Arthur Virgílio, Eduardo Leite e João Doria, no evento do PSDB que escolheria o candidato do partido nas eleições presidenciais de 2022 | Foto: Dida Sampaio/Estadão Conteúdo
Arthur Virgílio, Eduardo Leite e João Doria, no evento do PSDB que escolheria o candidato do partido nas eleições presidenciais de 2022 | Foto: Dida Sampaio/Estadão Conteúdo

A disputa pelo terceiro lugar

Doria, Eduardo Leite, Ciro e Moro entram na corrida para saber quem vai conquistar a medalha de bronze nas eleições presidenciais em 2022

Num dos maiores fiascos pré-eleitorais da história do país, o PSDB não conseguiu até esta sexta-feira, 26, decidir quem será o seu candidato à Presidência da República. O processo de prévias frustradas somou a falha num aplicativo milionário (negociado com dinheiro público) com denúncias de compra de votos e terminou em mais uma briga de quintal. Trata-se de um partido que há duas décadas não consegue fazer as pazes internamente, muito menos com o eleitorado.

É provável que, na próxima semana, depois da contratação de uma empresa para solucionar os “problemas técnicos”, os tucanos consigam definir quem concorrerá ao Palácio do Planalto: se o governador de São Paulo, João Doria, ou o do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite. Segundo dirigentes da sigla, o paulista é o favorito porque conseguiu arregimentar um bom número de prefeitos no maior Estado do país, o que lhe rende musculatura na hora da escolha. Mas o fato é que o partido está diante de uma rinha na qual todos já perderam.

Doria é impopular às margens do Rodoanel e nos quilômetros que levam ao interior ou litoral

Se sair vitorioso, Doria enfrentará o tradicional “fogo amigo”. O chumbo virá do Sul e de Minas Gerais, onde Aécio Neves ainda dá as cartas e joga pesado contra ele. O sonho de Doria, aliás, custará ainda mais caro se o seu vice, Rodrigo Garcia, perder a hegemonia tucana do Palácio dos Bandeirantes. Algo que dura desde que Mario Covas foi eleito em 1994, derrotando de vez o “quercismo” caipira. Orestes Quércia (MDB) governou o Estado e depois elegeu o sucessor, Luiz Antônio Fleury Filho, na era pós-Franco Montoro.

Não há como menosprezar o peso eleitoral do Estado de São Paulo nas urnas. São 33 milhões de votos, um quarto do eleitorado do país. Só na capital, são 9 milhões de votos — mais do que um Paraná inteiro, por exemplo. Talvez isso também explique a necessidade de Doria em ter buscado um substituto rápido — a despeito da vaidade e do sonho pessoal de ser presidente. Ele, hoje, é impopular às margens do Rodoanel e nos quilômetros que levam ao interior ou litoral, ainda que vá despejar milhões em obras nas cidades no próximo ano.

O “Capitão Vacina”

Na capital, João Doria perdeu a confiança dos conservadores há muito tempo e tampouco seu sapatênis agrada aos “meio intelectuais, meio de esquerda” das mesas da USP e da Vila Madalena. Não lhe restava escolha a não ser vestir a capa do “Capitão Vacina” rumo a Brasília e contrariar os tecnocratas do gabinete anticovid para liberar logo o uso de máscaras. A partir do dia 11, elas não serão mais obrigatórias ao ar livre.

Oeste conversou nesta semana com um amigo de Aécio Neves, deputado que tem atuado nos bastidores como há anos não fazia. O mineiro é um “poço de mágoas” contra Doria. Agiu a favor de Eduardo Leite nas prévias, mas gostaria mesmo de ver a derrocada do PSDB paulista nas urnas. Sem a máquina partidária nem o status do Palácio dos Bandeirantes, avalia: “Tanto Doria quanto a velha guarda não param em pé na política”.

Outro ponto é que a cizânia pode produzir estrago maior na bancada da Câmara, que vem minguando eleição após eleição. Em 2018, os tucanos saíram das urnas com 29 cadeiras, a nona bancada da Casa, algo impensável para uma legenda que era protagonista na política. No Senado, atualmente o PSDB tem só seis representantes — o cearense Tasso Jereissati está licenciado.

