O mundo fora de foco

Escritor britânico celebra a história dos óculos — e da civilização

No fim da década de 1950, Henry Bemis era um bancário de aparência frágil que usava óculos de grau numa pequena cidade dos Estados Unidos. Ele só queria uma coisa no mundo: ler. Lia livros, jornais, revistas, rótulos, bulas de remédio, qualquer coisa que ele pudesse. Mas ler era difícil quando estava no guichê do banco. E era ainda mais difícil em casa, com a presença da infernal esposa Helen.

O bancário decidiu então passar seus intervalos do almoço no cofre-forte do banco.  Trancava-se lá com lanche e leitura. Era seu único momento de paz. Numa dessas horas trancado, ocorreu uma guerra nuclear. Henry Bemis conseguiu sair do cofre e se deparou com as ruínas do apocalipse. Não havia mais ninguém, não havia mais nada. Mas descobriu que a coleção da biblioteca pública havia sido milagrosamente poupada.

Seu sonho havia sido realizado! Feliz da vida, Henry empilhou os livros que iria ler naquele ano, e nos anos subsequentes. Decide pegar mais um livro que estava desgarrado das pilhas. Seus óculos caem. E se espatifam no chão. “É injusto”, diz Bemis. “Agora que eu tinha todo o tempo do mundo…”

Henry Bemis, personagem da série Além da Imaginação | Foto: Divulgação

Essa pequena fábula (sem muito compromisso com a realidade) foi um episódio de 1959 da série Além da Imaginação (The Twilight Zone, no original). A expressão de desespero do ator Burgess Meredith chorando cercado de livros e com os óculos espatifados nas mãos trêmulas foi um trauma para minha geração.

A trágica história de Henry Bemis serve como abertura do livro Through the Looking Glasses (Através dos Óculos), do escritor britânico Travis Elborough. Ele fala com carinho desse objeto que hoje é tão trivial que parece ter existido desde sempre. Além da utilidade, ele carrega uma simbologia. No rosto de quem o usa, pode remeter a inteligência. E também a fragilidade e envelhecimento. O autor lembra que o que separa Clark Kent do Super-Homem é um par de óculos.

Super-Homem e Clark Kent | Foto: Reprodução

Travis Elborough reconhece que pode ser um exagero dizer que não haveria civilização se não existissem óculos. Afinal, “nem Platão nem Aristóteles, nem Confúcio nem Maomé, Carlos Magno ou Guilherme, o Conquistador, usavam óculos”. Mas é preciso ponderar: quantas ideias se perderam porque seus autores olhavam para o papel (ou pergaminho, ou placa de barro) e viam um borrão? Quantos deixaram de ler porque eram míopes?

Travis Elborough calcula que os primeiros óculos podem ser datados de 1286

Segundo o livro de Elborough, o primeiro exemplo primitivo de lente é datado de aproximadamente 750 a.C. Foi descoberto nas ruínas do palácio de Nínive, no local onde hoje está Mosul, no Iraque. O objeto é oval, e hoje faz parte do acervo do Museu Britânico. Uma de suas faces, convexa, leva à conclusão de que era usada para observar objetos próximos. O historiador romano Plínio, o Velho, exaltou na sua obra História Natural o poder de pedras ou vidros que ajudavam aqueles com visão mais fraca. Ele sugere que Nero (que era míope) talvez se servisse de algum tipo primitivo de lente para observar o sangue espirrando nas lutas de gladiadores.

Sêneca, o historiador e estadista que se suicidou em 65 d.C. (por causa de Nero), escreveu no seu Questões da Natureza que escrever ficava muito mais fácil quando ele usava uma “esfera de vidro ou uma bola cheia de água”. O autor lembra que esses personagens de elite dos impérios da Antiguidade não precisavam de óculos: tinham “exércitos” de secretários e escravos para anotar suas palavras a qualquer momento.

A situação permaneceu mais ou menos a mesma por séculos — até o século 10, quando Ibn al-Haytham publicou em Basra (também no atual Iraque) o primeiro grande tratado, em sete volumes, intitulado Livro das Ópticas. Al-Haytham lançou todas as bases científicas do mecanismo da visão. Uma tradução do livro foi publicada na Itália no século 12, e as rodas da História começaram a se mover.

A primeira referência a óculos mais ou menos como os que conhecemos hoje surge num monastério dominicano em 1306. Um frei chamado Giordano da Pisa, brilhante orador, registrou num de seus sermões as frases: “Ainda não faz 20 anos desde que a arte de fazer óculos, que os fizeram, pela boa visão, uma das artes mais úteis na terra, foi descoberta… Eu mesmo vi e conversei com o homem que a inventou”. Por causa dessa revelação, Travis Elborough calcula que os primeiros óculos podem ser datados de 1286. Seu autor teria uma lápide na Basílica de Santa Maria Maggiore, em Florença: “Aqui jaz Salvino degli Armati, filho de Armato, de Florença, inventor dos óculos. Que Deus perdoe seus pecados. 1317”.

