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A autora, com 22 anos de experiência no esporte e participação em quatro Jogos Olímpicos, defende uma transformação no esporte brasileiro, propondo que seja integrado à educação básica. Ela imagina um Brasil em que escolas tenham equipes esportivas e campeonatos locais, permitindo que crianças descubram suas habilidades. Inspirado no modelo americano, sugere que o investimento público priorize a formação esportiva nas escolas, com professores capacitados e competições regulares.
Passei 22 anos da minha vida no esporte. Conheci a rotina dos treinamentos, a disciplina exigida pela competição, as dificuldades enfrentadas pelos atletas e a emoção extraordinária de representar o Brasil em quatro Jogos Olímpicos. Vivi experiências que moldaram profundamente a pessoa que sou e me ensinaram lições que continuam presentes em praticamente todas as dimensões da minha vida. Quando penso no esporte brasileiro que gostaria de ver, minha imaginação vai muito além das medalhas, dos pódios e das grandes competições internacionais.
Imagino um Brasil em que o esporte esteja presente na vida cotidiana das crianças, em que as escolas tenham suas próprias equipes, em que campeonatos municipais mobilizem famílias inteiras e em que pequenas cidades desenvolvam tradições esportivas transmitidas de uma geração para outra. Um país onde professores e treinadores tenham condições de descobrir talentos, onde empresas locais se orgulhem de patrocinar equipes escolares e onde uma criança possa experimentar diferentes modalidades antes mesmo de imaginar que algum dia poderá se tornar atleta profissional. Imagino, sobretudo, um Brasil que compreenda o esporte como parte indispensável da educação e da formação humana.
O modelo que inspira essa visão está diante dos meus olhos nos Estados Unidos. Evidentemente, não precisamos copiar tudo dos americanos, e seria impossível reproduzir integralmente um sistema construído a partir de uma realidade histórica, cultural e institucional tão particular. Podemos, entretanto, buscar inspiração nos princípios que movimentam o pêndulo físico e intelectual do esporte e da educação no modelo de nação que os Estados Unidos se tornaram.
Uma das características mais interessantes do esporte americano é justamente o fato de sua tradição escolar não ter sido construída exclusivamente para produzir campeões olímpicos. A escola, a universidade, a comunidade e a competição esportiva desenvolveram vínculos que ultrapassam amplamente o universo do alto rendimento, fazendo do esporte uma parte importante da formação dos indivíduos e da própria identidade nacional.

O resultado é uma cultura em que milhões de jovens praticam esportes, representam suas instituições e crescem compreendendo o valor da disciplina, da responsabilidade individual e do compromisso coletivo. Dessa imensa base surgem também alguns dos melhores atletas do mundo. É essa pirâmide que gostaria de ver construída no Brasil, começando por sua fundação.
Nos Estados Unidos, a dimensão dessa cultura impressiona. Segundo a Federação Nacional das Associações Estaduais de Ensino Médio, mais de 8,2 milhões de participações esportivas foram registradas nas escolas americanas durante o ano letivo de 2024—2025. O número abrange dezenas de modalidades e representa uma tradição que envolve escolas, famílias, professores, treinadores e comunidades inteiras. O sentimento de pertencimento é um dos pilares do orgulho de representar sua escola, seu distrito, sua cidade, seu Estado e, consequentemente, seu país.
E exatamente por isso, a força desse sistema também aparece no alto rendimento. Nos Jogos Olímpicos de Paris, em 2024, 75% dos integrantes da delegação americana haviam passado pelo esporte universitário. Entre os medalhistas americanos, essa proporção ultrapassou 84%.
Educação e excelência são inseparáveis
A conexão entre educação e excelência esportiva ajuda a explicar a capacidade dos Estados Unidos de formar atletas em tantas modalidades diferentes. E é disso que o Brasil precisa. A força do modelo americano está na existência de uma cultura esportiva que começa muito antes da formação de atletas de elite, dentro das escolas, como parte da educação de milhões de crianças e adolescentes. É dessa estrutura que surgem os talentos que, anos mais tarde, poderão alcançar as universidades, as seleções nacionais e os Jogos Olímpicos.
