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Curiosidades

'Na Rússia, os empresários de hoje foram os comunistas de ontem'

Em entrevista a Oeste, a especialista em Rússia Regiane Bertini fala sobre política, cultura e história do país do leste europeu

Ilustração: Shutterstock

O maior país do mundo — no quesito extensão territorial — é peça-chave para o entendimento da dinâmica geopolítica contemporânea. Na Rússia, as ideias comunistas da revolução ainda ecoam na política e na sociedade, um exemplo é o temor que os habitantes do país nutrem pela polícia, que exige passaporte dos cidadãos que querem simplesmente mudar de cidade. O país governado por Vladimir Putin sempre surpreende quando o assunto é “censura”, “perseguição” e “espionagem”.

Para falar sobre a Rússia histórica e contemporânea, convidamos Regiane Bertini, autora de 100 Mitos da Revolução Russa. Regiane é escritora, professora e historiadora paulistana. Ela é formada em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo, na qual obteve especialização em história. A escritora é fluente no idioma russo, o que fez com que ela procurasse autores nativos e direcionasse suas pesquisas para enfoques mais atuais e inovadores que os contidos na historiografia tradicional.

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Confira a entrevista completa.

No quesito extensão territorial, a Rússia é o maior país do mundo. Esse fato tem relação direta com o projeto de poder comunista do país?

Sim, mas a verdade é que o comunismo perdeu território. Isso porque a antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas foi desintegrada. O comunismo perdeu territórios como, por exemplo, a Lituânia, a Letônia, a Polônia, a Finlândia e outros no leste europeu. Eu percebo que o domínio do comunismo não está no âmbito territorial, mas no campo das ideias, da ideologia. As ideias revolucionárias estão nas universidades, na classe jornalística.

A literatura russa é referência, e seus autores (como Dostoiévski e Tolstói) são citados pelo grande público. É correto afirmar que, em função da perseguição comunista, a literatura da Rússia tornou-se “literatura dissidente”? Por quê?

Diversos escritores russos foram perseguidos pelo sistema; muitos, inclusive, tiveram de abandonar o país. Eles tiveram suas obras castradas. Quando as pessoas são impedidas de dizer as coisas, quando não há liberdade de expressão a literatura pode se tornar pueril. A literatura russa pós-soviética é uma literatura infantilizada, que versa sobre as coisas simples do cotidiano. Isso porque era proibido tocar em assuntos delicados, obscuros. A literatura do país perdeu muito do seu brilho. Na época do Império Russo havia críticas contra o governo, e a crítica é importante. Acho que por mais que o governo vá bem, nós temos de criticá-lo para que ele fique melhor, mas os comunistas não tinham essa perspectiva.

Os comunistas perderam a luta armada na II Guerra Mundial. Depois da desestruturação da URSS, no fim da Guerra Fria, como a Rússia se reorganizou para voltar a lutar pela primazia política e cultural no mundo? O país aplica táticas de guerra cultural?

A Rússia sempre foi muito boa no quesito táticas de guerra cultural. E, com relação à política russa, é difícil falar em troca de poder. Isso porque a União Soviética caiu não porque o povo pediu a democracia, ou os políticos aceitaram a democracia; o regime democrático no país foi implicado pelo fator petróleo. Nos anos 1960, quando o preço do petróleo aumentou, a Rússia criou uma estrutura eficiente para o processamento do combustível. Mais tarde, na década de 1980, o petróleo diminuiu, e o país começou a se endividar. A Rússia tinha contraído empréstimos com o Ocidente, e um dos requisitos do acordo era a redemocratização — feita na marra. Então, ela não foi um país com uma democracia graúda, a elite comunista jamais saiu do poder. Na reforma política conhecida como perestroika as lideranças russas continuaram a fazer acordos fraudulentos. Na Rússia, os empresários de hoje foram os comunistas de ontem; eles continuam com a mesma cabeça. Ele mantêm as mesmas táticas da KGB — agora nas redes sociais.

No âmbito da política internacional contemporânea, a Rússia oferece resistência eficiente ao Ocidente?

Nós não podemos subestimar o exército russo. O país do leste europeu tem um exército extremamente poderoso, com armas nucleares. E além disso, atualmente a Rússia tem duas armas que talvez sejam mais poderosas do que as armas tradicionais: o gás natural e o petróleo. Isso porque ela é um país com muitos recursos naturais, assim ela usa a dependência do Ocidente desses recursos como arma de guerra. Chamo a atenção para aquela ocasião na qual o Kremlin ordenou a interrupção do fornecimento de gás natural para a Alemanha, país extremamente dependente do gás russo.

Rússia comunistas
100 Mitos da Revolução Russa | Imagem: Regiane Bertini/Linotipo Digital/Divulgação

Na eventualidade de um terceiro conflito armado de proporções mundiais, Putin deve exercer papel de destaque? O Kremlin tem, de fato, infraestrutura tecnológica para ameaçar o mundo?

