladora. Como é natural, alguns observadores afirmam tratar-se da prova de que pessoas inteligentes votaram em Biden, enquanto pessoas burras preferiram Trump. Na verdade, essa divisão reflete basicamente o papel fundamental que as universidades passaram a desempenhar como comunicadores das novas ortodoxias. Em anos recentes, as universidades na angloesfera foram de fortalezas de pensamento e experimentação intelectual para fábricas de doutrinação “woke”. Da teoria crítica racial à fluidez de gênero, da visão da história dos Estados Unidos como uma sucessão de crimes até o míope policiamento da fala — incluindo as conversas do dia a dia, na forma de “microagressões” —, as universidades se tornaram importantes transmissores das ideologias das novas elites. Como consequência, uma das grandes ironias do nosso tempo é que aqueles que não fizeram universidade parecem conseguir pensar melhor e de maneira independente e resistir à intimidação do pensamento politicamente correto decretado pelas elites.

As ideias que se sustentam num câmpus universitário — que homens podem se tornar mulheres, que pessoas ofensivas devem ser “canceladas”, que elogiar o cabelo de uma mulher é uma microagressão racial, que descrever os Estados Unidos como um “caldeirão” é uma negação da “essência racial”, como a Universidade da Califórnia em Los Angeles declarou — não têm nenhum impacto nas fábricas, nos centros de delivery, nos refeitórios ou nos bares de vastas áreas dos Estados Unidos. Que pessoas com e sem formação universitária hoje pensem de maneira tão diferente é uma prova não da estupidez das pessoas menos escolarizadas, mas da transformação das universidades em máquinas de socialização de jovens nos modos e credos das novas elites distantes.

Trump se tornou um veículo para aqueles que não concordam que os EUA estão destruídos ou são racistas

Aliás, a cisão de eleitores de Biden e Trump em diversas questões também é marcante. Dentre os eleitores que acreditam que economia e emprego são os temas mais importantes, a vasta maioria apoia Trump: 81% comparados a apenas 16% dos apoiadores de Biden. Dos eleitores que pensam que o racismo é a questão mais importante, 78% preferem Biden, e apenas 19%, Trump. E dos eleitores que defendem a ideia de que a mudança climática é a questão mais importante, 86% votaram em Biden, e apenas 11%, em Trump. Sobre a covid-19, 83% dos eleitores de Biden afirmaram que a doença “não está sob controle de jeito nenhum”, enquanto apenas 15% dos trumpistas disseram o mesmo.

Isso é incrivelmente revelador. Em temas que são centrais para a perspectiva da clerezia — a ideia de que o racismo nos Estados Unidos está pior do que nunca, que a atmosfera está esquentando incontrolavelmente, que a covid-19 representa um desafio existencial para o futuro da nação —, os eleitores de Trump se desviam de maneira consistente da narrativa das elites. O que não quer dizer que não acreditem que a mudança climática ou o racismo são problemas que precisamos enfrentar — tenho certeza de que a maioria não pensa assim. Mas essas pessoas claramente rejeitam o fatalismo e a predominância dessas questões na política. É visível que evitam as discussões incessantes sobre o racismo inescapável dos Estados Unidos e a ideia de que, se não mudarem seu estilo de vida de maneira radical, os norte-americanos vão fritar no calor mortal da catástrofe climática. Em seus pensamentos e votos, elas lutam contra o identitarismo e o modo apocalíptico das novas elites. E o fazem até em questões pelas quais você pode ser cancelado por discordar. Experimente ir a um câmpus e dizer que o racismo e a mudança climática não são questões centrais nos Estados Unidos. Seria o seu fim. Mas não em outras partes dos Estados Unidos. Nelas, o livre debate, ou pelo menos o livre pensamento, ainda parece reinar.

Um estudo, publicado no Journal of Social and Political Psychology depois das eleições de 2016, descreveu o amplo apoio a Donald Trump entre as comunidades da classe trabalhadora ou menos escolarizadas em especial como uma forma de “desvio cultural”. A pesquisa usou uma linguagem hiperpsicologizada para descrever o comportamento das pessoas nas urnas, mas acertou em um ponto importante: as evidências sugerem que, para muita gente, votar em Trump foi uma forma de “desvio cultural… [da] predominância das normas de comunicação restritivas”. Em resumo, o fenômeno Trump representa uma revolta contra a supremacia cultural do politicamente correto e seu cancelamento de quaisquer visões ou crenças que sejam consideradas problemáticas. Trump se tornou um veículo para aqueles que não concordam que os Estados Unidos estão destruídos ou são racistas, ou que a mudança climática vai nos matar a todos, ou que a correção identitária é mais importante que a economia e os empregos, ou que Trump é Hitler — coisas cada vez mais difíceis de dizer em uma sociedade refinada tão ferozmente policiada pelas novas elites.

