publicidade
Imprensa

Repressão do CFP à expressão religiosa de psicólogos repercute nos EUA

Resolução do conselho é alvo de ação no STF; grupo de parlamentares conservadores alega inconstitucionalidade

Repressão do CFP à expressão religiosa de psicólogos repercute nos EUA
Formação do plenário 2.0 do Conselho Federal de Psicologia, em janeiro de 2026 | Foto: Reprodução/Instagram

A repercussão do debate sobre liberdade religiosa e exercício profissional na psicologia do Brasil chegou ao exterior. Psicólogos cristãos contestam uma resolução do Conselho Federal de Psicologia (CFP) que proíbe a associação do título profissional a identidades religiosas em espaços de divulgação pública.

Críticos da medida afirmam que a norma restringe a expressão da fé; o CFP sustenta que a regra protege pacientes e preserva o caráter laico da profissão. Reportagem da revista norte-americana Christianity Today publicada nesta segunda-feira, 1º, ouviu denúncias de repressão seletiva a psicólogos por parte do CFP.

Receba nossas atualizações

+ Leia mais notícias da Imprensa em Oeste

No Brasil, a discussão ganhou visibilidade nacional depois que a psicóloga Larissa Lima publicou, em abril, uma mensagem no X. “No Brasil, um psicólogo pode se dizer de esquerda, feminista, decolonial, qualquer coisa, menos cristão”, escreveu. A postagem alcançou cerca de 2 milhões de visualizações e desencadeou intenso debate.

Segundo Larissa, a controvérsia se agravou quando usuários recuperaram uma mensagem publicada por ela no Instagram em defesa do direito de cristãos que sentem atração pelo mesmo sexo e optam pelo celibato por convicção religiosa terem essa decisão respeitada por terapeutas. Parte dos críticos acusou a psicóloga de promover a chamada “terapia de conversão”, interpretação que ela rejeita.

“Não acredito que exista perseguição religiosa no Brasil”, afirmou. “Mas vejo uma intolerância clara ao cristianismo dentro da psicologia.”

A base do embate é a Resolução nº 7, editada pelo CFP em 2023. A norma impede que psicólogos utilizem o título profissional associado a identidades religiosas em divulgações públicas, além de vedar práticas como o proselitismo durante atendimentos e a promoção de serviços vinculados a crenças específicas.

Em nota enviada à revista Christianity Today, o CFP declarou que a resolução não limita a liberdade de crença dos profissionais. “Todo psicólogo, como cidadão, tem plena liberdade para expressar sua fé, religiosidade ou espiritualidade na vida privada e em redes sociais estritamente pessoais, desde que essas manifestações não estejam associadas à promoção de serviços profissionais sob o título de psicólogo”, informou.

Para o conselho, a restrição não recai sobre a crença individual, mas sobre a publicidade profissional vinculada a uma religião.

Larissa concorda com parte das diretrizes, especialmente aquelas voltadas à proteção dos pacientes. Ainda assim, considera que a norma extrapola sua finalidade ao reduzir a visibilidade de profissionais cristãos.

“Se não podemos nos chamar cristãos, nos tornamos menos visíveis. Isso dificulta até que pacientes que desejam consultar um psicólogo cristão consigam encontrá-lo”, disse à revista Christianity Today. “Alguns cristãos só se sentem confortáveis com profissionais que respeitam sua fé, e eles têm o direito de buscar isso.”

A psicóloga relata ter sido alvo de denúncias éticas desde 2023 por manifestações religiosas em suas redes sociais. Em um primeiro momento, o Conselho Regional de Psicologia (CRP) pediu a remoção de conteúdos religiosos de seu perfil pessoal. Ela recusou e negociou a criação de uma conta exclusivamente profissional.

Com a entrada em vigor da Resolução nº 7, novas reclamações foram registradas. Desta vez, o CRP exigiu a retirada de uma publicação em que orientava pacientes cristãos sobre critérios para escolher abordagens psicológicas compatíveis com suas convicções.

“Se eu apagar aquela postagem, estarei dizendo ao CRP que ele tem poder para regular minha vida pessoal e minhas redes sociais pessoais. O que vem depois?”, questionou.

Ela afirma ter se recusado a assinar um documento comprometendo-se a excluir o conteúdo e teme que o caso evolua para um processo ético formal, situação que poderia resultar até mesmo na perda do registro profissional.

A controvérsia chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF). Em 2023, o partido Novo e o Instituto Brasileiro de Direito e Religião ingressaram com ação que questiona a constitucionalidade da resolução. O julgamento começou, em sessão virtual, em março.

