Foto: Montagem com fotos Shutterstock
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A ditadura do capitalismo lacrador

Quem não dançar conforme a música, que é controlada pela esquerda radical, será carta fora do baralho

Como tantos outros projetos anteriores, salvar o mundo — dos combustíveis fósseis, do patriarcado, da homofobia, do capitalismo — exige que as pessoas sejam excluídas do processo. A “canalha” é simplesmente muito incivilizada, muito pouco sofisticada, muito inconsciente de seus reais interesses e precisa de um “empurrãozinho” para fazer as mudanças necessárias. Em toda utopia, o obstáculo costuma ser sempre o mesmo: a natureza humana, ou seja, o próprio homem. Se ao menos fosse possível criar um novo homem…

Não é diferente com o capitalismo lacrador. É o que sustenta Stephen Soukup em The Dictatorship of Woke Capital: How Political Correctness Captured Big Business. Ao concordar em mudar o foco público de sua missão para as “partes interessadas” (stakeholders), em vez de acionistas (shareholders), os membros da Mesa Redonda de Negócios esperavam ter maior liberdade para fazer o que quisessem, para perseguir seus próprios interesses e suas próprias predileções políticas e poder chamar isso por um nome nobre: ​​capitalismo das partes interessadas!

Mas, como alguns desses CEOs já aprenderam, e como os outros aprenderão com o tempo, não é assim que a coisa funciona. Acionistas ativistas — a maioria dos quais busca fins politizados e se preocupa menos com a lucratividade de uma empresa e mais com seu alinhamento com sua postura política — são como tubarões. Eles vivem para se alimentar, não o contrário. É a tese que Soukup sustenta no livro, buscando na revolução cultural da década de 1960 a fonte para tais mudanças. Esses ativistas, tais como tubarões, estão sempre à espreita para farejar a menor gota de sangue e agir, atacar. Eles percebem a fraqueza nas empresas e avançam.

O que muitos já descobriram foi uma vasta rede de organizações, algumas religiosas, algumas políticas, algumas orientadas para o investimento, mas todas dedicadas ao mesmo propósito: usar a estrutura dos mercados de capitais para substituir a vontade democrática do povo para fazer avançar políticas progressistas que seriam politicamente inviáveis. Incapazes de persuadir a população — inculta e ignorante demais —, esses ativistas dominam as empresas e, utilizando-as como instrumentos, impõem sua visão de mundo aos demais.

Soukup mostra como isso aconteceu gradualmente, com uma mistura de boas intenções, práticas administrativas revolucionárias e estratégia deliberada de esquerdistas. A partir da década de 1990, Wall Street deu uma guinada à esquerda. Com Obama isso ficou visível. Funcionários do Goldman Sachs e outras instituições semelhantes foram os maiores doadores de sua campanha. Eles simplesmente amavam o “liberalismo social” de Obama. Como foi que isso aconteceu?

Para o autor, o fracasso da esquerda em entregar sua Utopia igualitária fez com que muitos abandonassem o marxismo e passassem a flertar com o ceticismo epistemológico de Nietzsche. Em resposta às desilusões com o socialismo, a esquerda abandonou a razão “científica”, deixou para trás a própria realidade e mergulhou de cabeça no relativismo. Se o marxismo era tido como científico e consequência do próprio Iluminismo, agora a esquerda se voltava contra a razão, a lógica, o Iluminismo, e passava a questionar a própria possibilidade de conhecer a verdade.

Munida desse niilismo e convencida de que libertinagem era liberdade, a Nova Esquerda partiu então para a sua revolução cultural, subvertendo as instituições, avançando sobre a cultura, a começar pela academia, transformada numa fábrica de doutrinação da jovem elite universitária. Era a “longa marcha” para destruir os pilares da civilização judaico-cristã, implodir as tradições, desestabilizar as famílias. O socialismo podia ter fracassado miseravelmente, mas o capitalismo não era muito melhor. Se não foi possível criar o Novo Mundo, então era necessário destruir o Velho.

A transformação de Wall Street não foi acidental, segundo Soukup. Foi o produto de um processo longo e cuidadoso, uma marcha por várias outras instituições, virando-as de cabeça para baixo até que os titãs do “capitalismo” estivessem totalmente convencidos de que sua rendição à cultura não era apenas inevitável, mas constituía o único caminho moralmente legítimo.

Premissa fundamental nessa transição era o desprezo pelo povão. Esse foi o legado progressista. Desde os progressistas, como Richard Ely e seu pupilo Woodrow Wilson, inspirados nas experiências alemães de Bismarck, os “liberais” democratas passaram a enxergar numa elite “científica” o papel preponderante na administração pública. Desprovidos de paixões humanas, essa burocracia técnica saberia como liderar a nação, com base em decisões de gestores “profissionais” mais racionais do que as massas.

