William Lane Craig
William Lane Craig

William Lane Craig: ‘O mal prova a existência de Deus’

Filósofo cristão mais conhecido da atualidade, ele afirma que o Brasil vai se tornar uma potência ‘espiritual’ neste século

O professor e escritor norte-americano William Lane Craig talvez seja o filósofo cristão mais conhecido da atualidade. Ele se notabilizou pelos livros em que defende uma abordagem racional da fé e, ao mesmo tempo, pelos concorridos debates com alguns dos defensores mais notáveis do ateísmo, como o neurocientista Sam Harris e o jornalista Christopher Hitchens. Seu argumento principal é o de que é perfeitamente possível construir um argumento lógico pela existência de Deus — e mais especificamente em favor do cristianismo. Doutor pela Universidade de Birmingham e pela Universidade de Munique, Craig afirma, em entrevista a Oeste, que a própria existência do mal aponta para Deus — por mais contraditório que isso possa parecer — e que o Brasil vai se tornar uma potência “espiritual” neste século.

Como alguém pode encontrar Deus utilizando a razão?

Gosto de distinguir duas avenidas para o conhecimento sobre Deus: o caminho interior e o exterior. O interior afirma que nós temos que saber que Deus existe por meio de uma experiência espiritual interior. Se Deus é real, então ele pode falar com nosso espírito e nos mostrar sua realidade. E acho que, para a grande maioria dos cristãos, o caminho interior é o que permite a eles saber que Deus é real. Entretanto, existe também o caminho exterior, e ele consiste nos diversos argumentos e evidências para a existência de Deus, que tornam a crença Nele racional.

Um dos argumentos que o senhor apresenta como evidência da existência de Deus é o chamado argumento cosmológico. Poderia explicar como ele funciona?

Na verdade, existem diferentes argumentos do tipo cosmológico. Uma versão de que gosto é a baseada na finitude do passado e no começo do universo. O argumento pode ser formulado em três passos simples. Número 1: o que quer que comece a existir tem uma causa. Número 2: o universo começou a existir. Disso se segue o número 3: logo, o universo tem uma causa. E então você pode fazer uma análise do que significa ser um universo causado, e um número de propriedades teológicas muito significativas deriva dessa análise. Esse argumento permite crer que existe um criador pessoal do universo — sem começo, não causado, não espacial, atemporal, imaterial e enormemente poderoso. Isso restringiria o campo às três fés monoteístas: o Cristianismo, o Judaísmo e o Islamismo. Para chegar ao teísmo cristão, é preciso olhar para a figura de Jesus Cristo de Nazaré e decidir o que fazer dele — quem era ele, e por que nós deveríamos crer nele. E isso vai determinar se alguém é judeu, cristão ou muçulmano.

O escritor português Fernando Pessoa certa vez utilizou um raciocínio parecido, acrescentando que, se a causa não pode ser menor do que o efeito, e se nós somos dotados de razão e de senso moral, Deus necessariamente também possui essas características. O senhor concorda?

Concordo, e eu também já defendi um argumento moral para a existência de Deus nessa linha. Embora possa parecer paradoxal, penso que o mal na verdade prova a existência de Deus. O argumento é assim. Número 1: se Deus não existe, então valores morais e deveres objetivos não existem. Se não há Deus, tudo se torna relativo e subjetivo. 2: o mal existe. Isso é algo que os ateus reconhecem. 3: logo, valores e deveres morais objetivos existem. De onde se segue que, logo, Deus existe. Paradoxalmente, embora moralmente o mal ponha em questão a existência de Deus, num nível filosófico mais profundo acredito que o mal na verdade prova a existência de Deus. Na ausência de Deus, o mal por si não existiria.

“Na ausência de Deus não existe esse ponto externo de onde criticar as diferentes visões de mundo”

O escritor C. S. Lewis afirmava que Jesus era ou um farsante ou de fato o filho de Deus. Esse argumento faz sentido?

Concordo quase completamente. Lewis tinha um “trilema”: Jesus era um mentiroso, um lunático ou Senhor. Mas existe uma quarta alternativa, defendida pela maioria dos céticos hoje: a de que ele era uma lenda. E acho que essa é a principal alternativa com a qual precisamos lidar hoje — mostrar que a história sobre a vida e os ensinamentos de Jesus não são apenas lendas que se acumularam através dos anos e depois foram escritas no Novo Testamento.

Durante muitos anos, o senhor pesquisou os indícios históricos da existência de Jesus Cristo na terra. Qual é seu veredicto?

Fiz minha dissertação de doutorado na Universidade de Munique sobre o tema da historicidade da ressurreição de Jesus. E, para minha surpresa, descobri que os fatos centrais sustentando a inferência de que Jesus ressuscitou são hoje aceitos pela grande maioria dos pesquisadores do Novo Testamento, sejam eles conservadores, liberais ou seculares. E esses três fatos são, número 1, a descoberta da tumba de Jesus vazia por um grupo de seguidoras no primeiro dia da semana depois da crucificação. Número 2, as aparições de Jesus, vivo, a vários indivíduos e grupos de pessoas. Em terceiro lugar, a própria origem da fé cristã, quando esses discípulos originais passaram a acreditar, sinceramente e repentinamente, que Deus havia ressuscitado Jesus dentre os mortos apesar de todas as predisposições no sentido contrário. E acredito que a melhor explicação para esses três fatos é a que os discípulos originais tiveram: a de que Deus ressuscitou Jesus dentre os mortos. O ceticismo sobre a ressurreição de Jesus não está fundado na evidência histórica, mas em pressupostos filosóficos, principalmente o pressuposto do naturalismo — o de que os milagres não acontecem, ou que não podem ser identificados. Se esse é o obstáculo, então a questão não é uma questão de evidência histórica. É preciso voltar ao começo e olhar de novo para aquela premissa. Existe um Deus? Um criador transcendente, que desenhou o universo? Porque, se ele existe, como afirmou o filósofo australiano Peter Slezak, a ressurreição seria brincadeira de criança para uma divindade assim.