A universidade desempenha um papel extraordinário nesse processo, mas os jovens não precisam esperar até o ensino superior para encontrar uma estrutura esportiva organizada. Muito antes disso, eles já podem ter representado suas escolas, participado de campeonatos regionais, desenvolvido suas habilidades e aprendido a conciliar os estudos com os treinamentos. Quando chegam à universidade, muitos desses jovens já acumularam anos de experiência competitiva, desenvolveram uma identidade esportiva e compreenderam que a formação acadêmica e a prática esportiva podem caminhar juntas. O sistema universitário recebe, portanto, atletas que começaram a ser formados muito antes de chegar ao campus.
É justamente nessa ordem de prioridades que está a inspiração para uma transformação do esporte brasileiro. Uma estrutura esportiva profissional, universitária ou de clubes, só consegue alcançar todo o seu potencial quando existe uma base escolar suficientemente ampla para alimentá-la. Construir centros de excelência sem oferecer oportunidades esportivas às crianças significa limitar, desde o início, o universo de talentos que poderão chegar ao alto rendimento.
O investimento público precisa estar concentrado prioritariamente na educação básica, com instalações esportivas adequadas, professores preparados e programas permanentes de competições. As escolas deveriam oferecer diferentes modalidades e oportunidades de participação ao longo de toda a formação dos alunos, permitindo que cada criança descobrisse suas habilidades e desenvolvesse uma relação duradoura com o esporte. A estrutura universitária poderia receber os jovens que desejassem continuar suas carreiras esportivas, enquanto clubes e federações desenvolveriam os atletas que demonstrassem condições de alcançar o alto rendimento. O objetivo seria construir uma pirâmide sustentada por milhões de praticantes, na qual a excelência esportiva surgisse de uma base educacional sólida.
Municípios, escolas, associações, clubes e famílias teriam condições de desenvolver projetos adequados à realidade de cada região, sem depender de uma estrutura administrativa distante de suas necessidades cotidianas. Uma cidade com tradição no atletismo poderia fortalecer suas pistas e competições escolares; outra, próxima ao litoral, poderia desenvolver modalidades aquáticas; comunidades com clubes já estabelecidos poderiam construir parcerias para ampliar o acesso dos alunos às suas instalações e aos seus profissionais.
A diversidade brasileira, nesse modelo, seria uma extraordinária fonte de oportunidades. Cada comunidade teria liberdade para desenvolver suas próprias tradições esportivas, mobilizar seus recursos e descobrir seus talentos. A excelência nacional seria construída a partir dessa multiplicidade de iniciativas locais, sustentadas por uma convicção comum: o esporte deve começar onde começa a formação de qualquer cidadão brasileiro, na escola.
O papel da União: inverter a lógica do esporte brasileiro
Depois de tantos anos convivendo com as instituições esportivas brasileiras, considero indispensável discutir também a extinção do Ministério do Esporte. Minha experiência me levou a questionar profundamente a concentração de recursos, a quantidade de intermediários e as oportunidades de corrupção que surgem quando o dinheiro percorre sucessivas instâncias administrativas antes de alcançar os atletas e suas comunidades. Quanto maior a distância entre quem decide a aplicação dos recursos e quem deveria se beneficiar deles, maiores são os riscos de desperdício, de interferência política e de afastamento das necessidades reais da população.
O esporte brasileiro precisa de uma estrutura mais simples, em que os recursos públicos destinados à formação esportiva estejam vinculados prioritariamente à educação básica e sejam administrados tão perto quanto possível das escolas, dos alunos e das famílias. A extinção do Ministério do Esporte seria acompanhada da redistribuição de suas atribuições essenciais entre instituições existentes, preservando as responsabilidades que exigem coordenação nacional. O protagonismo pertenceria às comunidades, com autonomia para desenvolver suas iniciativas e estabelecer prioridades. O dinheiro público deveria percorrer o caminho mais curto possível entre sua origem e a criança que dele necessita.

Essa concepção também explica a resistência à criação de novas estruturas federais dedicadas ao esporte. Antes de pensar em novos edifícios, estádios, departamentos e administrações, todas as escolas públicas deveriam ter condições de oferecer experiências esportivas enriquecedoras na base de nossa pirâmide educacional, e não apenas em seu topo. A recente criação da Universidade Federal do Esporte, em julho de 2026, exemplifica a opção por ampliar a estrutura federal de ensino superior dedicada ao setor. A transformação do esporte brasileiro deveria seguir outro caminho, começando pelas escolas de educação básica e pelas comunidades que elas atendem.
