Em dezembro de 1914, a Primeira Guerra Mundial completava cinco meses sem qualquer perspectiva de encerramento. Artigo do Deutsche Welle lembrou detalhes de uma passagem marcante daquele momento.
O conflito havia se estabilizado na chamada Frente Ocidental, onde milhões de soldados alemães, britânicos, franceses e belgas estavam entrincheirados ao longo de uma extensa linha de combate que atravessava a Bélgica e o norte da França, do Canal da Mancha até a fronteira com a Suíça. Em diversos pontos, as posições inimigas ficavam separadas por menos de 30 metros, protegidas por campos minados e densas barreiras de arame farpado.
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A guerra de posições impunha uma rotina extrema. Frio intenso, lama constante, infestação de ratos e piolhos, alimentação insuficiente e bombardeios frequentes comprometiam a saúde física e mental das tropas. Entre uma linha e outra estendia-se a chamada terra de ninguém, um espaço permanentemente sob fogo cruzado, onde corpos de soldados mortos permaneciam expostos por longos períodos, sem possibilidade de resgate.
Nos primeiros meses do conflito, centenas de milhares de militares já haviam morrido, atingidos por artilharia pesada, metralhadoras ou em combates corpo a corpo com baionetas. Apesar disso, no início da guerra, muitos soldados acreditaram que a campanha seria breve. Essa expectativa foi alimentada por discursos oficiais.
O imperador alemão Guilherme 2º prometera que seus soldados retornariam para casa antes do Natal. Lideranças francesas e britânicas sustentaram previsões semelhantes. Na linha de frente, porém, essa percepção foi rapidamente substituída pela constatação de um impasse sangrento.
O risco de morte era cotidiano, inclusive na véspera de Natal. Ainda assim, na noite fria de 24 de dezembro, ocorreu um episódio inesperado. Em uma trincheira próxima à cidade belga de Ypres, um soldado alemão começou a cantar “noite feliz, noite feliz”. Outros se juntaram a ele.
Do lado britânico, a reação inicial foi de incredulidade. A melodia — Silent Night — era conhecida, mas despertou desconfiança quanto às intenções alemãs. Havia o temor de uma possível armadilha. Pouco depois, porém, surgiram aplausos, e os britânicos passaram a cantar junto. Os alemães responderam com merry Christmas e gritaram “we not shoot, you not shoot!”.
Alguns soldados deixaram as trincheiras e avançaram até a terra de ninguém. Caminharam entre crateras e corpos de companheiros mortos e apertaram as mãos daqueles que, até então, eram seus inimigos. Episódios semelhantes ocorreram em outros pontos da Frente Ocidental. Nas proximidades de Fleurbaix, perto do Canal da Mancha, soldados alemães colocaram pinheiros decorados junto às trincheiras. A iluminação visível naquela noite vinha de velas, não de tiros.
O comando do Exército Alemão havia distribuído milhares de pequenas árvores à linha de frente como tentativa de preservar o moral das tropas durante o período natalino, ciente do impacto emocional da data para soldados afastados de suas famílias. A presença de luz visível ao inimigo, no entanto, contrariava ordens militares de apagão. Naquele momento, os soldados demonstravam pouca preocupação com essas regras.
Cartas enviadas para casa registraram o episódio. “Parece inacreditável o que vou lhes contar, mas é a mais pura verdade”, escreveu o soldado Josef Wenzl, do 16º Regimento de Infantaria de Reserva da Baviera, em carta enviada aos pais em 28 de dezembro de 1914. “Entre as trincheiras, os inimigos que tanto se odeiam se reúnem ao redor de árvores de Natal e cantam canções natalinas. Jamais me esquecerei dessa cena.”
Naquela noite, soldados trocaram pequenos presentes improvisados, como carne enlatada por Christstollen ou salsichas por pudim natalino. Bebidas, cigarros e fotografias de familiares também foram compartilhados. Botões de uniforme passaram a ser trocados como lembrança. A maioria dos relatos envolve britânicos e alemães, mas há registros de soldados franceses que também suspenderam os combates e dividiram seus estoques de champanhe.
Em alguns trechos da frente, ocorreram partidas improvisadas de futebol. Capacetes e bonés militares serviram para marcar as traves. A bola podia ser uma esfera de palha, uma lata vazia ou, em alguns casos, uma bola de couro trazida da retaguarda. “Enviamos alguém de bicicleta até nossa posição de reserva”, escreveu um soldado da Guarda Escocesa aos pais, “e ele buscou a bola.”
Primeira Guerra prosseguiu
O cessar-fogo informal também permitiu que soldados enterrassem companheiros mortos que permaneciam na terra de ninguém. Foram episódios pontuais de humanidade em meio a uma guerra brutal. “Não sei quanto tempo isso vai durar, mas, de qualquer forma, os canhões voltarão a silenciar no dia de Ano Novo porque os alemães querem ver nossas fotos”, escreveu o jovem oficial Alfred Dougan Chater em carta à mãe.
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A trégua, porém, não ocorreu em toda a Frente Ocidental. Em diversos setores, os combates prosseguiram normalmente. Essa postura refletia a posição dos oficiais superiores de ambos os lados, contrários à chamada “trégua de Natal”. Por determinação do comando, episódios semelhantes não deveriam se repetir e passaram a ser punidos como “alta traição”.
A contradição ficou registrada em correspondência posterior. “É terrível”, escreveu mais tarde um soldado alemão, “que num dia possamos interagir tão pacificamente uns com os outros e, no dia seguinte, tenhamos que nos preocupar em nos matar uns aos outros.”
A Primeira Guerra Mundial terminou com cerca de 9 milhões de soldados mortos, além de inúmeras vítimas civis. Josef Wenzl morreu em combate em 6 de maio de 1917, dois anos e meio depois de escrever aos pais: “O Natal de 1914 será inesquecível para mim”.






































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