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Idosos na mira dos planos de saúde

Envelhecimento da população desafia operadoras e desperta o setor para o potencial da geração acima de 50 anos

Quem tem plano de saúde sabe: a mensalidade é salgada, os reajustes anuais são elevados, para dizer o mínimo, e não raro o segurado é surpreendido pela negativa de um serviço que jurava estar incluso no contrato. Entretanto, para os 47 milhões de indivíduos que não querem depender do Sistema Único de Saúde, aderir a um plano privado é a única solução. Custa caro para quem paga. Mas, do outro lado do balcão, as empresas do setor no Brasil têm um grande desafio pela frente: até 2030, as operadoras de planos de saúde devem gastar cerca de R$ 384 bilhões com assistência a seus beneficiários. O montante representa um avanço de 157% em relação ao registrado em 2017, segundo levantamento realizado pelo Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS). “Esse valor representa mais do que o dobro do que foi gasto em 2017 e acende uma luz amarela, de alerta, para o setor”, analisa Luiz Augusto Carneiro, superintendente-executivo do IESS.

A justificativa para o aumento tão expressivo em pouco tempo tem a ver com a demografia: o brasileiro está envelhecendo e vivendo mais. De acordo com estudos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população com mais de 50 anos no país crescerá a um ritmo chinês nas próximas décadas e passará dos atuais 25% — 54 milhões de cidadãos — para 31,1% daqui a dez anos e para 37,4% em 2040. De olho nesse contingente 50+ que não para de crescer, as empresas de saúde vão precisar preparar-se para as mudanças se quiserem manter a sustentabilidade financeira do setor.

A aposta da Prevent Senior no Grey Power

Quem saiu na frente e parece ter farejado uma boa oportunidade bem antes dos concorrentes foi a Prevent Senior. Com um modelo de negócio voltado para o público idoso, a operadora foi na contramão da lógica do setor. Enquanto os planos de saúde convencionais enxergam a população idosa como de elevado risco e alguns até esnobam a clientela que já passou dos 60, a empresa resolveu apostar justamente nesse grupo. “Temos uma visão distinta sobre o público de mais idade. Uma pessoa que chega aos 80 anos é saudável e se busca um plano de saúde é porque quer viver mais e melhor. Queremos tê-la como cliente”, afirma o presidente da Prevent Senior, Fernando Parillo.

Em 1997, quando os irmãos Fernando e Eduardo Parillo decidiram abrir um negócio voltado para a terceira idade, muitos consideraram a ideia maluca. Entretanto, o instinto da dupla parece ter seguido na direção certa. A pandemia do novo coronavírus foi uma verdadeira prova de resiliência para a empresa. Afinal, a Prevent Senior conta com uma carteira com 495 mil beneficiários que integram um dos principais grupos de risco da covid-19. Só na cidade de São Paulo, 75% da população idosa que tem plano de saúde é cliente da operadora.  “Houve campanha contra nós desde o início”, disse Pedro Benedito Batista Júnior, 36, médico cirurgião-geral e diretor-executivo da empresa. No auge da pandemia, os hospitais da rede foram fiscalizados pela Vigilância Sanitária quatro vezes em doze dias e a Secretaria de Saúde de São Paulo pediu a intervenção em três hospitais porque a rede teria deixado de informar casos de infecção por coronavírus. Em agosto, o Ministério Público pediu o arquivamento das investigações por entender que não houve falhas por parte da empresa. Além de acusações de irregularidades, a Prevent Senior recebeu atenção da mídia por adotar um tratamento que virou um verdadeiro “fla-flu” político no país: a operadora foi pioneira no uso da hidroxicloroquina no tratamento de pacientes em fase inicial da covid-19, não apenas nos casos graves. Segundo Batista Júnior, a distribuição de kits com a medicação ajudou a controlar a epidemia entre os beneficiários.

