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É pior que uma guerra

Instituições, governos e líderes políticos ainda tentam encontrar uma resposta definitiva à maior crise econômica desta geração

Nas últimas semanas, uma história se repete. Para além das recomendações de como preservar a saúde mental em tempos de pandemia e isolamento social, são muitos os relatos nas mídias sociais dando conta do desespero de comerciantes, pequenos empresários e empreendedores em relação à tentativa de redução de danos e de eventual recuperação dos negócios a médio prazo.

A má notícia é que, mais do que o desalento de não existir previsão de retorno às atividades presenciais, é baixo o impacto das medidas adotadas pelos governos. No Brasil e no mundo, isso está relacionado com certa ideia que se tem feito a respeito desta crise. A imagem mais comum é a de “economia de guerra”. A expressão, no entanto, não se sustenta quando se nota que esta é a economia de pandemia, na qual “só há perdas e não há ganhos”, como observa o economista Roberto Luís Troster em entrevista à Revista Oeste.

Ainda em março, nas primeiras semanas do confinamento, o governo federal agiu na tentativa de criar um colchão para amortecer a crise econômica, buscando alternativas para o fechamento de empresas e o aumento desenfreado do desemprego.

Se, por um lado, tais medidas atenuaram o impacto da crise, por outro, essas ações representaram aumento de despesas para o governo.

Para que se tenha ideia do tamanho desse impacto, enquanto empresas recorrem à possibilidade de diminuir a folha salarial de seus empregados, de acordo com os ditames da Medida Provisória 936, o governo federal só faz aumentar o tamanho do rombo fiscal à medida que avançam os meses e é prorrogado o auxílio emergencial de R$ 600. Até o mês de junho, o gasto previsto é de R$ 150 bilhões.

Num primeiro momento, a resposta mais imediata para endereçar os problemas relativos à crise econômica tem sido a adoção das medidas keynesianas, relembrando a atuação do presidente Franklin Delano Roosevelt (1882-1945) à época da Grande Depressão. De acordo com essa doutrina, assinada pelo economista britânico John Maynard Keynes (1883-1946), é desejável uma maior presença do Estado na economia em tempos de elevada instabilidade.

Por esse motivo, em 2020, diante da pior crise desde o crash de 1929, a alternativa que se vislumbra remete à experiência de quase um século atrás, levando em conta que o modelo em questão seria não apenas necessário, como também a única saída para um Estado que vive um momento de fraco desempenho.

Só que o cenário que se avizinha é tão complexo que esse curso de ação não pode ser considerado a única alternativa, até mesmo porque o contexto é outro.

“Há um cunho ideológico muito grande quando se fala em economia de guerra, pois sugere uma ideia de que vale tudo”, comenta Troster.

Diferentemente da 2ª Guerra Mundial — quando seu desfecho, há 75 anos, dependeu do consenso internacional e do esforço geopolítico em benefício de uma única agenda —, para esta pandemia do coronavírus há que esperar o timing relacionado à resposta às medidas de contenção. É como se as ações que podem achatar a curva, como o isolamento social e o lockdown, fossem também as medidas responsáveis pela retração da economia, uma vez que boa parte dos negócios depende muito de encontros e aglomerações, como comércio, entretenimento ou mesmo atividades em escolas e universidades. Isso faz crescer ainda mais a tensão relacionada ao emprego.

Há ainda outras variáveis a considerar ao estabelecer paralelos com a 2ª Guerra. Na época, Europa e Ásia sofreram muito, mas nem todos os continentes foram diretamente impactados. No caso dos Estados Unidos, os efeitos da guerra até contribuíram para a rápida recuperação da indústria norte-americana, que passou a produzir grande volume de armamentos, navios e aviões. A situação de pleno emprego gerou prosperidade e uma classe média ávida por consumo. O país foi beneficiado e ajudou a propulsionar a retomada global. Agora, todos os continentes estão sendo violentamente afetados, não há infraestrutura a reconstruir, também não existem recursos para atender a todas as demandas e a expectativa, segundo dados da Unicef, é de que, no mundo, 150 milhões de pessoas sejam adicionadas ao chamado “mapa da fome” — das quais 5,4 milhões no Brasil. E, obviamente, é zero a perspectiva de boom de empregos pós-pandemia.

