5 perguntas para o médico Flávio Cadegiani, pesquisador do tratamento precoce

Endocrinologista que estuda os efeitos de medicações para tratar a covid-19 aos primeiros sintomas foi a Manaus para ajudar no combate à pandemia
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O médico endocrinologista Flávio Cadegiani
O médico endocrinologista Flávio Cadegiani | Foto: Divulgação/Facebook

Em meio ao colapso que atinge o sistema de saúde de Manaus, o médico endocrinologista Flávio Cadegiani foi até a capital do Amazonas para avaliar os efeitos da contaminação da nova variante do coronavírus e ajudar no tratamento de pacientes com a covid-19. O médico, que é editor de uma revista do grupo da Nature e pesquisador de um dos maiores estudos sobre tratamento precoce da doença no Brasil, conta o que observou em sua visita a Manaus e por que mudou de ideia a respeito da abordagem antecipada. Cadegiani conversou com Oeste e respondeu a cinco perguntas sobre a pandemia do coronavírus. 

1 – O senhor foi a Manaus para ajudar no tratamento de pacientes contra a covid-19. Qual é a situação da saúde na cidade?

Chegamos a Manaus na segunda-feira 1º de fevereiro, e a situação é até pior do que eu imaginava. Em hospital privado, só estão sendo internados pacientes com mais de 50% de comprometimento pulmonar. Não existem leitos disponíveis. Na minha avaliação, a cidade investiu pouco no tratamento precoce. Usaram altas doses de hidroxicloroquina naquele estudo [realizado em abril de 2020, o estudo envolveu 81 pacientes hospitalizados em Manaus e foi interrompido seis dias depois, quando 11 pessoas morreram], e morreu gente. Isso gerou muito medo; quem indicava o tratamento precoce sofreu retaliação. Coincidência ou não, a cidade teve uma explosão de casos. Também trouxemos R$ 30 mil em doações de medicamentos como corticoides e anticoagulantes.

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2 – E a respeito da nova cepa do coronavírus no Estado do Amazonas, o que o senhor pôde observar?

É possível que a nova cepa tenha surgido ainda em setembro do ano passado. Mas o crescimento e a explosão de casos só ocorreram em dezembro. Em comparação com a outra variante do vírus, o que se observa é que aqui existem muitos pacientes internados que são jovens, sem fator de risco e muitas mulheres. Além disso, acompanhamos alguns pacientes contaminados por essa nova cepa, que receberam tratamento em Brasília. Os exames de sangue já estavam alterados antes mesmo da manifestação de sintomas. Não sabemos se a doença evolui mais rápido ou se a primeira fase é completamente silenciosa. Esse fato muda a forma de enxergar a doença porque a janela para o tratamento precoce fica menor, pois, quando o paciente manifesta sintomas, já está na segunda fase. 

3 – O senhor chegou a dizer que não acreditava no tratamento precoce. Por que mudou de opinião?

Eu não falava contra, mas não acreditava. Só que começou a ficar muito claro que funcionava. Em poucos dias, nós tivemos de mudar o formato do nosso estudo sobre tratamento precoce porque estava ficando antiético dar placebo para os pacientes. Temos um dos trabalhos mais bem desenhados do mundo e em grande escala que está avaliando a abordagem precoce, que será publicado em breve. Infelizmente, a narrativa do tratamento precoce se perdeu. Porque não se trata de ser contra o tratamento precoce, as pessoas são contra o que essa questão representa politicamente. Estamos matando por divulgar contra o tratamento precoce. 

Leia também a reportagem “O que Porto Feliz tem a ensinar ao Brasil?”, publicada na Edição 35 da Revista Oeste

4 – Parte da comunidade médica alega que as medicações recomendadas para o tratamento precoce não têm comprovação científica no combate à covid-19. Mesmo assim, muitos médicos prescrevem as medicações e relatam a melhora de seus pacientes. Por que ainda não há estudo para comprovar a eficácia desses remédios? 

