Mesmo oito décadas depois do fim do conflito, a Segunda Guerra Mundial continua a orientar decisões políticas, disputas culturais e a forma como sociedades enxergam a si mesmas. Essa é a linha central do livro O Medo e a Liberdade: Como a Segunda Guerra Mundial nos Transformou, do britânico Keith Lowe, publicado em português neste ano. O historiador apresenta documentos, entrevistas e relatos diretos de sobreviventes para revelar como o trauma do século passado segue ativo.
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Cada capítulo começa com a história pessoal de alguém que viveu a guerra. Em uma parte sobre a bomba de Hiroshima, por exemplo, as declarações de Ogura Toyofumi lembram o leitor de que a guerra foi movida pelo elemento humano. O japonês descreve todo o terror causado pela destruição, mas descreve a explosão atômica com certo grau de beleza: “A forma da coluna mudava o tempo todo, e suas cores eram caleidoscópicas”.
Em entrevista a Oeste, Lowe mencionou o conto de Toyofumi. E, depois de sua pesquisa, afirmou que está “absolutamente convencido de que existe uma pequena parcela de nós que é fascinada com a ideia do apocalipse”. Essa é a tese central de seu trabalho, que destaca como o medo da morte e a vontade da liberdade são duas grandes forças motoras da humanidade, especialmente depois da segunda guerra. “Essa é a tragédia das guerras, elas começam a partir de algum tipo de visão sobre o paraíso.”
Ele cita a própria invasão do ditador Adolf Hitler à Polônia como exemplo dessa tendência à destruição criativa. “Ele não estava somente tentando destruir, ele realmente achava que estava criando algo glorioso. Mas, é claro, sua visão do paraíso excluía todo o tipo de pessoa.”
A separação como resultado da 2ª Guerra
Na tentativa de apresentar um retrato fiel do período, Lowe evita reduzir as histórias narradas em O Medo e a Liberdade ao espectro político convencional. Já na introdução, orienta o leitor a encarar o livro com “os olhos de um outsider”. Ele mesmo reforça que “historiadores podem ser tão preconceituosos quanto qualquer outra pessoa”, argumento que usa para defender a necessidade de ouvir vozes distintas para construir um retrato realista da época.
Entre essas vozes está Hans Bjerkholt, comunista norueguês que se desencantou com sua própria militância e tornou-se evangélico depois da guerra. “Ele se revirou completamente ao tentar conciliar o desejo de liberdade com o desejo de pertencer — o que, acredito, o mundo vem tentando fazer desde 1945”, afirmou.
Lowe diz enxergar hoje uma paisagem marcada por “facções individuais competindo entre si para ver quem foi a maior vítima”. Ele compara esse ambiente ao período imediato do pós-guerra, quando prevalecia um impulso de união que influenciou até a criação da Organização das Nações Unidas. “Onde antes a memória da guerra nos unificava, agora ela é usada como porrete para atingir o vizinho.”
Olhar histórico
O historiador cita o próprio Reino Unido como exemplo dessa inflexão. O país, agora governado pelo trabalhista Keir Starmer, vive um clima político mais dividido que o das gerações anteriores. O contraste com a era de Winston Churchill, símbolo máximo do heroísmo britânico, é evidente. “A Grã-Bretanha costumava se enxergar como a heroína da guerra. Hoje, o discurso político gira em torno de como o conflito nos prejudicou. Todos querem ser vítimas.”

No fim da entrevista, o historiador reforça que eventos atuais continuam ligados ao século passado. “É impossível entender o presente sem saber de onde ele veio”, afirma. A leitura da Segunda Guerra, segundo ele, ainda orienta decisões políticas e conflitos contemporâneos.
Lowe adiantou a Oeste que estuda um novo tema: a lógica da tortura e a forma como algumas vítimas conseguem se reconstruir. Segundo ele, trata-se de um campo duro de pesquisar, mas que “às vezes é até inspirador”, motivo pelo qual considera o trabalho “algo que vale a pena”.
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