Operação Carne Fraca

Um possível diálogo entre dois possíveis conhecidos personagens

Conversa republicana no escurinho do confinamento:

— Olá, doutor.

— Olá.

— Achei que não se importaria se ligasse direto pro seu celular.

— Já ligou, excelência. Qual é o assunto?

— O senhor está bem?

— Estou. E o senhor?

— Se melhorar, estraga.

— Qual é o assunto, excelência?

— Doutor, o senhor está bem mesmo? Quero dizer, está satisfeito com seu trabalho?

— Nunca estou satisfeito. Acho sempre que posso fazer melhor.

— Imaginei. O senhor não está tendo as condições necessárias para fazer seu trabalho.

— Eu não disse isso.

— Claro que não, doutor. O senhor jamais diria isso. Por isso estou dizendo pelo senhor.

— Qual é o assunto, excelência?

— É esse mesmo. O senhor poderia estar satisfeito em outro lugar.

— Estou no lugar em que quero estar.

— Eu não esperava ouvir outra coisa do senhor, doutor. Nem eu nem meus parceiros que têm planos bem maiores para o senhor. Sabemos que o senhor também tem. O problema é deixar passar a hora certa.

— Como assim?

— Seu chefe já era. Vai ficar se arrastando em público, morto-vivo. O senhor é muito melhor que ele, mas não pode se deixar associar demais a essa figura… Como direi? A essa figura lamentável. Saia enquanto é tempo e garanto que terá tudo a seus pés.

— Excelência, não estou à venda.

— Claro que não. Sei muito bem disso. O senhor não tem preço. Nossos parceiros jamais investiriam em alguém que estivesse à venda.

— Que parceiros?

— Ora, doutor. O senhor sabe… Parceiros generosos que serão seus também. Basta o senhor querer.

— Meus parceiros são minha equipe de trabalho.

— Sem dúvida. No meio do fogo cruzado, apanhando da grande mídia, tendo que matar um leão por dia em defesa de um monte de gente anônima que jamais vai te convidar pra uma festa numa cobertura em Ipanema ou te condecorar na ONU pra você chegar em Davos como um rei, paparicado pela imprensa internacional e pelos milionários dispostos a turbinar quantas ONGs você queira criar. Sabemos que o senhor pensa grande, está cansado dessa jornada de peão ao lado de um bando de brucutus e sabe que isso não é vida.

— Vida é missão.

— Tá bom, doutor. Preciso desligar porque estou atrasado pra uma reunião.

— Fica um pouco mais.

— Ah, agora sim. Pedindo com jeitinho eu fico.

— Tenho me sentido tão só.

— Desenvolve.

— Ninguém me compreende.

— Certo. E seu chefe?

— É rude e não me dá condições satisfatórias de trabalho.

— Tá pouco.

— Autoritário.

— E a democracia?

— É contra.

— E a corrupção?

— É a favor.

— Ah, melhorou. Então você não aguenta mais e quer denunciar esse descalabro em nome da lei?

— Quero.

— Não ouvi.

— Quero!

— Coisa linda. Sabia que poderia confiar em você.

— Estamos aí. Vida é missão, por isso é que…

— Chega, parceiro. Já passamos dessa parte.

— Tem razão, me confundi.

— Não tem problema. Em sua nova vida você nunca mais vai precisar repetir esse texto. Basta fazer tudo direitinho.

— Tá. E eu vou ter uma imprensa que nem a do Rodrigo Maia?

— Pode me cobrar. Você vai ser praticamente o novo Rodrigo Maia.

— Poxa, obrigado pela oportunidade.

— Você merece. Teve que aturar muita gente chata na vida, agora é a hora de desfrutar.

— Oba!

— Só mais uma coisa.

— O quê?

— Estou me aproximando de um grande brasileiro que apreciaria muito um gesto seu.

— Que brasileiro? Que gesto?

— O Lula. Se importa de pedir desculpas a ele?

— Problema nenhum.

— Tá. Diz que o governo dele era mais democrático que o atual, e fica tudo certo.

— Fechado. Chega de fascismo.

— Viva a resistência democrática.

— Viva!

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71 comentários Ver comentários

  1. Cheguei aqui para ler mais um bom artigo de opinião do Fiuza, e o homem surpreende com esse diálogo “cabuloso” entre uma ave de bico grande e um doutor hahaha. Excelente, Fiuza! haha

  2. Como é prazeroso ler seus escritos. Me deleito a cada construção. Grato!
    Enquanto ao personagem descrito, vou me calar pq foi um soco no meu estômago.

  3. Pelo grau de convencimento do texto, creio que a verdade ficará sendo esta mesmo daqui pra frente, até que apareça uma outra exposição plausível. O diabo anda à solta no mundo, sedento de luto e almas. Nem todos resistirão, mas por enquanto continuamos avançando. E venceremos.

  4. Excelente texto!!! A ambição e a cobiça caminham de braços dados esperando a primeira falha de caráter para dar o bote e ver a pessoa desMOROnar. ?

    1. Sensacional é pouco pra descrever. ????
      Aguardando a conversa com o molusco. Pena que não deu tempo do moço gritar “LulaLivre”
      E tem incauto que acredita que o motivo foi o “faça a coisa certa sempre”. Tudo sempre foi pelo Poder.