Talvez o ato mais importante de “desvio cultural” realizado pelos milhões que escolheram Trump, e não Biden, seja sua tentativa de recolocar a classe acima da identidade. É por isso que a virada de negros e latinos da classe trabalhadora para Trump é tão importante. Também é por isso que a crença predominante dos eleitores de Trump de que a economia e os empregos são as questões mais importantes nos Estados Unidos hoje — em contraste com o pequeno número de eleitores de Biden que pensam a mesma coisa — é tão relevante. O que testemunhamos nos Estados Unidos é uma reafirmação da importância da classe sobre a identidade, dos interesses sociais e econômicos compartilhados de uma parcela significativa da sociedade sobre as estreitas obsessões culturais das novas elites e de seus apoiadores nas novas indústrias de conhecimento. A coalizão populista emergente de negros e latinos da classe trabalhadora e brancos sem diploma universitário é uma rebelião considerável contra o estrangulamento das elites de classe média alta na narrativa política e contra a promoção constrangida das elites da miopia neoliberal da identidade e sua diminuição da importância da classe.

Essa é outra razão por que as elites estão tão furiosas depois de sua própria vitória prevista nas eleições. É uma razão crucial, aliás. Porque elas instintivamente reconhecem que as preocupações econômicas e, mais importante, a consciência econômica de partes consideráveis da sociedade representam uma ameaça à sua dominação ideológica. Note o desdém, o desprezo escancarado, com que a expressão “populismo econômico” tem sido usada por apoiadores de Biden. “Populismo econômico” é um disfarce para o racismo, insistem nossos superiores morais. Eles temem acima de tudo a reemergência de uma política mais baseada na classe porque sabem que isso iria totalmente contra — política, moral e economicamente — o identitarismo que “divide para conquistar” cultivado nas décadas recentes.

A derrota do establishment é muito mais significativa do que a derrota de Trump

As corporações, a academia, o sistema educacional, o establishment democrático, as elites de mídia e as oligarquias de mídia social estão intensamente investidos no culto à identidade porque esse é um meio pelo qual podem renovar sua dominação econômica sobre a sociedade e exercer sua autoridade moral sobre as massas. O identitarismo trouxe uma renovação espiritual para as elites capitalistas, uma nova forma de repreender e censurar a força de trabalho nas corporações, uma sensação de propósito para uma classe política totalmente apartada das massas trabalhadoras que um dia tentou atrair. E não estão dispostas a deixar alguns negros e latinos arrogantes e brancos de pouca formação atrapalharem essa nova ideologia dominante com suas preocupações vulgares com a economia e o emprego.

Trump perdeu. Mas o establishment anti-Trump também perdeu. De certa forma, a derrota do establishment é muito mais significativa. Essas elites veem nos 70 milhões de pessoas que votaram, de modo desobediente e flagrante, no “mal” e que questionam a ruína, a cisão e a censura das novas elites uma ameaça maciça e genuína a seu direito de governar e a suas ideologias interesseiras. E elas têm razão. Porque esses inconquistáveis, esses fervilhantes milhões que não foram capturados pelas novas ortodoxias, são prova de que o populismo vai sobreviver à queda de Trump e que as narrativas de autoproteção das novas elites não são aceitas por grande número de pessoas comuns.

Essa é a verdadeira resistência. Não os revolucionários do TikTok e fantasistas antifas de classe média alta cujas visões — sobre questões trans, Black Lives Matter, a perversidade de Trump — correspondem exatamente à perspectiva do Google, da Nike e do The New York Times. Não, a resistência está nesses trabalhadores. Esses hispânicos desafiadores. Esses negros que fizeram o que negros não deveriam fazer. Esses brancos sem ensino superior que acreditam que as ideologias universitárias são uma loucura. Essas são as pessoas que tiveram a coragem e a independência de pensamento de forçar uma reconsideração e um realinhamento sérios da esfera política no século 21 no Ocidente. Parabéns para elas.

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Brendan O’Neill é editor da Spiked e apresentador do podcast The Brendan O’Neill Show. No Instagram: @burntoakboy.

 

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