Allan Kardec, o sobrenatural e a tolerância

A verdade é importante, mas nem sempre 'totalmente importante'

Meu apartamento em Paris é próximo ao Père Lachaise, provavelmente o mais famoso e certamente o mais visitado cemitério do mundo. É um lugar maravilhoso para o devaneio, que mesmo as mais rigorosas precauções de saúde não podem proibir ou impedir completamente.

Há muitas pessoas famosas enterradas lá. Há também nomes não tão célebres, mas que se destacaram nas suas áreas de atuação. Como, por exemplo, Alphonse Bertillon, o inventor de um sistema de identificação de criminosos por meio de antropometria. Ou Dupré  Barbancourt, o francês que foi cônsul liberiano no Haiti no século 19. Ele fundou a primeira destilaria de rum no Haiti que ainda funciona e faz o melhor rum que já provei.

O túmulo no Père Lachaise que é de longe o mais constante e elaboradamente adornado com flores não é o de Balzac ou o de Chopin ou o de Oscar Wilde. É o de Hippolyte Léon Denizard Rivail (1804-1869). Rivail é mais conhecido como Allan Kardec. A atenção dedicada a seu túmulo se deve principalmente aos esforços dos visitantes brasileiros do cemitério, seus fiéis devotos.

Paris / França – 09/09/2018: O túmulo de Allan Kardec

Sem dúvida é evidência da minha ignorância culposa, mas, até que eu fizesse caminhadas regulares no cemitério, o nome de Allan Kardec era completamente desconhecido para mim. Não sabia que ele era espírita e, fato que rapidamente descobri, que esmagadoramente o seu maior número de seguidores está e tem estado há muito tempo no Brasil. Isso me intrigou. Por quê? Ainda não encontrei a resposta. Existe uma explicação satisfatória, ou é apenas uma daquelas curiosidades inexplicáveis da história?

Quando eu era jovem, intolerante e muito satisfeito com minha própria esperteza, considerava qualquer ideia ou opinião que batesse no sobrenatural com desdém. Pensei que já entendia tudo e, portanto, que qualquer um que acreditasse em algo que eu não acreditava era deficiente em inteligência. Sabia como o universo funcionava, exceto talvez pelos poucos detalhes que ainda precisavam ser preenchidos. Naqueles dias, esperava que, no final da minha vida, todos os mistérios tivessem sido resolvidos.

Ainda não acredito no sobrenatural. Se perguntado, eu diria que esperava que minha morte fosse uma entrada em um estado de não ser. Meu principal arrependimento é que não serei capaz de dizer a ninguém: “Eu avisei” — dizer “eu avisei”, afinal, é um dos grandes prazeres da vida, pelo menos para um intelectual.

Mas a opinião contrária não me irrita mais como na minha juventude. Estou perfeitamente satisfeito que as pessoas devem pensar diferente de mim sobre os assuntos e nunca faria esforço algum para convertê-las aos meus pontos de vista — a menos que elas insistissem em tentar me converter aos delas.

Uma das razões, além da placidez natural da idade, para a minha mudança de atitude em relação a tais assuntos é que eu costumava frequentar uma livraria de segunda mão com uma imensa seção sobre espiritismo. O proprietário era comunista de linha albanesa — ele acreditava que a Albânia de Enver Hoxha era a portadora da luz para a humanidade, uma crença que fazia o espiritismo parecer puramente racional por comparação. Mas negócios eram negócios, e o espiritismo vendia muito mais do que o comunismo representado por Marx, Engels, Lenin, Stalin e as memórias injuriosas de Enver Hoxha em muitos volumes. O livreiro havia comprado toda a biblioteca, entre as décadas de 1930 e 1940,  de um espírita local que recentemente havia passado para o outro lado, como a morte era chamada. Entre os volumes adquiridos estava Trinta Anos entre os Mortos, escrito por um cirurgião espírita norte-americano, um título que poderia não ter tranquilizado ou encorajado seus pacientes.

