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O lado humano de Steve Vai, um dos melhores guitarristas do mundo

Em entrevista a Oeste, o músico falou sobre seus projetos mais recentes e a relação transcendental que tem com o instrumento que o consagrou

Steve Vai já foi eleito pela revista Rolling Stone como um dos melhores guitarristas do mundo | Foto: Divulgação/Steve Vai
Steve Vai já foi eleito pela revista Rolling Stone como um dos melhores guitarristas do mundo | Foto: Divulgação/Steve Vai

Cravar o nome do melhor guitarrista do mundo é impossível. Listas de publicações especializadas como a Rolling Stone ou a Guitar Player sempre flutuam ao redor dos mesmos nomes: Jimi Hendrix, Eric Clapton, Eddie Van Halen e outros. E o primeiro lugar nunca é fixo. Dentro dos limites das seis cordas, estes músicos são separados por estilos, gêneros e décadas. E embora sejam tratados como “deuses” do rock, eles são completamente humanos. Ao menos, esse é o caso de Steve Vai, que figura entre os mais habilidosos.

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Aos 65 anos, o norte-americano já viveu de tudo. Foi desde um garoto-prodígio dentro da banda do excêntrico Frank Zappa até um genuíno guitar hero na década de 1980. Esta última persona foi cimentada com sua participação no filme A Encruzilhada, em que interpreta um roqueiro antipático que toca guitarra como ninguém (resultado de um acordo com o diabo). Em entrevista a Oeste, porém, Vai revela ser uma pessoa leve e extremamente ligada com o espiritual, muito diferente do personagem que viveu aos 25 anos.

“O mais notável para mim sobre esse filme é que, pelo menos uma vez por semana, alguém vem até mim e diz: ‘Eu vi o filme A Encruzilhada e comecei a tocar guitarra por causa do filme’”, conta. E ele entende o impacto disso. Mesmo que seja um sexagenário, Vai continua requisitado na gravação de guitarristas que surgiram no contexto das redes sociais, como Matteo Mancuso ou a banda Polyphia. E o instrumentista sempre aceita os convites. “Eu adoro ver as pessoas tocando guitarra; e quase não importa o quão boas elas sejam”, diz.

Indisciplina e excelência

Apesar do respeito com todos os níveis de músicos, Vai não nega a importância da prática. Ele é um obcecado pela técnica, desenvolvendo um treino diário de 10 horas na guitarra que até hoje enrola os dedos de instrumentistas de vários níveis. “Eu sei que, se você olhar para a minha vida e meu compromisso, parece que eu fui muito disciplinado”, reconhece. Mas ele revela que só isso não é o bastante para o sucesso: “A verdade é que eu não tenho muita disciplina; eu só consigo fazer efetivamente o que me é atraente”, diz.

Essa indisciplina transparece em movimentos de sua carreira, afinal ele nunca ficou muito tempo preso a um único projeto. Já gravou discos com grupos como Whitesnake, Public Image Ltd. e Alcatrazz.

A inquietude fica nítida quando Vai responde sobre futuros projetos: há planos para um disco com voz e violão, dois trabalhos inéditos gravados com uma orquestra e algo “muito maior”, que ele não quis detalhar. Tudo fora de banda e dentro de sua visão para a carreira solo.

“A paixão é um motor de criação muito mais poderoso do que a disciplina”, afirma. E é nessa espécie de caos criativo, aliado à técnica, que alguns dos melhores trabalhos de Vai nasceram, como é o caso da música For The Love of God, de 1990, um de seus maiores sucessos.

Ele conta sobre a criação dela: “Eu peguei a guitarra, toquei aquele primeiro acorde de Mi menor e cantei a melodia. E foi isso”, descreve. “Entrei na zona que uma pessoa entra, chamarei de paisagem criativa, quando não está preocupada se vai funcionar ou não”, revela.

Conforme ele avança na explicação de seu processo criativo, Vai adota um tom quase religioso sobre a música, descrevendo o que ele chama de sua “The Ultra Zone”, o mesmo nome de seu disco lançado em 1999. “Há apenas impulsos, você se move pelos seus impulsos instintivos criativos. E este estado de ser é muito claro”, explica.

Para exemplificar, ele cita atletas que trabalham em um grande nível de excelência como o golfista Tiger Woods. “Se você já o viu bater em uma bola de golfe, você percebe que o cara está na zona”, diz. “Ele não está pensando, ele está simplesmente sendo.” Vai também menciona Michael Jordan, que parecia voar quando enterrava a bola de basquete na cesta. “Ele está inconsciente, sabe? Ele não está pensando”, opina.

Steve Vai também gosta de se divertir

Mesmo com sua profundidade no campo das ideias, Vai não esconde ser um grande brincalhão. Essa característica era praticamente uma obrigatoriedade para participar da banda de Zappa. Seu mentor, que morreu em 1993, era um grande defensor da liberdade de expressão e exercia isso com letras bem-humoradas e uma sonoridade inclassificável dentro dos gênero musicais. Uma delas, Stevie’s Spanking, foi escrita para “homenagear” o guitarrista e dizia abertamente: “O nome dele é Steve Vai, e ele é um cara maluco”.

E suas maluquices aparecem em muitas das composições até hoje, uma herança direta dos tempos com Zappa. Em seu disco solo mais recente, Inviolate, o músico construiu uma guitarra chamada Hydra, que possui três braços com diferentes números de cordas. Ele conta que gastou seis semanas, com dias de trabalho de “14 horas ininterruptas”, para aprender a domar o monstro e conseguir gravar a música Teeth of the Hydra. “Pareço ser atraído por desafios virtualmente impossíveis”, afirma.

Foi justamente essa paixão pela inovação que o levou a um dos desafios mais recentes de sua carreira. Em 2024, aceitou entrar para a banda Beat, que interpreta músicas gravadas pelo grupo King Crimson na década de 1980. No projeto, seu papel é o de substituir Robert Fripp, outro guitarrista que levou o instrumento ao extremo, inclusive criando uma nova afinação para as cordas.

E o Beat foi uma das primeiras coisas que o fez suar em anos. “Houve uma coisa que eu simplesmente não conseguia tocar”, diz, apontando para a música Frame By Frame. “É uma música simples, mas com uma velocidade vertiginosa”, completa. No final das contas, ele deu um jeito aplicando técnicas diferentes, mas assume que teria conseguido tocar de um jeito mais fiel ao estilo de Fripp há alguns anos, “antes de todas as cirurgias no ombro”, como confessa.

Seja como for, Steve Vai ainda consegue se divertir com o que faz. Recentemente, ele lançou músicas inéditas da banda SatchVai, que o reúne com o seu primeiro professor de guitarra, Joe Satriani. Juntos, os dois interpretam Dancing, do italiano Paolo Conte. Com as seis cordas, a composição que originalmente era um jazz com ares latinos acabou virando algo muito próximo do frevo, como muitos brasileiros comentaram no YouTube.

Mas Vai afirma que é apenas uma coincidência sonora. “Não importa o que aconteça, alguém vai aparecer e dizer: ‘Isso não é rock and roll, é samba, é polca’”, brinca. No final, Dancing apenas confirma o momento atual do guitar hero, focado na diversão e na liberdade artística. “Estou em uma idade e estágio onde não me importo”, diz.

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