Galhos jovens de um pinheiro natalino | Foto: Shutterstock
Galhos jovens de um pinheiro natalino | Foto: Shutterstock

Feliz Agronatal

Além da decoração, a agropecuária marca a ceia de Natal fornecendo a proteína animal e as frutas usadas nos pratos típicos desta época

O tempo do Advento, iniciado quatro semanas antes do Natal, é marcado por luzes, enfeites, flores e decorações em residências, comércios e áreas públicas. Neste Ano da Graça de 2021, o primeiro domingo do Advento foi no dia 28 de novembro. Chegou o tempo de montar presépios, árvores de Natal, instalar luzinhas, guirlandas, decorações e comprar presentes. Poucos se dão conta: vive-se um Agronatal, tamanha a contribuição da agropecuária aos festejos natalinos.

Em junho, no solstício de inverno, o campo invade as cidades com arraiais, fogueiras, danças e cultura rural. Em dezembro, no solstício de verão, o agro volta aos lares urbanos com flores, produtos decorativos e alimentos típicos do tempo natalino. Se as festividades juninas promovem reuniões públicas em quermesses e ruas, os festejos natalinos reúnem dentro das casas, na intimidade das famílias.

Entre os primeiros símbolos natalinos levados do campo às residências estão as árvores de Natal. São pinheiros e tuias, produzidos aos milhares por viveiristas, em vários tamanhos e formatos, para atender ao desejo e às possibilidades do bolso de cada consumidor. Os pinheiros natalinos, sempre verdes, simbolizam a esperança e a vida. Sua forma triangular evoca a Trindade. O inventor da árvore de Natal foi São Bonifácio, o apóstolo dos germanos. Em 718, o papa Gregório II enviou-o à Alemanha com a missão de reorganizar a Igreja.

Plantação de pinheiros de Natal | Foto: Shutterstock

Por cinco anos, Bonifácio evangelizou os territórios dos atuais Estados alemães de Hessen e Turíngia. Sem preocupações ambientais ou com costumes locais, em 723, o bispo da Germânia derrubou um enorme carvalho dedicado ao deus Thor, perto da atual cidade de Fritzlar, na Alemanha. Convenceu povo e druidas no machado. Esse acontecimento é considerado o início da cristianização da Alemanha. O carvalho destruiu tudo onde caiu, menos um pequeno pinheiro. Bonifácio interpretou esse fato como um milagre. Era Advento e ele declarou: “Doravante, chamaremos esta árvore de árvore do Menino Jesus”. O costume de plantar pinheiros para celebrar o nascimento de Jesus começou, estendeu-se pela Alemanha e de lá ao mundo. Prosseguiu a veneração vegetal, com outra árvore.

Os trópicos importaram símbolos natalinos de regiões temperadas: pinheiros, Papai Noel agasalhado, lareiras e até neve de algodão. Mas exportaram um símbolo natalino para a Europa e a América do Norte: a flor do Natal, ou poinséttia, também conhecida como cardeal ou estrela-do-natal. Originária do México, ela tem folhas verdes e, acima, folhas semelhantes a flores vermelhas. Seu nome científico Euphorbia pulcherrima significa a mais bela das eufórbias.

Euphorbia pulcherrima, conhecida como a flor do Natal | Foto: Alejandro Bayer/Wikimedia Commons

Esse símbolo vegetal não vem dos astecas, e sim dos franciscanos, especialistas em novidades natalinas. Como a do presépio, inventado pelo próprio São Francisco. A partir do século 17, no México, os frades utilizaram a poinséttia em comemorações natalinas e associaram suas brácteas vermelhas à estrela de Belém. Hoje, mais de 120 milhões de vasos servem para fins decorativos natalinos na Europa. Aqui, a poinséttia é a planta de decoração mais vendida no Natal para enfeitar shoppings, lojas e residências. Na Cooperativa Veiling Holambra, principal centro de comercialização atacadista da floricultura, só na época do Natal são vendidos 2 milhões de vasos. A produção, sempre em estufas, concentra-se em Holambra, Paranapanema, Alto Tietê e Ribeirão Pires.

