Refugiados afegãos estão à espera de um recomeço no Brasil

Quase 200 pessoas vivem improvisadas num espaço do Aeroporto de Guarulhos, enquanto aguardam vagas em abrigos de São Paulo

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As famílias chegam ao aeroporto com a esperança de conseguirem um abrigo no Brasil
As famílias chegam ao aeroporto com a esperança de conseguirem um abrigo no Brasil | Foto: Revista Oeste

O chão foi forrado com cobertores para improvisar uma cama de solteiro em um espaço de 1 metro quadrado, se não menor. Os lençóis ajudam na cobertura, na tentativa de criar alguma “privacidade”. Esse é local onde o médico Mohammad Nabi, 31 anos, está vivendo há 35 dias, desde que chegou ao Brasil. O espaço fica no Terminal 2, do Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos.

Nabi vendeu tudo que tinha no Afeganistão, mas o dinheiro foi suficiente para pagar apenas a viagem dele. Com o visto humanitário, agora, o médico tenta iniciar uma nova vida no Brasil, para ajudar a família a fugir do regime do Talibã.

“O dinheiro só dava para uma pessoa, então, resolvi vir. Agora, quero trazer minha família. Lá, cada dia eles dormem em um lugar diferente, para tentar se esconder dos militares”, disse Nabi. A esperança dele é conseguir um emprego no Brasil. “Ainda não pude achar, porque eu não sei o idioma, mas estou tentando aprender quanto antes.”

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O médico mostra o espaço em que está dormindo há mais de 30 dias no aeroporto | Foto: Revista Oeste

A situação no aeroporto piorou nos últimos meses, desde que Oeste esteve no local em setembro. Na época, pouco mais de 70 afegãos estavam vivendo no saguão aguardando vaga em abrigos no país. Nesta semana, o número chegou a 180 pessoas, entre crianças, mulheres e idosos.

Um desses idosos tem 66 anos, sofre do mal de Alzheimer e tem um problema na coluna que dificulta a locomoção. Ele viajou ao Brasil com a mulher e o filho, ex-militar do governo de coalizão e que era perseguido no país.

Outra refugiada que está no abrigo há uma semana com os filhos também deixou o país por causa da perseguição às mulheres. “Eu consegui estudar, me formei em medicina, trabalhava na saúde pública, mas com a volta do Talibã tudo acabou”, contou. “Antes as pessoas tinham uma vida boa”, lamentou.

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O acampamento foi improvisado no saguão do aeroporto | Foto: Revista Oeste

Uma estudante que chegou ao país há uma semana conseguiu abrigo na casa de uma família de São Paulo. A jovem de 22 anos teve o pai, que fazia parte do governo de coalizão, torturado e assassinado pelo grupo extremista. Antes de conseguir fugir do país, ela foi violentada pelo Talibã.

São muitas histórias que compartilham perseguição, dor e sofrimento. No Brasil, o único objetivo dos refugiados é recomeçar. Mesmo vivendo em condições precárias no aeroporto, os afegãos afirmam que ainda é melhor do que continuar no país natal.

Há dois meses no Brasil, Jarúlla Mansoori, ministro do antigo governo, está vivendo com a família em um abrigo, depois que passou algumas semanas no aeroporto. Os cinco filhos e a esposa estão aprendendo português e tentam se adaptar ao país. “O Talibã está matando gente do antigo governo, e perseguindo minorias religiosas. Eles violam os direitos das mulheres, das crianças, os direitos humanos. Por isso, deixei o meu país”, contou.

Mohammad Tahir é outro que tem a esperança de se juntar aos familiares que ainda aguardam a emissão do visto humanitário. Eles saíram do Afeganistão e estão no Paquistão. Em uma chamada de vídeo, ele encorajou os que ficaram. “Aqui é muito melhor, venham”, disse.

