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Curiosidades

A ilha da tristeza

Personagens de Retorno a Ítaca veem Cuba como um fim de mundo que aniquila qualquer tentativa de um indivíduo ser feliz

Filme Retorno a Ítaca
Amigos se reencontram em um terraço de Havana | Foto: Reprodução/Apple TV

Retorno a Ítaca (Retour a Ithaque), de 2014, do diretor francês Laurent Cantet, é um filme cujo cenário conversa com os personagens. Em um terraço decadente de Havana, Cuba, cinco amigos já distantes da juventude, se reencontram. As conversas começam com um grau de ironia em relação à passagem dos anos e às lembranças de uma época em que sonhavam com uma Cuba Libre.

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Logo nas primeiras cenas, em seus rostos enrugados, olhares entristecidos e sonhos desfeitos, eles se dão conta de quanto foram enganados. Veem aquele país como um fim de mundo que aniquila qualquer tentativa de um indivíduo ser feliz.

A linda paisagem lá embaixo chega a ser um consolo. A avenida da praia acompanha as curvaturas do mar. As mudanças dos períodos, da manhã ao anoitecer, funcionam como uma coreografia que dita o ritmo do discurso dos personagens: eles se percebem imersos no correr das horas. Rendem-se a elas, por meio de queixas, constatações, mas sem deixar de ficar inebriados com seu poder e encantamento.

O terraço faz parte de um prédio no qual um cubano frustrado, Aldo, mora com o filho que tem como ideal deixar o país para buscar um destino menos cruel. Tania relembra seu idealismo feminino. Sente-se agora desamparada.

Amadeo vive culpado por ter deixado a mulher amada na ilha e ter tentado a vida na Espanha, como escritor. Rafa busca recuperar a inspiração em pintar, que a própria ilha lhe tirou. E Eddy se depara com o conflito interno de ter empreendido, por meio de negócios escusos, rumo à independência financeira.

Eles discutem, se abraçam e dançam, ao som de California Dreamin. Linda cena em que, em meio às discordâncias, o aconchego da amizade dá o tom.

A vizinhança se movimenta no mesmo ritmo do tempo. Moradores estendem roupas ao vento, enquanto conversas animadas, às vezes algumas brigas, preenchem o ar quente e úmido.

Entre a sucata e paredes desgastadas, as pessoas mantêm a cumplicidade com a tristeza. Como se fosse a sina do país. Pela paisagem, pela profundidade dos sonhos, pelo olhar dos personagens, o filme, em cartaz na Apple TV, merece ser visto.

Nos tempos de hoje, já se sabe que o ambiente externo não pode ser determinante na rotina de uma pessoa. Ela precisa encontrar seu mundo independentemente dele. Senão, ficará presa. Cuba é um país que passou as últimas décadas tentando evitar essa solução.

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A linda paisagem de Havana, com isso, se torna ainda mais melancólica. Para não dizer sádica. Ela se exibe, na dança do céu com o mar. Provoca seus moradores, ao ostentar para eles um horizonte insinuante. Cheio de belezas e de esperança. Na vida, isso é algo que eles não têm.

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