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O drama do panorama

Descontrole fiscal, impressão de moeda e antecipação da campanha eleitoral iniciam um ciclo que pode resultar em recessão

“Se alguém quer evitar a recorrência de crises econômicas, deve evitar a
expansão do crédito que cria o
boom e inevitavelmente leva à queda.”
Ludwig Edler von Mises

Tempos invulgares como o que estamos atravessando requerem doses altíssimas de lucidez e de perseverança, tamanho é o préstito de eventos insólitos. Abrindo a macabra procissão, altaneira, a forte insegurança jurídica, inacreditavelmente exacerbada por quem, tendo a obrigação de zelar pela Constituição, não o faz — e às escâncaras.

A esse hospício jurídico sem precedentes somam-se muitos outros óbices, ônus e gravames que trancam as atividades econômicas: burocracia asfixiante, corrupção alarmante, incerteza excruciante, tributação lancinante, taxa de câmbio preocupante e taxa de juros agora recalcitrante. Isso pesa sobre os ombros de qualquer um que tem a ousadia de pensar em empreender e, se considerarmos as arbitrariedades sucessivas cometidas por alguns protoditadores exercendo cargos de governadores e prefeitos e maliciosamente refugiados debaixo das saias da “Mamãe Ciência” e da “proteção aos cidadãos”, já não se trata mais de ousadia, mas de heroísmo. Resumindo, os trabalhadores estão preocupados com a manutenção de seu emprego, os empresários com a sobrevivência de seus negócios e os potenciais empreendedores com as dezenas de pontos de interrogação postos pela enorme incerteza.

O panorama global, por sua vez, está longe de ser favorável: governos endividados até o queixo em virtude da pandemia e da sua mania crônica de gastar acima do plausível, gastos públicos perto de Saturno e inflação monetária como talvez jamais se tenha visto na História, tudo pairando sobre todos como aquela lendária espada, presa apenas por um fio de rabo de cavalo, que o rei Dionísio pôs sobre a cabeça de Dâmocles. Prevalecem a impossibilidade de crescimento sólido e a possibilidade de inflação de preços e de aumento do desemprego. Como se isso não bastasse, presenciamos um bombardeio incessante dos globalistas “progressistas” incrustados nas big techs e em organismos internacionais, governos e grande parte da mídia, em todos os recantos da Terra.

É interessante analisar esse panorama, de cariz inegavelmente desalentador para as energias empreendedoras, segundo a ótica da Teoria Austríaca dos Ciclos Econômicos (TACE), e então tentar antecipar o cenário que parece vir pela frente. Essa teoria, esboçada por Mises há mais de cem anos e que vem sendo aperfeiçoada desde então, como qualquer teoria econômica, não é perfeita e não deve ser considerada infalível. No entanto, embora negligenciada por muitos economistas, sempre foi a que forneceu as explicações mais adequadas para as grandes crises. Foi capaz, inclusive, de antecipá-las. Ademais, ainda não se formulou outra que tenha se mostrado superior quando cotejada com fatos.

Os ciclos econômicos são causados por expansões artificiais  — ou seja, sem aumentos correspondentes na disposição para poupar dos indivíduos — da moeda e do crédito. Essas expansões geram booms iniciais nas atividades econômicas, mas que não podem manter-se, devido às distorções que o artificialismo provoca entre os diversos estágios das cadeias produtivas. As distorções geram inevitavelmente reações conflitantes ao longo do tempo.

Os distúrbios causados pela farra monetária costumam seguir um padrão sequencial claro, que pode ser relatado didaticamente em cinco fases, cujo estopim é invariavelmente a expansão monetária e creditícia artificial. Essa expansão faz com que a taxa de juros seja inferior à que seria praticada pela interação entre tomadores e ofertantes de empréstimos, caso o Banco Central não interferisse no mercado de crédito. No início vem a euforia, assim como nas primeiras taças de vinho, na forma de um boom, que costuma ser mais intenso nos setores produtores de bens de capital, porque são eles os mais beneficiados pela queda da taxa de juros do que os que produzem bens de consumo finais. A excitação se transmite aos mercados financeiros, por meio da festa de empréstimos para bancar a expansão.