Uma escola poderia desenvolver uma tradição no atletismo; outra, na natação; uma terceira, no voleibol ou no basquete. As competições escolares se transformariam em acontecimentos importantes para os municípios, enquanto campeonatos estaduais permitiriam que os jovens desenvolvessem suas habilidades e ampliassem seus horizontes. Cada cidade poderia construir seu próprio calendário esportivo, com equipes reconhecidas e uma identidade que ultrapassasse os limites das quadras e dos campos.
Nesse Brasil, os professores de educação física e os treinadores teriam um papel central, despertando o interesse das crianças, identificando habilidades e acompanhando seu desenvolvimento. Sua contribuição seria reconhecida também pelo impacto educacional e humano de seu trabalho, uma dimensão inseparável da formação de um atleta desde os primeiros anos nas categorias de base. O professor que acompanha uma criança durante anos participa da construção de sua disciplina, de sua confiança e de sua capacidade de trabalhar em equipe. Sua influência frequentemente permanece muito depois do encerramento da carreira esportiva.
A escola pública se tornaria um dos principais centros da vida comunitária. Suas instalações poderiam ser utilizadas fora do horário das aulas para atividades esportivas que envolvessem crianças, adolescentes e famílias. Empresas locais poderiam patrocinar equipes e campeonatos, enquanto clubes, associações e ex-atletas contribuiriam com conhecimento técnico e oportunidades de treinamento. A participação da iniciativa privada ampliaria os recursos disponíveis e fortaleceria a relação entre o esporte e a economia local.
Essa aproximação entre escolas, famílias e iniciativa privada também ajudaria a enfrentar a desigualdade de oportunidades entre crianças de diferentes regiões e condições econômicas. Uma estrutura esportiva enraizada nas comunidades permitiria que o acesso às modalidades, aos equipamentos e às competições começasse perto de casa, oferecendo a um número muito maior de brasileiros a oportunidade de descobrir e desenvolver suas habilidades.

O talento não tem CEP. A oportunidade, frequentemente, tem. Uma criança de uma pequena cidade do interior deveria poder descobrir suas habilidades esportivas sem depender da renda dos pais para custear todas as etapas de sua formação. Programas locais de apoio, bolsas, parcerias com clubes e competições escolares poderiam criar caminhos para que jovens talentosos continuassem praticando esportes sem precisar abandonar os estudos ou se afastar prematuramente de suas famílias.
O pertencimento começa na escola
Existe, porém, uma dimensão da ideia que imagino para o esporte no Brasil que considero especialmente importante: o sentimento de pertencimento. Uma das experiências mais bonitas da vida esportiva americana é observar a relação entre as escolas e suas comunidades. Os uniformes, as cores, os mascotes, as arquibancadas ocupadas pelas famílias e os campeonatos tradicionais ajudam a construir uma identidade compartilhada. Muito antes de verem a bandeira americana nos estádios olímpicos e nas grandes competições internacionais, aprendem o significado de representar suas próprias escolas, suas comunidades e suas cidades. É ali que nasce o sentimento de pertencimento, o orgulho de vestir um uniforme e a responsabilidade de defender as cores de uma instituição que acompanha suas conquistas e suas dificuldades.
Cidades brasileiras poderiam desenvolver tradições semelhantes, com escolas que mantivessem equipes esportivas ao longo de décadas, campeonatos que reunissem diferentes gerações e famílias que acompanhassem os filhos durante toda a trajetória escolar. A competição seria também uma oportunidade para fortalecer os vínculos entre professores, alunos, pais e vizinhos.
O esporte ensina lições que dificilmente podem ser transmitidas apenas por meio de livros. Um jovem aprende que o talento exige dedicação, que a disciplina precisa ser cultivada diariamente e que o resultado de uma equipe depende da contribuição individual de seus integrantes. Aprende a respeitar regras, reconhecer a qualidade dos adversários e enfrentar derrotas sem abandonar seus objetivos.
Essas experiências acompanham as pessoas por toda a vida. O menino que aprende a trabalhar em equipe pode se tornar um profissional capaz de colaborar com seus colegas. A menina que enfrenta uma derrota depois de meses de preparação descobre que o fracasso faz parte do processo de crescimento. Ambos compreendem que o esforço individual tem consequências e que assumir responsabilidades é parte fundamental da vida em sociedade.
A formação que permanece depois do esporte
É fundamental também recuperar a ligação entre o esporte e o desempenho acadêmico. A prática esportiva deveria caminhar ao lado dos estudos, estimulando os jovens a desenvolver suas capacidades físicas e intelectuais. Bolsas esportivas e oportunidades universitárias poderiam representar uma continuidade natural dessa formação, permitindo que atletas prosseguissem nos estudos enquanto desenvolvessem suas carreiras competitivas.