Mesmo diante das polêmicas, a empresa conseguiu não apenas garantir a saúde financeira como também acelerou o crescimento em meio à crise sanitária. Em 2019, a companhia lucrou cerca de R$ 432 milhões, alta de 25% na comparação com 2018. Neste ano, espera atingir uma receita líquida de R$ 4 bilhões. Em agosto, a Prevent Senior inaugurou, no bairro do Morumbi, em São Paulo, seu nono hospital próprio na capital paulista. A hotelaria é padrão classe A. Os apartamentos, com 45 metros quadrados cada um, têm quarto para acompanhantes. Está prevista também a inauguração de mais três unidades: uma na região da Avenida 23 de Maio, outra no bairro da Saúde e, por fim, um hospital no bairro do Butantã. Todos eles localizados em São Paulo. Com a expansão, cerca de 500 novos leitos serão acrescidos à rede própria, um salto de 70% na estrutura da operadora.

Mas lucrar com a terceira idade não é tarefa fácil. Não há como controlar o passar do tempo: os gastos com saúde avançam com o envelhecimento. Entre 2017 e 2030, os custos assistenciais com os beneficiários que têm até 18 anos devem crescer 32%. Já os dos beneficiários com 59 anos ou mais vão aumentar 265%, segundo estudo do IESS. À medida que as pessoas envelhecem, cresce o risco de sofrerem de diabete, artrite, problemas de coluna — doenças crônicas, em geral, que exigem tratamentos mais caros.

Para frear a escalada dos custos, a prevenção é a chave para manter a sustentabilidade do negócio. A Prevent Senior mantém programas de incentivo para elevar a frequência de consultas e exames, buscando diagnosticar problemas em seus estágios iniciais. A operadora também se preocupa com a saúde mental de seus beneficiários. São oferecidas aulas de culinária, idas ao teatro e até descontos em diárias para desfrutar de hotel-fazenda conveniado da rede. São iniciativas que mantêm o idoso ativo, saudável e longe da doença.

Os irmãos Parillo gostam mesmo de desafiar o sistema. Enquanto a maior parte das operadoras foge de planos individuais, que têm o reajuste controlado pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), os planos da Prevent Senior são voltados para as pessoas físicas. As operadoras convencionais preferem vender planos corporativos ou coletivos por adesão, que dão mais liberdade a elas na hora da aplicação de reajustes. Em 2019, o reajuste dos planos individuais ficou limitado a 7,35%, enquanto o dos planos coletivos chegou a 20%. Com foco nos individuais, a Prevent se deu bem na pandemia. Como a maior parte das mensalidades é bancada por empresas, durante a crise muitas companhias demitiram, fecharam ou suspenderam temporariamente o pagamento do benefício a seus funcionários. De março a junho, pelo menos 400 mil pessoas abandonaram os planos de saúde e assistência médica. Já a Prevent engordou sua carteira e recebeu cerca de 5 mil novos clientes ainda em março, no começo da pandemia. “Nosso beneficiário continua pagando o plano de saúde. Em março, tivemos uma performance financeira melhor que a do mesmo período do ano passado. E não tem por que ser pior. Toda a estrutura é nossa, o custo fixo é mantido. Tivemos mil internações a menos em março do que no mesmo mês no ano passado”, diz Parillo.

Grandes negócios num setor em ebulição

Para ganhar escala e expandir a operação, muitas empresas apostam na verticalização do negócio. Existem várias formas de verticalizar a atividade. No caso da Prevent Senior, toda a rede, dos hospitais aos postos de atendimento, é própria, evitando tratamentos e cirurgias desnecessários. Nesse modelo, os custos ficam também sob controle. O médico e diretor-executivo da Saúde Global, empresa que presta consultoria no setor, Rodrigo Lima, aponta ainda outras vantagens do processo de verticalização, como a centralização das informações e o controle de todos os procedimentos dos quais o paciente pode precisar. “Com a verticalização, é possível focar a qualidade da informação do paciente, que está integrada na rede, e atuar em todas as frentes, seja na prevenção, na reabilitação ou no monitoramento.” Se a empresa tem nas mãos o controle e o histórico do paciente, pode antecipar diagnósticos e consequentemente baratear os custos para toda a cadeia. Lima ressalta ainda que o modelo facilita a padronização do atendimento e permite o processo de educação continuada com toda a equipe de profissionais. E é justamente em razão do modelo de negócio que, para o médico, o grande desafio da Prevent Senior será crescer para além de São Paulo. “A Prevent está acostumada com as características da população local, com certo tipo de mão de obra. À medida que se expandir, terá de manter a qualidade do serviço. Quando chegar a outras praças, poderá depender de uma rede que não é própria, precisará de parcerias. Será preciso estabelecer processos bem definidos e padrões de boas práticas. Mas a Prevent vem mostrando bons resultados em seu projeto de expansão”, pondera.