Havia por várias décadas na Inglaterra um próspero clube do livro espírita, assim como havia um clube do livro da esquerda florescente, e a livraria do comunista oferecia para os dois grupos numerosos títulos. Um deles teve um grande efeito na minha atitude para com o espiritismo, tornando-me muito mais simpático a ele, mesmo que não tenha mudado minha atitude com relação às suas crenças.

O livro, publicado em 1940, informava aos leitores como entrar em contato com o espírito de seus cães falecidos. O contexto histórico aqui é muito importante: nos primeiros meses da 2ª Guerra Mundial na Grã-Bretanha, 250 mil cães foram mortos porque acreditava-se que logo não haveria comida suficiente para alimentá-los. Como um grande amante dos cães, eu sabia quão doloroso deve ter sido para muitas pessoas ter seus amados companheiros caninos abatidos, quanta culpa deve ter causado a elas, e quanta saudade deve ter permanecido depois.

Os seres humanos têm a capacidade de acreditar com muita convicção em “verdades” criadas que proporcionam conforto. De modo que imaginar os cães vivendo num plano espiritual não pareceu, em tempos de guerra, um completo absurdo. E isso certamente não foi nocivo. Se trouxe conforto ao luto, tanto melhor. A verdade é importante, mas nem sempre totalmente importante: eu não tentaria privar alguém de seu consolo apenas porque acreditava em algo falso, pelo menos se fosse inofensivo.

O livrinho me ajudou um pouco a crescer, embora não por causa de qualquer verdade doutrinária que contivesse. E a saudade dos donos de cães pelo contato com seus animais era apenas o que qualquer um sente quando sofre uma perda. O livro, então, modesto e talvez tolo como era, falava da condição humana inevitável.

Há um outro livreiro antiquário não muito longe do meu apartamento em Paris, e um dia notei em sua janela uma edição inicial (1863) do Le Livre des Médiums, de Allan Kardec. Sem nunca ter lido uma palavra de Kardec, comprei. Na introdução, ele conta que vários espíritos o ajudaram com a edição revisada e melhorada de seu trabalho, e eu não consegui conter completamente um sorriso. Se ao menos os espíritos me ajudassem dessa forma!

Mas tive a impressão de que Kardec não era uma fraude, que ele acreditava que uma “força” escrevia por ele e que, além disso, era um homem inteligente. Era, de qualquer forma, bem mais honesto do que muitos intelectuais franceses famosos da safra pós-guerra. Kardec deixou muito claro o significado do que escreveu e, assim, abriu-se para a crítica. Não me preocupa nem um pouco que suas ideias me soem equivocadas ao ponto do absurdo. E não sinto nenhum desejo de tentar mudar a convicção de qualquer um que acredite nele.

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34 comentários Ver comentários

  1. Como espírita e admirador das ideias de Dalrymple, fui surpreendido por este artigo que, na minha percepção e expectativa ficou inacabado. Que pena, perdeu-se muito texto sobre diversos autores e seus livros, sem expor conclusões sobre Kardec e o Espiritismo!

  2. Não sou kardecista, nem professo qualquer fé espírita, embora conheça muitos e os tenha inclusive na família próxima. Mas, embora sem saber exatamente o porquê, devo reconhecer que boa parte das melhores e mais altruístas pessoas que conheci eram (ou são) espíritas.

  3. Quando digo que sou cética em relação à vida após a morte ou céu e inferno, as pessoas espiritualistas me qualificam como um ser, ou melhor, um espírito inferior a elas. Quando observo o céu vejo imensa e infinita grandeza e procuro ler mais sobre Física e Astronomia e, ao contrário dos que se imaginam “superiores”, eu realmente me resigno a minha completa insignificância. Por isto, aproveito a vida que tenho fazendo o bem sempre que possível, sem esperar recompensas divinas.

  4. Os brasileiros tiveram a oportunidade de conhecer melhor as Obras de Allan Kardec por causa de Chico Xavier o grande divulgador da Doutrina Espírita. Eu pensava assim como você, até o dia que li um livro psicografado por Chico Xavier. Hoje tenho a alegria de ser espírita!

  5. Gostei do texto, menciona Kardec mas o objetivo não é discuti-lo. A mensagem é sobre tolerância e resignação, coisa s que sim, crescem em nós com a maturidade e o passar dos anos.

