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O outro lado da pesca

Dados divulgados pelo Ministério do Turismo evidenciam um mercado em ascensão no país: a pesca esportiva movimenta cerca de R$ 3 bilhões por ano

Um homem sentado num pequeno barco de madeira, com chapéu de palha, camisa surrada, calça dobrada até a altura dos joelhos. De um lado, uma lata com um punhado de minhocas. Nas mãos, uma vara de pescar feita de bambu. O tempo de espera é abrandado pela feitura do cigarro de palha que, depois, descansará aceso no canto da boca. A cena, recorrente no imaginário de muita gente quando o assunto é pesca, nunca esteve tão distante da realidade.

Somados a venda de equipamentos, o faturamento das agências de viagens especializadas e os setores de hotelaria e gastronomia, o Ministério do Turismo estima que a pesca esportiva e o turismo de pesca movimentem cerca de R$ 3 bilhões por ano no Brasil. Segundo a Associação Nacional de Ecologia e Pesca Esportiva (Anepe), são gerados cerca de 200 mil empregos diretos e indiretos. Isso sem contar a venda de pescados para supermercados, mercados, restaurantes e para o consumidor final. De acordo com uma pesquisa realizada pelo Instituto Ipsos, uma das maiores empresas de pesquisa e de inteligência de mercado do mundo, cerca de 7,8 milhões de pessoas mantêm o hábito de pescar no Brasil. Há dez anos, esse número não passava de 4 milhões.

Foi o aumento do interesse na pesca esportiva que impulsionou o surgimento de um mercado próprio, ainda mais profissional e pujante: o turismo de pesca. Ele envolve uma rede de agências de viagens especializadas, com pacotes que incluem transporte, hotéis (ou barcos-hotéis) em lugares paradisíacos, cozinheiros no próprio barco, refeições all inclusive, aluguel de equipamentos e saídas para a chamada pesca recreativa, em que os pescadores devolvem os peixes para o meio ambiente após o término da atividade.

Beto Chioquetta, consultor de pesca esportiva do programa Bom de Pesca, veiculado no YouTube, fundou a agência de viagens Personal Pesca para suprir uma demanda de seus espectadores. “Depois de assistirem às pescarias mostradas no programa, os telespectadores buscavam auxílio e informações sobre equipamentos, iscas, melhores épocas para viajar, como chegar aos locais e como alugar barcos-hotéis para realizar suas pescarias”, diz o consultor.

O barco-hotel é um dos serviços mais procurados pelos turistas. Trata-se de um verdadeiro prédio flutuante, que oferece todo o conforto de um hotel localizado em terra firme, mas com a vantagem de flutuar sobre as águas, propiciando mais tempo de pescaria e em locais diferentes a cada dia. “Esse tipo de hospedagem proporciona uma verdadeira imersão no ambiente pesqueiro”, conta Chioquetta. “Nele, o pescador literalmente vai em busca do peixe, seja no Pantanal ou na Amazônia.” São cada vez mais comuns os grupos de amigos que fretam um barco-hotel durante um fim de semana ou feriado prolongado em viagens pelos rios brasileiros e de países da América Latina.

A emissora dos pescadores esportivos

Com o crescimento da comunidade de pescadores esportivos, aumentou também a demanda por conhecimento específico sobre a modalidade. Em 2012, foi criada a Fish TV, um canal de televisão por assinatura brasileiro com a programação, sete dias na semana, 24 horas por dia, dedicada  exclusivamente à disseminação da cultura da pesca esportiva. “O objetivo da Fish TV é quebrar mitos sobre a prática do esporte e mostrar que qualquer pessoa pode praticar o pesque e solte”, afirmou Rodrigo Teixeira, executivo de contas para o segmento de turismo na emissora.

Para quem não está habituado a esse universo, o “pesque e solte” faz parte da pesca esportiva. Aqui, os peixes são devolvidos à água com vida depois de fisgados. É o oposto do “pesque e pague”, modalidade da pesca amadora em que há o abate do animal e a cobrança pelo valor do quilo do pescado.