Essa integração também permitiria que o esporte abrisse portas para oportunidades profissionais e acadêmicas que muitos jovens talvez jamais tivessem considerado. Uma bolsa universitária conquistada por meio do desempenho esportivo pode representar o acesso a uma formação de excelência, a novas experiências e a uma rede de relações que acompanhará o estudante por toda a vida. O compromisso com os estudos, por sua vez, oferece ao atleta a segurança de construir uma identidade e um futuro que não dependam exclusivamente de seus resultados nas competições.
A formação acadêmica também deveria fazer parte da responsabilidade das instituições esportivas. Escolas, clubes e universidades poderiam estabelecer parcerias para acompanhar o desempenho dos estudantes, oferecer orientação profissional e preparar os jovens para a transição entre a carreira competitiva e o mercado de trabalho. Um sistema que valoriza a educação desde as categorias de base amplia as possibilidades de cada atleta e permite que os conhecimentos, a disciplina e a capacidade de liderança desenvolvidos durante os treinamentos encontrem aplicação em outras áreas da sociedade.
Afinal, mesmo entre os jovens mais talentosos, poucos chegarão aos Jogos Olímpicos. Todos, porém, precisarão construir uma vida depois da escola, da universidade e das competições.
Da camisa da escola à bandeira do Brasil
E existe ainda o orgulho de representar o Brasil. Guardo comigo a emoção de vestir as cores do meu país e entrar em uma competição olímpica sabendo que carregava comigo uma história muito maior do que minha trajetória individual — minha cidade, meus colegas, meus professores, minhas lições. E então a bandeira brasileira que ganhava um significado que nenhuma conquista pessoal seria capaz de substituir.
Imagino o que aconteceria se milhões de crianças crescessem experimentando, desde cedo, o orgulho de representar suas escolas, seus bairros e suas cidades. Se aprendessem que vestir um uniforme significa assumir compromissos, respeitar os companheiros e honrar uma comunidade. Se descobrissem, por meio do esporte, que pertencem a algo maior do que seus interesses individuais.

Algumas dessas crianças chegariam a representar o Brasil em uma Olimpíada. Muitas outras se tornariam médicos, professores, engenheiros, empresários ou profissionais das mais diversas áreas. Todas poderiam levar consigo experiências que ajudariam a construir famílias mais presentes, comunidades mais integradas e uma sociedade que reconhecesse o valor da disciplina, do esforço e da responsabilidade.
O Brasil no esporte que gostaria de ver teria escolas movimentadas depois do horário das aulas, ginásios ocupados nos fins de semana, professores valorizados e comunidades orgulhosas de seus jovens. Teria empresas investindo nas equipes de suas cidades, famílias acompanhando campeonatos e universidades recebendo atletas que já teriam percorrido uma longa trajetória de formação esportiva e acadêmica.
Um país que construísse essa cultura poderia desenvolver uma capacidade extraordinária de formar atletas de alto rendimento. Mas sua maior conquista estaria presente muito antes de qualquer medalha olímpica — estaria nas gerações de brasileiros que teriam aprendido, dentro de uma quadra, de uma piscina ou de uma pista de atletismo, o significado de pertencer, competir, perseverar e representar com orgulho a comunidade e o país em que nasceram.
Afinal, o esporte deixa sua marca mais profunda naquilo que cada indivíduo leva consigo para o resto da vida e transmite às gerações seguintes. Isso vai além do esporte. É legado humano.
10 propostas para o esporte
- Concentrar o investimento público na educação básica.
- Garantir instalações esportivas adequadas, professores preparados e programas permanentes de competições.
- Receber na universidade os jovens que desejassem seguir no esporte, e em clubes e federações os que demonstrassem aptidão para o alto rendimento.
- Desenvolver projetos adequados à realidade de cada região.
- Construir parcerias para ampliar o acesso dos alunos a instalações e profissionais.
- Extinguir o Ministério do Esporte — quanto menos concentração de recursos, melhor.
- Dar o protagonismo às comunidades, com autonomia para estabelecer prioridades.
- Utilizar nas escolas ações fora do horário das aulas para atividades esportivas.
- Estimular a participação da iniciativa privada para ampliar recursos e fortalecer a relação entre o esporte e a economia local.
- Recuperar a ligação entre o esporte e o desempenho acadêmico.
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