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O novo totalitarismo

Como e por que o 'lockdown' e o movimento 'Fique em casa' tornaram-se tão facilmente impostos a populações em todo o mundo

O Sars-CoV-2 é um vírus identificado pela primeira vez em Wuhan, na China. O grau de contaminação, considerado moderado, é inferior a 2. Isso significa que cada pessoa infectada contaminará outras duas — no caso do sarampo, por exemplo, esse grau oscila entre 12 e 18. A taxa de letalidade da covid-19 é de 0,23%, ligeiramente superior à da pneumonia (0,2%) e um pouco maior que a da gripe (0,13%). Sabe-se também que o novo coronavírus atinge com especial violência aqueles com mais de 70 anos. E é singularmente letal para quem apresenta alguma comorbidade, como diabetes, hipertensão ou obesidade.

Boa parte da população, contudo, não sentirá nenhum sintoma da doença. As crianças são praticamente imunes e, quando infectadas, transmitem muito menos que os adultos. Por isso, quando tomadas as devidas medidas de segurança, as escolas são consideradas locais seguros. Usar máscara de proteção, lavar as mãos, passar álcool em gel, evitar aglomeração e lugares fechados são medidas comprovadamente eficazes. Assim como qualquer outro vírus, é comum que novas cepas apareçam de tempos em tempos. Apesar de não existirem remédios que curem a covid-19, já são conhecidos diversos medicamentos que aliviam os sintomas e ajudam na cura da doença, sobretudo quando ministrados precocemente. Em tempo recorde, mais de dez vacinas foram desenvolvidas, mostraram-se eficazes e já começaram a ser aplicadas em muitos países.

Nada disso apaga ou ofusca os 2,5 milhões de seres humanos que morreram ou os muitos milhares que sofrem com sequelas. Mas são fatos, e por isso devem ser divulgados.

Apesar das evidências, o Sars-CoV-2 ainda é tratado por muitos como um vírus completamente desconhecido e altamente mortal. Foi o que ficou comprovado mais uma vez nos últimos dias, em que governadores e centenas de prefeitos começaram a decretar as mesmas medidas restritivas adotadas em março de 2020, quando os primeiros casos da doença foram registrados no Brasil. Há um ano, o pretexto para um lockdown era a necessidade de achatar a curva de contágio e evitar que muita gente adoecesse ao mesmo tempo e apressasse o colapso do sistema hospitalar. Quase 365 dias e mais de R$ 33 bilhões depois (valor repassado pelo governo federal a Estados e municípios exclusivamente para o combate à pandemia), os gestores públicos recorrem a lockdowns para que tenham tempo de equipar o sistema de saúde.

“A ideia de lockdown até pôde ser considerada aceitável no início, durante os primeiros 30 a 40 dias, quando a pandemia era uma novidade e ninguém conhecia o vírus”, afirmou o economista Luís Artur Nogueira, numa reportagem publicada na Revista Oeste em janeiro deste ano. “Os cidadãos ficam em casa nesse período, os cientistas estudam, descobrem as formas de lidar com essa doença, quais são os grupos de risco e as medidas preventivas.” Repetir a atitude agora seria um absurdo, porque ficou provado que ela não funciona. “Trata-se de um assassinato de empregos, principalmente contra os brasileiros mais carentes.”

John Ioannidis, professor de epidemiologia na Universidade Stanford (EUA), acredita que, com um número de mortes na faixa de 0,23%, há bem menos a ganhar com o lockdown, em comparação com os custos sociais, econômicos e de saúde da medida. “Quando o risco de morrer parecia na média muito alto, era justo tomar decisões draconianas, como lockdowns agressivos”, afirmou Ioannidis, numa entrevista ao jornal Folha de S.Paulo em outubro de 2020. “Agora precisamos admitir que não sabemos se é necessário fechar tudo ou por quanto tempo.”

Aquilo de que se tem certeza neste momento é que nunca a humanidade concordou tão plácida e rapidamente com um comando imposto pelo Estado. E em nenhum outro momento da História governos de países de tradições tão diversas chegaram a um consenso universal em tão pouco tempo. Mesmo durante pandemias muito mais mortais, como a gripe espanhola, a gripe asiática e a do H1N1, países democráticos permaneceram abertos e seus habitantes puderam agir com liberdade.