“A pesca esportiva é tão prazerosa quanto a pesca predatória, em que você pega o peixe para consumi-lo”, conta Cássio Nunes, que se apaixonou pela modalidade há dez anos. “Você tem a boa sensação de pegar o peixe, de lutar com ele, de buscá-lo nos locais onde ele se esconde. Também há o prazer em soltá-lo, devolvê-lo à água e deixá-lo viver”, disse.

Para aqueles que gostariam de se arriscar no esporte, Nunes adverte que o pescador recreativo precisa conhecer bem a região em que pretende fazer turismo. “Há muitas variáveis meteorológicas envolvidas na pesca esportiva”, observou. “No mar, é preciso escolher a maré adequada e a lua adequada. No rio, selecionar épocas do ano em que ocorrem chuvas com maior frequência. Tudo isso deve ser avaliado.”

Segundo Rodrigo Teixeira, o Brasil tem enorme potencial para crescer no setor da pesca esportiva, mas a carência de leis ambientais é um obstáculo a ser considerado. “A conta que fazemos é simples”, disse ele. “Quanto vale um peixe vivo, frente a um peixe abatido? Quantas pessoas estão envolvidas no segmento de turismo de pesca? Nossas riquezas naturais nos dão enorme diversidade de espécies de peixe. É essa diversidade que faz o mundo vir até aqui só para pescar.” Teixeira enfatiza que as respostas a essas perguntas contribuiriam para alavancar o setor.

Um mercado ainda em evolução

Embora o turismo de pesca já seja um mercado bilionário no Brasil, é possível crescer ainda mais. Nos Estados Unidos, por exemplo, a atividade gera U$ 24 bilhões por ano. Na Alemanha, as cifras atingem U$ 8,2 bilhões. Na Inglaterra e no País de Gales, U$ 6,2 bilhões, e, no Canadá, U$ 5 bilhões.

Felipe Luiz, consultor ambiental e especialista em pesca esportiva, acredita que o Brasil precisará redefinir seu conceito sobre turismo de pesca para alcançar as potências mundiais no setor. “No contexto brasileiro, o peixe é ainda visto como uma atividade mais rudimentar e como alimento. Não é visto como algo relacionado a esporte”, lamentou. “Nesse cenário, a gente não consegue mensurar quanto do PIB isso gera para o país.”

Entre as razões da necessidade de fazer um estudo específico sobre a pesca no Brasil, Felipe Luiz diz que a medida é essencial para atrair investidores. “Até quando o assunto é a construção de hotéis e pousadas, é preciso dizer qual retorno financeiro isso pode gerar para o investidor”, observou.

A falta de estatísticas oficiais sobre a pesca no Brasil foi destacada pelo State of World Fisheries and Aquaculture (Sofia), relatório da ONU dedicado ao tema. De acordo com o estudo, enquanto a produção global de pescados cresce ano após ano, o Brasil segue sem informações sobre o tipo de peixe pescado — dado que ajuda bastante no setor da pesca esportiva, porque facilita a atração de turistas.

Em paralelo à pesca esportiva, a piscicultura brasileira cresceu 4,9% em 2019 e chegou a 758.006 toneladas, segundo os dados publicados no Anuário Peixe BR de Piscicultura 2020. As exportações somaram US$ 275 milhões. Em 2018, o Brasil industrializou quase 340 mil toneladas de peixes e pescados.

Em nota, o Sindicato dos Armadores e das Indústrias da Pesca de Itajaí e Região (Sindipi) ressalta que a ausência de informações relacionadas à atividade pesqueira no Brasil prejudica a elaboração de políticas públicas adequadas. “Continuamos sem saber onde e quanto de peixes é capturado e por qual modalidade de pesca”, diz o documento. “É o único setor que trabalha na produção de alimentos que não possui um sistema de informações sobre a atividade.”

O mesmo Sindipi faz a ressalva de que a extensão territorial do Brasil dificulta a criação de um projeto eficiente: “Sabemos que coletar os melhores dados possíveis em um país com dimensões continentais não é tarefa fácil”. Porém, como observa a nota, não há como fazer uma boa gestão pesqueira sem essas informações. Infelizmente, pelo menos até o momento, não há previsão para que elas comecem a existir.

 

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