Não existir comprovação científica não quer dizer que não funciona. Acho covarde exigir nível de evidência 1A sendo que não houve tempo hábil e não há como financiar pesquisa para gerar resultado com esse grau de exigência. Você precisa de pelo menos US$ 500 milhões para gerar esse tipo de pesquisa. Não dá para exigir a robustez de que uma pesquisa dessas necessita, a não ser que a droga seja patenteada ou que exista financiamento ou interesse global no estudo. Muitos estudos usaram as drogas do tratamento precoce em pacientes hospitalizados, em casos graves, e consideram que elas não funcionam, sabendo que a doença tem diversas fases. O que me causa estranheza é essa luta contra o tratamento. Mesmo sem comprovação, na ausência de alternativas terapêuticas, é melhor você usar alguma coisa que tenha qualquer nível de evidência e não faz mal do que não usar nada. Se você falar que a ivermectina [vermífugo]  faz mal,  a medicina está causando mal à humanidade há décadas. Isso se chama princípio da beneficência. Falta pouco para comprovar. E, mesmo assim, comprovar não significa 100%. Você vê certa comemoração perversa com o fato de que algumas pessoas que tomaram hidroxicloroquina acabaram hospitalizadas. Como se a droga tivesse de ter 100% de eficácia para comprovar que funciona.  

“Acho que o vírus é muito forte para você ficar fazendo competição entre modalidades.”

5 – O senhor é favor de vacinas contra a covid-19? 

Sou a favor da vacinação, mas há pessoas que falam que vão se vacinar como se fosse uma indireta contra o tratamento precoce. O tratamento precoce não é excludente nem barreira para a vacinação. Acho que o vírus é muito forte para você ficar fazendo competição entre modalidades. E tem mais: a respeito da alegada falta de comprovação científica dos medicamentos, também não houve tempo hábil para comprovar a eficácia das vacinas e, mesmo assim, elas estão sendo aplicadas. Se você abre exceção para vacinas, de modo a permitir o uso emergencial do produto, por que não abrir exceção para a medicação? 

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18 comentários Ver comentários

  1. Permitam-me fazer um contra ponto e não é para polemizar, apenas para reflexão. Essa reflexão que faço- com todo respeito- não é contra o tratamento precoce, mas sim para enfatizar a falta de estrutura e de logística para fazê-lo. Na minha cidade – e acredito ser assim em muitas outras- as consultas no SUS são feitas mediante senhas. Observei na mídia local que essas senhas nas UPA’s e UBS’s terminam sempre por volta de três da tarde , mandando muitos pacientes de volta para casa. Esses retornam na madrugada do dia seguinte somando-se aos novos adoentados do dia. Aqueles que conseguem atendimento, muitas vezes o médico solicita uma tomografia do tórax. Para esses o calvário recomeça, pois os exames são marcados para semanas e até meses depois. Nas farmácias dos postos- não raro- os remédios acabaram ou ainda não chegaram não sei de onde. Quando médicos e enfermeiros estão de folga ou com licenças médicas não há substituição. E pior: os atendimentos se encerram às nove da noite impreterivelmente e você não é atendido nem se tiver uma faca cravada no peito. A seleção de quem entra e quem sai é sabidamente realizada por seguranças terceirizados. Cansamos de ver pacientes da pediatria serem encaminhados para outros hospitais por falta de RX que funcione ou gesso para as fraturas das crianças. Neste cenário o quê se apresenta controverso não é se o tratamento precoce funciona ou não, mas a capacidade do SUS de promovê-lo à população. É isso. E só isso . Cito como exemplo emblemático o tratamento precoce do câncer que sabidamente promove a cura com mais eficácia e celeridade. No mês de combate ao câncer de mama houve uma campanha bonita com prédios iluminados de rosa , etc. As mulheres chegaram aos postos para fazer a tal tomografia preventiva da mama. Era o “MÊS” do combate ao câncer de mama. Resultado: no dia 15 daquele mês as senhas terminaram e o mês de combate ao câncer de mama virou “Quinzena”. É essa a situação: tratamento precoce para o câncer funciona? funciona. Deste jeito, funciona? Não.

