Foto: Montagem Revista Oeste/Shutterstoc
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A China pode unir ou contagiar o Ocidente

A existência de um inimigo comum faz com que as pessoas coloquem de lado as diferenças e se unam contra a ameaça. O risco aqui é combater o rival e ficar como ele

O historiador romano Salústio acreditava que o metus hostilis (medo do inimigo) fomentasse a coesão social e que sua ausência gerasse discórdias internas. Segundo ele, a vitória de Roma sobre Cartago gerou um vácuo que levou ao seu declínio. É o two-level game de Putnam.

A existência de um inimigo comum faz com que as pessoas coloquem de lado as diferenças, foquem nas semelhanças e se unam contra a ameaça. Como notoriamente falou Condoleezza Rice: “Precisamos de um inimigo comum para nos unir”. Somos seres tribais, “o inimigo do meu inimigo é meu amigo!”.

Estudos psicológicos mostram que atitudes negativas contra terceiros criam uma ligação maior que atitudes positivas (Bosson, 2006). A identidade se cria na contraposição.

O que uniu os nazistas foram os judeus, o que uniu os Aliados foram os nazistas, o que uniu comunistas e socialistas foram os ricos, o que uniu os EUA foram os comunistas e a URSS.

A guerra das Falklands fez aumentar a popularidade de Margaret Thatcher, e a guerra no Kosovo, a de Bill Clinton. É o efeito rally ‘round the flag: durante uma guerra, não se troca de comandante. E, ao contrário, depois da queda do Muro de Berlim, mais presidentes dos EUA passaram por processos de impeachment do que nos dois séculos precedentes. Mas, com a implosão da URSS, o escritor John Updike se pergunta: “Sem Guerra Fria, qual sentido de ser norte-americano?”.

O historiador Rossiter já escreveu: “Nada como um inimigo para acelerar uma nação no caminho da autoidentificação”.

Mas nem sempre. Depois do 11 de setembro, o número de norte-americanos que colocaram a bandeira fora de casa subiu vertiginosamente para 82%, mas, no longo prazo, a Guerra ao Terror não gerou maior coesão social, nem tendo sido atacados em pátria. O inimigo não era um país oficial e definido, era disperso demais. A Guerra Fria nos uniu, mas a Guerra do Vietnã nos dividiu. Não há garantias.

A primeira geração da História criada sem bullying canalizou suas frustrações nos linchamentos virtuais

Mas a falta de um inimigo comum faz com que se olhe para dentro, e inevitavelmente se notarão diferenças intragrupais. Essa falta foi um dos fatores que contribuíram para as recentes divisões e a polarização no Ocidente. A ausência de inimigos externos incentiva a encontrar inimigos internos. A ausência de guerras (externas) permite o surgimento de guerras civis. E já se fala de woke civil war.

A geração dos anos 1920 teve os nazistas da Segunda Guerra Mundial, seus filhos tiveram os comunistas na Guerra Fria e seus netos, sem inimigos nem guerras, encontraram uma causa maior (as pessoas não aceitam a pequenez da própria vida) na desigualdade, no racismo, no machismo e outros problemas dos EUA. Politicamente correto, social justice warriors, apropriação cultural, mansplaining, racismo estrutural, teoria de gênero foram os meios usados e as bandeiras ao redor das quais se uniram contra uma parte da sociedade norte-americana. A primeira geração da História criada sem bullying canalizou suas frustrações nos linchamentos virtuais e cancelamentos seriais. Há algo de catártico no linchamento: se gera coesão social, as pessoas se sentem boas e desafogam os próprios instintos negativos. Alguns falam de “necessidade de ter aliados e inimigos”.

O inimigo pode ser real ou imaginário, ou até criado intencionalmente (a “hipótese do bode expiatório”), mas com certeza há sempre uma discussão a respeito.

