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Brasil

Profissões em extinção: o mestre dos sapatos

Num mundo cada vez mais apressado, ainda há quem insista em preservar tradições de um tempo que aparentemente já passou

'Alemão' coloca fogo em um sapato de couro para a tinta penetrar melhor | Foto: Cristyan Costa/Revista Oeste

Em um tablado com duas cadeiras de couro, no Conjunto Nacional, na Avenida Paulista, fica Agnaldo, conhecido como “Alemão”, 82 anos. Ele trabalha como engraxate há 60 e está no mesmo lugar há 57. “Já me tornei patrimônio aqui”, brinca o senhor de estatura baixa, acanhado, de olhos azuis, ao mesmo tempo em que organiza seis pares de escovas, buchas e tintas. Conhecidos passam ao redor, o cumprimentam e dizem sempre quase a mesma coisa a novos visitantes: “Esse aí tem história para contar”.

Um cliente chega com um par de sapatos sociais marrom, surrados e sem brilho. “Pode voltar daqui a meia hora”, avisou Alemão, enquanto tateia o couro com as mãos calejadas sujas de graxa. O homem abre uma gaveta, na parte inferior do tablado, separa alguns frascos de tinta e pega um pano branco. “O primeiro passo é limpar”, ensina Alemão, ao derramar um pouco de tinta, na sequência, e atear fogo com um isqueiro. As chamas logo se apagam. “As pessoas se assustam, porém, não deveriam. Da mesma forma que os poros do corpo dilatam, assim é com o couro. Ao colocar fogo nele, consigo fazer a tinta penetrar melhor.”

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Oficina de trabalho de “Alemão”, no Conjunto Nacional, na Avenida Paulista | Foto: Cristyan Costa/Revista Oeste

Clientes que preferem o serviço na hora estranham o procedimento num primeiro momento. “Contudo, de tão rápido que é, a pessoa mal sente os pés ficarem quentes”, tranquiliza Alemão. Um dos que experimentaram essa sensação foi o então juiz da Lava Jato, Sergio Moro, “que gostou muito do serviço quando foi atendido ali”, conta. Alemão também presta serviço para pessoas famosas que frequentam o tablado e “políticos safados”, como ele mesmo diz, sem citar nomes e sem rodeios. O engraxate orgulha-se de já ter cuidado dos sapatos de figuras de sucesso na década de 1970, como Agnaldo Timóteo e Odair José.

Após “rejuvenescer” o couro, Alemão faz o filete do sapato, ao redor da sola, passando um pouco de graxa. Depois, hidrata, passa uma escova e coloca a mão na parte de dentro do calçado, para tirar o aspecto de “amassado”. Alemão aprendeu essas técnicas antes de se tornar engraxate, quando trabalhou num curtume (local onde ocorre o tratamento químico de couro cru ou pele animal) em uma fazenda, no Rio Grande do Sul. Alemão também restaura bolsas e já fez até sofás.

Sapato de couro – antes e depois | Foto: Cristyan Costa/Revista Oeste

Ele também já serviu como militar e teve uma banca de jornal. Mas se deu bem mesmo como engraxate. “Trabalho há muitos anos nesse ramo e vou morrer fazendo isso”, assegura. Para ele, “a vida é uma brincadeira” e é preciso aproveitá-la fazendo o que se gosta, “antes que ela acabe”.

Leia outros perfis na reportagem “Profissões em extinção”, publicada na Edição 152 da Revista Oeste

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4 comentários
  1. Angela
    Angela

    Muito boa a reportagem. E que sirva de estímulo para alguns jovens que queiram ingressar neste ofício; arte que deve ser preservada.

  2. Miguel Wilton Lobato Reça
    Miguel Wilton Lobato Reça

    A primeira coisa que mando fazer ao comprar esses sapatos modernos é costura-los, é claro, com um velho e bom sapateiro! Graxa sempre, sapatos feios é coisa dessas novas gerações Woke!

  3. Christian
    Christian

    Um bom sapateiro está ficando raro e essas profissões estão desaparecendo.
    Um homem pode estar vestido com simplicidade, mas se tiver um sapato impecavelmente limpo e cuidado, diz tudo sobre ele.

  4. RICARDO TEIXEIRA DA CRUZ RIOS
    RICARDO TEIXEIRA DA CRUZ RIOS

    Parabéns, Alemão. Que você continue a fazer o que gosta, mesmo servindo a pessoas safadas.

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