Mas as taças subsequentes obrigatoriamente levam à embriaguez, porque chuvas de crédito, quando não lastreadas em poupança real, nunca são capazes de decretar crescimentos sustentados da oferta de bens e serviços; o que fazem é provocar um rearranjo da cadeia produtiva, pelas inumeráveis alterações de preços relativos que desencadeiam e que desviam os investimentos e a produção de suas trajetórias anteriores ao artificialismo. Em outras palavras, o boom inicial, por carecer de bases sólidas, não representa uma situação de real prosperidade, mas apenas uma abundância ilusória e efêmera. É como se alguém começasse a construir um enorme edifício e, já com a obra em pleno andamento, viesse a descobrir, tarde demais, que os fundos de que dispunha não eram suficientes para levar o projeto até o fim. Moeda e crédito não são o mesmo que poupança! O máximo que uma expansão monetária pode conseguir é fantasiar-se de poupança por algum tempo, durante o qual conseguirá iludir os agentes econômicos.

O núcleo do problema: a fartura postiça de moeda e crédito promovida pelos governos

A TACE enfatiza que as recessões do mundo real não costumam se caracterizar por casos de desemprego generalizado, mas de desemprego principalmente nos estágios produtores de bens distantes do consumo final e nos mercados que se relacionam com essas etapas. Um dos ensinamentos mais importantes da Escola Austríaca, sempre confirmado pelos fatos, é que a inflação monetária — entendida como expansão da moeda e do crédito sem lastro — provoca distúrbios alocativos em toda a estrutura de produção da economia, por alterar os preços relativos e as rendas relativas entre os diferentes estágios de produção.

A segunda fase se inicia quando os produtores e empregados nos estágios que se tornaram artificialmente mais lucrativos e que obtiveram ganhos substanciais na primeira fase passam a expandir o consumo, a melhor alternativa para eles, já que a disposição a poupar da sociedade não aumentou. Segue-se a terceira fase, a do aperto de crédito, em que esses gastos maiores em bens de consumo terminam criando um cabo de guerra, uma disputa por loanable funds, os fundos disponíveis para tomadores de empréstimos, em todos os estágios da cadeia de produção, cujo efeito é o aumento da taxa de juros, pondo fim ao boom inicial. A quarta fase é a recessão, em que o boom inicial se transforma em bust, ou seja, a expansão transforma-se em retração, com abandono de projetos, cancelamento de ordens de compra, demissão de trabalhadores, acúmulo de estoques e queda de renda e de preços nas indústrias beneficiadas na fase inicial.

Por fim, na quinta etapa, a da retomada e estabilidade, os preços das indústrias de bens de capital e o consumo param de cair e as coisas voltam à normalidade. Não há razão para o ciclo se repetir, a menos que o governo volte a expandir a oferta monetária e o crédito sem o devido lastro em poupança. Vemos, assim, que o boom induzido pela inflação não resulta em um jogo de soma zero, uma vez que tanto os níveis como a própria estrutura da atividade econômica serão diferentes dos prevalecentes antes do início da farra.

A análise dos principais ciclos econômicos ocorridos desde o início do século 19 até a atualidade permite reconhecer um núcleo de identidades básicas capaz de fundamentar a grande origem dos ciclos: a fartura postiça de moeda e crédito promovida pelos governos, por meio de seus bancos centrais e do sistema financeiro. Em consonância, portanto, com a TACE.

Assim foi no pânico de 1819 nos EUA; na crise de 1836, na Inglaterra e Estados Unidos; na de 1847, iniciada no Reino Unido e que se estendeu à França e aos Estados Unidos; na de 1866, no Reino Unido e França; em 1907, com a expansão artificial do crédito para as novas companhias de energia elétrica; na Grande Depressão de 1929, causada — contrariamente ao falso diagnóstico de Keynes — por uma brutal expansão creditícia ocorrida na década de 1920, já então sob a regência de um novo organismo, o Federal Reserve; na recessão do final dos anos 1970, em que se lançou a culpa no “mordomo” — os preços do petróleo —, quando os criminosos eram os donos da casa — os bancos centrais e suas políticas deliberadamente inflacionárias; na recessão do início dos anos 1990, iniciada por nova expansão creditícia nos EUA em meados dos anos 1980, que provocou um forte boom artificial nas bolsas de valores; e com a crise de 2008, conhecida como bolha imobiliária, que também foi precedida de expansão creditícia substancial, dessa vez com um ingrediente adicional, os novos produtos financeiros.