Leia mais sobre o tema no artigo “De cara com a miséria”, de Selma Santa Cruz

O mais cruel dos meses

Semanas antes do anúncio da pandemia, existia certa disputa em torno da quantidade de desempregados no Brasil. Conforme informações do IBGE divulgadas em fevereiro deste ano, a taxa de desemprego caiu em 16 Estados em 2019, seguindo a média nacional, que indicava recuo de 12,3% (2018) para 11,9%. Havia quem destacasse que esses dados sinalizavam, também, o crescimento do trabalho informal — em Estados como São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, a informalidade aumentou no período.

Segundo informações do Ministério da Economia, o número de pedidos de seguro-desemprego em abril foi 22,1% maior do que no mesmo mês no ano passado. De novo, São Paulo, Rio e Minas são os Estados que apresentaram o maior número de pedidos.

Se, no Brasil, a crise já tem derrubado as projeções do PIB, conforme os dados mais recentes do Boletim Focus (queda de 4,7%, segundo a última projeção), a perspectiva para os países da América Latina e do Caribe não é das melhores, de acordo com relatório divulgado recentemente pelo Banco Mundial. “As previsões foram revisadas em vários pontos porcentuais em apenas algumas semanas. Na Argentina, a revisão em baixa começou muito antes, refletindo incertezas quanto ao processo de renegociação da dívida e seu impacto sobre as perspectivas econômicas”, informa o texto.

Ainda no contexto internacional, a excepcionalidade do momento pode ser medida pelas taxas básicas dos bancos centrais.

A Inglaterra prevê a maior recessão em 300 anos e opera com a taxa-base de juros na faixa de 0,1%, e a Austrália, na casa de 0,25%, sem mencionar um pacote de estímulos que passou sem objeção no Parlamento.

Embora os estudos indiquem o início do arrefecimento da pandemia na Europa e nos Estados Unidos, permanece a dúvida em relação à medida mais acertada para este momento. Não há consenso acerca do rumo a ser tomado.

Na Europa, enquanto o Banco Central Europeu entende que é hora de reiterar as políticas de estímulo para os países do bloco, uma decisão da corte alemã ameaça pôr em xeque a legitimidade dessa medida. Já o Federal Reserve (Fed), o banco central americano, seguiu na mesma linha, dando novo significado a sua atuação. Ainda em março, a instituição já havia reduzido as taxas de juros para níveis historicamente baixos e, agora, vem agindo no sentido de incentivar empresas, cidades e Estados, com empréstimos, além de ter comprado títulos atrelados a hipotecas — num volume próximo a US$ 79 bilhões por dia.

Assim, mais do que a incerteza relacionada à demora na recuperação, o que se nota é que os tomadores de decisão têm uma escolha difícil pela frente: como aumentar os gastos do Estado sem comprometer o crescimento a longo prazo (no caso, para 2021 e 2022)?

“Temos de fazer o que pudermos para evitar que negócios de pequeno porte sobrevivam até que o vírus esteja sob controle”, disse Jerome Powell, presidente do Fed em discurso para o Peterson Institute for International Economy. Embora seja enfático na defesa dessa posição, o chairman reconhece que as consequências virão: “O apoio fiscal adicional pode ser caro, mas vale a pena se ajudar a evitar danos econômicos a longo prazo e nos deixar com uma recuperação mais forte. Esse é um trade-off para nossos representantes eleitos, que exercem poderes de tributação e gastos”.

Em meio a tamanha volatilidade no Brasil e no exterior, microempresários, empreendedores e comerciantes só podem aguardar enquanto o novo normal não vem.

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