No começo, muitas empresas aderiram, sinalizando falsa virtude para agradar à patota

A ideia de que as pessoas são muito ignorantes e egoístas para votar naquilo que é de seus próprios interesses, ou os melhores interesses da sociedade como um todo, foi estabelecida como um princípio definidor da gestão pública americana. Os experts ou especialistas, sem votos e sem accountability, concentrariam o poder para guiar os demais.

A fusão dessas duas características — o relativismo moral da Nova Esquerda e a mentalidade elitista e arrogante dos progressistas — pariu a revolução nos negócios americanos, com ênfase cada vez maior nas pautas ideológicas determinadas pela esquerda. Agora, apenas uma coisa impedia o surgimento do “Novo Homem Americano”: o Velho Americano. O Velho Americano estava, na maior parte do tempo, muito feliz, empregado, curtindo sua família e seu lazer. Claro, havia problemas, mas a Utopia não existe, como o Velho Americano sabia, mas o Novo Americano se recusava a acreditar.

O “capitalismo das partes interessadas” surgiu como uma ferramenta analítica: empresários e acadêmicos buscando entender como as partes envolvidas em seus negócios impactavam ou eram impactados pelos mesmos. Isso era do interesse dos próprios acionistas, claro, para maximizar seus retornos e compreender melhor o ambiente de seus negócios. Com o passar do tempo, trocou-se a análise pelo julgamento de valor, e não era mais o caso de conhecer o entorno, mas de desejar mudá-lo com base em uma visão preconcebida de mundo, ou seja, uma ideologia.

Cada empresa teria de demonstrar sua visão “consciente”, seja com o meio ambiente, seja com as minorias. Cada grupo de interesse pressionaria numa direção. Já que não importa tanto o retorno dos acionistas, mas sim a subjetiva aprovação dos stakeholders, as empresas teriam de se submeter aos ditames dos grupos mais organizados e estridentes. No começo, muitas empresas aderiram de olho num nicho de mercado, sinalizando falsa virtude para agradar à patota. Mas como já ficou claro para a maioria agora, o monstro, bem alimentado, cresceu, a ponto de devorar quem não se submeter às novas regras do jogo.

Chegamos, assim, a essa ditadura do capitalismo lacrador: quem não dançar conforme a música, que é controlada pela esquerda radical, será carta fora do baralho.

Leia também “América como herança ocidental”

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15 comentários Ver comentários

  1. Perfeição no comentario:não conseguindo o mundo novo , vamos acabar com o mundo velho .
    No restante do artigo quero apenas lembrar que lacração com capital não funciona, visto que dinheiro, grana, bufunfa …jamais leva desaforo.

  2. Comunistas e capitalistas são os mesmos dependendo das conveniências, mas os liberais são os mais honestos do ponto de vista de Max Weber

  3. O capitalismo lacrador, assim como qualquer jogada no xadrez político-social, desencadeará miríades de efeitos colaterais em cascata. Alguns positivos. Da minha parte, creio que favorecerá o surgimento de conservadores anti-materialistas radicais: buscaremos uma vida simples, frugal, com o mínimo de consumo, objetivando não enfiar dinheiro nessa gente. Teremos então mais recursos sobrando para investir para a velhice. E, quem sabe, enriquecer. Novamente, estaremos à frente dos lacradores em questões econômicas

  4. Parabéns Constantino por ter pela primeira vez trabalhado conceitos sem apelar ao inglês rasteiro dos preguiçosos. Oxalá você continue assim. A expressão de capitalismo das partes interessadas foi um versão elegante e comunicativa em vez do preguiçoso ‘stakeholders’

  5. Como sempre, Constantino, muito bom. Mas, permita-me a divagação: balanços de empresas não são recheados apenas de palavras politicamente corretas, mas de números. O problema é que os números têm a velha mania da exatidão. Eles – e somente eles – dizem sempre a verdade na hora da distribuição dos lucros. Será que alguém que está querendo ganhar dinheiro, arriscaria o seu patrimônio, a tranquilidade de sua vida material, em troca apenas de discursos cheirosinhos? Isto faz lembrar certos gênios da publicidade, que mais se preocupam com o prêmio de Melhor Publicitário do Ano do que em vender o produto que eles próprios anunciam.

  6. Constantino qualifico a coluna de hoje como uma de suas melhores (todas são excelentes, mas esta foi na veia). Parabéns pela lucidez, preparo e coragem. Enfim, que tempos sombrios. A situação não é preocupante mas desalentadora. Praticamente todos os veículos de comunicação seguem essa linha lacradora esquerdista ou progressista, tanto faz. Querem impor um pensamento. Sinto falta da década de 80. Agora quem discorda é visto como antidemocrata ou criminoso. Espero que as pessoas acordem a tempo, se é que ainda há tempo. Abraços.

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