Urna: sorte de uns, azar de outros

Em vez de eleição, sorteio: assim nasceu a democracia na Grécia antiga
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Urna eletrônica brasileira
Urna eletrônica brasileira | Foto: Roberto Jayme/Ascom/TSE/Agência Câmara de Notícias

Urna veio do latim urna, vasilha de muitos usos antes de receber votos: guardar água e azeite, as menores; enterrar ou incinerar os mortos, as maiores. A grega kleroterion, esta, sim, foi a primeira máquina de votar. Só que em vez de eleição havia sorteio: assim nasceu a democracia na Grécia antiga. O objetivo era evitar a corrupção e garantir que Atenas fosse bem administrada.

A kleroterion privilegiava o acaso, cujas leis ignoramos. Se traduzida, seria clerotério. Designava dispositivo de pedra com buracos, tubo de madeira e bolas pretas e brancas. Os nomes dos candidatos eram inscritos em fichas de bronze ali inseridas. Por manivela, fazia-se com que a cada volta uma bola saísse da kleroterion. Se fosse preta, retiravam a primeira fila de fichas, excluindo aqueles nomes. Se fosse branca, a fila de fichas permanecia no lugar. E a seleção continuava até chegar-se ao resultado pretendido. Para ser candidato, o cidadão tinha que ter nascido em Atenas, de pai e mãe atenienses. Mulheres, escravos e estrangeiros eram a maioria, mas não votavam. A urna teve outro uso inicial. Não era destinada a receber os votos, mas as decisões. As ânforas serviram de primeiras urnas.

Clerotério: à esquerda, a boca da urna em forma de funil, os nomes dos candidatos e a bola de bronze; à direita, a manivela
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Mais de dois milênios depois, a princesa Isabel mandou construir os primeiros mijadouros públicos para evitar que o povo fizesse xixi nas ruas e nas paredes. Mas queria um nome mais elegante e chamou o Visconde de Taunay. O escritor, que já substituíra morgue por necrotério, sugeriu mictório. Mesmo tendo recorrido ao grego e ao latim, nenhum dos dois jamais pensou em kleroterion, mas o étimo é o mesmo: alude à sorte de uns e ao azar de outros, seja império, seja república.

“A democracia é uma superstição estatística”, definiu-a Jorge Luís Borges. “É a pior forma de governo”, disse Churchill, mas acrescentou: “com exceção de todas as outras”. Ninguém foi mais claro do que o brasileiro João Calmon: “o povo é soberano, eduquemos o soberano”.

* Professor e escritor, seus livros são publicados no Brasil e em Portugal pela Almedina. Veja em www.almedina.com.br

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5 comentários Ver comentários

  1. Se o mundo ocidental quiser promover uma verdadeira revolução na escolha de seus dirigentes deveria adotar um mecanismo de escolha diferente no Século 21, um novo sistema que os selecione por meio da:

    1 – Sofoclacia: promoção de concursos públicos para, mediante meritocracia, escolher os mais aptos ao exercício de cargos na esfera pública;

    2 – Lotocracia: seleção aleatória de candidatos dentre os 5% mais bem classificados da etapa anterior (“fator Deus” de seleção); e,

    3 – Eleição direta: os eleitores escolhem, por votação direta, entre os candidatos selecionados por sorteio, da etapa anterior.

    Com esse novo sistema de escolha de dirigentes, por meio destas três peneiras, a atual representatividade da classe política seria enterrada para ceder lugar a uma nova era para a humanidade.

  2. Caríssimo AyrtonPisco, prezo muito ser entendido pelos leitores. Então, acrescento
    o que cortei do artigo para ficar no numero de palavras combinado. As bolas eram postas no tubo. A manivela era usada para tirá-las uma a uma. Se saísse uma bola branca, a fila superior dos nomes era selecionada para permanecer. Se saísse uma bola preta, era excluída a fila com todos os nomes. E o sistema de exclusões prosseguia até que restassem os escolhidos em número compatível
    com os cargos. Aristóteles explica tudo em miúdos, mas num texto de muitas folhas. Eu usei pouco mais de uma lauda.

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