Até o momento, apenas o relator do caso, ministro Alexandre de Moraes, apresentou voto. Para ele, a norma busca proteger os pacientes e não restringe a liberdade religiosa dos psicólogos. A análise foi transferida para julgamento presencial, ainda sem data definida.

O ministro do STF Alexandre de Moraes | Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil

No Congresso Nacional, o senador Magno Malta (PL-ES), pastor evangélico, apresentou proposta para criar uma iniciativa suprapartidária destinada a acompanhar e contestar regulamentações de conselhos profissionais consideradas excessivas em relação a manifestação religiosa.

“Embora o Brasil seja um Estado laico, isso não significa que seja antirreligioso”, argumentou Malta. Na avaliação do senador, exigir a completa separação entre fé e identidade profissional compromete a dignidade individual.

Entre os críticos da resolução está o psicólogo clínico, teólogo e pesquisador Aender Borba. Em vídeo publicado nas redes sociais, ele acusou o sistema de conselhos de ultrapassar suas atribuições.

“O que o conselho está fazendo não se baseia apenas em critérios científicos. Trata-se de abuso de poder e da construção de uma narrativa de ódio, especialmente contra os cristãos”, afirmou.

Borba sustenta que a Constituição protege a liberdade de crença e de expressão dos profissionais fora do ambiente de trabalho. Segundo ele, a resolução também contribui para criar uma imagem negativa dos cristãos e utiliza a ciência como justificativa para controlar convicções pessoais.

CFP nega perseguição ideológica a psicólogos cristãos

O CFP rejeita as acusações. “O sistema de conselhos de psicologia não realiza monitoramento, perseguição ideológica ou vigilância seletiva de crenças”, declarou à revista Christianity Today. O órgão acrescentou que denúncias somente avançam quando existem indícios consistentes de violações éticas, como o uso de técnicas sem respaldo científico, proselitismo ou publicidade associada a preceitos religiosos.

O debate também envolve pacientes. A cineasta Laís Cristina, de 33 anos, relata que encontrou em uma psicóloga cristã um ambiente seguro para enfrentar crises de ansiedade. Criada em um lar evangélico, ela demorou a procurar ajuda profissional por acreditar que a fé deveria ser suficiente para lidar com o sofrimento emocional.

“Até eu entender que estava enfrentando problemas emocionais, foi um desafio. Como minha fé poderia não ser suficiente?”, recorda. Segundo Laís, a terapia não substituiu sua espiritualidade, mas atuou em conjunto com ela. “Eu não teria superado a ansiedade sem a fé. Sem ela, a terapia sozinha não bastava.”

A psicóloga que a acompanhou também era cristã. “Ela não chegava com as respostas prontas, mas me ajudava a trazer à tona aquilo em que eu acreditava. Dizia: ‘Vamos relacionar suas decisões com sua fé’.”

Embora reconheça críticas frequentes à psicologia em segmentos evangélicos, Larissa Lima defende a integração entre conhecimento científico e valores religiosos. Para ela, ferramentas psicológicas podem auxiliar pessoas a lidarem com sofrimento emocional sem que isso implique abandono de convicções espirituais.

Mesmo diante da possibilidade de sanções disciplinares, a psicóloga afirma que pretende continuar manifestando publicamente sua fé. Segundo ela, a discussão transcende sua situação pessoal.

“Se a preocupação no Brasil é a saúde mental, eu deveria ser apoiada, não perseguida”, declarou à revista Christianity Today. “Nosso país tem índices elevados de depressão e ansiedade. E também tem um número muito grande de cristãos. Algo me diz que essa população não está sendo alcançada.”

Leia mais sobre:

0 comentários
Nenhum comentário para este artigo, seja o primeiro.
Canal Oeste
Nossos colunistas
J. R. Guzzo (diretor perpétuo)
Augusto Nunes
Ana Paula Henkel
Guilherme Fiuza
Rodrigo Constantino
Alexandre Garcia
Antonio Cabrera
Eugênio Esber
Eugênio Esber
Evaristo de Miranda
Flávio Gordon
Roberto Motta
Miriam Sanger
Adalberto Piotto
Frank Furedi, da Spiked
Jeffrey A. Tucker.
Theodore Dalrymple
Flavio Morgenstern
Ubiratan Jorge Iorio
publicidade
Background
NEWSLETTER
Cadastre-se e receba nossas newsletter com matérias exclusivas toda semana
Background
TELEGRAM
Cadastre-se e receba nossas newsletter com matérias exclusivas toda semana
publicidade
Background
Assine a Revista Oeste
Seja um dos brasileiros que acreditam que o bom jornalismo transforma um país.