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Cultura

A utopia e o medo: a complexidade de O Longo Amanhã

O livro é assim um tapa na cara da sociedade dos anos 1950, e, vejam só, continua sendo até hoje, no Brasil, no século 21

A trama se passa em uma América devastada por uma guerra nuclear | Foto: Divulgação/Oeste | Imagem criada com o auxílio de inteligência artificial
A trama se passa em uma América devastada por uma guerra nuclear | Foto: Divulgação/Oeste | Imagem criada com o auxílio de inteligência artificial

Uma das maiores delícias de ser um leitor voraz é encontrar obras nas quais, inicialmente, por algum motivo, depositamos poucas expectativas, mas que, conforme as páginas andam, se mostram verdadeiros tesouros literários e críticos. Foi exatamente essa sensação que tive ao ler O Longo Amanhã (Aleph), de Leigh Brackett. É uma autora que desconhecia completamente até agora, a qual empunha uma proposta literária que sempre me atrai, a de uma ficção científica misturada à distopia, num mundo pós-apocalíptico. Aliás, sobre esse tema já resenhei outro ótimo livro aqui em Oeste: Um Cântico para Leibowitz (Aleph) de Walter M. Miller Jr.

Comprei O Longo Amanhã no último dia de Bienal do Livro do Rio de Janeiro deste ano, quase no apagar das luzes do estande da Editora Aleph. E o fiz somente porque uma menina que estava na minha frente, na fila do caixa, desistiu de comprar o referido livro, deixando-o num pilha de calhamaços abandonados que estava em frente a mim, num balcão. Não tenho muitas justificativas para a compra da obra, além da capa ter me chamado atenção e dos meus pouquíssimos freios morais para comprar um livro novo com desconto. E esses foram os únicos critérios para eu ter pego a obra de Brackett: a desistência de uma garota na fila do caixa, minha compulsão bibliófila e a capa bonita. No fim, deu certo…

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Como é O Longo Amanhã

A trama se passa em uma América devastada por uma guerra nuclear, onde as ruínas do passado servem como advertência contra os perigos da tecnologia nuclear — ou melhor, a tecnologia como um todo. Por determinação constitucional, cidades com mais de mil habitantes são expressamente proibidas; a religião cristã tradicionalista, protestante, molda unilateralmente as diversas sociedades agrárias, que têm como padrão evitar e combater qualquer avanço científico e de costumes. Nesse cenário, acompanhamos Len Colter, um jovem criado entre valores religiosos rígidos, que nutre, no entanto, uma inquietação insaciável diante das lendas sobre Bartorstown — uma cidade mítica que preservaria o conhecimento perdido e a tecnologia daquela era moderna dos EUA, antes das bombas choverem sobre as cidades.

O Longo Amanhã está disponível na Editora Aleph | Foto: Divulgação/Amazon
O Longo Amanhã está disponível na Editora Aleph | Foto: Divulgação/Amazon

A jornada de Len é, antes de tudo, um romance de formação: sua rebeldia contra a vida pacata da colônia, o choque com o fanatismo religioso e a descoberta de que o desejo de progresso pode ter consequências tão perigosas quanto a estagnação. Brackett constrói uma narrativa em que a dicotomia não é entre bem e mal, mas entre formas distintas de sobreviver: o medo que protege e limita, e a esperança que impulsiona, mas também ameaça.

Distopia de excelência

O tom do livro é intimista, quase pastoral, o que o distingue de muitas distopias posteriores e coloca a obra numa seção de ficção científica quase inédita. Em vez de cidades futuristas ou regimes totalitários centralizadores, temos fazendas, feiras rurais e pequenas comunidades vivendo sob a sombra de um trauma civilizacional à distância de umas três gerações apenas. O idílico tranquilo e a sanha incontrolável ante um futuro supostamente mais livre, eis o drama que a autora explora com rara felicidade. Essa escolha dá à obra uma força singular: mostra como o apocalipse não destruiu apenas prédios e máquinas, mas também a confiança da humanidade em si mesma, seja ela refletida pelo medo de evoluir ou pela ansiedade de evoluir a todo custo.

A crítica interna da obra é de longe uma das mais ajustadas e significativas que encontrei nesse gênero. Nos primeiros capítulos, fica claro que haverá, por exemplo, uma crítica ao fanatismo religioso e ao modo pastoral inflexivo de vida de alguns grupos verdadeiramente reais até hoje nos EUA, mas, com o passar das páginas, vemos que o núcleo crítico não é tão óbvio assim, pois o protagonista se revela numa rebeldia e inquietude que não são tão louváveis como pareciam no início. A sua busca pela cidade de Bartorstown se mostra quase paranoica, utopista, e quando ele a encontra, se desvela numa decepção que o leva a notar que a realidade não é tão simples, e que a complexidade é um fator intrínseco da própria humanidade. Ou seja, aquelas certezas críticas que pareciam ser o norte central da obra nos primeiros cadernos do livro se desenvolvem numa ambiguidade calculada, retirando do texto as facilitações e as preguiças dogmáticas, gerando uma quebra de expectativa que pode deixar certos leitores mais ideológicos incomodados. A mim, porém, deixou-me ainda mais instigado.

No fim, a autora parece nos dizer: aqueles que buscam a segurança de uma sociedade idílica e reacionária encontrarão facilmente opressão e fanatismo. Porém, aqueles que buscarem uma sociedade pautada no progresso científico desmedido e amoral, adivinhem o que encontrarão: o mesmo fanatismo e opressão.

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O livro é assim um tapa na cara da sociedade dos anos 1950, e, vejam só, continua sendo até hoje, no Brasil, no século 21. Não existe sociedade perfeita, política inerrante, causas finais que justifiquem absurdidades morais no processo. Seja para um tradicionalismo hipervirtuoso, ou para um progressismo hiperigualitário e superinclusivo, a realidade é mais complexa que os facilitadores morais imaginam. E, com essa complexidade, devemos trabalhar e nos ajustar. Utopias e eras douradas são, em si mesmas, o receituário de opressões e servilismos. O Longo Amanhã é um dos melhores livros de ficção científica distópica que li até hoje, uma das narrativas mais bem feitas que tive acesso em minha vida de leitor. O romance permanece atual por levantar questões sobre o preço do progresso, os perigos do dogmatismo e a dificuldade de equilibrar fé e razão. Na minha opinião, a obra da norte-americana ombreia facilmente as distopias de Karin Boye, George Orwell e Aldous Huxley, com a vantagem de ser agudamente diferente dos textos deles. Porém, sem mudar de seção literária. Trata-se de uma distopia literalmente, pastoral.

Leigh Brackett precisa ser redescoberta no Brasil, e por isso vai aqui as minhas efusivas palmas à Editora Aleph pela empreitada do livro aqui resenhado. Brackett foi muito mais que uma talentosa roteirista pragmática, como é costumeiramente lembrada. Ela se mostrou capaz de escrever um excelente romance com densidade psicológica e filosófica, romance esse digno das primeiras prateleiras de sua categoria.

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