    1. Júnior, usando o seu exemplo, veja que ninguém questiona se o tratamento precoce de câncer é melhor, mesmo sabendo que não há tomografia disponível a todos. No caso da Covid 19 há esse questionamento sim, pois politizou-se o assunto. Em quase tudo, gastos com prevenção evitariam gastos muito maiores com as consequências (prevenção x incêndios, rede coletora de esgotos x difteria / tuberculose, vacinação em massa x epidemia, para raios, sistemas anti roubo, etc etc etc). Enfim, se não há remédios ainda, que se busquem os remédios (mas não dizer que remédios não servem)

  2. todos os remédios indicados para tratamento precoce do covid estão em circulação à décadas e não mataram ninguém, mais ainda, não são patenteados e são baratos, ao contrário das vacinas (que também não possuem 100% de comprovação científica) que vai encher os bolsos da grandes farmacêuticas com bilhões, ademais a sabedoria popular já diz que até “unha encravada” se tratada precocemente é melhor, para finalizar chá de alho contra gripe não tem comprovação científica mas é o eu tomava quando criança (e ainda tomo) com 100% de eficácia.

  3. Bom médico. Além de sua experiência e de sua opinião lançou desafios para pensar. A lógica também confere referências científicas. Fiquei impressionado com os valores apontados para uma pesquisa que explore a eficiência de tratamentos precoces. E não falou no tempo, que também é inimigo dos apressadinhos. Agora lembrei de uma piadinha que corre hoje. Se o Presidente acatar o pedido da ANVISA e vetar o item do prazo de cinco dias ou dez dias ele poderá dizer que a CIÊNCIA VENCEU! Pois quem foi pedir veto foi gente da área de pesquisa científica, e o pessoal que quer diminuir os prazos são congressistas, longe dos diplomas da área científica.

  4. Médico que critica tratamento precoce está fazendo militância e não medicina. O fato é que a gente não produz porra nenhuma de conhecimento científico, apesar de ser um dia países que mais inscreve artigos nos compêndios mundiais. E com isso surgem os “palpiteiros especializados” e Mandetta foi o ícone dessa leva de ignorantes da medicina.

  5. Tratamento precoce tornou-se matéria política para quem posiciona-se contra o Presidente. Não se importam em saber se o tratamento funciona ou não. O que importa no caso é DISCORDAR

  6. Excelente artigo Paula, como tudo o que vc escreve. O interessante é notar que a ‘comprovaçāo científica’ pode ser descomprovada cientificamente. Lembram de que ovo fazia mal? Mudou. Margarina melhor que manteiga?. Mudou. Celular dava câncer? Os que se posicionam contra qq terapia por sórdidos motivos políticos não passam de crápulas covardes.

  7. O mais lamentável de tudo é ver médicos, biólogos, pesquisadores, cientistas criticando e até desqualificando o uso de determinados remédios para o combate precoce da doença. É uma vergonha e comprova como as universidades, os ambientes acadêmicos, etc, estão tomados por militantes esquerdistas e ou com interesses diversos, que não a de “salvar vidas”.

  8. Sensato e esclarecedor. O que diz no final da entrevista faz todo o sentido: Se as vacinas, em especial a chinesa, não tem eficácia científica comprovada mas são aplicadas, porque rejeitar o tratamento precoce com os medicamentos disponíveis?

    1. Imaginem se os índios precisassem de Anvisa e comprovação cientifica no uso de raizes e folhas medicinais? Já estariam exterminador há tempos ou migrariam para as cidades. Defender distanciamento e lockdown sem tratamento precoce é querer é criminoso… e os médicos e seus conselhos caíram nessa armadilha posicionar-se por suas preferências políticas e esqueceram os pacientes. O verdadeiro exercício da medicina vocacionada já ficou ora trás e a grande maioria pensa em salário e honorários.

  9. Duas coisas muito importantes que ele disse, não existir comprovação ciêntifica não quer dizer que não funciona, outra, é melhor usar alguma coisa que talvez possa me fazer bem e que não me fará mal nenhum, do que não usar nada.

  10. Coerente! parabéns Dr. Flávio Cadegiani, pela coragem de enfrentar a grande maioria de médicos covardes, e alguns até contribuindo para milhares de mortes por coronavirus.
    Qualquer pessoa honesta e de um pouquinho de inteligência sabe que qualquer doença é bem mais fácil de tratar, cuidando precocemente.

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