Nesta semana, me encontrei com um velho amigo de universidade. Ele havia se tornado professor de pós-graduação na disciplina de estudos éticos de uma faculdade paulista, um daqueles que podem se dar o luxo de reclamar do trabalho excessivo e dos maus salários dos docentes no país e, ao mesmo tempo, andar com uma SW4 e passar as férias em Buenos Aires. Eu e ele, durante os anos de “Filosofia by MEC”, costumávamos discordar de quase tudo que o outro malemá tinha como crença estabelecida. Obviamente a maior discordância era de caráter político — como não ser? Passávamos boas horas em debates intermináveis. Ele — na maioria das vezes — tentando desconectar as ideias de Marx às práticas de Stálin e Mao Tsé-Tung que eu amava mostrar; e eu tentando convencê-lo — verborragicamente — que o capitalismo não era o monstro embaixo da cama, e que o individualismo era uma virtude e não um defeito quando olhado sem preconceitos.
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Acima de tudo, éramos chatos. Mas estávamos num curso de filosofia, o lugar pleno para debatermos até as amígdalas sangrarem. Apesar das discordâncias, fomos bons amigos; tomávamos cerveja às sextas e compartilhávamos o amor pelo São Paulo Futebol Clube. Nesta última terça-feira, 26, numa quente tarde paulista, nós nos encontramos em Taubaté por acaso, na saída do supermercado. Paramos para tomar um café — afinal, agora éramos filósofos formados, pais de família e, acima de tudo, homens empregados. Nessa altura da vida, a cerveja é somente aos finais de semana com a autorização das esposas. Falamos sobre tudo, e foi notório como nosso calor político, aquele ímpeto ativista que nós dois ostentávamos como bufões revolucionários, se aplainou e deixou no lugar uma sensatez e um ceticismo maduro. Ele ainda se denominava socialista, mas apenas “socialista moderado” — quase se desculpando por isso —, e eu de liberal hiena passei a ser um “conservador cético”.
O café da discordia
Num dos momentos da conversa, falava a ele que decididamente eu me afastei da universidade, que o ambiente militante, antes de depurar e ascender em mim o fogo do conhecimento, deixava-me aflito e desinteressado. Disse ainda que, se fosse fazer um paralelo anacrônico, mas real, podia afirmar que havia me aprofundado muito mais na filosofia e na história quando deixei a universidade. Ele ficou visivelmente incomodado, disse que infelizmente a militância realmente estava há tempos ultrapassando os limites do aceitável. Afirmou também que a cultura do cancelamento era real e absurda, mas que a universidade ainda era o local de excelência do conhecimento científico, um local onde o cosmopolitismo intelectual permeia a própria vivência dos alunos e professores.
Disse a ele que discordava, mas que não era um “anti-universidade” ou um “diplomoclasta”. Mas aí veio a frase que descambou em discordância profunda o nosso leve café da tarde: “O conhecimento, Pedro, é a nossa maior riqueza, o modo pelo qual devíamos viver”. Aquela frase me acertou em cheio, primeiro porque passei bom tempo de minha vida professando-a: o conhecimento é o maior tesouro que podemos ter e doar aos nossos. Mas mudei, minhas convicções passaram de um racionalismo chato para um ceticismo pastoral.
Disse a ele que há uns cinco ou seis anos aquela frase me soaria uma verdade absoluta, mas que hoje me parece uma bobagem absoluta. Para mim, não existe uma “maior riqueza”. A vida é antes uma colcha de retalhos feita de muitas camadas e pedaços, e somente em sua complexidade e completude podemos ver riquezas. O conhecimento, em si, é nulo e até mesmo perigoso quando coaptado por mentes doentes ou más. O conhecimento biológico e genético, há menos de cem anos, foi dobrado para justificar a insanidade da ideologia nazista. O conhecimento e as disputas intelectuais em torno da política e da economia em face da miséria social serviu de retórica política para justificar, entre inúmeras absurdidades, o Holodomor, a revolução cultural maoísta e os gulags soviéticos.
A vida é maior que a intelectualidade
Não gosto de superestimar a intelectualidade — dizia ao espantado professor —, pois a intelectualidade é um fator humano, não O fator humano. É uma falta de percepção achar que a vida discorre e anda no encalço da ciência, sob as penas dos acadêmicos, ou que a lógica cartesiana e o processo refratário são mais importantes do que abençoar o filho antes de dormir, colocar ração para o cachorro ou ajudar uma velhinha a atravessar a avenida. Quando começamos a olhar o mundo com lupas e microscópios, corremos o risco de minimizá-lo em partes, em frações, em frames, pixels, átomos. Ao ponto de, como Chesterton dizia, sabermos a composição atômica de uma madeira, mas não reconhecer a cadeira à qual aquela madeira pertence.
Quando escuto frases como “a melhor coisa da vida”, “tudo se resume a…” ou “o conhecimento é a maior riqueza”, a primeira coisa que penso é se as pessoas já notaram a complexidade bizarra que há num mero cortador de unha, e como aquele objeto banal seria tratado como deus há meros três ou quatro milênios. Já repararam a sintonia fina que existe no universo somente para existir a vida, seja a da lesma ou a sua? Já reparam na beleza que há no simples ato de procriar, de dar-se um pouco e deixar-se completar por outro para nisso gerar outro alguém? Já notaram quão complexo é matar em nós a ética do ego para poder ajudar quem nos humilha e nos machuca, e o quanto isso é contraintuitivo… e belo? Já repararam o pôr do sol, a quietude da noite, o barulho do mar, o zumbido distante das abelhas?
“Queria que Nietzsche tivesse tomado café conosco”
É verdade que se faz necessário conhecimento e reflexão para perceber tudo isso com mais profundidade. Mas o fator primário para observar tudo isso não é somente conhecer, mas, sim, viver. A banalidade da vida, do existir vida, é ao mesmo tempo o seu caráter mais complexo, mais óbvio e mais misterioso. A beleza da vida, assim, está no mero existir. Por isso, o suicídio assombra e macula a própria realidade; por isso, o aborto é um dos crimes mais brutais que podem ser perpetrados. Por isso, a miséria e a indignidade impostas aos vivos são abjetas em si mesmas, pois a vida é o maior dos bens, e o “conhecer” só é possível ao vivos.
Após dizer isso, pela primeira vez o vi ceder. Pagamos a conta e, antes de entramos cada um em seu carro, ele virou e disse: “Queria que Nietzsche tivesse tomado café conosco”.






































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