As flores do Natal são a obra-prima de pequenos agricultores. Sua organização empresarial e tecnológica é avançada. São mais de 8.000 pequenos agricultores, com área média de 1,5 hectare. E empregam, em média, oito trabalhadores por hectare, segundo o Instituto Brasileiro de Floricultura. Juntos, cultivam mais de 2.500 espécies e 17.500 variedades. Nas pequenas propriedades, 20% da mão de obra é familiar e os demais 80%, contratados. O mercado de flores gera 209.000 empregos diretos e 800.000 indiretos. O faturamento em 2020 foi de R$ 9,6 bilhões. São mais de 600 empresas atacadistas no mercado de flores e 25.000 pontos de venda. O mercado nacional absorve 97,5% da produção e o restante é exportado. Deixe o plástico do lado, compre uma tuia, um pinheirinho e vasos de poinséttia e transforme sua casa num lar, onde as ideias florescem. Naturalmente.

E haja panetones. Só a Bauducco produz mais de 75 milhões. Haja farinha, ovos e açúcar

Além da decoração, a agropecuária marca a ceia de Natal fornecendo a proteína animal usada nos pratos típicos desta época. Num encontro eucarístico, familiares dispersos e distantes se reúnem nesse dia sagrado. Na ceia são consumidas proteínas nobres: peru, chester, tênder, pernil e outras carnes e cortes especiais. A BRF, empresa multinacional resultante da fusão da Sadia com a Perdigão, tem unidades dedicadas só à produção das carnes para a ceia de Natal. Assim como várias grandes empresas, como Seara, Minerva e outras.

O Natal coincide com a passagem da primavera para o verão, o tempo da colheita de frutas tropicais e subtropicais. Frescas e secas, elas acrescentam cor e sabor às ceias, integradas inclusive em farofas, bolos e panetones. E haja panetones. Só a Bauducco produz mais de 75 milhões. Haja farinha, ovos e açúcar. A pesquisa agrícola ampliou o tempo da frutificação e a disponibilidade de pêssegos, uvas, bananas, morangos, nectarinas, mangas, ameixas, maçãs e outras. O Brasil produz 45 milhões de toneladas de frutas por ano. É o terceiro produtor mundial, atrás de China e Índia.

No Natal, cresce o consumo de nozes-pecã, castanha-do-pará, castanha-de-caju, uvas-passa, cacau, castanha de baru, frutas cristalizadas e macadâmia. Segundo a Associação Brasileira de Nozes, Castanhas e Frutas Secas, a produção global de nozes cresce, em média, 6% ao ano. Um mercado de US$ 35 bilhões. O Brasil é o oitavo produtor mundial das saudáveis nozes e castanhas.

Se árvore de Natal, presépio, ceia, troca de presentes e outros momentos ocorrem no interior das casas, existe um símbolo colocado do lado externo. Sobre a porta de casas e apartamentos, a guirlanda natalina é um símbolo solar. Ela anuncia publicamente: nesta casa se festeja o Natal. Ela é um símbolo vegetal do entrelaçamento do divino com o humano. Deus se fez carne e habitou entre nós. Por isso, a guirlanda natalina é feita com dois ramos de plantas diferentes, de natureza distinta, entrelaçados. A guirlanda é um círculo, símbolo de um entrelaçamento sem fim, infinito. São muitos modelos de guirlanda, sempre com dois ramos diferentes. Sinos, fitas e enfeites a completam.

Guirlanda de Natal: símbolo solar | Foto: Shutterstock

O círculo da guirlanda evoca a letra Ó, de Nossa Senhora do Ó, cujos “Ohs”, suspirados semanas antes do nascimento de Jesus, são cantados nos Motetos dos Ós em igrejas, sobretudo em Minas Gerais. O padre Antônio Vieira, imperador da língua portuguesa, discorreu sobre a simbologia do círculo e desse Ó, no Sermão de Nossa Senhora do Ó, a mesma da Freguesia do Ó, em São Paulo. A guirlanda é um Ó grande, um mega Ó, o Ômega do alfabeto grego. E não o Ômicron, da variante africana da covid. O amor dos cristãos a Deus e ao próximo não deveria ter fim. Como não tem fim o círculo solar, regendo o calendário rural, a alternância do semear, cuidar, colher e novamente semear, cuidar, colher… Marcas do verão e do solstício no ciclo das estações. Não deixe de circular, entrelaçar e presentear: coloque uma bela guirlanda na entrada de sua casa ou apartamento. Ela abençoará quem passar e evitará raios, dizem.

Para encerrar sobre este Agronatal, me permitam um pequeno conto, homenagem aos fruticultores.