O senhor argumenta que uma das razões para o ceticismo atual no continente europeu é o trauma gerado pelos assassinatos em massa na 2ª Guerra Mundial. Ao mesmo tempo, só é possível afirmar que o nazismo foi moralmente errado quando se adota uma moralidade objetiva, correto?

Penso que você está certo. Alguns anos atrás, houve um livro muito interessante, de autoria do cientista político Peter Haas chamado Morality after Auschwitz (“A moralidade depois de Auschwitz”). Ele levantava a questão sobre como uma sociedade inteira poderia ter permitido o extermínio de milhões de pessoas. E a resposta de Haas foi que isso só pôde acontecer porque havia um sistema moral e ético diferente em funcionamento — que não definia a deportação e o extermínio de judeus como um mal, mas como algo tolerável ou até bom. E o que Haas afirma em seu livro é que a ética nazista não poderia ser descreditada por dentro. Ela era internamente consistente. Ela poderia somente ser criticada de um ponto externo, de onde você pode olhar para aquele sistema e dizer que o que eles fizeram era errado. Na ausência de Deus, simplesmente não existe esse ponto externo de onde criticar as diferentes visões de mundo.

O senhor afirma que existem elementos históricos muito fortes de que a ressurreição de Jesus Cristo de fato ocorreu. Mas o que dizer do relato da criação no livro de Gênesis?

Certamente existe espaço para discordâncias entre cristãos sobre como interpretar os primeiros 11 capítulos do livro de Gênesis. São capítulos difíceis. Recentemente completei um estudo de dois anos sobre esse tema, e ele deve ser publicado em setembro como um livro. Argumento em favor de uma interpretação dos primeiros 11 capítulos segundo a qual eles são um tipo de texto que não precisa ser interpretado literalmente, e que com frequência envolve linguagem figurativa ou metafórica. Reconheço que essa não é a única interpretação legítima, mas acredito que é bastante plausível.

Não é o que Santo Agostinho já argumentava?

Isso. E Agostinho não dizia isso como resultado das pressões da ciência moderna ou da Teoria da Evolução. Ele viveu 1500 anos antes de Darwin. Similarmente, Orígenes, um dos pais da igreja, disse praticamente a mesma coisa: que você não precisa interpretar essas narrativas de forma literal, e que elas têm a função de expressar verdades teológicas profundas e que com frequência o fazem em linguagem figurativa ou metafórica.

Faz algum sentido acreditar que todas as religiões, ou pelo menos as principais religiões, estão certas?

Chamo isso de pluralismo religioso não sofisticado. É o pluralismo religioso que você encontra entre universitários no segundo ano, que querem ser muito inclusivos e dizer “todas as religiões são corretas, todas estão dizendo basicamente a mesma coisa”. E qualquer um que tenha feito uma matéria introdutória sobre as religiões do mundo vai saber que esse não é o caso. Pegue o Islã e o Budismo, por exemplo. O Islã afirma que existe um Deus pessoal que criou o mundo, que nos responsabiliza por nossas atitudes e vai mandar pessoas para o céu ou o inferno, dependendo do fato de eles acreditarem nele ou não — e no seu profeta. O Budismo não acredita em nenhuma dessas coisas. Não há quase nada em comum entre Budismo e Islã. Então, a ideia de que essas religiões estão dizendo a mesma coisa, ou que ambas são verdadeiras, é logicamente inconstante. Já o pluralismo religioso sofisticado diz que todas as religiões do mundo são falsas. E é aqui que a apologética cristã entra em campo. Há boas razões para acreditar que um Deus pessoal existe, que ele se revelou decisivamente em Jesus de Nazaré, e eu estou preparado para argumentar que, sim, há bons argumentos e evidências em favor dessa proposição.

Apesar de o Brasil ser um país de ampla maioria cristã, nossas principais universidades são terreno hostil a essa tradição intelectual. Os cristãos devem tentar retomar esses espaços ou criar as próprias universidades?

Deveríamos retomar posições nas principais universidades. Não vamos, obviamente, retomar tudo, mas podemos obter posições que nos darão um lugar à mesa nas discussões. Quando estive no Brasil, fui informado de que os estudantes e professores de filosofia são muito mais influenciados pelo modelo europeu do que pelo norte-americano. O modelo europeu tende a ser influenciado pelo neomarxismo e pelo pós-modernismo, o que é muito diferente da filosofia analítica anglo-americana. É muito importante que os jovens estudantes de filosofia no Brasil dominem o inglês e se familiarizem com a literatura anglo-americana de filosofia analítica. Penso que isso iria oferecer um antídoto poderoso contra a influência cultural da filosofia europeia.

O senhor visitou o Brasil duas vezes nos últimos anos e teve vários de seus livros traduzidos para o português. Como vê o futuro da igreja brasileira?

Um dos motivos pelos quais tenho ficado entusiasmado em me envolver com o Brasil é o fato de acreditar que o país vai emergir, no século 21, como uma potência geopolítica no mundo — economicamente, politicamente, culturalmente e espiritualmente. Acredito que o Brasil pode ajudar a carregar a missão de levar o Evangelho ao restante do mundo ainda não alcançado, na África e na Ásia. Então, gostaria de encorajar meus irmãos e irmãs no Brasil a ser zelosos no trabalho do Senhor e visionários em perguntar o que Deus pode fazer por meio deles.

Leia também “O beijo da morte”

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