Uma celebração promovida pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), nesta semana em São Paulo, marcou os dois anos de existência da Aliança dos Estados do Sahel (AES), coalizão estabelecida pelos governos militares de Mali, Níger e Burkina Faso depois de sucessivos golpes de Estado na região.
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O evento, intitulado “Vozes da África: revoluções pan-africanas hoje e o legado de Thomas Sankara”, reuniu representantes das lideranças das nações integrantes da AES, que debateram os impasses enfrentados por movimentos revolucionários africanos e a resistência ao neocolonialismo.
Lançamento de dossiê e contexto da Aliança
Durante o encontro, ocorreu o lançamento do dossiê “O Sahel em busca da soberania”, elaborado pelo Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, além da exibição de um documentário do jornal Brasil de Fato, com apresentações culturais, comidas e bebidas típicas. O MST apresentou a AES como símbolo da luta por emancipação africana e enfrentamento ao imperialismo.
Os países que compõem a aliança eram governados por presidentes eleitos em pleitos reconhecidos internacionalmente, mas enfrentaram críticas domésticas por causa de baixa participação política, problemas de corrupção e dificuldades para combater crises de segurança interna.
No caso do Mali, Ibrahim Boubacar Keïta, vencedor das eleições de 2013 e reeleito em 2018, permaneceu no poder até agosto de 2020, quando foi deposto depois de protestos e denúncias de corrupção e avanço de grupos jihadistas. Posteriormente, um governo civil-militar de transição foi instaurado, mas um novo golpe em maio de 2021 resultou na prisão dos novos líderes.
Em Burkina Faso, o presidente Roch Marc Christian Kaboré, eleito em 2015 e reconduzido ao cargo em 2020, foi retirado do poder por militares em janeiro de 2022. O comando do país mudou novamente em setembro do mesmo ano, quando o capitão Ibrahim Traoré assumiu o controle da junta.
Golpes, ruptura com a França e novos aliados
No Níger, Mohamed Bazoum foi eleito em 2021, consagrando a primeira transferência democrática de poder no país. Sua gestão terminou em julho de 2023, depois de ser deposto por militares, que justificaram a ação pela incapacidade do governo em conter a insegurança e a corrupção.
A fundação da AES ocorreu em 16 de setembro de 2023, durante a instabilidade no Níger, quando a Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (Cedeao) ameaçou uma intervenção militar para restaurar o governo deposto. O acordo firmado entre as juntas militares de Mali, Níger e Burkina Faso prevê apoio mútuo contra ameaças de rebelião armada ou agressão externa, estabelecendo que ataques à soberania ou ao território de um país do bloco serão vistos como agressão a todos.
Depois dos golpes, as três nações, antigas colônias da França, passaram a romper laços com o antigo colonizador e intensificaram relações com a Rússia, recebendo assessores militares, mercenários, treinamento e armamentos. A China também declarou apoio à soberania dos Estados africanos, enquanto França, Estados Unidos e União Europeia suspenderam acordos de defesa.
O MST, por sua vez, refutou a ideia de que a AES seja formada por regimes autoritários. “Os países membros da Aliança do Estado do Sahel não são ditaduras, e sim levantes populares contra o colonialismo francês e o imperialismo norte-americano”, afirmou Messilene Gorete, da coordenação do Setor de Internacionalismo do MST ao jornal Folha de S.Paulo.
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