O nascimento de Jesus acabou com o sossego na estrebaria de Belém. Os visitantes chegavam a todo o momento com presentes, olhares de espanto e contemplação. Eram pastores, pecuaristas, agricultores, magos, pescadores, comerciantes e artesãos. Curiosos para ver aquele menino tão especial. Ao anoitecer, Maria estava exausta. Mesmo assim, recebia da melhor forma possível quem se aproximava da manjedoura.

Em meio a tanta gente, Maria percebeu uma velha do lado de fora. Ela era curvada, feia, enrugada e parecia ter mais de mil anos. Movia-se de um lado para o outro. Não entrava. Depois da meia-noite, seguia lá fora, como uma bruxa. Quando o último visitante deixou o local, a velha entrou na estrebaria, sob o olhar desconfiado e até temeroso de José, do boi e do burro.

Hesitando, ela aproximou-se da Virgem e do Menino. Trazia nas mãos uma fruta bonita, perfumada e certamente saborosa. Maria nunca vira esse fruto. A velha entregou seu presente como se fosse o globo terrestre e balbuciou: “Este fruto, a humanidade quis comer verde no paraíso. Agora, está maduro”. Atrás das pregas das pálpebras, seus olhos encheram-se de lágrimas.

Maria acolheu o fruto, sem dizer uma palavra. Clarões no horizonte anunciavam um novo dia. A velha retirou-se. Maria então perguntou: “Senhora, qual é o seu nome?”. No limiar da entrada, a velha retornou-se lentamente. Aliviada e com um sutil sorriso nos lábios, ela disse: “Eva”.

Leia também “A multiplicação dos peixes”

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36 comentários Ver comentários

  1. Evaristo; Já li diversos artigos seus na Oeste. Entretanto, nenhum outro com tantas e minuciosas informações. Quanto saber, erudição e discernimento. Parabéns pelas preciosas informações gerais sobre e o porque do NATAL. Tenha a certeza de que, apesar dos meus 71 anos, muito aqui aprendi com você. Magnifica exposição !!!

  2. Esta é a coluna que eu mais aprendo sobre o agronegócio e conhecimentos gerais.
    Eu sempre compartilho os artigos com a família.
    Sou assinante da Oeste por ter ótimos colunistas como o Dr. Evaristo.
    FELIZ NATAL!

  3. O texto acaba e tem gosto de “quero mais”. Rico em informações, esclarecimentos, conexões no tempo, no espaço, entre os temas abordados, aplica visões. Rico também em perspectivas promissoras e em beliscadas nós críticos superficiais e esporádicos. Belas ilustrações.

  4. Parabéns ao autor por mais essa contribuição, realmente o agro Brasileiro agrega muito ao nosso Natal, essa época cheia de celebrações e delícias na mesa. Muita informação e também emoção, igual a velha do conto, também me vieram lágrimas aos cantos dos olhos.
    Um Natal abençoado à todos nós.

  5. Maravilha Evaristo! Mais um texto que mostra como o agro está presente no dia a a dia de todos nós! O texto flui de forma simples, agradável e surpreendente, com informações que revelam quão vasto é o seu conhecimento sobre o assunto agro e história do mundo!

  6. Obrigado OESTE por nos proporcionar a oportunidade de ler quinzenalmente o Dr. Evaristo de Miranda. Um deleite para a mente e alma. Texto provocativo, no sentido de apoiar a uma das cadeias produtivas que mais sofreram com a COVID (cadeias curtas de flores e frutas), e também por perdoar Eva, que levou um presente para O presente da humanidade!

  7. Texto maravilhoso Dr. Evaristo. O Agro trabalha, planta, colhe, mas tem Fé e sabe comemorar. A decoração de Natal é progressiva e nossa devoção vai crescendo a cada novo adorno e detalhes. Agradeço a descrição com a riqueza de plantas natalinas que me deram novas ideias para a decoração de nossa casa. Feliz e Santo Natal!

  8. Os textos do Dr. Evaristo tem ampliado meu conceito, respeito e comprensão sobre o agro.
    Sem dúvida, tais informações apresentadas de maneira tão fluente, contribui para elevar nosso orgulho como brasileiros.

  9. Parabéns Dr Evaristo! Artigo esplêndido. Um perito do Agro é também sábio conhecedor dos mistérios natalinos. Estou difundindo amplamente para os amigos.

