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Rumo à utopix socialistx intersecionxl!

O propósito dos revolucionários é fazer parecer que quem se posiciona contra a ideologização da língua é contra respeitar as pessoas da forma como elas são

Na terça passada, qual não foi o meu espanto ao abrir o envelope com máscara antivírus que eu havia comprado pela internet e ler a seguinte frase no início da carta de agradecimento pela aquisição do produto: “Muito obrigado por participar do movimento e seja bem-vindx ao (nome do projeto)”.

Li e reli a carta, conferi várias vezes o nome do remetente e do destinatário para ter certeza de que não se tratava de erro, ou de pegadinha de algum desavisado. O equívoco estava, porém, no uso do X para “neutralizar” o sexo — ou o gênero, palavra do dialeto singular de pessoas que deveriam ser objeto de estudo.

O uso do X no lugar do “a” ou do “o” não é mera maluquice ideológica. É tentativa de uniformizar o idioma, o pensamento, o comportamento, os modos de vida, e abrir caminho para ascensão ao poder do grupo político que está por trás dessa agenda. Sendo assim, é impossível que atinja o suposto resultado pretendido: a inclusão de um minúsculo grupo da sociedade que não se reconhece como homem nem como mulher. E ainda mais grave do que não alcançar o propósito é provocar rejeição em vez de aceitação, desrespeito em vez de respeito.

A natureza autoritária desse projeto político fica evidente diante do objetivo de forçar as pessoas a aceitarem e usarem o dialeto, mas também na reação violenta contra quem se recusa a aceitá-lo ou a usá-lo. As mesmas pessoas que cobram respeito e veem fascismo por todos os lados desrespeitam e agem como fascistas.

Forçar a mudança do idioma por motivos ideológicos não é novidade na história. Nem o é a imposição forçada de alterações na linguagem. O acordo ortográfico está aí para atestar o fenômeno assim como a recusa em cumpri-lo, como ocorre em Portugal, é sinal de uma sociedade, em parte, sã.

Toda vez que leio ou ouço alguém usar “todx”, “bem-vindx” et caterva, sinto como se eu estivesse num filme do Monty Python ou dos Trapalhões. Mas logo me dou conta de que, talvez, a imagem mais adequada estaria num quadro de Salvador Dalí ou em algum personagem de romance de Thomas Pynchon.

Imaginem um futuro distópico no qual esse dialeto fosse a língua padrão? Se isso ocorrer, tenho cá as minhas suspeitas a respeito de sua permanência. Esse arremedo de idioma nunca se constituiria numa tradição linguística porque tem DNA revolucionário. Seu objetivo é, no fundo, destruir, não construir.

Um idioma mutante jamais se estabeleceria porque a revolução da linguagem seria permanente, sendo a língua submetida a mudanças sucessivas até não ser sequer reconhecida pelos revolucionários do futuro. As gerações vindouras se comunicariam com gestos e grunhidos — como, aliás, já vêm fazendo muitos dessa geração woke.

A língua que nos foi legada está sob ataques vários em escolas, universidades, imprensa, empresas

Sátira exemplar de como essa turma pensa e se comporta é mostrada no livro Woke — A Guide to Social Justice (Constable, 2019), de Titania McGrath, que se apresenta na conta do Twitter como “poeta intersecional radical”. Titania não existe: é criação de Andrew Doyle, comediante e colunista da revista Spiked. Titania não existe como indivíduo de carne e osso, mas aquilo que ela pensa e representa tem muitos exemplares mundo afora.

Doyle usa a personagem ficcional para expor com bom humor aquilo que as Titanias da vida defendem como se fosse algo sério. Num dos capítulos do livro, intitulado “Rumo a uma utopia socialista intersecional”, há três poemas engraçadíssimos: um dedicado aos sem-teto (que poderia ser dedicado a Guilherme Boulos), um a Meghan Markle (a atriz que fez de Harry um ex-príncipe), outro com o título “I am Womxn” (“Sou mulhxr”). O livro merecia uma edição brasileira, e dedicada ao colégio Liceu Franco-Brasileiro, do Rio de Janeiro.

