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O custo e o valor de ser ‘contrariador’

Prêmios como o 'Contrarian Prize' servem para aplacar o medo que muitos têm de se manifestar em defesa daquilo em que acreditam e assim reduzir o poder social do cancelamento cultural

Vivemos numa “pandemia de conformismo” como resultado do risco de ser perseguido, censurado, cancelado? O tópico, interessante, foi levantado recentemente num artigo para a revista The Critic por Ali Miraj. Miraj é empreendedor, investidor, comentarista político e criador do Contrarian Prize. Ele criou o prêmio bianual em 2013 para celebrar aqueles que, no Reino Unido, contribuem no debate público com coragem, independência e sacrifício e assim contrariam o monismo ideológico, a uniformização do pensamento, o tribalismo político. Não é tarefa fácil, e o custo de ser contrariador é alto.

Cinco contrariadores já foram premiados. A mais recente, em 2019, foi a professora Katharine Birbalsingh. Criadora e diretora da bem-sucedida Michaela Community School, Katharine ficou conhecida no país depois de proferir uma palestra em 2010 na conferência anual do Partido Conservador inglês.

Com base em sua experiência de mais de dez anos em cinco escolas, ela afirmou que o sistema educacional britânico estava falido e mantinha as crianças pobres na pobreza. Katharine também denunciou a imensa burocracia, o baixo padrão de ensino, a cultura de desculpas, a violência dos alunos, o caos que se instaurou nas salas de aula do país.

Como resultado do correto diagnóstico apresentado na conferência dos tories, Katharine foi vítima de uma série de ataques racistas e sexistas nas redes sociais. Em seguida, foi pressionada a se demitir do colégio St. Michael and All Angels. Localizado num bairro multiétnico no sul de Londres, o colégio enfrentava problemas sérios, a ponto de contratar uma empresa de segurança para revistar os alunos. Alguns deles eram barras-pesadas e agiam com violência contra colegas e professores. A direção da escola escondeu o tamanho do problema para não perder alunos e, portanto, verba do governo. Diante da verdade exposta e da drástica diminuição do interesse de pais em querer matricular seus filhos, o colégio fechou as portas. E a diretoria acusou Katharine de ser a responsável. Essa história de culpar a vítima ou quem diz a verdade, como se vê, não é exclusividade brasileira.

Defender e apoiar quem está com a razão e é atacado faz parte de nossa responsabilidade

Lembro aqui uma história que citei no artigo “O método de cancelamento não pode prosperar”: o assassinato de reputação contra Ray Honeyford, diretor de um colégio de ensino médio em Bradford, no norte da Inglaterra, por ele ter escrito um artigo no qual descrevia os problemas enfrentados por professores que tentavam ensinar inglês aos filhos de imigrantes asiáticos, criticava os pais que proibiam as crianças de aprender a cultura britânica, defendia o aprendizado do idioma, da história e de princípios fundantes da sociedade inglesa como elemento de integração no país, e condenava a leniência da política multiculturalista, que prejudicava o trabalho dos professores e inviabilizava a inclusão cultural por meio do ensino.

Em razão do artigo publicado na revista Salisbury Review, na época editada por Roger Scruton, Honeyford foi pressionado de tal forma que antecipou sua aposentadoria, nunca mais lecionou ou dirigiu uma instituição de ensino. O professor faleceu em 2012, e o problema que ele apontou continua sem solução.

Pelo menos o cancelamento não se repetiu, felizmente, com Katharine Birbalsingh, nascida na Nova Zelândia, filha de pai indo-guianês e mãe jamaicana. Em 2014, ela fundou a escola secundária Michaela Community School junto com Sue-Ellen Cassiana Braverman, uma tory filha de pais indianos que hoje atua como advogada-geral da Inglaterra e País de Gales do governo de Boris Johnson. Com disciplina rígida e modelo tradicional de ensino, a escola obteve o melhor resultado no GCSE (General Certificate of Secondary Education) de 2019 em comparação com suas congêneres.

Ao Katharine demonstrar que o modelo que defende é o mais adequado, suas críticas ao sistema de ensino britânico (similar ao de vários outros países) ganharam ainda mais força e ela se tornou uma voz influente na área. Ter conquistado o Contrarian Prize em 2019 reforçou sua posição e reputação, além de ter revelado que a sociedade vem mudando e muitos não se acovardam nem aceitam mais a passividade e o conformismo. A reação social, crescente, tende a aumentar no Reino Unido e em outros países da Europa e das Américas.

Prêmios como o Contrarian Prize têm dimensão muito maior do que a justa homenagem àqueles que não se deixaram vergar pelos canceladores nas universidades, na imprensa, na política, nos movimentos organizados. Servem para aplacar o medo que muitos têm de se manifestar em defesa daquilo em que acreditam e assim reduzir o poder social que o cancelamento, lamentavelmente, conquistou. Por isso, essas homenagens são tão relevantes.

Identificar, discutir, solucionar problemas, independentemente da área e sem medo de ser atacado e prejudicado, é tarefa de todo aquele que deseja contribuir para a construção de uma vida boa na sociedade. Defender e apoiar quem está com a razão e é atacado faz parte dessa responsabilidade. A solução para a “pandemia de conformismo” é a reação.

Por isso mesmo, não podemos permitir que o medo nos paralise e nos silencie, pois nosso silêncio é o anabolizante daqueles que querem nos submeter, cassar nossas liberdades e nos impor sua ideologia, visão de mundo e projeto de poder. Se reagirmos, não conseguirão.

Leia também nesta edição o artigo “O culto à ignorância”, de Selma Santa Cruz


Bruno Garschagen é cientista político, mestre e doutorando em Ciência Política no Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa (Lisboa) e autor dos best-sellers Pare de Acreditar no Governo e Direitos Máximos, Deveres Mínimos (Editora Record).

 

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