Empresário Antônio Cabrera Mano Filho | Foto: Divulgação
Empresário Antônio Cabrera Mano Filho | Foto: Divulgação

‘A liderança do Brasil no agro incomoda’

Ministro da Agricultura no governo Collor, o empresário Antônio Cabrera afirma que o país é apontado como vilão porque vem tomando espaço das grandes potências

Natural de São José do Rio Preto (SP), oriundo de uma família de produtores rurais do interior paulista, o veterinário e empresário Antônio Cabrera Mano Filho, de 61 anos, conhece como poucos a realidade do agronegócio brasileiro. Ministro de Estado mais jovem a assumir uma pasta na história do país, então com apenas 29 anos — comandou a Agricultura entre 1990 e 1992, durante praticamente todo o governo de Fernando Collor —, Cabrera atribui as críticas de parte da comunidade internacional ao governo do presidente Jair Bolsonaro justamente à competitividade e ao avanço do Brasil no setor.  

“Há 30 anos, eu pegava um avião aqui e ia para a Europa falar das mesmas coisas que a gente fala hoje: as queimadas, o desmatamento, etc. O que mudou é que o Brasil está assumindo, gostem ou não, uma posição de liderança no cenário internacional. E a liderança do Brasil no agro incomoda cada vez mais”, afirma o ex-ministro, em entrevista a Oeste. “O frango e o açúcar brasileiro, por exemplo, vão ficar imbatíveis na Europa. O Brasil tem sido apontado como vilão principalmente por essa liderança incontestável.”

Segundo Cabrera, é possível conciliar o agro com a agenda ambiental, mas o Brasil deve ter uma postura altiva no combate à disseminação global do que ele classifica como fake news, “principalmente em relação à Amazônia”. “O país precisa ser muito mais ativo, até por meio de suas embaixadas, para combater as notícias falsas com informação verdadeira. Não merece ter o que tem quem não defende o que tem”, diz. “Do lado da União Europeia, o que vejo são políticas de protecionismo comercial. Não podemos cair nessa ladainha. Vamos defender o meio ambiente, mas é preciso tomar cuidado para não cair em discursos que muitas vezes não têm nenhuma preocupação ambiental, mas simplesmente econômica e comercial.”

Além da passagem pela Esplanada dos Ministérios, Cabrera foi secretário de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo de 1995 a 1996, no primeiro mandato de Mário Covas (PSDB) como governador. Na conversa com Oeste, o ex-ministro afirma que Bolsonaro contará com o apoio do agro para a reeleição, descarta a chamada “terceira via” como alternativa viável em 2022, diz não ver motivos para impeachment e rechaça comparações entre o momento político atual e o período de Collor.  

Leia os principais trechos da entrevista.

Apesar de ter sustentado o crescimento da economia nos últimos anos, o agronegócio é atacado por setores da esquerda por supostamente prejudicar o meio ambiente. A que o senhor atribui essa demonização do agro? Ela já existia quando o senhor era ministro?

Há 30 anos, eu pegava um avião aqui e ia para a Europa falar das mesmas coisas que a gente fala hoje: as queimadas, o desmatamento, etc. O que mudou é que o Brasil está assumindo, gostem ou não, uma posição de liderança no cenário internacional. E a liderança do Brasil no agro incomoda cada vez mais. Por trás do algodão ou de um grão de soja, você tem tanta tecnologia quanto nas big techs. Hoje se produz mais utilizando menos recursos. É o que o Brasil está fazendo com o algodão, a laranja, a soja… Você diminui o uso dos recursos naturais e aumenta a produção. Isso é incrível. O Brasil manda comida para 192 países. No mundo pós-pandemia, com essa crise de logística e abastecimento, você imagina a importância estratégica que o país terá para um cenário de estabilidade. As acusações contra o Brasil aumentaram quando foi anunciado o acordo entre Mercosul e União Europeia. O frango e o açúcar brasileiro, por exemplo, vão ficar imbatíveis na Europa. O Brasil tem sido apontado como vilão principalmente por essa liderança incontestável. Está incomodando, tomando espaço. 