Em 1352 foi pintado o primeiro quadro de uma pessoa (no caso, o cardeal dominicano Hugo de Saint-Cher) usando óculos. Logo a novidade se espalhava pela Europa. A princípio os óculos não tinham hastes e apertavam o nariz do usuário a ponto de ele mal conseguir respirar. Os óculos ganharam então o primeiro acessório: um cordão que os prendia atrás da nuca. Um “garoto-propaganda” involuntário dessa evolução foi o Grande Inquisidor da Espanha Fernando Niño de Guevara, que mandou queimar 240 hereges, retratado em 1600 por El Greco. O modelo foi imitado na Alemanha com tiras de couro.

Cardeal dominicano Hugo de Saint-Cher | Foto: Domínio Público

Era ainda um acessório primitivo. A partir do final do século 16, os holandeses promovem um upgrade na arte de produzir lentes e deram o formato básico a telescópios e microscópios. Em 1608, o mestre Hans Lippershey demonstrou seu telescópio, que foi aperfeiçoado por ninguém menos que Galileu Galilei. Esse avanço tecnológico made in Netherlands permitiu que surgisse, segundo Elborough, o Iluminismo e se enterrasse de vez a Idade Média. O telescópio possibilitava que se enxergasse o resto do universo. O microscópio abriu as portas para o invisível. E os óculos, aperfeiçoados, permitiram que cada vez mais pessoas pudessem ler.

O inquisidor Fernando Niño de Guevara | Foto: Domínio Público

Em 1666, registra-se o primeiro par de óculos escuros, comprado pelo escritor Samuel Pepys. Pepys produziu um longo e muito detalhado diário, hoje considerado um dos mais ricos registros históricos de sua época. Escrevia como um desesperado e tinha vários problemas de visão, entre eles uma irritação que ele pensava vir das velas. Acredita-se que a ideia dos óculos escuros tenha partido de Isaac Newton, com quem Pepys costumava sair para beber.

Por volta de 1730, o oculista Edward Scarlett cria em Londres o conceito de óculos fashion, que podia combinar com o chapéu ou a peruca do freguês. Óculos eram adquiridos por um público cada vez maior. Coincidência ou não, é nesse século que panfletos, folhetins e romances se espalham pela sociedade e surgem as primeiras versões de jornais diários. Em torno de 1750, os óculos dão mais um passo e se tornam bifocais. Agora, a lente podia ter, na parte inferior, uma curvatura para a visão de perto e outra curvatura superior para a visão a distância. Consta que o inventor do bifocal foi o célebre Benjamin Franklin, que nos deixou também o para-raios.

Ainda no século 18 surge o detalhe que iria livrar as mãos dos usuários — os primeiros modelos de óculos com hastes metálicas. Mas intelectuais (como nosso Machado de Assis) e aristocratas preferiam o gesto esnobe de segurar seu pince-nez com a mão. Ou usavam monóculo, que dava ao usuário um ar de indisfarçável afetação.

O escritor Machado de Assis | Foto: Divulgação

No fim do século 19, os transportes se tornam mais velozes e expostos, em carruagens e trens. O problema deixa de ser apenas a qualidade da visão, mas a própria integridade dos olhos. Nas ferrovias, especialmente, havia sempre a possibilidade de ser atingido por uma fagulha de carvão em brasa ao olhar a paisagem pela janela.

Monóculo | Foto: Divulgação

Mas os olhos precisavam de proteção adicional: contra o sol. Entre 1911 e 1913, o octogenário cientista Sir William Crookes trabalhou num novo tipo de lente que bloqueasse a luz ultravioleta. Surgiram os modelos “Crooks” de óculos. Em 1922, a empresa nova-iorquina Bausch & Lomb assumiu sua produção, abrindo caminho em 1936 para um dos maiores símbolos de charme cool de todos os tempos — o modelo Ray-Ban.

Os óculos continuaram evoluindo nos detalhes. Suas lentes se tornaram antirreflexo, degradês, polarizadas, digitais, fotocromáticas, espelhadas, de policarbonato, multifocais, digitais. Suas armações ganharam marcas como Armani, Bulgari, Dolce & Gabbana, Versace, Tiffany, Ralph Lauren, Prada e Polo.

O livro de Travis Elborough nos lembra que vivemos nessa era de conforto. Os óculos estão disponíveis em todos os lugares, dos caríssimos modelos de grife aos baratinhos genéricos vendidos em farmácia. O bancário Henry Bemis vislumbrou o vazio de um mundo sem lentes. Sem óculos, eu teria muita dificuldade em escrever esta coluna. E talvez você, leitor, não conseguisse ler o que escrevi.

Leia também “O deepfake chegou para ficar”

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6 comentários

  1. Ótimo! Sem desmerecer a obra de Travis Elborough (que certamente foi beber na fonte: Os Descobridores, de Daniel Boorstin) existem outras funções para os óculos que também vão além da imaginação, quando salvam o churrasco daqueles que se esqueceram de levar fósforos no piquenique, por exemplo, ou são utilizados de maneira lúdica, torrando as formiguinhas que se aventuram sobre a toalha.

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