Em solo gaúcho, o revés ainda poderá vir a reboque para Eduardo Leite se ele perder as prévias. Ex-prefeito de Pelotas, Leite surgiu como uma promessa para conseguir sanear as finanças de um Estado quebrado como fizera no município. No governo, uma de suas principais realizações — ou pelo menos a que ficou mais conhecida — foi proibir a venda de produtos considerados não essenciais nos supermercados gaúchos durante a pior fase da pandemia.

Mas como conseguiu, minimamente, segurar as contas, tinha chances de romper a sina de que o gaúcho nunca reelege seus governadores. Mas acabou seduzido por desafetos de Doria no PSDB a embarcar numa corrida inútil. Será difícil explicar à população que preferia administrar o país. Caso a empreitada pessoal não dê certo, quer continuar no Palácio Piratini.

O que pensa Sergio Moro?

Paralelamente à crise tucana, Sergio Moro filiou-se ao Podemos e tem se dedicado diariamente às aparições na imprensa tradicional como potencial candidato da tal “terceira via”. Provavelmente, vai competir pelos mesmos 5% do eleitorado do PSDB na largada. Ou ainda todos acabarão aninhados, o que também é difícil — afinal, o ex-juiz da Lava Jato mandou investigar e prender tucanos graúdos. Entre eles, o ex-chefe da Dersa Paulo Pretto e o ex-senador Aloyzio Nunes Ferreira.

Mais uma vez, vale repetir: não se trata aqui de discutir o currículo nem o desempenho exemplar do ex-juiz de primeira instância que fez história ao condenar a bandidagem engendrada no mais alto escalão da República nos governos petistas. Moro é muito melhor do que qualquer um dos tiriricas do centrão. Mas nenhum desses despachos o levará a galope até Brasília. É preciso que a população saiba o que ele pensa sobre economia, meio ambiente, agronegócio, cultura e todo o resto. Moro, por enquanto, foi uma mistura de frases ensaiadas com Marina Silva. Não conseguirá chegar à faixa presidencial parecendo um candidato de plástico.

O juiz Sérgio Moro | Foto: Lula Marques/Agência PT

No próprio PL, partido de Valdemar Costa Neto que receberá o presidente, líderes avaliam que Moro entrará no páreo pensando em 2026. “Moro não representa ameaça nenhuma agora. Vai dar Bolsonaro e Lula no segundo turno e ele ficará em terceiro lugar”, diz o deputado Capitão Augusto (PL-SP), que tem interlocução com o ex-juiz, porque comanda a Frente Parlamentar da Segurança Pública na Câmara e foi relator do pacote anticorrupção. “Mas o principal adversário da esquerda em 2026, sem Bolsonaro, pode ser o Moro porque não há hoje outro nome natural à direita.”

Outra coisa: para ser presidente, é preciso ter apoio das ruas, algo que Moro perdeu quando deixou o governo Jair Bolsonaro atirando. E que tanto Doria quanto Leite, ou ainda Ciro Gomes (PDT), não conseguem. O melhor termômetro foi o vexame da manifestação desse trio na Avenida Paulista em setembro. Na época, Moro ainda não estava oficialmente no jogo. Tampouco a aposta de Ciro em se livrar da carranca tem dado certo. A estratégia de João Santana, o marqueteiro do petrolão, em promover as lives do “Ciro Games” para jovens naufragou em audiência. No próprio PDT, já há quem defenda que ele desista e a sigla force uma indicação a vice de Lula.

Ciro Gomes | Foto: Murilo Silva/CAPOL

O ex-presidente do Senado e governador mineiro Magalhães Pinto resumia bem esses balões de ensaio da política brasileira muito antes da redemocratização do país: “Você olha e ela está de um jeito; olha de novo e já mudou”. É possível que tudo mude até outubro do ano que vem. Falta quase um ano para a eleição. O que temos por enquanto é muita confusão no piso térreo.

Leia também “33 siglas infestam o deserto de partidos reais”

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16 comentários Ver comentários

  1. Tanto a velha quando a nova imprensa luta para que o próximo seja o duele entre Bolsonaro xLula, quem sai perdendo disso tudo nada menos do que o povo brasileiro.

  2. Bom artigo, Silvio, te admiro muito. Ri muito de saber que Eduardo Leite foi prefeito de Pelotas. É piada pronta isso!😂😂😂😂

  3. Leio algumas reportagens na Gazeta do Povo de Curitiba que me lembra seguras bobagens do Diogo Mainardi, aposentado do jornalismo hoje fofoqueiro no antagonista. Tanto Mainardi quanto alguns na Gazeta acreditam em tudo e todos que falam bem do Moro. Um blogueiro do Globo disse “a Faria Lima está apaixonada por Sérgio Moro”. Pronto, Mainardi já colocou Sérgio Moro como presidente da República pir causa da coluna do Globo. A Gazeta ainda tem motivo. Sérgio Moro é de lá. Mas Diogo é só mais um tonto.