    1. Genial, como sempre. Só temo a repercussão a IMPRENSA acéfala que está sem saber o que fazer com o churrasco fake e a ironia do Bolsonaro. O que dirão disso…

    2. Esse artigo fez a festa do Bolsopetismo, cuja militância cada vez mais se assemelha à militância petista, em especial aos idólatras do Lula, corrupto com duas sentenças confirmadas em 2ª Intância, uma delas lavrada pela Dra Gabriela Hardt, e com todos os HC’s impetrados, inclusive perante o STF, negados. Um deboche, uma insinuação irresponsável, sem lastro em qualquer fato concreto, que só a liberdade de expressão conferida aos Jornalismo no Brasil (graças a Deus) confere ao articulista a certeza de que não será processado por danos morais. Merecia! A verdade incontestável é que o Presidente Bolsonaro teve que se render ao Centrão corrupto e fisiológico, cujo rabo preso e imundo está enrolado até o cóccix na Lava Jato. A cabeça do Dr Sergio Moro foi pedida com veemência e o Presidente, apesar da carta branca que publicamente lhe conferiu, simplesmente e sem qualquer justificativa plausível, a revogou. Outras cabeças já estão sendo pedidas … Tudo pela “governabilidade”, é claro! Bem-vindos ao Bolsopetismo! Para fazer valer o slogan “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos” o Governo Bolosonaro se rendeu ao princípio que norteou o lulopetismo e resultou no Mensalão e no Petrolão: os fins justificam os meios, com a bênçãos de Deus! Nada se cria, tudo se copia.
      #FacaACoisaCertaSempre

      1. Não se trata de um artigo, André, mas de uma crônica. O autor lança mão desse tipo de texto.para apresentar uma hipótese sobre a realidade . Eu, particularmente, acredito naessa possibilidade- nâo necessariamente com os dois personagens- acho provável que a Joice tenha sido a emissária. Não tenho certeza, é claro. A,Janaína Paschoal tb fez uma leitura interessante sobre o episódio.

      2. Infelizmente existem pessoas ingênuas como você, para ainda não entender as relações de poder e vaidade!

  5. Não sei não Fiuza! Tanto o MORO como o BOLSONARO, mulher, filhos e amigos sei não Fiuza.
    Colocar no texto como referência o filho de César vá lá, poderia tbm Fernando Bezerra, o “Coelho”, ou o próximo representante das ORCRIMS, Ailton Lyra, ponto.
    Jornalistas são como o Doria e FHC, sem escrúpulos até pra contar “estórias”.
    A PRESTAÇÃO DE CONTAS com o LEGISLATIVO foi adiada, mas ñ será depois da Primavera. Não teremos novas ELEIÇÕES sem a PRISÃO em SEGUNDA instância e fim do foro privilegiado.
    Passou da hora, quiseram à FORÇA e será.

  6. Bah Fiuza, já sabia que tu era bom. Mas com essa matou a pau ! Todo individuo tem um preço, principalmente quando a vaidade e soberba começam a gritar.

    1. Tinha que ser você pra escrever um texto desses, mestre Fiuza! Convicções políticas do leitor à parte, o diálogo criativo e instigante do texto é invejável e digno de louvor. Parabéns!

      1. Isso não é legal, pode ser engraçado pois é o que queremos que seja a verdade, mas não há nada além de achismos nesse diálogo. Se a esquerda faz isso, ficamos enojados, mas se nós de direita fazemos pode?? Todos têm direito a uma opinião, mas ao publicá-la numa revista, e sendo um de seus colunistas mais influentes, aos olhos de todos passa a ser a opinião da revista

      2. Olá, Eric. Tenho impressão diferente. A opinião do colunista é do colunista. e não a opinião oficial da revista.

      3. Perfeito Monica! Além disso, é uma possibilidade ilustrada com bom humor e alta dose de ironia. Nada demais. Não há acusação, pregação nem dedo na cara. Apenas uma brincadeira nos antigos moldes do Casseta & Planeta. O que de fato ocorreu, o tempo dirá. Vamos aguardar. Abraço!

      4. Para pensar!
        Apesar do que representa, o Moro nunca foi de direita.
        Já surgem fatos inequívocos que ele e a família sempre foram ligados ao PSDB… e à esquerda! Portanto…

      1. Parabéns pela capacidade de aproximar a ficção da realidade.

      1. Genial, Fiuza, mas senti falta de um detalhe: Moro estava esperando Bolsonaro dar uma deixa? Porque houve o episódio da direção da,PF. De qualquer forms , acredito que tenha sido por aí sim. Dória?, o Incrível Hulk?, FHC.?..só gente boa se unindo para levar o país ao caos..

    1. É a velha imprensa ‘gado’ fazendo seus julgamentos sumários. “Taca pedra na Geni…” . Se dez por cento dos brasileiros tivessem a coragem, a competência e a honestidade do Moro, seríamos um país muito melhor. Pena.

      1. Perfeito. Pena que a gadolândia encontra adeptos por aqui. Aliás, não meros adpetos, mas agudos defensores do curral!

      2. Esquerdopatas relinchando…se rasguem mais que tá hilário…

      3. Velha imprensa deve ser a qual vocês pertencem…
        Aqui na Oeste é a Nova Imprensa!
        Liberal e Conservadora.

    2. Essa última do Moro de querer que seja divulgada toda a reunião para criar uma crise política,nacional ou, quem sabe, internacional,
      somado ao fato de que não há nada nas falas de Bolsonaro que sustente suas alegações, parece confirmar a hipótese de Fiuza. Esse país, carente de heróis, tentou forjar um e se deu muito mal. O que saiu do forno foi um herói sem caráter

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