Embora já estivéssemos próximos do verão no hemisfério Sul, o setor intermediário das latitudes médias da América do Sul — especialmente no Brasil, como também em outras regiões do hemisfério — evidenciou o quanto os embates entre massas de ar permaneceram acentuados ao longo de novembro. O frio tardio das altas latitudes insistiu em se manter presente, com massas polares significativas atuando nas médias latitudes. O encontro com áreas mais quentes, justamente nesse período de transição sazonal, provocou quadros meteorológicos com sistemas sinópticos (de grande escala) ainda bem desenvolvidos, como ciclones extratropicais continentais. Esses sistemas foram acompanhados pela formação de grandes células de trovoadas, incluindo Complexos Convectivos de Mesoescala (CCMs), favorecidos pelo forte contraste térmico observado.
Assim, os Estados do Sul do Brasil — e, em alguns momentos, também unidades da região Sudeste (SP, RJ e MG) e Mato Grosso do Sul, no Centro-Oeste — registraram eventos meteorológicos mais extremos enquanto persistiu essa condição de grande escala, representada por Anticiclones Polares Móveis (APMs), frentes frias e ciclones extratropicais (CETs). Em outras palavras, há diferença entre trovoadas e supercélulas isoladas e aquelas formadas a partir da passagem de grandes fenômenos sinópticos, como sistemas frontais, que tendem a favorecer a formação de um número maior de células, ocupando áreas mais amplas e, muitas vezes, organizadas, com potencial até para a formação de um CCM.
Receba nossas atualizações
O primeiro caso notável ocorreu em 3 de novembro, quando o município de Sarandi (RS) registrou impressionante precipitação de granizo (esferas de gelo entre 0,4 e 0,5 mm) e saraiva (tamanhos bem superiores, sem formato definido), com pedras de gelo do tamanho de limões cobrindo ruas e estradas. O fenômeno foi provocado por uma única célula de trovoada (nuvem Cumulonimbus — Cb) isolada.

Uma grande quantidade de gelo formou-se dentro da Cb, entre baixa e média altitude. Parte dessa massa subiu e desceu várias vezes, aumentando o tamanho das esferas de granizo originalmente formadas. Quando perdeu sustentação — ao sair das correntes de vento que a mantinham flutuando ou ao superar a força de gravidade — precipitou abruptamente.
A saraivada danificou cerca de 500 residências, causou prejuízo considerável a agricultores (estimado em R$ 10 milhões) e levou a prefeitura a decretar estado de emergência. O episódio ilustra como uma única nuvem pode produzir grande destruição, a depender de sua trajetória e dos elementos atingidos em superfície. Água, gelo, vento e eletricidade são sempre esperados — e, muitas vezes, em grande quantidade.
Diferentemente do ocorrido em Sarandi, os eventos registrados a partir de 7 de novembro tiveram maior dimensão. Não se tratou de uma célula isolada, mas de várias, algumas extremamente organizadas, que se espalharam por praticamente toda a região Sul do Brasil, avançando até o sul da Bahia. Outras células ainda se formaram posteriormente sobre amplas áreas do Norte e do Centro-Oeste. Nesta primeira parte, analisamos a conjuntura do quadro meteorológico de grande escala — o quadro sinóptico — do evento que mais se destacou entre os ocorridos em novembro. Vale lembrar que outras células de trovoada, formadas em condições análogas, persistiram até a última semana do mês.
Quando ocorre uma composição atmosférica mais complexa, eleva-se a probabilidade de fenômenos severos associados, aumentando o risco à vida e ao patrimônio. No evento em análise, houve a combinação de um quadro sinóptico envolvendo a formação de um CET continental, de grande escala. Sua banda de nebulosidade apresentou condições para o desenvolvimento de outros sistemas de mesoescala. Embora menores do que o próprio ciclone, essas células encontraram ambiente favorável para rápido e intenso desenvolvimento, tornando-se mais perigosas do que o CET que as originou. Esse tipo de formação é classificado como fenômeno secundário derivado, que, após maturado, torna-se quase independente da perturbação inicial.
A presente análise começou despretensiosamente um dia antes, durante o acompanhamento de dois grandes CETs: um com núcleo sobre o oceano Pacífico Sul, cerca de 1.000 km da costa do Chile (setor Oeste), em fase de dissipação; e outro a pouco mais de 1.500 km da costa do Rio Grande do Sul, no Atlântico Sul (setor Leste), em fase de maturação, derivado de outra perturbação.