  4. Eduardo Leite, andou fechar corredores de produtos de Não Alimentar, nos supermercados do RS. Uma bobagem de fato. Agora nunca proibiu a venda de leite condensado, isto é mentira, Pena que uma matéria tão bem escrita, se perca com informações erradas de cunho puramente impactante e sensacionalista.

    1. Caro Manoel, a referência ao leite condensado foi uma ironia que colocamos no texto para falar da proibição de venda dos ítens considerados não essenciais. Concordamos que a brincadeira não foi compreendida por muitos dos nossos leitores e resolvemos retirá-la.

  5. O autor do texto é desinformado. Eduardo Leite ou Dudu Milk, como é conhecido aqui no Rio Grande, jamais proibiu a venda de leite condensado. Ele proibiu, num acesso de estupidez nunca vista, a venda de artigos do ramo de bazar (liquidificar, louças, plásticos e etc..) em supermercados. O argumento foi de que as lojas que trabalhavam com esses produtos não podiam abrir devido ao lockdown e a venda deles em supermercado prejudicaria o comerciante que não podia abrir a porta da loja.

    1. Resumindo, cometeu uma estupidez para remediar outra estupidez. É um estúpido com vestes de almofadinha. Não se candidata à reeleição porque SABE que o RS não o reelegerá.

    2. A referência ao leite condensado foi uma ironia que colocamos no texto para falar da proibição de venda dos ítens considerados não essenciais. Concordamos que a brincadeira não foi compreendida por muitos dos nossos leitores e resolvemos retirá-la.

  6. conheço muita gente que vai votar no Moro…vamos ver como ele se sai sem o teleprompter…a única vantagem de ter mais de 60 anos é a de ter vivido muitas coisas…eu vivi a eleição do Collor…ele era um grande embuste, alçado a presidente por conta de uma capa de revista como “o caçador de marajás”…na minha opinião, Moro se apresenta com um currículo igualmente limitado, sua atuação (histórica e expressiva) como juiz da lava jato…não mais do que isso…faltam-lhe todos os outros pré-requisitos para ser um bom presidente da república

  7. Não acredito na terceira via, extremamente comprometida,vide PSDB.Mudam de opinião a todo momento e fazem uma salada mista que já passou da validade.Moro é um estranho totalmente fora de seu ninho.Os precatórios são dívidas da união,de estados e municípios que devem ser pagas aos cidadãos brasileiros.Se vc não paga o seu IPTU ou seu condomínio,seu imóvel vai para leilão,Vc sempre paga,mas nunca recebe o que é seu de direito.Nao adianta sempre empurrar para o próximo governo,o problema deve ser resolvido.Um país democrata paga suas dividas,elas já foram julgadas com a sentença:cumpra-se.

  8. Silvio, por um equivoco ou legislação de má fé, o Estado de São Paulo que você relata com mais de 33 milhões de eleitores (2018) e só elege 70 deputados federais com essa ambígua proporcionalidade representativa na Câmara Federal limitada ao máximo de 70 e ao mínimo de 8 deputados federais por Estado. Portanto na atual Câmara com 513 deputados, o Amapá dos inúteis senadores Randolfe e Alcolumbre, com 500 mil eleitores tem 8 deputados, e 16 Estados somados com menos de 33 milhões de eleitores tem 145 deputados. Vale dizer que o único Estado com essa desproporcionalidade é o de São Paulo, porque os demais Estados estão próximos da proporção eleitorado/cadeiras, conforme segue: SP 115/70, RJ 43/46, MG 55/53, BA 36/39, PE 23/25, CE 22/22, PR 28/30, RGS 29/31, SC 18/16.
    Penso que dá para entender a qualidade de nosso Congresso Nacional que além dessa representação desproporcional somente para São Paulo, ainda tem um Senado Federal com 3 inúteis senadores por Estado que dificultam aprovações de importantes reformas. Para que 3 senadores por Estado, não basta 1?
    Gostaria de uma matéria da revista oeste a respeito e se é lei ordinária ou emenda constitucional, essa distorcida representação.

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