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Os refugiados estão acampados em um mezanino do Terminal 2 do Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos | Foto: Revista Oeste

Mehran Bakhshi trabalhava no Ministério da Defesa do governo de coalizão quando o Talibã tomou o poder. “Mandaram todos para casa, disseram que não matariam ninguém”, contou. “Depois de uma semana, dez dias, eles começaram a matar aqueles que eram do governo.” Ele disse que perdeu muitos amigos e parentes próximos. “Os assassinatos ocorriam sempre durante a noite.”

Bakhshi chegou ao Brasil sozinho. Ele deixou a família vivendo com parentes em uma situação precária. “Minha família vive escondida, não pode trabalhar, não tem dinheiro, está dependendo de ajuda”, disse. Ele, que trabalhava na área da saúde, tem a esperança de conseguir trazer os parentes para o Brasil. “Se continuarem lá, uma hora ou outra o Talibã vai achá-los e serão mortos”, lamentou.

As famílias contam com doações para montar camas e passar os dias no aeroporto | Foto: Revista Oeste

O fluxo de imigrantes vindos do Afeganistão é variável. “Isso dificulta uma organização para melhor atendê-los”, disse Aline Sobral, voluntária do Coletivo Frente Afegã, que está no aeroporto recepcionando e ajudando as famílias.

Dados do Ministério das Relações Exteriores mostram que, desde setembro de 2021, até outubro deste ano, foram autorizados 6,2 mil vistos a afegãos. O país passou a ser um dos principais destinos para os refugiados desde que o governo brasileiro publicou uma portaria estabelecendo a concessão de visto humanitário aos cidadãos.

A brasileira Aline Sobral é da Frente Afegã e ajuda as famílias que chegam no aeroporto | Foto: Revista Oeste

Voluntários

Os grupos de voluntários que estão atuando no Brasil tentam organizar a vida dos refugiados. Eles recebem doações e ajudam com banhos, alimentação e com aulas de português. “Estamos enxugando gelo, tentando suprir uma necessidade básica”, disse Sobral, da Frente Afegã.

Os banhos não são regulares. Na medida do possível, os grupos tentam organizar todos os afegãos. Os voluntários contam com a ajuda de donos de hotéis na região que abrem as portas para a higiene dos refugiados. “Como eles dependem dessa ajuda, há vezes que ficam três, cinco dias sem banho”, contou Sérgio Moreira, um dos voluntários que atuam no local.

Ele ressaltou que o tempo de permanência das famílias no aeroporto aumentou muito de uns meses para cá. “Por causa da dificuldade logística, o poder público está demorando para achar locais para abrigar as famílias”, explicou.

O médico Nabi está se dedicando às aulas durante esses dias que passa no aeroporto. Ele tem a ajuda de Vânia Altef, voluntária da Aliança Evangélica. “O idioma é a primeira barreira que eles encontram quando desembarcam no país”, contou.

Os refugiados contam a com a ajuda de voluntários para aprender o idioma | Foto: Revista Oeste

Falta estrutura

Os abrigos instalados em São Paulo não estão dando conta de acolher todas as famílias, pois não há locais suficientes para acomodar os afegãos. Desde o início de outubro não houve mais acolhimento em Guarulhos e nem em outras cidades da região.

A prefeitura do município explicou que a verba federal de R$ 240 mil foi enviada no mês passado e garante a abertura de mais cem vagas. Porém, a previsão é que elas sejam abertas ainda nas próximas semanas.

O Ministério da Cidadania informou a Oeste que o recurso para atendimento emergencial foi liberado “com base na estimativa de atendimento feita pelo próprio município”. A pasta ainda acrescentou que a gestão do Sistema Único de Assistência Social é compartilhada com o Estado e o município.

A Secretaria de Desenvolvimento Social do Estado afirmou que está investindo R$ 2,8 milhões para a criação de uma Casa de Passagem, em Guarulhos, localizada próxima ao aeroporto. A estimativa é abrir 50 vagas de acolhimento até dezembro.

Muitas mulheres com crianças estão entre os refugiados que chegam ao país | Foto: Revista Oeste
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