“Em 1968”, escreveu o historiador Nathaniel L. Moir na revista National Interest, “a pandemia da gripe H3N2 matou mais indivíduos nos EUA do que o número total de fatalidades combinadas nas guerras do Vietnã e da Coreia.” Mesmo assim, nada fechou. “As escolas continuaram abertas”, lembrou o economista Jeffrey Tucker, diretor do American Institute for Economic Research, escritor e colunista da Revista Oeste. “Todos os comércios também. Você podia ir ao cinema. Podia ir a bares e restaurantes.” O Festival de Woodstock, realizado em agosto de 1969, foi planejado em janeiro, no pior período de mortes, e ocorreu durante uma pandemia que só chegaria a seu auge global seis meses depois.

O lockdownismo

“Em 2020 surgiu uma nova ideologia com tendências totalitárias”, afirma Tucker. “Assim como todas as ideologias políticas, esta tem sua visão do inferno, um inimigo que precisa ser exterminado, uma ideia de mundo perfeito e um plano de transição que leva de um para o outro.” Também possui linguagem característica e maneiras próprias de recrutar adeptos.

Tucker chama essa nova ideologia de lockdownismo. “Sua visão do inferno é uma sociedade na qual os patógenos circulam livremente”, descreveu o economista. “Seu paraíso é que ela seja administrada inteiramente por tecnocratas médicos, cuja principal tarefa é a supressão de todas as doenças.” O foco seriam os vírus. As pessoas suscetíveis à ideologia são aquelas com vários graus de misofobia — pavor de contaminação —, antes considerada um problema mental e agora elevada à condição de consciência social. A linguagem própria dessa nova forma de autoritarismo inclui expressões como achatamento da curva, desaceleração da propagação, distanciamento social, doente assintomático e intervenção não farmacêutica, entre outras até então completamente desconhecidas.

Para o economista, 2020 foi o primeiro teste do lockdownismo e incluiu as mais invasivas e abrangentes formas de controle dos seres humanos. “Mesmo em países onde o Estado de Direito e as liberdades são fontes de orgulho nacional, as pessoas foram colocadas em prisão domiciliar”, observou. “Suas igrejas e negócios foram fechados. A polícia foi acionada para fazer cumprir as novas regras e prender os dissidentes.” A devastação pode ser comparada a uma guerra, afirma Tucker, exceto pelo fato de que foi uma guerra imposta pelo governo ao direito das pessoas de se moverem e se relacionarem livremente.

“O mais surpreendente é que, depois de tudo isso, faltam evidências empíricas, de qualquer parte do mundo, de que esse regime chocante e sem precedentes teve algum efeito no controle do vírus”, enfatizou Tucker. Uma medida que seria empregada durante trinta dias foi estendida para sete meses — e, agora, não tem prazo para terminar.

Como mostrou a reportagem de capa da edição 45 da Revista Oeste, uma das provas irrefutáveis da ineficiência do lockdown é que os países que impuseram as maiores restrições à população também estão entre os que apresentam o maior número de mortes por milhão de habitantes: Bélgica (1.905 óbitos por milhão), Reino Unido (1.814), Itália (1.633), Portugal (1.614) e Espanha (1.500). O Brasil (1.206) ocupa a 20ª posição entre as nações com mais de 1 milhão de habitantes. A Suécia (1.278), onde não foram adotadas restrições severas, está no 19º lugar.

“Em nenhum momento, desde a revogação do Ato Institucional Nº 5 e o fim do regime militar, o Brasil viveu um totalitarismo tão triunfante quanto vive hoje”, escreveu o jornalista J. R. Guzzo, colunista da Oeste, nesta edição da revista. “As liberdades individuais e coletivas estão sob uma onda de ataques mais viciosos, dissimulados e amplos do que aqueles que qualquer ditadura costuma praticar.” Seu instrumento de persuasão: o medo.