Numa hipotética “utopia socialista intersecional woke”, os livros seriam obrigatoriamente modificados para obedecer aos critérios do novo dialeto, ou da novilíngua, e aqui cito a já desgastada palavra que define o idioma imposto pelo governo autoritário descrito no excelente livro 1984, de George Orwell.

E assim veríamos os títulos de grandes livros grafados sob a nova ordem: X Odisseix, X Ilíadx, ambos de Homerx; X Repúblicx, de Platãx; X Políticx, de Aristótelxs; Romex e Julietx, de Shakespearx; Eneidx, de Virgílix; Divinx Comédix, de Dantx; X Príncipx, de Maquiavxl; e por aí vai (a lista é longa, a vida é breve). Pensando melhor, esses clássicos e os demais seriam queimados e proibidos em razão de “machismo, sexismo, homofobia (menos os gregos)” et caterva.

Resultado de séculos de desenvolvimento, a língua que nos foi legada pelos portugueses e aprimorada por influências de povos que ajudaram a construir o nosso país está sob ataques vários em escolas, universidades, imprensa, empresas. O péssimo ensino, a recusa em aprender o idioma, o seu mau uso, além de sua ideologização, tudo isso vem minando esse nosso patrimônio cultural gigantesco.

Para entender a dimensão desse legado cultural que herdamos e desenvolvemos, interrompa agora a leitura deste artigo e leia trechos de Os Lusíadas, de Camões, de Os Maias, de Eça de Queiroz, de Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, de Romance da Pedra do Reino, de Ariano Suassuna. É uma pequena grandiosa amostra do que temos e, em razão dessa grandiosidade, é tamanha a responsabilidade de aprender, usar, aperfeiçoar, cuidar e proteger o nosso idioma.

Insisto num ponto: o propósito dos revolucionários não é apenas promover a inclusão, algo que pode ser feito de várias outras formas e contar com o apoio da maioria da sociedade. O que se pretende com isso é politizar o tema, criar um antagonismo entre os indivíduos e fazer parecer que quem se posiciona contra a ideologização da língua é contra respeitar as pessoas da forma como elas são.

“Viver e deixar viver” é mote conservador, que, no entanto, reagirá toda vez que houver qualquer tentativa de imposição de uma engenharia política social disfarçada de mudança virtuosa.


Bruno Garschagen é cientista político, mestre e doutorando em Ciência Política no Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa (Lisboa) e autor dos best-sellers Pare de Acreditar no Governo e Direitos Máximos, Deveres Mínimos (Editora Record).

 

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22 comentários

  1. Divide e dissolve. É esta a real intenção. Inclusão? Jamais.
    Ela é invocada apenas como suposta motivação nobre para enganar incautos.

    1. Brilhante. Sempre querem impor na força ao invés de conquistar. Respeito não vem de graça, essa geração talvez mude o idioma porque não consegue interpretar corretamente um texto. Tudo lhe é permitido, mas nem tudo lhe convém.

    2. Eu duvido, mas duvido e muito, se o Prof Ariano Suassuna estivesse vivo aceitaria essas maluquices e aberrações na nossa língua escrita e falada. Certeza q suscitaria uma beligerância verbal c esses grupos ou seria jogado no ostracismo pelos abutres progressistas.

  2. Se essa gente quer dividir, usando as chamadas minorias como cunha e como massa de manobra, então que vão formar um país (quem sabe um Continente?) só deles. Só quero ver quem é que vai sustentar essa catrefagem.

    1. Já cortei contato com pessoas que dizem “a todos e a todas”, e cortarei tudo que vier com essa besteira de X no lugar de O ou A. Que plano idiota desses idiotas esquerdopatas

  3. Deixei de consumir suco do bem por conta disso. A empresa ataca nosso idioma em suas embalagens . ” MAIS PÊSSEGO PARA TODES “

  4. Muito bom esse texto. Um bando de idiotas, retardados que não se aceitam, querendo obrigar os outros a aceitá-los. Como já mencionado acima, ainda bem que a vida é curta.

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