  6. Para escrever sobre algum assunto, espera-se do articulista que se aprofunde mais, sob o risco de parecer que ao não ter nada pra escrever, resolveu “encher linguiça”. Poderia dizer que foi isento, mas muito raso devido à importância desta doutrina que não pretende nada além de reviver o Cristo. Só o Cristo…

  7. O artigo, não obstante o respeito merecido, sofre por alguns equívocos comuns:
    >”Mas tive a impressão de que Kardec não era uma fraude, que ele acreditava que uma “força” escrevia por ele e que, além disso, era um homem inteligente.”<
    Nenhuma "força" escreveu por meio de Allan Kardec. Ele nunca foi um intermediário, o dito médium, sempre foi alguém que pesquisou e analisou as comunicações dadas pelos Espíritos e desenvolveu métodos para melhor encontrar a verdade, uma vez que entendeu serem os Espíritos exatamente como os homens, sábios ou ignorantes, humildes ou arrogantes, bem intencionados ou enganadores e todos os tons entre esses extremos… Kardec criou o Controle Universal dos Ensinos dos Espíritos, o primeiro passo para uma ampla epistemologia espírita que se desenrolou ao longo de seu trabalho (ver Cap. 1 de A Gênese). Naquela época, Kardec criou a revista espírita, lida em toda a europa, américa e até em outros continentes. A revista lhe serviu também para analisar a universalidade dos ensinamentos, o que os seres ditos mortos narravam lhe era enviado por milhares de cartas, e serviram para embasar não os fatos trazidos do além, mas, sobretudo, para estabelecer os PRINCÍPIOS fundamentais, as leis universais, importando menos as curiosidades e as notícias estéreis…
    Ao autor deste artigo, posso afirmar que: Kardec não se beneficiou com a ajuda dos Espíritos, como muitos desejariam ao imaginar equivocadamente como tudo se deu, pelo contrário, ele se entregou e se sacrificou pela causa e pela grandeza moral dos ensinamentos trazidos.
    Vale ressaltar que, não obstante encontrarmos muitos espíritas afeiçoados ao socialismo, Allan Kardec, oportunamente tratou do assunto e com absoluta clareza, tratando como a igualdade apenas como sendo algo a ser considerado sob a ótica da criação divina, não como sistema social, por ele refutado; fortaleceu a liberdade, a individualidade, o conservadorismo. Tratou do progresso como força natural da vida e dos seres, como elemento oriundo dos desígnios divinos, mas com vistas à melhoria do indivíduo que é célula da sociedade.

  8. Ler a obra “O Livro dos Espíritos” é fundamental para entender a Doutrina Espírita. Este livro é a espinha dorsal da Doutrina Espírita.

  9. Texto milimetricamente gentil e tolerante. Pra bom entendedor, meia palavra basta. A verdade só caminha ao lado do esclarecimento e informação factual.

  10. O mais importante nisso tudo é perceber a honestidade nas pessoas. Sempre digo pra minha filha: eu não veria problema nas doutrinas de esquerda, se fossem frutos de uma busca honesta da verdade, de se encontrar melhores caminhos para um um convívio harmonioso no mundo. Tenho a mesma impressão do Theodore sobre Kardec e seus seguidores, na grande maioria, pra mim, são pessoas boas que buscam mais harmônia nas suas vidas e nas suas relações.

  11. Brilhante!
    Creio que a paixão brasileira por Allan Kardec passa pelo grande número de adeptos do sincretismo religioso (catolicismo + umbanda, etc.) e pela busca da classe média a uma alternativa à Igreja Católica Romana. Embora poucos admitam, o fato é que a maioria dos católicos brasileiros acredita em espíritos.
    Talvez o Theodore seja, como eu, um agnóstico, ou seja, aquele que se reconhece como incapaz de reunir fundamentos racionais suficientes para justificar a existência — ou não — de divindades ou de vida após a morte.
    Por isso, o agnóstico respeita e tolera todos os tipos de crenças, embora não concorde necessariamente com nenhuma delas.