O medo

Foi nesse sentimento que o prefeito Edinho Silva (PT) apostou quando, em 20 de fevereiro, anunciou via redes sociais outro lockdown em Araraquara, cidade de 230 mil habitantes no interior de São Paulo. “Mais uma vez eu venho aqui para falar para vocês de doença, de pessoas sendo contaminadas, de pessoas adoecendo, de pessoas morrendo”, disse. “Nós estamos hoje com uma contaminação absurda do coronavírus e, pior, de uma nova cepa do coronavírus, que contagia muito mais gente.” Em seguida, apontou os culpados pelo crescimento da doença: “O povo de Araraquara pôs Araraquara neste lugar, é o povo de Araraquara que vai tirar Araraquara deste lugar”.

Edinho não explicou por que, em um ano, não conseguiu preparar o sistema de saúde da cidade que governa desde 2017. Em janeiro de 2020, Araraquara tinha 24 leitos de UTI em hospitais públicos. Um ano depois, são 34. Para combater exclusivamente a covid-19, o governo federal repassou quase R$ 30 milhões para a Secretaria de Saúde municipal. Segundo a Unicamp, a implantação de um leito de UTI custa em média R$ 180 mil. Ou seja, a verba federal seria suficiente para implantar 165 deles.

Sem dar maiores satisfações à população, o governador João Doria comunicou aos paulistas na quarta-feira 3 que todas as antigas regras do Plano São Paulo de combate à pandemia estavam suspensas e que o Estado inteiro entraria na fase vermelha. Foi mais uma mudança em pouco mais de trinta dias. No começo de fevereiro, os restaurantes da capital paulista foram obrigados a antecipar o fim do atendimento presencial das 22 horas para as 20 horas. Pouco depois, a informação era que não poderiam mais abrir nos fins de semana. Em seguida, puderam reabrir novamente todos os dias até as 22 horas, o que foi alterado, sem explicações, para as 20 horas. Agora, só poderão atender em sistema delivery. Mesmo com várias medidas restritivas, a quantidade de mortos pela covid-19 em São Paulo continua sendo maior que a média nacional.

A principal justificativa usada por Doria para intensificar as medidas de isolamento social foi a taxa de ocupação dos leitos de UTI destinados a pacientes com coronavírus. Nesta quinta-feira 4 ela estava em 77,4%. Essa porcentagem corresponde a 7.668 dos 17.757 leitos de UTI existentes no Estado (tanto os para covid-19 quanto para outras doenças). Por uma razão não explicada o governo de São Paulo se recusou a revelar quantos dos 10.089 leitos restantes estão ocupados. Essa informação, que não é divulgada por boa parte das secretarias de Saúde, poderia fazer despencar o percentual de ocupação das Unidades de Terapia Intensiva.

Até o momento, nenhum governante se preocupou em dizer por que o sistema de saúde de sua cidade continua à beira da falência nem por qual motivo os milionários hospitais de campanha construídos em 2020 foram desmontados antes que o vírus desse trégua. A atitude mais comum tem sido responsabilizar o governo federal — que teve sua capacidade de ação limitada por decisão do STF. Em 15 de abril do ano passado, o Supremo deu autonomia a prefeitos e governadores para decidirem a melhor maneira de combater o coronavírus em seu território. Ao Planalto, cabia fornecer o dinheiro.

(O primeiro gráfico abaixo mostra quanto o governo federal repassou para cada uma das secretarias de Saúde para serem gastos exclusivamente no combate à covid-19. O segundo apresenta o total de repasses às secretarias para todas as aplicações)

 

Apesar de todos os desacertos e confusões protagonizados pelo governo federal, já foram repassados R$ 420 bilhões a Estados e municípios. Só para as secretarias de Saúde foram R$ 131 bilhões — R$ 33 bilhões desse montante para ser gastos exclusivamente no combate à covid-19. Apenas à Secretaria de Saúde de São Paulo foram destinados R$ 24,4 bilhões — quase R$ 6 bilhões só para ações contra o coronavírus.