Recentemente, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) voltou à cena invadindo, pichando e depredando o prédio da Associação Brasileira de Produtores de Soja (Aprosoja), em Brasília. Como o senhor classifica esse episódio?

Na minha opinião, esse é um dos grandes pontos positivos do governo Bolsonaro: ter diminuído o número de invasões do MST. Isso é inegável. Se você pegar os últimos 20, 25 anos, o MST diminuiu muito sua atuação. O que a sociedade precisa entender é que esse grupo que invadiu a Aprosoja é formado por ignorantes. A soja é o principal item da dieta dos mais pobres. Graças à economia de escala que nós temos, o óleo de soja produzido hoje é extremamente barato. O óleo de fritura de 90% dos brasileiros é o óleo de soja. Ninguém é rico para poder consumir óleo de girassol. O óleo de soja é barato e consegue atender o grosso da população. Essa invasão é um caso de polícia, é um ato de terrorismo. Tem de ser tratada com o rigor da lei. As razões do atraso do Brasil não são inexplicáveis, não é coisa do destino. Essa invasão é o tipo de atitude que nos deixa mais pobres. Estão desrespeitando o direito de propriedade, que está sempre atrelado à prosperidade, à civilidade de um país. Onde não há respeito ao direito de propriedade não há progresso, não há bem-estar.  

“Não há a menor hipótese de você tentar resolver o problema do metano apostando na diminuição do consumo de carne”

É possível conciliar os interesses do agronegócio com a defesa de práticas ambientalmente sustentáveis?

Nós estamos na era das fake news. As maiores notícias falsas, hoje, envolvem a área ambiental, principalmente em relação à Amazônia. Um chefe de Estado, Emmanuel Macron, presidente da França, chegou a publicar uma foto antiga das queimadas na Amazônia como se fosse de hoje. E outras celebridades ficam opinando sobre um assunto que desconhecem, como Cristiano Ronaldo, Lewis Hamilton, Gisele Bündchen e Leonardo DiCaprio. Temos que começar a combater essas fake news com fatos, com informação. O país precisa ser muito mais ativo, até por meio de suas embaixadas, para combater as notícias falsas com informação verdadeira. Não merece ter o que tem quem não defende o que tem. Nenhum outro país, entre as grandes potências agrícolas, tem o ativo ambiental do Brasil. Não podemos cair nessa ladainha. Vamos defender o meio ambiente, claro, mas é preciso tomar cuidado para não cair em discursos que muitas vezes não têm nenhuma preocupação ambiental, mas simplesmente econômica e comercial. Se você fizer um círculo no mapa ao redor da China, pegando China, Índia, Indonésia, verá que naquele pedaço há mais pessoas vivendo do que no restante de quase todo o globo. É interessante que o Brasil zele por esse mercado. Eles precisam de alimentos. Com sustentabilidade, o Brasil é uma das poucas opções para atendê-lo. Independentemente das turbulências políticas e comerciais pelas quais estamos passando, o Brasil real é um país que está dando certo. 

Entre os compromissos firmados pelo Brasil na COP26, estão a redução de 50% nas emissões de gases de efeito estufa e a de 30% na emissão do metano até 2030, além do fim do desmatamento ilegal até 2028. Como o senhor avaliou a participação brasileira na conferência?

Eu vi a participação brasileira na COP26 com bons olhos. O Brasil tem de ser protagonista, um dos atores principais nessa questão. Não poderíamos nos omitir. O que me preocupa é que, em alguns desses compromissos principais, você não tem a participação dos grandes poluidores do mundo, como a China e a Índia, por exemplo. Se os grandes emissores não estiverem juntos na mesa, a coisa não vai funcionar. Além disso, precisamos entender melhor esse compromisso relacionado à emissão do metano. Temos de tomar muito cuidado. Não há a menor hipótese de você tentar resolver o problema do metano apostando na diminuição do consumo de carne. Buscar uma meta através da incorporação de novas tecnologias é muito bem-vindo. Também não tenho nada contra as pessoas serem veganas. Mas já começam a dizer: ‘Olha, se você substituir a sua dieta de proteína animal por proteína vegetal, vai ajudar o clima’. Isso não é verdade. O Brasil hoje é o maior produtor e o maior exportador de proteína animal do planeta. Temos muito interesse nisso. 