    1. Caro, Raul.
      O Espiritismo, muito mal compreendido, não possui qualquer vínculo com a Umbanda e com o sincretismo religioso por você citado, mas, de fato, essa é uma percepção comum entre os que não o conhecem. A palavra espiritismo é um neologismo criado por Allan Kardec e foi designada para determinar um corpo de conhecimento muito amplo por ele organizado, com apoio de homens em todo o mundo.
      A Umbanda possui origem africana e essa sim, se enquadra em seu comentário.
      Um abraço!

  12. Bom, Allan Kardec defendia exatamente a sua postura em relação à crenças . Nunca teve a intenção de “converter” ninguém. Se a pessoa está bem acomodada as suas práticas religiosas, científicas, filosóficas, muito bem. Um livro bastante elucidativo de Allan Kardec , que vale a pena para “ colocar o pé na água “ seria “ O que é o Espiritismo “ . Sem querer te converter ou doutrinar, kkk! Grande abraço

  13. O Espiritismo é uma filosofia de vida .Pilares do Espiritismo: Caridade, Lei de Causa e Efeito, principalmente sobrevivência da alma, contato com os mortos.

  14. Muito interessante a abordagem do articulista e correta a postura de respeito à crença alheia, sem deixar de expor o que pensa. Sua ideia de não tentar convencer ninguém coincide com a atitude não proselitista da Doutrina Espirita. Eu apenas sugeriria que lesse Le Livre des Esprits, que apresenta um panorama geral da Doutrina, de forma a melhor embasar sua opinião. Duvido muito que o livro citado sobre comunicação com cachorros falecidos tenha sido escrito por um conhecedor do Espiritismo. Quanto a Le Livre des Médiums, tem um escopo mais restrito, dando uma visão pouco ampla da Doutrina, principalmente no que se refere à sua filosofia. A sugestão vale para todos que queiram conhecer o verdadeiro Espiritismo e assim concordar ou discordar com um mínimo de conhecimento de causa.

  15. Concordo com seu comentario, Alvir Galle. Já li e estudei muito na teoria e na prática. Fui batizado cristão católico. Sem dúvida, Allan Kardec merece ser melhor entendido. Ele não era medium….e criou uma brilhante obra !!

  16. Nesta vida ilógica, a lógica que mais me aproxima de algo efetivamente lógico, é a lógica do Espiritismo. Tenho comigo que Alan Kardec não foi só um professor equilibrado e inteligente, muito à frente do seu tempo. Efetivamente, eu o vejo como um predestinado. Não pelo que outros dizem ou deixam de dizer de suas obras, mas por ter estudado a fundo a Doutrina Espírita.

  17. Apenas para refletir!

    Livro dos espíritos: questão de número 842

    Qual seria a melhor religião – Tema

    “Por que indícios se poderá reconhecer, entre todas as doutrinas que alimentam a pretensão de ser a expressão única da verdade, a que tem o direito de se apresentar como tal?”

    – “Será aquela que mais homens de bem e menos hipócritas fizer, isto é, pela prática da lei de amor na sua maior pureza e na sua mais ampla aplicação. Esse é o sinal por que reconhecereis que uma doutrina é boa, visto que toda doutrina que tiver por efeito semear a desunião e estabelecer uma linha de separação entre os filhos de Deus, não pode deixar de ser falsa e perniciosa.

    1. Dentro dos pilares do espiritismo somente estão a caridade e humildade. Assim como o autor, a doutrina não tem a pretensão de convencer ninguém, apenas de semear o amor entre os seres humanos sobre a égide dos ensinamentos do mestre Jesus. É a fé através da razão, por isso Kardec foi o escolhido para decodificar a doutrina, como cético que era.

      1. Perfeita análise, Kardec decodificou o livro dos espíritos.

  18. Pelo fato do Espiritismo não ser uma “religião formal” como o Catolicismo ou o Protestantismo, e sim uma doutrina embasada no tripé ciência-filosofia-religião, ele pode ser “praticado” por qualquer pessoa, independentemente da crença ou fé professada.

      1. Belo artigo, para espíritas ou descrentes, não importa.

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