Os ciclos, portanto, gostem ou não os políticos e os economistas pouco afeitos à austeridade e à liberdade econômica, não são provocados pelo setor privado, mas pelo intervencionismo do Estado, por intermédio dos bancos centrais. Desafortunadamente, o fantasma da pandemia tem sido um pretexto para a insistência na falsa panaceia, a mesma que provocou todas as crises mencionadas, o que significa que as lições desses últimos duzentos anos não foram aprendidas.

Dito tudo isso, o que podemos esperar para a economia brasileira até o final deste ano? Os economistas com viés austríaco não acreditam em bolas de cristal e por isso não se atrevem a fazer previsões quantitativas, apenas antecipam cenários gerais.

Temos que ligar diversos eventos: (a) as resistências políticas de sempre estão trancando as reformas estruturais capazes de limpar o horizonte fiscal futuro, apesar dos esforços genuínos da equipe do Ministério da Economia; (b) o nosso Banco Central, por confiar que as reformas aconteceriam, optou pelo regime de câmbio flutuante, o que desvalorizou o real perante o dólar; (c) o Copom exagerou na trajetória descendente da taxa Selic, sancionando assim expansões de moeda e crédito acima das desejadas, o que o está levando a voltar a subir a taxa básica de juros; (d) o governo foi obrigado a abrir os cofres em decorrência da pandemia, diante de pressões enormes para que os arrombasse; (d) a incerteza provocada pela instabilidade jurídica espanta investimentos internos e externos; (e) o clima já é, claramente, de eleições, o que se traduz em dificuldades ainda maiores para tocar as reformas; e (f) alguns governadores e prefeitos vêm agindo como exterminadores das atividades econômicas.

Tendo em vista esse desfile de problemas, aplicando a TACE, rejeitando o pessimismo, respeitando a prudência, rezando com muita fé e considerando que o Brasil é um pugilista que nunca vai a nocaute, parece que mais do que nunca devemos apoiar a agenda da equipe econômica. Só assim temos chance de escapar da quarta fase e sair do drama.

Leia também “Brasil, um pugilista que não vai a nocaute”

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10 comentários

  1. Esse texto é alarmista e fora da realidade atual, mesmo com pandemia. Muita teoria, generalizações e mais nada. Caberia como uma luva se fosse escrito entre 2014 e 2016. Parade falta de assunto…pegaram uma teoria e encaixaram na pauta, fazendo a observação final de que devemos apoiar agenda de Paulo Guedes.

    1. Fora da realidade é seu comentário, acho que antes de tecer opiniões devia estudar um pouco sobre TACE. Professor Ubiratan está certíssimo.

    2. Quando não se tem o devido conhecimento do assunto – economia – o melhor é não se atrever a tecer qualquer comentário. Perfeita a explanação do professor Iório.

  2. Parabéns! Muito pertinente esse artigo, pra´ quem conhece (um pouco) Economia, e não panfletagem financeira especulativa de curto prazo. Talvez, em ensaio futuro, o autor nos brinde com uma comparação dos ciclos de Kondratiev com a TACE.

  3. Esse roteiro trágico apresentado pelo Iório não é novidade, é só olhar para trás e observarr o que o PT fez com a política econômica nos últimos dez anos e o seu final trágico. O que o Iório está alertando é que quase todos os atores do passado continuam na ativa e loucos para quebrar o Brasil mais uma vez utilizando os mesmos processos.

  4. Muito bom o artigo! De fato, durante a pandemia observou-se aumentos expressivos e artificiais nas etapas de algumas cadeias produtivas, de uma semana para outra.

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