Antes da eleição de Trump, os EUA viam como maior inimigo a Rússia de Putin. Foi Trump a entender de onde vinha a maior ameaça e direcionar os holofotes para Pequim. E hoje sempre mais se fala de “Segunda Guerra Fria”, com a China. Faltam ainda as guerras periféricas. O dinamismo e o protagonismo de Xi Jinping (veja a relação com Hong Kong, Taiwan, Austrália e Suécia, a ação no Mar do Sul da China, etc.) também ajudaram muito a entender quem é o verdadeiro maior rival da superpotência norte-americana. Trump denunciou a crescente influência chinesa nas organizações internacionais (a estratégia de deixar o PCC entrar na governança global multilateral para que aprendesse as regras e os hábitos das democracias liberais não funcionou, vide OMS), e a estratégia foi abandoná-las. Mas isso deixou ainda mais espaço ao adversário. Em lugar de isolar o rival, se autoisolou! O diagnóstico estava certo, o remédio, errado.

Agora Biden, com o Summit for Democracy, está tentando fazer o contrário: unir as democracias e isolar a China. Não é tarefa fácil, até quando a China continuar a representar uma série de incríveis oportunidades econômicas, muitos países continuarão a escolhê-la como parceiro. China, Japão, Coreia do Sul, Austrália e outros acabaram de assinar um novo acordo comercial (RCEP). Ou seja, não depende só de nós.

Ao mesmo tempo, do ponto de vista político, a China está gerando sempre mais inimizades ao redor do mundo (Índia, Chile, Suécia, Austrália, Japão, Coreia do Sul), exatamente como consequência dessa atitude mais “ativa e altiva”. Afinal, seus aliados atuais parecem ser só Coreia do Norte e Venezuela.

O cenário mais provável é que esse Summit acabe em nada de concreto. Mas, ao mesmo tempo, iniciativas como essa, QSD (ou Quad), Aukus, ou a vacina da diplomacia entre EUA, Índia e Austrália, mostram, pelo menos, uma tomada de consciência. Nos principais países, esquerda e direita concordam. Alguns ainda não entendem, mas campos de concentração/reeducação, trabalho escravo, censura, desigualdade, racismo, xenofobia, machismo, direitos humanos das minorias étnicas e religiosas, direitos das mulheres e dos gays, falta de democracia, rule of law, privacidade são temas caros a todos, e, se focar nisso, eles também podem convergir.

Sun Tzu sugeriu que, “para entender o inimigo, você precisa ficar como ele”; Nietzsche e Marco Aurélio alertam exatamente contra esse perigo.

Na pandemia, as democracias liberais ocidentais imitaram os lockdowns do regime totalitário chinês; os Bancos Centrais norte-americanos e ingleses estão já estudando a hipótese de criar criptomoedas estatais, como a Yuan Digital; Biden já sugeriu a Boris Johnson que deveriam elaborar uma iniciativa similar à Nova Rota da Seda; o crescimento do PIB per capita chinês fascina a opinião pública de alguns países pobres. O risco aqui é combater o rival e ficar como ele: planejamento central compulsório, totalitarismo high-tech e falta de liberdade, o que o historiador escocês Niall Ferguson chama de “osmose de guerra”. Uma vitória assim não seria uma vitória.


Adriano Gianturco é coordenador do curso de Relações Internacionais do IBMEC-MG

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4 comentários Ver comentários

  1. Exato. Foi o que aconteceu nos pós guerra. Rússia, inimigo dos EUA.
    Mas agora vemos que a mídia traz a distorção do real inimigo, no contexto da pandemia.
    Os vetores estão invertidos e muitos se aliam ao lado “negro da força”.
    O combate não irá terminar cedo. Famosa frase de Shakespeare: “O inferno está vazio e todos os demônios estão aqui”.

  2. Apesar do foco interessante do artigo virou um panfleto com tantas expressões desnecessárias em inglês. Ficou raso, como se colocando uma expressão em inglês o argumento fica pronto. Ficou sem nenhuma qualidade intelectual.

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