Quanto às latitudes, ambos estavam na mesma faixa, separados por aproximadamente cinco graus, seguindo padrão típico de julho (inverno austral), com deslocamento alinhado em latitudes mais baixas. O interesse, porém, surgiu pela configuração da banda nebulosa do ciclone do setor Leste, cujas perturbações ultrapassaram o Equador e alcançaram o hemisfério Norte em cerca de nove horas, com ápice às 12h (horário de Brasília).
Ao mesmo tempo, observava-se que esse CET no Atlântico era intensificado por sua alta de retaguarda, alimentada pela corrente de vento proveniente do mar de Weddell — uma das mais frias da Antártida — avançando sobre o oceano polar. Esse escoamento favorece a formação de APMs mais intensos que podem atingir o Brasil pela rota Sul–Sudeste. Não foi o caso desta vez: o efeito limitou-se ao reforço da circulação.
O ponto central não eram os dois sistemas em si, mas sim o que ocorreria entre eles, sobre o continente sul-americano, dado o deslocamento lento de ambos. A dianteira do CET no Pacífico favorecia o avanço de ar quente e úmido para a região central da América do Sul, enquanto um escoamento frio, oriundo da região subantártica, penetrava pelo sul da Argentina, formando nova alta pressão fria que avançaria para latitudes mais baixas. O embate entre essas massas era evidente e aumentava a probabilidade de formação de um CET continental — o que de fato ocorreu, sendo alvo de alertas emitidos por vários Estados, prevendo ventos fortes e chuva intensa.
Nas primeiras horas da manhã, toda a faixa frontal já apresentava nuvens bem desenvolvidas, algumas com sinais claros de convecção intensa. O CET continental evoluía lentamente, pouco estruturado, movendo-se para Leste em direção ao oceano. Contudo, na banda nebulosa mais ao Norte do núcleo de baixa pressão em superfície, um conjunto de nuvens Cb destacou-se, alcançando estágio de supercélula e, em seguida, formando um grande CCM.
As células de trovoada podem se originar isoladamente — por aquecimento térmico, atuação orográfica ou convergência de ar quente em superfície — ou podem ser geradas por perturbações dinâmicas de grande extensão, como frentes frias, formações multicelulares (abertas ou fechadas), linhas de instabilidade ou estruturas globulares (como CCMs).
No caso analisado, a perturbação original foi frontal. Contudo, embora a maioria das células tenha acompanhado a banda do CET enquanto este avançava para Leste, algumas atingiram maturação independente após terem sido impulsionadas durante o estágio de desenvolvimento do ciclone. Situações assim não são raras quando há fortes gradientes de temperatura e umidade em pequenas distâncias. Esse foi o quadro inicial que disparou os sistemas secundários responsáveis por óbitos e graves transtornos rurais e, especialmente, urbanos.
Na próxima parte, apresentaremos as grandes células de trovoada formadas na tarde de 7 de novembro, uma delas evoluindo para um CCM. Discutiremos também as avaliações feitas sobre fenômenos eólicos, como tornados, e teceremos críticas às classificações divulgadas de maneira precipitada por parte da mídia, que politizou a tragédia — especialmente enquanto ocorria, em Belém (PA), o carnaval fora de época chamado COP Climática.






































Entre ou assine para enviar um comentário.
Você precisa de uma assinatura válida para enviar um comentário, faça um upgrade aqui.