Relatos principalmente de assédio e jornadas excessivas vêm marcando a rotina de médicos residentes em diferentes regiões do país. Silvia, 29 anos, formada em cirurgia geral em São Paulo, descreve ter passado semanas sem ver a luz do dia e jornadas superiores a 100 horas semanais. Ela afirma do mesmo modo ter sofrido humilhações diante de colegas e pacientes. Diz que pensou, inclusive, em abandonar o treinamento mais de uma vez.
Casos como o dela não são isolados. Segundo reportagem da Folha de S.Paulo. Em 2022, residentes do primeiro ano de ortopedia da Unicamp pediram demissão coletiva. Eles alegaram carga horária excessiva e falta de pessoal, o que tornava o trabalho “humanamente impossível”. A residência, embora não seja obrigatória para atuar como médico, é condição para a formação de especialistas. Ela exige entre dois e cinco anos de prática supervisionada.
Receba nossas atualizações
Assédio e sobrecarga
O assédio e a sobrecarga têm levado parte dos recém-formados a evitar a residência. Renato, formado há dois anos, decidiu não se especializar. Ele relata deterioração das relações de trabalho e afirma que preferiu preservar a própria saúde mental. Segundo Lucas Faidiga, presidente da Associação Nacional de Médicos Residentes (ANMR), cerca de 30% das vagas de residência seguem ociosas.
Desse modo, a situação aumenta a pressão sobre quem permanece nos programas. Dados da Demografia Médica 2025 mostram que 41% dos médicos atuam sem título de especialista. Para representantes da categoria, o cenário reflete problemas estruturais nos programas e um desgaste crescente entre os profissionais em formação.
Leia também: “O ano do desengano”, artigo de Guilherme Fiuza publicado na Edição 299 da Revista Oeste
O assédio também aparece de forma desigual entre gêneros. Nicole Dittrich, residente de Radiologia na Unifesp, relata bom ambiente em sua área, mas reconhece que mulheres enfrentam mais barreiras. Segundo ela, opiniões femininas ainda recebem menor validação e a remuneração da residência não condiz com a carga horária exigida.
Silvia confirma que as desigualdades são mais evidentes em especialidades de maior pressão, como cirurgia e ortopedia. Ela afirma que chefes privilegiam homens em procedimentos e que denúncias de assédio raramente avançam.
O problema da carga horária
Especialistas defendem mudanças estruturais. Para o médico Alcindo Cerci Neto, combater o assédio deve ser prioridade. Ele afirma que o residente precisa ser tratado como profissional em formação e que o modelo atual, baseado apenas em carga horária, não garante descanso adequado nem apoio psicológico, fatores essenciais para um ambiente seguro de aprendizagem.
+ Leia mais notícias de Saúde na Oeste
Na hora em que o mercado saturar completamente para generalistas, vão querer fazer Residência.
Geração mimizenta.
Tempos difíceis criam homens fortes.
Homens fortes fazem tempos fáceis.
Tempos fáceis criam homens fracos.
Homens fracos criam tempos difíceis e o ciclo está fechado.
Os tempos fáceis deixaram a humanidade fraca e isso se reflete em todas as profissões, principalmente entre a classe médica.