Eu percebo que sim, porque a Rússia tem outros países como aliados, como a China. Atualmente, a China é um país neutro, mas só pela questão comercial. Mas se a guerra ficar séria, eu creio que ela vá para o lado da Rússia — contra o Ocidente. O exército russo é o maior do mundo, e ele pode contar com outros exércitos. Nós não sabemos, por exemplo, para o lado de quem a Índia vai. Mas é certo que a Rússia, pelos seus recursos e poder bélico, pode ameaçar o mundo.

Como se dá a relação entre Moscou e Pequim? A aliança entre ambas as potências comunistas vai muito além da aproximação ideológica?

Além da questão ideológica há a questão comercial. Quando a Rússia travou as indústrias alemãs, as empresas da Alemanha começaram a se mudar para a China. E o país asiático tem grande interesse em ver a Rússia prejudicar a Europa Ocidental. Isso porque quanto mais fraca ficar a Europa e os Estados Unidos, mais empresas fugirão para a China, fortalecendo a economia do país asiático. Então há grandes interesses militares e ideológicos entre ambos os países; e deve haver também acordos secretos.

A mídia já chamou o filósofo Olavo de Carvalho de “guru de Bolsonaro”, na acepção de ideólogo do presidente brasileiro. Na Rússia, o pensador considerado “guru” de Putin é Alexander Dugin (que inclusive já participou de um debate com Olavo de Carvalho). Quais ideias de Dugin estão no escopo da ação política de Putin?

Quando alguém conquista o poder, é natural que busque legitimar o poder conquistado. A intenção de Putin é criar uma imagem da Rússia tradicional, predestinada à grandeza; trazendo também elementos religiosos. A verdade é que Vladimir Putin é um oportunista que só quer permanecer no comando do país. Ele usa os chavões culturais com o único propósito de conquistar o coração do povo russo. Dugin ajuda o presidente do país a cristalizar a imagem do passado de ouro da nação; mostrar a Rússia como uma nação forte e com um futuro glorioso pela frente. E eu acho que, no Brasil, o discurso de Dugin não encontra simpatizantes nem da esquerda nem da direita, diferente de Olavo de Carvalho.

A eleição de Lula representa uma aproximação, ainda que tímida, entre Brasília e Moscou?

Eu creio que sim. Nós percebemos que o Lula nunca escondeu, até mesmo durante as eleições, nos debates, sua atração por ditadores. Lula chegou a chamar de “preconceituosos” aqueles que se negavam a reconhecer o governo do ditador Nicolás Maduro, da Venezuela. Ele é bastante simpático com regimes totalitários na Ásia e na África. Recentemente o petista esteve no Egito, um país que não é propriamente uma democracia. Lula claramente não está do lado dos países progressistas, industrializados. Quando um presidente visita outro país, seu objetivo tem de ser buscar investimentos. Mas o Lula não: suas viagens são a passeio e, quando muito, para fazer conexões políticas com os seus parceiros ideológicos.

Você já esteve na Rússia? Como é a vida no país?

Eu já visitei a Rússia. Um comportamento peculiar que notei lá é que as pessoas têm bastante medo da polícia. Um exemplo do controle do Estado sobre a vida privada é que é necessário ter uma espécie de passaporte para mudar de cidade. As pessoas têm de preencher um relatório na polícia indicando o motivo da mudança de cidade, se têm emprego e moradia no destino e outras questões semelhantes. Certa vez, eu estava no hall de um hotel, me preparando para subir de elevador. Havia dois policiais no elevador: ninguém à minha volta quis subir com eles, só eu. Mas os russos são, no geral, simpáticos; eles são bastante conectados com a religião ortodoxa (eu me converti à fé ortodoxa).

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3 comentários
  1. Paulo Ricardo
    Paulo Ricardo

    Não entendi a afirmação que abre a terceira pergunta – “os comunistas perderam a luta armada na II Guerra Mundial”. Pelo que eu sei, eles derrotaram a Alemanha nazista, impuseram seu regime a toda a Europa Oriental, tornaram-se uma potência nuclear, e só foram deixar o poder (ao menos formalmente) no início dos anos 1990. Se eles conseguiram tudo isso “perdendo a luta armada”, imagine-se, então, se tivessem vencido!

  2. Mario Hugo Ladeira Filho
    Mario Hugo Ladeira Filho

    Espertos, se “reinventaram “e ganharam empresas falidas, mas fáceis de recuperar.
    Aí vieram os iates, times de futebol, mansão da Lili, até essa guerra que fechou o ciclo.
    Vão se reinventar de novo.
    É o ditado: “Enquanto houver cavalo, São Jorge não anda a pé”.

  3. James
    James

    Quando o assunto é Rússia, não consigo me esquecer de uma emblemática declaração de Putin, que enfatizava que a etnia predominante dos agentes da revolução de 1917, não era de russos mas de povos semitas! O que ele quis dizer com aquela declaração ?
    O comunismo nunca foi russo mas importado, estratégicamente por mentes muito astutas.
    Olavo de Carvalho disse que os financiadores da revolução russa terminaram o serviço deles, tomando conta da economia russa.
    Globalistas, estão em todos lugares!
    Eles são o verdadeiro perigo, foram os financiadores da China também !
    Ai do Brasil….

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