O boi e a vaca são apontados como grandes causadores da emissão de metano, tanto por causa do desmatamento de áreas usadas para o pasto quanto pelos gases liberados no processo de fermentação gástrica dos alimentos ingeridos por esses animais. Isso é real ou uma tentativa de criar pânico?

É fake news, paranoia completa. É preciso observar o ciclo completo do metano. Ninguém tem um rebanho do porte do Brasil. É um rebanho do que a gente pode chamar de boi verde: é o boi que usa aquela graminha que absorve CO2, lá no início do processo. É diferente do que ocorre na Austrália ou nos Estados Unidos, que não têm isso porque os animais estão confinados. Ao contrário, a nossa pecuária, majoritariamente, absorve esse metano. O ciclo completo não tem nada a ver com essa emissão. É algo mínimo, de cerca de 2%, e não 18%, como ouço falarem por aí. Durante milhares de anos, a carne bovina foi fundamental no progresso da civilização. Agora dizem que a pecuária terá de se ajustar, que não vai ter mais consumo de carne, não vai ter mais churrasco. É claro que precisamos de novas tecnologias. Quem não quer acabar com o desmatamento ilegal? Todo mundo quer, esse é um compromisso que tem de ser diário, de cada brasileiro. O que não se pode é utilizar esse medo, esse pânico, para aceitar qualquer coisa, principalmente querer apontar o boi e a vaca como grandes causadores da emissão de metano. Isso não existe. 

“Essa crise atual não tem nada a ver com o vírus, com a pandemia. Tem a ver com o lockdown”

Neste momento, a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, tenta resolver o imbróglio do embargo chinês à carne bovina brasileira. Como o senhor avalia a atual gestão da pasta?

Avalio a gestão da ministra como muito boa. Ela é competente, articulada e tem o apoio do setor. Essa questão da carne tem de servir de alerta. Em alguns momentos, ficamos preocupados com a China, como se o Brasil fosse totalmente dependente deles. Primeiro, é importante lembrar que a dependência é mútua. O Brasil tem procurado diversificar seus produtos, e hoje quase 60% dos alimentos e bebidas do agro já são processados aqui dentro. Por que muitas coisas vão só para a China? Por que não conseguimos, em vez de só exportar carne, fazer produtos agregados? Por exemplo: não vamos exportar milho. Vamos exportar frango, ovo, produtos industrializados. Aí entra a necessidade de uma reforma tributária para que possamos ter competitividade. Se não destravarmos essas amarras, se não tirarmos essas dificuldades aqui dentro, vai ser difícil. Daqui a pouco, o Brasil certamente estará batendo os 300 milhões de toneladas de grãos. O que precisamos é derrubar a burocracia.  

De que forma o agro pode impulsionar a retomada da economia brasileira no pós-pandemia?

Estou otimista. Não sou ufanista, não sou alienado, muito pelo contrário. Sou um apaixonado pela liberdade econômica. Essa crise atual não tem nada a ver com o vírus, com a pandemia. Tem a ver com o lockdown que os governos locais decretaram. Não entro no mérito se foi certo ou errado, mas toda interferência pesada do governo na economia tem uma consequência. Você desestruturou todo o sistema. Não é um interruptor que você desliga e liga de novo de forma simples. Economia não é assim. Metade dos contêineres ficou parada em portos europeus que estavam fechados pelo lockdown. Além disso, houve uma fortíssima injeção de recursos nas economias das principais potências. Nos Estados Unidos, Joe Biden está injetando US$ 3,5 trilhões. Você teve uma desorganização da logística, por um lado, e um aumento violento do consumo, por outro. A população pega esse dinheiro e quer comprar, e isso está acontecendo aqui também, com o auxílio emergencial. É um aumento de consumo, e a produção não acompanhou isso. Mas, em razão desse aumento de consumo, sou muito otimista em relação ao agro. Hoje você precisa contratar tratorista, operador de colhedeira, eletricista, pedreiro, encanador… O interior está demandando muito e temos vagas para essa mão de obra. 