  10. Boa tarde amigo.. começo lhe desejando neste tempo do Advento com a chegada do Natal muita esperança,saúde, paz.
    Seu artigo belíssimo como sempre nos trazendo conhecimentos de muito aspectos Natalinos, do Pinheiro das flores típicas, do significado da guirlandas, o movimento do Agro Negócio das frutas típicas e carnes.
    A beleza que a Igreja reza as Antifonas do Ó. O sede de Sabedoria..
    Fiquei impactado com a visita da velha Eva do fruto verde ao fruto maduro.
    VINDE SENHOR JESUS!!!MARANATHA.

  11. Professor Evaristo , sempre com artigos excelentes! Trazendo o campo , para o dia a dia do brasileiro! Sempre com dados científicos e sua vasta cultura e vivência! Adorei!

  12. Como sempre, uma leitura fácil e muito instrutiva desta vez aliando esta época gostosa com o tanto que Brasil produz.
    Compartilhando muito

  13. Seus textos trazem o agro para o público urbano. Evidenciam como todos os elos sempre caminharam juntos: tecnologia, inovação, sociedade, preservação. A mistura do atual com a história, embasada em números e dados é o que nos dá uma leitura fácil, gostosa e construtiva. Parabéns mais uma vez!

  14. Interessantíssimo! Muito esclarecedor…esse tema sempre me atrai a atenção…A publicação oferece informação não apenas de ordem histórico/científica, mas também imbuída de conhecimento simbólico sobre o Natal e seus elementos. Foi o que me mas chamou a atenção!

  15. Texto gostoso de ler, flui naturalmente e termina com essa presença sutil da Eva confirmando o nascimento de Jesus que viria nos salvar. Principalmente ela que foi indiretamente responsável pela nossa necessidade de plantar e colher para sobreviver fora do paraíso !! Sempre espero a coluna do Evaristo. Impecável.

  16. Sempre trazendo dados do agro bem importantes e histórias interessantes! Linda N. Sra e Eva. E assim o Natal é celebrado. E viva o menino Jesus! Feliz Natal!

  17. Excelente matéria. Resume tanto conteúdo sobre esse período tão especial para grande parte da humanidade. Que todos se lembrem do nascimento do nosso senhor Jesus e de seus ensinamentos.

    1. Excelente abordagem, parabéns pela associação da cadeia alimentar junto às festas, às vezes não notamos o impacto e importância do agronegócio na mesa de comemorações e a sua relevância na felicidade da sociedade mundial. Um feliz e abençoado Natal a vc e sua familia! Abs forte

  18. Bom texto. Tenho um desgosto de ver amigos e até parentes próximos criticar o agronegócio como o vilão da inflação da exploração capitalista. Parece que tem muita gente na esquerda que deseja a volta do homem do campo produzindo com enxada e foice. Toda a tecnologia envolvida nos dias de hoje e toda cadeia produtiva desnorteia quem critica por criticar. Vc deveria fazer um artigo sobre essa estrutura que envolve pessoas que trabalham duro na área rural e que estão envoltos em um escudo protetor de equipamentos, pessoal de alto nível e interessados e gostam de trabalhar no campo, universidades, centro de pesquisa, veterinária, biologia, ecologia, sustentabilidade, drones, equipamentos, fertilizantes, silos, armazéns, máquinas agrícolas, caminhões graneleiros, trens, frigoríficos, câmaras frias, energia limpa, orgânica, vegetais, animais, agrônomos, roupas,… ih acho que dá uma tese de doutorado de tanta coisa que está ligada ao setor primário. E olha que os salários dos empregados no setor tem aumentado nos últimos anos… impostos.. pib… exportações, saldo na balança comercial…

  19. Caprichou hoje, meu mestre!
    Por ser a época do Natal nos presenteou com um artigo suculento, saboroso e que nos deixa saudosos.
    Tal como a ceia de Natal!

    1. O Dr. Evaristo nos ensina a pensar. A avaliar como é importante o produtor rural e seu trabalho contínuo e árduo de tirar da terra proteínas, vitaminas, fibras, mas sobretudo, valores. Ao entrar em nossos lares, o agro traz consigo as riquezas que o Criador nos deixou. Para alívio de Eva, diante da paz do Menino Jesus…

    2. Me encho de orgulho de ser brasileiro todas as vezes que leio esta coluna! É lindo ver o Brasil sob a perspectiva do agro. O texto, como sempre, mantém um ritmo excelente. E o conto: um primor. Parabéns professor!

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