O povo

Enquanto os dados que comprovam empiricamente a eficácia do lockdown jamais foram expostos, suas consequências são cada vez mais palpáveis. Poucos sabem, por exemplo, que a teoria do isolamento social se baseou num trabalho escolar de uma menina de 14 anos (leia a matéria completa). “Confinamentos têm efeitos tremendos para a saúde, a economia e a sociedade”, declarou John Ioannidis.

Um estudo coordenado pelo médico Fabio Jung, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), e publicado em setembro de 2020, mostrou que o afastamento da escola ameaçava a saúde psíquica de crianças e adolescentes, comprometia a segurança alimentar e os tornava mais expostos a abusos, maus-tratos, drogas e violência. Cerca de 30% das crianças em confinamento podem passar a sofrer de transtorno do estresse pós-traumático.

Em São Paulo, 30% dos bares e restaurantes já fecharam as portas. “Se houver um segundo lockdown, nem 20% conseguirão permanecer abertos”, estimou Percival Maricato, presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes em São Paulo (Abrasel-SP). No Estado, cerca de 300 estabelecimentos entram em falência diariamente, deixando quase 2 mil desempregados.

Segundo o economista Luís Artur Nogueira, no período de março a dezembro de 2020 o saldo entre vagas formais abertas e fechadas ficou negativo em 200 mil empregos. Um estudo do Banco Mundial estima que, passada a pandemia, o mundo terá mais 150 milhões de indivíduos vivendo abaixo da linha de pobreza. No Japão, o suicídio de mulheres aumentou 15% no ano passado em comparação com 2019 por causa das medidas de isolamento social. E, no Brasil, 20% das mulheres que estavam à procura de emprego simplesmente desistiram de continuar a busca, dada a sobrecarga de trabalhos domésticos.

Os números

“Os lockdowners tiveram um sucesso surpreendente em convencer as pessoas de seus pontos de vista malucos”, escreveu Jeffrey Tucker. “Você só precisa acreditar que evitar o vírus é o único objetivo de todos na sociedade e, a partir daí, descobrir as implicações. Antes que você perceba, você se juntou a um novo culto totalitário”. Para o economista, a imposição dessas medidas restritivas parecem menos um erro gigantesco e mais o desdobramento de uma ideologia política fanática, um experimento político que ataca as premissas centrais da democracia e da civilização ocidental.

Desde o primeiro dia da pandemia, manchetes como estas têm dominado o noticiário: “Cientistas que previram colapso em Manaus alertam para 3ª onda e pedem lockdown”; “Covid-19: Variante do Reino Unido é ‘provavelmente’ mais mortal”; “Secretários de Saúde pedem toque de recolher nacional”; “País chega à etapa mais mortífera da pandemia em razão da desorientação federal”; “Superlotado, hospital de Porto Alegre instala contêiner refrigerado para acomodar corpos”; “Cientistas alertam: Brasil pode virar ‘celeiro de variantes’ do coronavírus”.

O que teria acontecido se durante o último ano jornais, sites e revistas tivessem destacado outro tipo de informação? Por exemplo: que, dos 115 milhões de infectados pela covid-19 no mundo, 65 milhões (56%) já se recuperaram. No Brasil, o índice de curados chega a 90%. No mundo, a taxa de letalidade para quem tem menos de 70 anos é de 0,05%. Ou seja, a cada 10 mil contaminados, 5 morrem. Com 8,4 milhões de doses de vacinas aplicadas até aqui, o Brasil hoje ocupa a sexta posição entre os países que mais imunizaram contra a covid-19. Embora ainda insuficiente, o sistema de saúde está mais equipado. Em janeiro de 2020, havia cerca de 42 mil leitos de UTI no Brasil. No mesmo mês de 2021, eram quase 70 mil.

Mas nada disso interessa aos gurus do lockdownismo e seus seguidores. Para eles, quem enxerga esses números não passa de “genocida” e “negacionista” — outras duas palavras cada vez mais banalizadas. Como dizia Ronald Reagan, a liberdade nunca está a mais de uma geração distante da extinção. A frase eternizada pelo 40º presidente norte-americano jamais pareceu tão certa. O vírus nascido em Wuhan está transformando o mundo numa gigantesca China.

Leia também o artigo “O que esta tragédia traz de bom”

 

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