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O fetiche de Leitão com Bolsonaro

'A comentarista global goza da inteligência popular, acreditando piamente que sua peça de propaganda vai convencer'

A analista de economia Miriam Leitão, durante o programa Conexão, da GloboNews: comentário confuso e cardápio alternativo para a população | Foto: Reprodução/Instagram
A analista de economia Miriam Leitão, durante o programa Conexão, da GloboNews: comentário confuso e cardápio alternativo para a população | Foto: Reprodução/Instagram

Há uma peculiaridade do homem que me interessa muito, trata-se da tendência em ajustarmos fatos às nossas expectativas sobre algo. Isso é um traço característico da humanidade, talvez até um dos mais distintivos. O homem vê tanto na chuva quanto no sol o descortínio de uma premiação ou punição divina, dependendo das situações. Por exemplo, a chuva que vem em abundância depois da estiagem longa assume-se como sinal de bênção divina, mas a chuva que se mantém por muito tempo, causando transtornos e tragédias, é vista como sinal de punição. O sol que surge depois de dias de chuva e frio acalenta as nossas almas, a ponto de olharmos para o céu e agradecermos Àquela força que tudo comanda, não obstante, o sol contínuo que resseca paisagens e açudes logo é visto como um tratamento de culpabilização divina por algo feito errado.

Isso já é tão documentado e estudado por inúmeros intelectuais que não darei crédito a nenhum; é quase um senso comum científico contemporâneo, seja na arqueologia, na psicologia e na filosofia. Não obstante tal leitura comum e banal da natureza pela mentalidade popular, isso não descredibiliza de todo uma verdade de que Deus de fato exista, apenas alerta-nos para a simplificação teológica de um Deus que pune por meio da natureza, que usa métodos climáticos como chicote para castigar sua criação.

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No entanto, isso existe para além da teologia popular, e quando aplicado à política, tudo soa ainda mais bizarro. Na última quinta-feira, Míriam Leitão, no programa da Central da GloboNews, fez sua leitura sobre o descrédito do Supremo Tribunal Federal (STF) perante a população brasileira; segundo a comentarista isso se dá, pois, “desde o início do governo Bolsonaro o ex-presidente dedicou-se a atacar a instituição do STF” que, na ocasião, entregou-se impolutamente contra o “golpe” de 8 de janeiro. Não obstante a isso, assume a comentarista, AGORA o STF errou de fato — mais especificamente Toffoli e Moraes —, sendo o descrédito observado nada mais que a soma das investidas de Bolsonaro com os erros atuais da Suprema Corte.

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Veja aí o mesmo mecanismo que apontei acima: para Leitão, o STF é aquele sol que ora é bênção, ora é desgraça; seu comentário aqui encerra a mentalidade adaptativa e simplificadora da análise dos fatos ao pontuar que o objeto celeste AGORA se torna vil devido aos desígnios dos acontecimentos, das forças que estão quase que além da compreensão, e, antes até, por culpa de um Hades conservador que levou a Corte a tal tropeço. Obviamente, tal como outrora os antigos buscavam culpados ancestrais para justificar a pífia colheita, a deficiência de um filho ou a morte de um ente, Míriam encontra em Bolsonaro a marca da besta, o início da maldição.

“Ter que olhar a história toda”

Ela dizia no comentário “ter que olhar a história toda”, como argumento para encontrar em Bolsonaro a origem do mal que vemos à luz do dia no STF. Mas, se olharmos realmente a “história toda” desta recente composição do STF, ficaríamos assustados ao percebermos que há longo tempo a Corte conduz julgamentos à revelia do bom senso jurídico e das normas constitucionais; que foram os membros do STF, em posse do Tribunal Superior Eleitoral, que reinauguraram a seção de censura prévia a jornalistas e documentaristas que ousavam contestar Lula, e, mais recentemente, outro par da casa: Flávio Dino; que há alguns anos inaugurou-se lá um sistema de judicialização de processos que ignora a hierarquia das instâncias, que centraliza em um juiz o poder absoluto de investigação, acusação e condenação, nos velhos moldes dos tribunais revolucionários do século 20.

E, para coroar essa fossa jurídica, hoje é notícia nacional o envolvimento claro de pelo menos dois ministros com um banqueiro que golpeou o sistema financeiro do país e comprava influência política e jurídica. Um homem que, julgando-se acima do bem e do mal, parecia nutrir a certeza de uma proteção direta de ministros da Suprema Corte; coisas que, se confirmadas, inaugurariam um novo patamar de corrupção sistêmica no país.

A história inteira dessa descredibilidade, parece-me então, sequer coça as ancas de Bolsonaro. A Suprema Corte brasileira perde confiança — assim como qualquer pessoa perde ante a terceiros — quando age na esteira da incoerência e das motivações escusas; quando a permissividade jurídica com criminosos se torna tão óbvia que dispensa qualquer explicação; quando tal Corte claramente restabelece, ao sabor das paixões políticas e ideológicas, regras para condenar inimigos ou absolver parceiros.

Míriam Leitão versus Bolsonaro

No fundo, Leitão me parece mais uma típica propagandista da velha intelligentsia ou uma espécie de pajé-sacerdote de sua tribo ideológica, aquela encarregada de restaurar a credibilidade condenada de um governo ante a população, e interpretar os sinais dos tempos e ajustar os maus agouros. E, para tal, a comentarista global goza da inteligência popular, acreditando piamente que sua peça de propaganda vai convencer por meio de meia eloquência, da contorção retórica e de pitadas de uma má-ajustada postura de isenção, outra meia metade de telespectadores desatentos.

Leitão e a sua turma têm que superar esse fetichismo retórico e masoquista com o ex-presidente, pois simplesmente não cola mais acreditar que um governo conservador de quatro anos seja o culpado de um Brasil moribundo que há mais de 16 anos é governado pelo petismo. Seus comentários, cara Míriam, tornaram-se óbvios demais; sabe-se já, antes mesmo de ouvi-la, que em algum instante Bolsonaro surgirá de algum de seus bolsos como o culpado das desgraças brasileiras atuais, e que, por meio de discursos assoprados através de seus cachimbos sacerdotais, novamente sua análise será a mesma: que o fracasso do governo Lula — há quase duas décadas no poder — e os envolvimentos vergonhosos de ministros com banqueiros assentam-se, segundo essa lógica, em quatro anos de Bolsonaro. É realmente pedir muito, até mesmo aos mais tolinhos, que se leve Míriam Leitão a sério.

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4 comentários
  1. Maisner Almeida Faria de Paula
    Maisner Almeida Faria de Paula

    Externou o que muitos gostariam. Excelente texto, concordo em número, gênero e grau.

  2. florisvaldo moura de araujo
    florisvaldo moura de araujo

    essa perdeu a credibilidade faz tempo.

  3. Edson Carlos de Almeida
    Edson Carlos de Almeida

    Essa é a Miriam Anta , com todo respeito ao quadrúpede.

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