Outras empresas do setor de saúde também adotaram a verticalização como modelo para gerenciar os custos. A Amil, controlada pela norte-americana Unitedhealth, já é dona de unidades integradas. Na NotreDame Intermédica, 70% das hospitalizações são realizadas em rede própria. A SulAmérica lançou, no ano passado, um plano mais barato cujo objetivo é competir com as empresas verticalizadas. A Hapvida, empresa do segmento forte na Região Nordeste, comprou o grupo São Francisco por R$ 5 bilhões, em 2019, marcando sua entrada no interior de São Paulo, também fortalecendo sua verticalização.

Como estratégia para verticalizar os serviços e integrar hospitais e clínicas em rede própria, as empresas enfocam a consolidação. No ano passado, foram registradas cerca de 80 fusões e aquisições que envolvem operadoras, hospitais, clínicas e laboratórios. É o maior volume de transações desde 2000. Para Lima, o processo de aquisição de empresas do segmento aumenta a eficiência de mercado. “O número de operadoras vem se reduzindo ao longo do tempo. Existe um processo de consolidação, que acontece em todo o setor de saúde e permite ganhos com sinergia, redução de despesas com diluição de custos fixos e maior capacidade de investimento.”

O mercado está em ebulição. Além do aumento da expectativa de vida, os avanços nos conhecimentos médicos, as medidas preventivas e a tecnologia garantem maior eficiência e redução de custos ao setor. O grupo Fleury criou o iD, plataforma baseada em inteligência artificial que permite ao cliente acessar histórico médico, agendar consultas e até mesmo gerenciar doenças crônicas. A Prevent Senior viu o esvaziamento de seus prontos-socorros com a adoção da telemedicina para evitar aglomerações. Outro exemplo é o monitoramento remoto de pacientes, que reduz o tempo de internação e oferece mais conforto ao usuário.

Mas será que uma operadora de saúde com uma carteira “envelhecida” como a Prevent Senior, com idade média de 68 anos e planos que custam em torno de R$ 800, pode ser uma bomba-relógio prestes a explodir? Para o médico e consultor Rodrigo Lima, não é o caso. “Por ser regionalizada e não ter uma operação muito grande, a Prevent Senior conseguiu sinergia na expansão da rede própria, além de focar a prevenção e o monitoramento do idoso.” Até um aceno na bolsa de valores é visto com bons olhos pelo mercado financeiro. “O mercado gosta muito de healthcare porque é um segmento que está crescendo e a demanda é enorme. Acho que um IPO desses caras seria um sucesso”, afirma um analista de mercado ouvido pela Revista Oeste. Em dezembro, a Rede D’Or, a maior cadeia de hospitais privados do país, estreou na B3. A empresa realizou a terceira maior oferta inicial de ações (IPO, na sigla em inglês) da história da bolsa brasileira, com captação de R$ 11,4 bilhões. Com o feito, atingiu valor de mercado de R$ 112,5 bilhões.

O modelo bem-sucedido da Prevent Senior estará à prova nos próximos anos. Mas as mudanças no setor já começaram, e o caminho de envelhecimento das carteiras é sem volta. Cada vez mais, as empresas de saúde passam a olhar para os clientes da terceira idade e a se preocupar em viabilizar um modelo com foco na prevenção, e não mais na doença, antes que a luz vermelha se acenda.

Da mesma autora, leia também “Como a cloroquina ajudou a Prevent Senior a controlar a epidemia”

 

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