O agro apoiou a candidatura de Jair Bolsonaro em 2018. Como o setor avalia o governo depois de quase três anos? 

Houve algumas coisas que deixaram a desejar? Sim. Precisávamos de uma verdadeira reforma tributária, gostaríamos de ter avançado nas privatizações… Isso não aconteceu. Mas, no cenário que aí está, o presidente Bolsonaro tem o apoio majoritário do agro. Só o fato de terem diminuído as invasões de terra e retomado a segurança jurídica é importante. O agro certamente vai retribuir ao presidente em 2022. 

Há uma série de pedidos de impeachment de Bolsonaro na gaveta do presidente da Câmara, Arthur Lira. É possível encontrar alguma semelhança entre o momento atual e o vivido por Collor em 1992?

Nenhuma semelhança. Hoje não há nenhum caso de corrupção no governo, não há nenhuma acusação pública. Não vejo motivo para impeachment. Percebemos nitidamente que todo esse barulho é uma questão partidária. A gente percebe claramente que a CPI da Covid virou um palanque político. Se você pegar os números do Brasil hoje em relação à vacinação, são melhores do que em grande parte dos países. O presidente talvez não tenha conseguido se expressar da melhor forma, mas foi um dos poucos líderes do mundo que mostraram preocupação também com a economia. Ninguém aqui é contra a ciência. A ciência traz informações importantes, mas você precisa saber o que fazer com essas informações. Quando se tranca a economia de uma maneira brutal, dá uma desarranjada geral no sistema. Quem pode definir o que é um trabalho essencial? Para muitos, engraxar um sapato é essencial. Houve uma precipitação. 

Como o senhor avalia o cenário eleitoral para 2022? 

Não vejo, pelo menos até agora, nenhuma possibilidade de terceira via. Nada viável em tudo o que foi colocado até o momento pela mídia. Aliás, não gosto muito desse nome: “terceira via”. Muitas vezes é uma tentativa de embrulhar algo que não é muito digerível. Vejo, sim, essa polarização, e sinceramente não encaro isso com preocupação. Na realidade, nos últimos 20 anos, também houve uma polarização, só que entre PT e PSDB. 

É possível traçar um paralelo entre a sua gestão e os desafios atuais do setor, 30 anos depois?

É muito diferente. O mundo mudou muito, e mudou para melhor. Isso é muito importante. Vejo às vezes um certo pessimismo até dos mais jovens, como aquela Greta Thunberg. Ela parece um profeta do apocalipse. É claro que temos preocupações ambientais, mas o mundo hoje é muito melhor do que há 30 anos, quando fui ministro. Se há uma coisa que os jovens de hoje têm é um mundo melhor para viver. Veja como vivia uma pessoa há 30 anos e como vive hoje. Espero que a geração mais jovem valorize mais o Brasil. Temos que parar de ter vergonha do nosso país. O Brasil é um gigante. Não é um país do futuro. É um país com futuro, e um futuro brilhante. 

O senhor participou da Coalizão Brasil-Afeganistão, criada para ajudar afegãos que buscam refúgio. Como vem se dando essa iniciativa e por que decidiu participar?

Este é um assunto que a maioria da imprensa não divulga. Temos vários empresários do agronegócio que participam de diversas missões humanitárias. Temos grupos que mandam comida para a Venezuela, por exemplo. Sobre o Afeganistão, o ministro Carlos França, das Relações Exteriores, nos atendeu prontamente. Tínhamos essa demanda de cristãos que viviam sob risco permanente. Se há um grupo perseguido no mundo hoje são os cristãos no Afeganistão. A gente trabalha muito também com os haitianos. Nunca despreze a força de vontade de um imigrante. Eles deixam para trás aquilo que sofreram e vêm com uma enorme vontade de ter uma nova vida. São muito bem-vindos ao Brasil porque ajudam a construir um país melhor. 

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